Do Atlântico ao Pacífico de bicicleta
Texto: Ernesto Stock - Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
11 de fevereiro de 2014 - 8:50
 
 
 
  • Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
    Salar Aguas Calientes, Chile. Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
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    Travessia estado do Paraná." Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
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    Subida da Serra da Graciosa, Douglas e Ernesto, Paraná, Brasil. " Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
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    Colonia Iguazú, Douglas, Ernesto e Guilherme, Paraguai." Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
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    Fronteira Chile." Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
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    Siesta quebrada de las conchas, Guilherme Kamika e Ernesto, Argentina." Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
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    Quebrada de las Conchas, Cafayate, Argentina." Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
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    Paso de Sico, fronteira entre Argentina e Chile." Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
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    Acampamento los Castillos, Ernesto, Argentina." Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
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    Chegando em San Pedro do Atacama, Douglas e Ernesto, Chile." Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
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    Bombeiros em Coronel Oviedo, Douglas, Ernesto e Guilherme, Paraguai." Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
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    Alto Chorillo, Cordilheira dos Andes, 4560 acima do nível do mar." Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
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    Dia de los Muertos." Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
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    Salar Aguas Calientes, Chile." Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
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    Do Atlântico ao Pacífico de bicicleta." Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino
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Salar Aguas Calientes, Chile. Fotos: Ernesto Stock e Guilherme Hoshino

 

Projeto Felicidade

Muitos são os motivos que levam alguém a realizar uma grande viagem de bicicleta, uma travessia, uma expedição. E quase tudo já foi dito nesse sentido. Da insatisfação com os padrões de vida contemporâneos à superação pessoal. Nada disso e tudo isso. No meu caso a viagem era inevitável e sempre fora. Só esperava a hora. Uma inquietação enorme sempre me acompanhara. O centro da cidade era pequeno demais.

A hora chegou quando conheci Douglas Eduardo e Guilherme Hoshino em um ginásio de escalada em Mogi das Cruzes. Em dez minutos conversa, com uma urgência deliberada, marcamos a data da partida antes mesmo de definirmos o roteiro.

Inquietações reunidas, resolvemos realizar uma travessia entre o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico. Não satisfeitos com o tamanho do problema e talvez um pouco empolgados, resolvemos pesquisar como as mais variadas comunidades que encontraríamos pelo caminho elaboravam o conceito de felicidade.

Como todo militante de uma vida mais sustentável, pretendíamos, pretensiosamente (!), provar que a felicidade nada tem a ver com este consumismo desenfreado e esse progresso desenvolvimentista de mau gosto. Tem a ver com a simplicidade, com o contato com a natureza , com compartilhar. Caiçaras, menonitas, ciganos, artistas de rua, povos do deserto e do altiplano e índios eram nosso objetivo.

Foram seis meses de preparação. Roteiros, planilhas, livros e muita expectativa, que precisaram somente de alguns dias de prática para serem superados em todos os sentidos e possibilidades.
Ilha do Cardoso, Parque Nacional do Superagui.

Começamos nossa viagem na Ilha do Cardoso, localizada no extremo sul do estado de São Paulo. Para chegar até lá é preciso pegar um barco em Cananéia e encarar cerca de três horas de travessia pelo canal de Ararapira e pela Baia Trapandé. A paisagem e os botos fazem valer cada minuto.

Chegando a ilha, montamos nossas barracas no camping do Seu Celestino, bem em frente ao píer do Núcleo de Marujá, principal ponto para se conhecer as atrações da ilha. O Parque Estadual da Ilha do Cardoso foi fundado em decreto de 1962 tem 15100 hectares e conta hoje com cerca de 460 moradores espalhados por sete núcleos populacionais: Marujá, Enseada da Baleia, Pontal de Leste, Foles, Cambriú, Itacuruçá, Pereirinha.

Quando o parque foi criado, muitas famílias já viviam por lá e, desde então, estabelecer um equilíbrio entre o uso que os moradores fazem por direito e políticas de preservação ambiental vem sendo um desafio constante.

Entre as inúmeras medidas neste sentido, uma das que mais nos chama a atenção é a desapropriação e demolição de todas as casas que não pertencem a pessoas que, comprovadamente, não sejam nativas da ilha. Embora ainda gere polêmica por lá, fica claro que muito do que nos encanta na ilha, o ambiente acolhedor e a paisagem preservada, deve sua sobrevivência, em grande parte, a este fato.

Partimos de Marujá e depois de 17 km pela areia deserta, chegamos ao pequeno povoado do Pontal, onde tomaríamos um barco que nos atravessaria até o Paraná. Importante ressaltar que quem vai realizar esta pedalada deve ficar atento à vazante da maré, para aproveitar melhor a areia compacta que se forma quando o mar recua. No Pontal, fomos muito bem recebidos pelo seu Aires, um pescador que vive no povoado desde que nascera e divide a casa com suas oito irmãs e um sobrinho. Bolinho de chuva com café e um carinho que, sem dúvida, era um bom presságio. Desde o começo, ficou claro que por mais que as paisagens nos encantassem e surpreendessem, eram as pessoas que seriam as grandes protagonistas da viagem e nelas que encontraríamos o sentido.

Atravessamos para o Parque Nacional do Superagui, do outro lado do canal, em uma pequena embarcação do sobrinho do seu Aires. A travessia é bem curta e nos custou cerca de 10 reais por pessoa. Desembarcando, percorremos cerca de 40 km de areia dura e praias desertas, em uma paisagem realmente espetacular. Chamava bastante atenção a quantidade de golfinhos, focas e pingüins que encontrávamos encalhados na areia.

O Parque Nacional do Superagui foi criado em 1989 e ampliado em 1997, chegando a quase 40.000 hectares de matas, restingas e manguezais preservados. Atualmente cerca de 1000 pessoas vivem espalhadas em sete comunidades dentro dos limites do parque, que hoje inclui a Ilha das Peças, Ilha do Pinheiro, Pinheiro e áreas continentais como o Vale do Rio dos Patos.

Passamos a noite na Barra do Superagui, maior núcleo populacional do parque e de onde saem barcos regulares para as localidades próximas. Durante a noite, imperdível uma visita ao bar Akdov, onde se apresentam músicos de Fandango, tradicional manifestação popular da região.

Na manhã seguinte outro barco nos levaria até Paranaguá. Colocamos as bicicletas sobre o teto do barco e amarramos com cuidado. Chovia muito e o percurso prometia. O mar estava bastante agitado, mas mesmo assim, o comandante resolveu seguir pelo mar aberto no intuito de economizar 2 horas. Péssima escolha. No meio do caminho, ondas enormes começaram a chacoalhar o barco e algumas bagagens que estavam presas em cima foram atiradas ao mar. O Guilherme, desesperado para salvar as bicicletas, queria a todo custo escalar o barco para salvar nosso meio de transporte. Enquanto tentávamos impedi-lo, uma onde enorme levantou o barco alguns metros e o atirou novamente ao mar. Um estrondo enorme e muita fumaça no motor. Os bancos, que não estavam presos no piso, rolaram para a lateral da embarcação, arrastando o que tivesse pelo caminho, inclusive este intrépido cinegrafista. Caos. Situação controlada, um motor danificado e algumas horas de conserto. Talvez um pouco tarde demais, o comandante optou voltar e seguir pelo outro caminho. Perdemos 6 horas, mas as bicicletas estavam bem. No mais, um aprendizado que ficaria para o resto da viagem: nem sempre o caminho mais rápido é o mais conveniente...

Desembarcamos vivos em Paranaguá e de lá tocamos direto para Morretes, não sem antes assistir a uma reportagem onde a marinha local desaconselhava navegações aquela manhã...

Alcançamos nosso objetivo debaixo de muita chuva. Logo conseguimos hospedagem na Pousada Vovó Idalina, onde fomos muito bem recebidos pelo casal Priscila e Wagner. Apesar das inúmeras atrações da cidade, que vão do rafting à gastronomia, resolvemos partir na manhã seguinte. Estávamos ansiosos por enfrentar nosso primeiro grande desafio: a subida da Serra da Graciosa.

O dia amanheceu com sol forte. Aproveitamos para secar algumas coisas enquanto nos preparávamos para subir. Café da manhã reforçado, ajustes nas bicicletas e, depois de recolher as roupas do varal, partimos por volta das 11:00 horas com destino a Araucária. Em pouco tempo estávamos no pé da serra, majestosa, cercada pelos grandes maciços do Marumbi.

Pedalamos cerca de 120 km e, logo nos primeiro 50, subimos quase 1000 metros! O esforço da subida constante até o cruzamento com a rodovia Régis Bittencourt é recompensado por um visual de tirar o fôlego, repleto de montanhas, flora e fauna exuberantes e um bocado de história. Entre tanta beleza, não se iluda. A subida da Graciosa é cansativa e exigente.

De Araucária, seguimos por 650 km e sete dias até a cidade de Foz do Iguaçu, através da BR 277, alternando retas e algumas serras, como a Serra da Esperança em Guarapuava. Nada que se compare a “pirambeira” anterior.

No primeiro trecho, até as proximidades de Laranjeiras do Sul, fomos surpreendidos por um Paraná colonial, repleto de pequenas propriedades agro-pecuárias e com uma forte influência da cultura do leste europeu, com muitos imigrantes poloneses e ucranianos. As casas de madeira, a vegetação e a culinária recheada de laticínios e embutidos, como a tradicional "Cracóvia", são característicos desta região.

Em Laranjeiras do Sul, fomos presenteados com uma bela hospedagem no estúdio da Rádio Educadora, com direito a café da manhã tropeiro: feijão preto, farinha, lingüiça, bacon e ovos fritos às 6 da manhã! Assim como os tropeiros que transitavam por aqui em outros tempos, partimos preparados para enfrentar o que viesse pela frente.

Para certificar que sorte não era um requisito, chegamos à cidade de Guaraniaçu e conseguimos outro apoio com o pessoal da Secretaria de Esportes da cidade, que além de alojamento no Ginásio Municipal da Cidade, também nos brindou com um café digno dos antigos viajantes.

O caminho que se estende até Foz do Iguaçu vê as pequenas propriedades se diluírem entre gigantes do agronegócio/ transgênicos, o que é uma pena. Mesmo assim, a generosidade ainda era uma marca das povo paranaense.

Na cidade de Matelândia, além do apoio da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Turismo com hospedagem, foram fundamentais as ajudas do pessoal da Cicles Matelândia e da bicicletaria Motolândia, que além de facilitar nosso contato com a secretaria, nos convidaram para participar de um delicioso jantar organizado pela comunidade italiana residente na região. Muito carboidrato, vinho e tarantela.

Chegamos à cidade de Foz do Iguaçu e passamos três dias na cidade dormindo em um trailer de sanduíches emprestado.

Paraguai
Depois de passar alguns dias em Foz do Iguaçu (acampados em um trailer de sanduíches) visitando as Cataratas, revisando as bicicletas e descansando um pouco, atravessamos a fronteira com o Paraguai em Ciudad del Este com destino a Asunción. Atravessar uma fronteira de bicicleta é uma sensação única, onde os limites perdem ainda mais o sentido.

Ciudad del Este é um verdadeiro caos e se você é do tipo que não se seduz facilmente com aquela maluquice consumista, fuja o mais rápido que puder. Cruzar a cidade pedalando é, por si só, uma aventura. Trânsito confuso, muita gente e sinalização inexistente. Trocamos um pouco de dinheiro, comemos e sumimos.

A primeira parada foi na cidade de Mingá-Guazú, bem próximo da fronteira, onde passamos dois dias acampados em um incrível festival de artes de rua, que reunia artistas do mundo inteiro em uma profusão de cores e habilidades de encher os olhos. Foi uma experiência bem interessante. A grande maioria das pessoas que estava por lá levava uma vida totalmente diferente do modelo convencional. Mesmo com família e filhos, passavam o tempo viajando de cidade em cidade, país em país, carregando tudo o que tinham nas costas e na memória, oferecendo uma alternativa palpável ao modelo tradicional familiar contemporâneo.

Como tínhamos que seguir, partimos na segunda feira debaixo de muita chuva e barro. O tempo ruim nos obrigou a parar na cidade de Iguazú, uma surreal colônia japonesa cravada no chaco paraguaio. Hospedamos-nos em um pequeno hotel indicado pelo gerente de um mercado local onde, segundo informações, só recebiam japoneses. Como nossa expedição contava com um legítimo Hoshino, arriscamos. Depois do Guilherme queimar a língua do país do sol nascente, conseguimos um quarto todo decorado ao estilo característico. Cozinhamos um macarrão e dormimos. O único inconveniente, fora uma provocadora sensação de discriminação, eram os ratos.

Seguimos pela Ruta 7 até a cidade de Dr Juan Elogio Estigarribia, conhecida por lá como Campo 9, tradicional colônia alemã produtora de frios e laticínios. A região é bastante cara se comparada ao restante do Paraguai e acabamos dormindo no hotel de um brasileiro que não se importou muito em nos ajudar e acabou cobrando um preço bastante salgado.

Nossa próxima parada compensou os gastos e a antipatia do dia anterior. Pedalamos cerca de 100 km até a cidade de Coronel Oviedo, onde conseguimos abrigo em um quartel do corpo de bombeiros voluntários. Fomos recepcionados com bastante simpatia e atenção. Cama, banho quente e uma pequena introdução ao guarani.

Uma dica bastante importante é que toda cidade do Paraguai conta com um corpo de bombeiros, na maioria voluntário, e eles estão sempre dispostos a ajudar quem esta viajando de bicicleta.

Partindo de Coronel Oviedo, tomamos a Ruta 2 com destino a Asunción. Percorremos cerca de 110 km até chegar à cidade de Itauguá, onde novamente contamos com a ajuda do corpo de bombeiros. Parada estratégica para que conseguíssemos chegar cedo à capital.
Mais 40 km pela manhã e conseguimos chegar a Asunción na hora do almoço.

Asunción
Asunción, assim como todo Paraguai, surpreendia e revisitava alguns pré-conceitos. Era tudo o que precisávamos. Bicicletarias, telefones, internet, lavanderias e um pouco de conforto.

Como iríamos passar o fim de semana por lá, decidimos que ficaríamos em um albergue central para explorar a cidade com mais liberdade. Acabamos ficando no Hostel El Jardin, do sueco Thomaz, que nos deu os cafés da manhã de graça. Pagamos 25 reais a diária em quarto com 8 camas e banheiro compartilhado.

A cidade é linda e, ao mesmo tempo em que carrega todos os encantos e contradições de uma metrópole, nos remete constantemente ás tradições e ao modo de vida paraguaio. Durante o final de semana, assistimos ao sensacional por do sol na Avenida Costaneira e tomamos vinho no interessante bar El Poniente, localizado em um casarão de esquina abandonado que fora reaproveitado com muita criatividade e bom gosto. Climas imperdíveis, assim como a comida do restaurante LIDO.   

Paraguai - Considerações Finais
Esqueça tudo o que você já ouviu ou pensou sobre o Paraguai. Tirando a confusão de Ciudad del Este, o resto do país é bastante seguro e organizado. Apesar de ter sofrido com uma série de guerras que começaram com sua independência em 1811 e tiveram seu ápice na Guerra da Tríplice Aliança, conhecida no Brasil como a Guerra do Paraguai, que, literalmente, destruiu o país (que perdeu cerca de 30% do território e 60 % da população economicamente ativa!), o país luta de forma bastante digna pra preservar sua cultura e manter suas tradições e seu desenvolvimento. Orgulhoso de sua suas raízes guaranis (o guarani é hoje encarado como língua oficial junto com o espanhol e voltou a ser ensinado nas escolas, bem diferente do tupi no Brasil...), oferece aos poucos visitantes uma experiência única de contato com uma cultura riquíssima é que muito tem de parecido com a Tupi, que estamos ignoramos em nosso país.

Pedalar por aqui é bastante tranqüilo. Durante todo o percurso de 400 km, contamos com acostamento e segurança.  A tão mal falada polícia paraguaia só nos ajudou pelo caminho, oferecendo água e apoio quando precisávamos. O pessoal do corpo de bombeiros voluntário nos deu alojamento, cama e banho quente. Gostaríamos de agradecer especialmente ao grupamento de Coronel Oviedo e Itauguá. Valeu!

A comida é bastante boa, repleta de sopas, massas, empanadas e as tradicionais chipas, espécie de biscoito feito de farinha de milho, polvilho e queijo, que é uma verdadeira instituição por aqui. Além da caña paraguaia (destilado de cana de açúcar muito parecido com o rum) e de bons vinhos, muito mate, geralmente misturado com outras ervas como hortelã e boldo, servido quente ou gelado.

As coisas por aqui são relativamente baratas, embora a quantidade de zeros assuste bastante. Mais ou menos 2000 guaranis por um real! Albergue, 45000 com café da manhã. Comida 30000. Garrafa de malbec argentino em um bar, 40000. Chipa, 3000. Não é difícil encontrar caixas ATM.

No mais, fica a dica. Um país que merece muito ser visitado. Quem sabe, pelo menos, o Brasil aprenda a reconhecer melhor suas origens. Afinal, Tupy or not Tupy, that is the question, hermanos!

Argentina
Cruzamos a fronteira com a Argentina em Clorinda, cerca de 50 km de Asunción. Dormimos esta primeira noite em território argentino em um corpo de bombeiros militares na cidade. Apesar da providencial ajuda, o tratamento foi bastante diferente do que recebemos dos voluntários paraguaios. Dormimos no chão da cozinha e o banho era bem frio... Hermanos, pero no mucho...

Seguimos pela Ruta 11 até a cidade de "Formosa". Chegamos durante a noite e tivemos uma dificuldade enorme para encontrar um lugar para dormir. Estávamos bastante cansados depois de pedalar cerca de 120km. A cidade é grande e bastante confusa. O quartel do corpo de bombeiros ficava a cerca de 20 km da nossa rota, o que impossibilitava qualquer tentativa de aproximação, tendo em vista nosso lamentável estado físico. Depois de rodar muito atrás de um abrigo e de sermos “gentilmente” abordados pela polícia, que nos retirou qualquer possibilidade de pernoitar nos espaços públicos, encontramos uma igreja de São Francisco de Assis (aquele mesmo da caridade...) vizinha a um seminário desocupado. Comemoramos muito até que tivemos nossa estadia negada pelo padre que alegou que se sentia inseguro por não nos conhecer! Parecia piada feita, se não estivéssemos tão cansados para rir...Terminamos passando a noite em um hotel bastante "discutível" na beira da estrada, pagando 150 pesos (65 reais) o pernoite! Algumas moças e moços circulavam todo o tempo pelos corredores em busca de alguém um pouco mais disposto...

Acordamos cedo e tocamos pra um povoado perto de La Leonesa que contava com um camping municipal na margem do Rio Bermejo. No centro do camping, um coreto que nos serviria de abrigo. Algumas churrasqueiras espalhadas e o jantar parecia óbvio...fomos buscar algumas lingüiças e batatas pra assar.

Quando iniciávamos nossa busca por comida, acabamos por conhecer Vera Leòn, um senhor de aproximadamente 65 anos e que carregava este apelido por motivos impublicáveis. Morava em uma casa minúscula ao lado do rio e gostava um tanto de Fernet, tradicional bebida italiana bastante consumida na Argentina. Conhecia uma carniceria com o melhor "chorizo" da região. Montou em sua bicicleta e disse que nos levaria até lá. Topamos.

Compramos a comida e um pouco de vinho. Nosso companheiro argentino nos ofereceu abrigo em sua casa, embora nem mesmo ele coubesse direito por lá. Recusamos por motivos evidentes e o convidamos para jantar conosco na praça. Leon aceitou o convite e disse que nos encontraria por lá em uma hora. Enquanto acabávamos de preparar a comida, nosso convidado surge de banho tomado e com uma sacola repleta de ovos de presente. Imediatamente, lembrei do padre e do seminário vazio. Aceitamos os ovos de bom grado. Jantamos e bebemos em festa. Dormimos no coreto.

Seguimos pela Ruta 11, até a cidade de Resistência, capital da Província do Chaco, que contabiliza em suas ruas mais de 500 esculturas espalhadas e, há algum tempo, pleiteia o título de Patrimônio Artístico da Humanidade junto a UNESCO.

Bem mais importante do que a opinião do famigerado órgão das Nações Unidas é o fato de que bem perto, em Margarita-Belén, ocorreu um dos maiores massacres promovidos pela ditadura argentina, onde, em dezembro de 1976, 11 militantes de oposição ao governo militar foram torturados e assasinados. A cidade carrega a memória da tragédia nos nomes de suas ruas, muros e em um incrível centro de memórias na praça principal. Um monumento assustador marca o local da tragédia.
Ruta 16 - 700 km através do Chaco.

De Resistência para frente, foram 700 km de retas infinitas cruzando toda a província do Chaco Argentino até as imediações de Salta. Completamos este percurso em sete dias.

Mesmo na Argentina, continuamos contanto com ajuda providencial dos bombeiros voluntários que nos hospedaram nas cidades de Makallé e Pampa do Inferno. Embora atendessem, sobretudo, casos de incêndios florestais, os dois quartéis contavam com realidades bem diferentes. Para se ter uma idéia, enquanto o de Pampa do Inferno contava com duas ambulâncias e mais duas caminhonetes, o de Makallé tinha apenas um carro doado, que precisava ser empurrado por cerca de quinze minutos antes de funcionar para atender uma emergência. Diferenças a parte, fomos muito bem tratados em ambas as corporações, e atenção e o amor ao trabalho unem de maneira especial a aspirante Andrea e o cabo Sanchez, primos pobres, com a prima rica Cabo Silvana.

Importante perceber que a falta de infra-estrutura que encontramos em Makallé é um retrato da imensa diferença econômico-social que encontramos entre o centro sul e o norte da Argentina. Atravessando o norte do País pelas províncias de Formosa, Chaco, Salta e Jujuy, é fácil de elaborar outro retrato que nada tem haver com a exuberância portenha de Buenos Aires e suas heranças italianas. O norte do país é pobre e sofre com o descaso constante do governo federal. Assim como acontecia há alguns anos no país Hermano.

Como não é surpresa para ninguém, quando algum sinal de desenvolvimento isolado aparece, alguma coisa de estranho salta aos olhos um pouco mais críticos. Desenvolvimento contraditório como o que convencionamos a chamar de “desenvolvimento”.

Chegamos à cidade de Presidente Roque de Sans Pena e procuramos abrigo em uma universidade pública, conhecida como UNCAUS (Universidade Nacional do Chaco Austral). O presidente do centro acadêmico nos deu abrigo no alojamento dos estudantes e nos permitiu comer no refeitório pelo mesmo preço pago pelos alunos. Em contra partida, duas entrevistas, uma para a rádio, outra para uma televisão local. Esmola demais. Quando a ficha caiu, estávamos no meio da campanha de um candidato local que apoiava o centro acadêmico da universidade e exibia sua pseudo-generosidade publicitariamente. Sem esconder nosso descontentamento, partimos sem devolver gentilezas.

Em Pampa dos Guanacos, visitamos uma incrível colônia menonita distante cerca de 5 km da cidade. Ao contrário do que podia se pensar, recebemos uma ótima acolhida,  inclusive realizando uma entrevista incrível com Gerardo Klaser, espécie de governador local e que nos deu uma aula sobre sua cultura e suas opções. Não usam carros e nem energia elétrica. Para nada. Sem televisão, rádio, internet, luz artificial e, pasmem, nada de música! Vivem da terra, plantando e criando animais. Vestem-se com roupas do século passado, são protestantes e não se envolvem com política. Não votam e só vão á cidade em último caso. Visitamos uma cooperativa onde produzem queijo e doce de leite, deliciosos. Mais uma das variadas alternativas de vida que se contrapõem ao modelo convencional contemporâneo.

Lembrando da sabedoria dos menonitas de Pampa dos Guanacos, assistimos a mais uma demonstração patética da hipocrisia política na cidade de Monte Queimado, com direito a lágrimas do governador, doação de ambulância e queima de fogos durante o aniversário da cidade.

Passamos a tarde do dia seguinte conversando com Ortiz, um cigano que estava acampado por alí junto com alguns outros. O acampamento era deslumbrante, todo montado sob lonas e tecidos coloridos, repleto de almofadas e imagens da Virgen de Huracán. Ortiz tinha 25 filhos, dos quais conhecemos três. Tomamos cerveja e durante toda nossa conversa, mascava uma bola de folha de coca do tamanho de uma bola de tênis, o que deixava seu rosto um pouco deformado. Contou-nos que estava fazendo negócio com uma caminhonete e reclamava do preço do combustível, que estava restringindo a mobilidade dos ciganos, que agora viajavam em caravanas de carro. Ria. O sarcasmo e a ironia marcavam deliberadamente a conversa em espanhol e com algumas frases em romani, idioma cigano, usadas convenientemente. No final da conversa, quis nos vender uma entrevista com direito a danças e música. Não haveria dinheiro que pagasse. Talvez fosse uma ironia. Sabiamente também não votavam.

Passamos a próxima noite acampamos no quintal de uma casa situada em um povoado a cerca de 100 km da nossa última parada. Poucas casas de barro, sem esgoto ou água encanada. O quintal nos fora cedido pelo dono do único mercado local, que inclusive nos ajudou na preparação do jantar, sempre acompanhado do filho. Fernando, esse era o nome do garoto, era um especialista em estilingues e um apaixonado por bicicletas. Não conseguia compreender bem como tínhamos pedalado tanto. Ano passado, conhecera um casal de ciclistas canadenses que também estava indo ao Chile. Todo o universo cabia agora nas rodas da sua bicicleta e o mundo além daquele, atrás do morro, podia esconder o Canadá, o Chile, ou quem sabe, a casa da sua avó.

Chegando a Salta
Depois de mais uma noite dormindo em uma quadra esportiva e de um acampamento no cruzamento da Ruta 16 com a 34, finalmente nos lançamos em nosso último dia com direção a Salta. Optamos por tomar um atalho por uma estrada de terra que começava as margens do Rio Juramento e que nos economizaria cerca de 20 km. Ledo engano. O caminho parecia bastante promissor e logo no primeiro quilômetro, paramos para um banho sensacional no rio que nos acompanharia durante todo trajeto. A paisagem era bem diferente e a monotonia das retas imensas dava lugar a um horizonte repleto de montanhas gigantes. Enfim, Cordilheira dos Andes. Embora a empolgação fosse grande, o cansaço e a dificuldade do percurso foram minando nossa força. Pedalamos cerca de 12 horas entre muita subida, cascalho solto e areia. Exaustos, decidimos dormir um pouco antes de continuarmos. Eram cerca de 22:00 horas e ainda faltavam aproximadamente 40 km!!! Estávamos no Pueblo de La Troja e, em busca de um a lugar para comer, o que já nos parecia impossível àquela hora em um povoado de cerca de 30 casas, encontramos Maria.

Maria e a Virgen de Milagros
O único armazém do lugar, obviamente, estava fechado. Um pouco desesperados, batemos palmas em frente à casa na tentativa de que alguém nos recebesse. Funcionou. Um casal de senhores de cerca de 65 anos abriu a porta com cara de sono e , talvez por conta da nossa cara de exaustão, abriu a venda. Biscoito salgado de água e sal, bolacha doce de maizena e água com gás, era tudo que tinham. Depois de cinco minutos de conversa, Maria nos convidou pra entrar e para que comêssemos na mesa que ficava em seu quintal. Tentamos recusar na tentativa de não atrapalhar mais seu sono, mas foi impossível. Arrumou a mesa. Preparou chá com ovos e se recusou a receber por isso. Foi um jantar inacreditável, acompanhados da Maria, alguns cachorros, frangos e de um bezerro que ela cuidava desde que a vaca morrera.

Peregrinava em promessa todos os anos até Salta, que agora nos dizia estar a 65 km! Agradecia a Virgen de Milagros por ter salvado seu filho de um câncer de pulmão e que já havia sido desacreditado pelo médico. Em desespero, foi até Salta pela primeira vez enquanto todos aguardavam a morte. Seu único medo era de que ele morresse antes de que ela chegasse a catedral, medo que se agravava quando pensava que podia estar longe e nem sequer saber do ocorrido. Durante todo o percurso de quatro dias, seguira escutando o rádio local que, com certeza, notificaria sua perda caso acontecesse.

Com os olhos cheios de água, nos contou de sua chegada na igreja e da certeza que teve da recuperação quando pediu em oração em frente ao altar. Em duas semanas o filho estava em casa, ainda debilitado, mas comemorando seu aniversário. Desde então, todo ano repetia o caminho em agradecimento.

Dormimos em frente a sua casa, recusando o convite de montarmos as barracas no seu quintal, não querendo atrapalhar mais do que havíamos atrapalhado. Durante a noite, fomos acordados por ela que nos trazia uma imagem e uma oração da santa,  para que nos protegesse em nosso caminho. Acordamos as 2:00 horas da manhã e partimos rumo a Salta. Protegidos e ainda em choque.

Salta - Tilcara - Quebrada de Humahuaca - Purmamarca
Salta, conhecida como La Linda, é uma cidade que precisa de tempo para revelar sua beleza. Fora o centro histórico, o Cerro São Bernardo e o Mercado Municipal, os outros encantos da cidade, que não são poucos, precisam ser descobertos com olhar atento. A grande maioria das atrações explicitamente vinculadas a cidade está a cerca de 200 km, sentido Jujuy ou Cafayate.

Jujuy
Depois de dois dias descansando na cidade, partimos para Jujuy com o objetivo de visitar a famosa Quebrada de Humahuaca, que, por si só, já vale cada quilômetro pedalado. A região é composta por muitas pequenas vilas e cidades repletas nas encostas das montanhas. Acampamos em Tilcara e utilizamos o lugar como base para visitar as atrações que ficavam ao redor. Duas delas ficavam bem perto do nosso acampamento: Pulcará de Tilcara (ruínas dos povos originários) e o trekking até a Garganta del Diablo, uma trilha bem bacana (8 km com muita subida!) pelo altiplano e que termina em uma cascata linda e deserta! 

Nos próximos dias visitamos a encantadora Purmamarca, cercada de montanhas coloridas e guardada pelo Cerro de Siete Colores. Em Maimará, além da impressionante e colorida Paleta del Pintor, assistimos um incrível festival de cultura gaucha, espécie de rodeio bem diferente dos mega eventos que vemos por aqui. Éramos os únicos turistas e o locutor do evento brincava todo tempo com a nossa presença. Tudo lindo e extremamente verdadeiro. Entretanto, no final da festa, um dos gaúchos, na verdade um adolescente, foi pisoteado no peito por um cavalo e ficou gravemente ferido. Não sabemos o que se passou depois. E fez muito frio.

Cafayate e Valle Calchaquies
Voltamos pra Salta e de lá partimos de ônibus até Cafayate, com a idéia de explorar a Quebrada de las Conchas retornando para Salta pedalando. Atenção quando for colocar sua bicicleta nos ônibus por estas regiões. Os carregadores de bagagem cobram preços abusivos para colocar a bike no bagageiro e insistem em dizer que o procedimento e o pagamento são obrigatórios. Não, você não tem obrigação alguma de contratar seus serviços e muito menos de pagar qualquer quantia, por mais que tudo faça crer o contrário. Você mesmo pode acomodar sua bagagem gratuitamente.

Deixamos as coisas no hostel e fomos conhecer o que, além da paisagem, da fama a região: as bodegas de vinho. Começamos pela Vasija Secreta e o vinho especialidade da região: o torrontés, branco, frutado e frio. Muitas garrafas depois e nosso alojamento parecia o Hilton.

No dia seguinte, fizemos um trekking bem bacana pela trilha das sete cascatas, um dia inteiro de caminhada morro acima, de dificuldade técnica significativa e uma vista linda das montanhas. O serviço de guia custa caro e, se você tiver boa noção de navegação e bom condicionamento, é possível dispensá-lo. Assim fizemos.

Voltamos para Salta de bicicleta, ou quase. No primeiro dia, atravessamos a Quebrada de las Conchas até Los Castillos, uma impressionante formação de arenito distante cerca de 40 km de Cafayate. Depois de uma pequena trilha, acampamos em uma espécie de caverna, com uma vista impressionante do rio, acompanhados de algumas águias descontentes com nossa presença.

Deixamos no “hotel” e visitamos o Anfiteatro e outra Garganta del Diablo, formações geológicas impressionantes e sagradas para o povo da região, os diaguito-calcharis. Originário, este povo ofereceu incrível resistência aos espanhóis que os acabaram praticamente dizimando. Nestes locais sacrificavam suas crianças para que não fossem escravizadas. Fomos avisados que ainda se podiam ouvir os gritos e os lamentos por lá. Ë só prestar um pouco de atenção.

Um pequeno problema com uma das bikes nos forçou a encurtar nosso passeio. Uma carona de volta a Salta depois de algumas horas na estrada...

Os Andes e o Paso de Sico
Quanto mais nos aproximávamos da cordilheira, menos fazia sentido pensar na divisão geopolítica tradicional que aprendemos na escola. Seja na Argentina, no Chile, na Bolívia, no Peru, todos os povos que vivem no altiplano ou margeando as montanhas da região dividem crenças, costumes e tradições que, por si só, ao mesmo tempo em que os aproximam entre si, os afastam da cultura espanhola predominante no resto dos países aos quais pertencem.

Começamos nossa subida em Puerto Quijano, distante cerca de 30 km e conhecida como "Portal do Andes", onde acampamos as margens do Dique La Lomita sob muita chuva.

Despertados com o sol, partimos rumo a Santa Rosa de Tastil. A pedalada prometia. 1600 metros de desnível em 75 km. Começamos a subida as 10:00 horas. 30 km de terra pelo Valle de Lerma e a belíssima Quebrada del Toro nos obrigaram a parar cerca de 10 km antes do previsto, no pueblo de El Alfarcito, cerca de 19:00 horas.

Pedimos abrigo em uma pequena, mas muito bem estruturada, escola secundária que atendia todas as 25 comunidades que viviam no alto das montanhas andinas. As crianças ficavam hospedadas por lá durante a semana e só voltavam pra casa sábado. Algumas caminhavam cerca de 5 horas pelos cerros.

Marisa, responsável pela escola, nos atendeu muito atenciosamente e nos abrigou na oficina de cerâmica. Já não bastasse a gentileza, chá quente e jantar com arroz e mondongo (espécie de dobradinha). 

Partimos de El Alfarcito com destino a Santo Antonio de los Cobres. Cerca de 10 km depois de muita subida, quando visitávamos as ruínas de Santa Rosa de Tastil, soubemos da importância das cerimônias do Dia de los Muertos, dois de novembro, para as comunidades altiplânicas. Os próximos dois dias seriam de muita surpresa...

Chegamos ao Pueblo de las Cuevas, na metade do nosso percurso, com muita fome. O povoado, com cerca de trinta casas, tinha dois armazéns que, obviamente, estavam fechados há algum tempo. Na busca por comida, acabamos por conhecer Angel. 

Angel
Enquanto preparava os pães para os rituais do dia seguinte, nos explicou o significado de cada forma. A escada levaria a alma de sua mãe em paz para o céu, os cardones, espécie de cacto muito comum por aqui, lembrariam sua origem e seu povo. 

Na casa de três cômodos que dividia com seu pai e sua companheira, não havia luz nem água encanada. Quando perguntamos sobre comida, ao mesmo tempo em que nos explicava o motivo de fechamento dos armazéns, tomava uma sacola de plástico nas mãos e a completava com batatas, arroz, cebolas, tomate e pão. A simplicidade do gesto era encantadora. Temendo pela falta que aquela comida podia fazer por ali, tentamos recusar a gentileza. A negativa foi ignorada e a oferta entregue. Sem nenhuma ação que fizesse que aquela cena fosse alguma coisa especial. Aceitar parecia tão óbvio quanto oferecer.  

A solidariedade simples e sem afetação de Angel, se configuraria uma marca em todas as comunidades andinas que percorreríamos.   

Santo Antonio de los Cobres
A força do gesto de Angel era tão assustadora que necessitava de um tempo para ser processada. Decidimos nos separar e nos encontrar no dia seguinte na cidade de Santo Antonio de los Cobres. Acampei perto de um rio próximo e preparei a comida com cuidado, quase um ritual. Apesar do frio, passei toda noite contemplando o céu do topo daquela escada.

No dia seguinte encontrei com os dois em frente à igreja. Muitos ciclistas se encontram por ali e se abastecem antes de partir para as montanhas. Conhecemos um casal de ciclistas franceses que voltava do Chile pelo mesmo caminho que faríamos. Deram-nos um mapa com algumas informações importantes relacionadas às condições dos caminhos, água e abrigo.

Como se a generosidade já não nos surpreendesse mais, Olga, uma professora que nem sequer nos conhecia, nos ofereceu sua casa para que dormíssemos. Segundo ela, não fazia o menor sentido acamparmos nos fundos da igreja, sob aquele vento, sendo que sua casa ficaria vazia nos próximos cinco dias. Talvez fosse o vento.

Durante a noite e a manhã do outro dia, participamos das cerimônias do Dia de los Mortos na casa da família do falecido Francisco Cruz. Em sua homenagem, uma enorme quantidade de oferendas era depositava em frente ao seu retrato na sala da casa onde morava. Pães, vinhos, folhas de coca, cigarros, doces. Muita comida e oração. Na manhã seguinte um cortejo até o cemitério no alto da montanha, oferendas a Pachamama pelo caminho e um delicioso assado de lhama.

Para frente, terra e muita subida. De Santo Antonio de Los Cobres até San Pedro de Atacama foram cinco dias e 365 km, cruzando a fronteira com o Chile pelo Paso de Sico. Este trecho é, sem dúvida, o mais bonito e difícil de todo percurso. Passamos a primeira noite em Olacapato, em uma escola vazia. A segunda, acampados junto a Aduana Argentina. A terceira, acampados próximos a SAG chilena, que, apesar dos muitos graus negativos e do vento, nos negou abrigo. A quarta, acampados próximo ao Salar Águas Calientes e a última em Socaire.

Quase toda pedalada foi realizada acima dos 4000m, com picos de mais de 4500m, como a Abra El Laco e a Abra Sico, o que dificulta ainda mais o trajeto. O abastecimento e consumo de água deve ser planejado com atenção. A água que se encontra por lá é imprópria para o consumo, mesmo depois de tratada com cloro e afins. Excesso de metais pesados empresta aquela cor linda as lagoas altiplânicas. Pontos de abastecimento em Olacapato, Aduana Argentina, Mina El Laco (que, depende da disponibilidade também oferece abrigo e comida) e Socaire. Como o vento e o esforço são intensos e ainda necessitamos de água para cozinhar, recomendamos, no mínimo, que cada bicicleta carrega 6 litros.

Apesar de todas as dificuldades, a travessia da cordilheira por este caminho, se revela incrivelmente bela. São lagoas coloridas, salares e picos cobertos de neve durante todo o caminho, além de pássaros e animais selvagens, como raposas e vicunhas. A cordilheira impõe um preço para os que resolvem admirá-la mais de perto. Com cautela, preparo e respeito, vale cada centavo.

Linkan Ankay
Nossa última noite na cordilheira, dormimos em Socaire hospedados em uma escola local. Guisella, professora responsável nos ofereceu uma sala com aquecedor, café, pão e queijo. 7:00horas da manhã, nos acordou com uma verdadeira aula de cultura andina atacameña e nos preparou um pouco sobre o que viríamos em San Pedro. Os filhos do sol. A língua nativa originária conta com, susto, dois falantes em todo mundo. Kunza. Guisella, cercada de 16 vulcões, muitos deles ativos, luta desesperadamente pra tentar ensinar a seus alunos um pouco desta história. Em pouco, o casal que ainda fala, morre. Talvez um vulcão, como o que causou bastante estrago em 1996. Sem palavras.

San Pedro de Atacama
Sobre o olhar imponente do Lincancabur, vulcão ativo de 5400m que guarda a cidade, percorremos 100 km, 1000m de descida, em 6 horas para chegar a San Pedro. Fizemos os trâmites burocráticos na entrada da cidade e fomos procurar um lugar para ficar. Atenção para os procedimentos de entrada no Chile pelo Paso de Sico. A SAG chilena, aquela que nos negou abrigo na cordilheira, só faz os trâmites de aduana e controle sanitário, sem ter autonomia para tratar de imigração. Portanto, mesmo passando na SAG, você precisa passar em um posto migratório quando chegar a San Pedro.
Hospedagem, assim como tudo na cidade, é bastante caro, cerca de três vezes mais do que na Argentina. A grande maioria das atrações da cidade é paga e, se tiver que escolher entre elas, recomendo os Gêiseres de El Tatio e o Vale da Lua.

Não há nenhuma dúvida que toda a geografia da cidade é linda e que vale a pena conhecer o deserto mais seco do mundo. O grande problema da cidade, fora o preço, é que são bem poucos os chilenos por aqui. Todos são estrangeiros, do dono do hostel ao artista de rua, o que acaba por impossibilitar o acesso a real cultura da região. Bem fácil de entender o desespero da professora de Socaire.

De San Pedro a Tocopilla
270 km nos separavam do Pacífico, Tocopilla. Três dias e logo no primeiro, tratamento de choque. Calama é a maior cidade da região e se contrapõe imediatamente a beleza anterior. Cheia de fábricas e automóveis, funciona como um bom ponto de apoio e serviços pra quem vive na região do deserto. Choque.

Maria Elena, nossa próxima parada, serve como exemplo para ilustrar uma situação preocupante no Chile, especialmente no norte. O pequeno povoado entre o deserto e o mar é a única mina de salitre que ainda funciona por aqui. O Chile apostou grande parte de suas fichas em atividades de mineração, com alto impacto ambiental e social. Primeiro o salitre e agora o cobre. As minas de salitre fecharam quando desenvolveram um correspondente sintético, deixando para trás várias cidades fantasmas e desemprego. O cobre, que agora corresponde a mais da metade da economia chilena é um metal com grande potencial de reciclagem. Algumas minas, como a de El Laco, no meio do Paso de Sico, parecem verdadeiras aberrações em meio a paisagem andina. Por exercerem um trabalho altamente insalubre e de grande risco, os mineiros são bem remunerados, ganhando em torno de 20000 reais por mês, inflacionando o todo o norte do país e provocando grande evasão escolar. Como o futebol não dá muito futuro por lá, todos querem virar mineiros. Quem sabe um dia virem assunto de cinema, como os 33 mineiros que ficaram presos mais de 2 meses na Mina São José em 2010, 700 m abaixo da terra, e acabaram virando heróis de cinema americano. Coisa de cinema. Enquanto isso, a saúde e o meio ambiente vão sendo leiloados.

De lá, Maria Elena, uma descida de 70 km com muitas curvas e as montanhas se derrubam sobre o mar em um litoral escarpado e agressivo. Do alto da montanha a visão parecia um sonho. 3000 km depois e o mar. Como se toda viagem passasse pela nossa cabeça com a velocidade e a força da serra que nos lançava no oceano. Odo-Iyá!

A cidade de Tocopilla não é uma cidade bonita, embora carregue no porto e nos pescadores um charme decadente que fascina. Uma sopa de mariscos e uma cerveja na beira da praia. Talvez, nossa energia transbordasse. A verdade é que o caminho é sempre mais importante que a chegada.