As últimas cidades da Terra
da redação: Fonte: O Globo
7 de março de 2012 - 11:52
 
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PASO DE LOS DENTES - Puerto Williams / Chile - Foto: Kato Outdoor
 
Puerto Williams / Chile Ushuaia / Argentina Punta Arenas / Chile
 

Ter sua cidade chamada de fim de mundo pode ofender a maior parte dos cidadãos do planeta. A não ser que eles tenham domicílio em um par de municípios na Terra do Fogo, no extremo sul do continente. Para moradores de Puerto Williams, no Chile, e Ushuaia, na Argentina, o que poderia parecer pejorativo se torna um importante instrumento de marketing. A briga pelo título de “cidade mais austral do mundo” pode ser comparada a discussões insolúveis, como “Pelé ou Maradona” ou “pisco chileno ou peruano”. Geograficamente falando, a pitoresca Puerto Williams está de fato mais ao sul. Do lado oposto do Canal Beagle, os defensores de Ushuaia, com seu charme alpino e ótima estrutura turística, consideram a concorrente apenas um povoado. O que não se discute é que Punta Arenas, a principal cidade da Patagônia chilena, é o ponto de partida mais interessante para esses dois destinos. Só que lá eles não aceitam ser chamados de fim do mundo.

Fim do mundo sim, com muito orgulho

Da varanda de sua casa, Alejandro Nielsen, de 77 anos, comenta sobre Puerto Williams, 24 anos mais jovem que ele e a cidade mais austral do mundo, segundo os chilenos:
— A cidade está crescendo. Recebemos gente de todo o mundo, há bastante movimento. Quando eu era jovem, via só pescadores e índios passando de um lado para o outro em suas canoas — conta, acompanhado por sua ovelha de estimação, Suazo, batizada em homenagem ao goleador chileno.

À primeira vista, é um tanto difícil notar nas poucas e quase sempre vazias ruas da cidade o tal movimento ao qual señor Nielsen se refere. Mas Puerto Williams está sim se desenvolvendo graças à abundância de opções de atividades ao ar livre na Ilha Navarino, ao sul do Canal Beagle. Cavalgadas, caminhadas e escaladas são algumas das opções.
A grande atração natural da ilha é a cadeia de montanhas batizada de Dientes de Navarino. Os circuitos de trekking, de até sete dias, são bastante populares, mas há quem vá até lá pescar ou praticar mountain bike, por exemplo. Hotéis, como o Lakutaia, costumam oferecer pacotes incluindo essas atividades.

Já o charme do núcleo urbano é sua cara de “fim de mundo”, com um punhado de ruas e casas padronizadas, onde vivem pouco mais de dois mil habitantes — a maioria militares e funcionários públicos. O tamanho de Puerto Williams é o motivo de sua condição de cidade ser tão discutida. Nem mesmo ser a capital da província da Antártica Chilena dá o lugar alguma pompa.
Um passeio pelo centro pode começar pelo interessantíssimo Museu Antropológico Martin Gusinde. Os costumes indígenas de yamanas e onas, as principais etnias da Terra do Fogo, são o tema central do museu, que é gratuito. Espaços interativos ensinam também a história dos europeus ali, desde as navegações de Fernão de Magalhães, no século XVI, e sobre fauna e flora fueguina. Logo na entrada, o visitante se depara com uma ossada de baleia.

A partir dali, o passeio pode prosseguir pelo calçadão da Avenida Costanera. É nessa via que fica o píer turístico da cidade, de ondem partem excursões pelo Beagle, para o Cabo de Hornos e até a Antártica. De lá saem barcos também para a margem argentina do canal. A caminhada termina na Villa Ukika, onde vivem famílias descendentes de yamanas. O artesanato feito ali mesmo e a possibilidade de conhecer mais sobre a vida indígena fazem do local um dos mais visitados de Puerto Williams.

À noite, o pouco movimento das ruas cai drasticamente. Mas encarar o frio tem suas recompensas, como o recém-aberto bar e restaurante Árbol. Quem passa pela rua vê apenas um bistrô, com poucas mesas e cozinha aparente. Mas nos fundos funciona um misto de bar e centro cultural, com paredes cobertas de pinturas e grafites. Os frequentadores se acomodam em mesas e bancos feitos de troncos de árvores, pufes e até redes. Num clima de jam session de músicos locais e visitantes, há apresentações ao vivo, com repertório que vai do cancioneiro tradicional chileno à versão mais austral do mundo de “Ai se te pego”. Prova de que nem o fim do mundo é tão longe quanto se imagina.
Apesar de estar de frente para Ushuaia, a maneira mais fácil e regular de chegar a Puerto Williams é partindo de Punta Arenas, capital regional de Magallanes e Antártica Chilena e cidade de passagem para quem vai explorar o extremo sul chileno ou, um pouco mais ao norte, o Parque Torres del Paine. Sua localização estratégica permitiu que fosse usada como base para as operações de resgate dos integrantes da missão científica do Brasil na Antártica. E de seu aeroporto partem voos de segunda-feira a sábado para Puerto Williams.

Ao contrário do povoado da ilha Navarino, Punta Arenas é uma cidade robusta, com história. Fundada em 1848, foi o principal porto da rota Atlântico-Pacífico pelo Estreito de Magalhães, antes da criação do Canal do Panamá. Os sinais da riqueza daquela época ainda são visíveis, como os palacetes ao longo da Avenida Colón ou ao redor da Plaza Muñoz Gamero.
Nesta praça, onde acontece nos finais de semana uma simpática feira de artesanato, está o monumento mais popular da cidade, inaugurado em 1920 em homenagem aos 400 anos da travessia de Magalhães pelo estreito que leva seu nome. O navegador português é o personagem central do monumento, mas todos que vão até lá fazem questão de tocar no pé de uma figura indígena. Os navegantes antigos acreditavam que quem tocasse na estátua retornaria em segurança ao porto. O hábito foi passado aos turistas.

Para conhecer um pouco mais da história local, um dos melhores lugares é a construção mais emblemática da cidade, o Palácio Braun-Menéndez, oficialmente batizado de Museu Regional de Magallanes. O casarão construído pela família mais influente da região hoje é aberto à visitação e expõe, além de móveis e decoração da pomposa virada dos séculos XIX para XX, peças de embarcações e fortes antigos, que marcaram a história de Punta Arenas.
Mas se perguntar a qualquer morador da cidade onde se deve ir, a resposta será quase sempre a mesma e um tanto inusitada: o cemitério municipal. Mas os motivos são fáceis de entender. Para começar, as centenas de ciprestes podados em formato cônico, de mais de três metros de altura, dão ares de labirinto ao lugar e, ao mesmo tempo, certa vida ao local. A beleza de memoriais, como os destinados aos policiais, e das famílias ricas, como os Braun-Menéndez, justifica parte dessa fascinação.

Uma visita ao cemitério ajuda a entender também a complexa malha cultural de Punta Arenas. Há setores inteiros destacados às famílias de imigrantes europeus, principalmente croatas, o que explica porque neste ponto do Chile há quase tantos sobrenomes terminados em “ic” quanto nos Balcãs.

Entre o mar e as montanhas, a baía profunda dos yamanas
Por todos os lados se leem saudações de welcome e bienvenidos ao fim do mundo. Em muros, placas, chaveiros e camisetas, Ushuaia celebra com orgulho o título que disputa com a chilena Puerto Williams. Não precisaria. Independentemente do apelido, a (longa) viagem até lá vale a pena. Ushuaia mistura charme urbano e exuberância natural.
Em seus bons restaurantes, come-se bem frutos do mar, entre eles a centolla (o crustáceo gigante típico desta parte do mundo), e os tradicionais cordeiros patagônicos. Há farta opções de hospedagem também, para todos os níveis de exigência. Sem falar no visual que mistura a bela Cordilheira Martial e seus picos nevados com prédios e casarões de influência europeia.

O nome significa algo como “baía profunda” na língua dos yamanas, os habitantes originais desta parte da Terra do Fogo. Os primeiros europeus que tentaram se estabelecer na terra desses indígenas — que viviam praticamente sem roupas num lugar onde temperaturas quase negativas são comuns em boa parte do ano — foram missionários cristãos, no século XIX. Mas a cidade só começou a se desenvolver a partir de 1902, quando foi inaugurada a colônia penal para reincidentes, endereço de alguns dos mais famosos criminosos e presos políticos argentinos até 1947, quando fechou as portas.
O enorme complexo penitenciário foi transformado no Museu Marítimo e do Presídio, a melhor atração urbana de Ushuaia. Cinco dos quatro pavilhões foram transformados em galerias com exposições variadas. Há alas dedicadas a história naval, geologia, fauna e flora da Antártica e uma galeria de arte, com exposições temporárias de artistas argentinos.

Mas o setor mais interessante é mesmo o dedicado ao presídio. Nesta ala, cada cela conta um pouco sobre a história. Em algumas delas há até bonecos representando os detentos mais famosos, quase sempre no nada discreto uniforme com listras amarelas e azuis. O mais notório deles, lembrado até em pinturas murais em ruas próximas, foi Cayetano Santos Godino, também conhecido como o Petiso Orejudo, o primeiro serial killer argentino, preso em 1912. Presos políticos também estiveram ali e são lembrados.
Outra herança do presídio transformada em atração turística é o Trem do Fim do Mundo, que levava os detentos dos arredores da cidade até uma das entradas do hoje Parque Nacional Tierra del Fuego, na época usado como área de trabalhos de campo dos presos. Atualmente, a maria-fumaça carrega turistas que querem conhecer uma das mais belas atrações naturais da Argentina.

Há cinco trilhas na área costeira do parque, ideais para quem quer um programa de apenas um dia, sem grandes dificuldades ou necessidade de acampar ou dormir em abrigos. No final de cada trecho há um posto com café e lojinha de onde partem vans até a entrada do parque ou para o centro de Ushuaia.

Muito perto da cidade também está o Glaciar Martial, onde é possível chegar em caminhadas de algumas horas e com o auxílio de um teleférico. Nos meses de inverno também é possível esquiar em Cerro Castor. Aí, sim, sem dúvida nem briga, pode-se dizer que Ushuaia tem a estação de esqui mais austral do mundo.