Chadar, - 40 ºC na expedição sobre o rio congelado
Texto: Denio Moreira Jr - Foto: Raquel Coelho
28 de janeiro de 2014 - 17:44
 
 
 
  • Foto: Raquel Coelho
    Expedição em curso sobre o rio congelado. Foto: Raquel Coelho
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    Denio na porta do Cotage Yes Please." Foto: Raquel Coelho
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    Escalando as laterais do rio." Foto: Raquel Coelho
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    40 graus negativos." Foto: Raquel Coelho
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    A barraquinha laranja." Foto: Raquel Coelho
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    A pegada do leopardo das neves." Foto: Raquel Coelho
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    Estrada de gelo." Foto: Raquel Coelho
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    Monastério de Lingshed" Foto: Raquel Coelho
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    Na sombra era ainda mais frio." Foto: Raquel Coelho
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    O raro fenômeno da mandala de gelo" Foto: Raquel Coelho
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    Na sombra era ainda mais frio." Foto: Raquel Coelho
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    Criançada com a Raquel" Foto: Raquel Coelho
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    Pequena pausa." Foto: Raquel Coelho
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    Tentando se comunicar." Foto: Raquel Coelho
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    Trick Spot" Foto: Raquel Coelho
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Expedição em curso sobre o rio congelado. Foto: Raquel Coelho

 

Eu conheço um lugar, um lugar mágico - assim quero começar um texto sobre o Chadar.

O Chadar fica Noroeste da Índia, perto da fronteira com o Paquistão, na região de Zanskar. Essa é uma expedição de alto inverno onde o caminho é percorrido sobre superfície congelada do rio Zanskar, único meio de alcançar o Monastério de Lingshed no inverno. O rio congelado é a porta de entrada e saída do povo Zanskari para o mundo exterior.

A região no inverno, com o congelamento dos passos das altas montanhas que a circundam, fica literalmente trancada em relação ao restante do mundo. Um mundo fechado no silêncio do inverno. Nesta estação, tudo: gente e mercadorias, só entram e saem por essa rota essencial.

É ali, o palco da cena clássica da luta das crianças Zanskaris para irem para a escola na cidade, uma épica travessia de montanhas tendo o rio congelado como único caminho.

Esta rota é também fundamental para o comércio de manteiga, importante commoditie local, que somente pode viajar da região produtora até o mercado externo, sem estragar, no inverno, quando é transportada sobre o gelo do rio.

Enfim, "fazer o Chadar", é um clássico das travessias de aventura, tendo como moldura a beleza deslumbrante do derredor, além do desafio da forma de acesso - dias e dias lacrados entre os gigantescos cânions, avançando-se em direção ao coração destas montanhas, sobre um rio com a superfície congelada. São muitos os trechos em que a casca do gelo está muito fina e você não acredita que irá suportar o seu peso. Trechos em que o gelo derreteu, e a única forma de avançar e escalar os cânions laterais e fazer longos e penosos desvios. Tudo isso no auge do inverno, enfrentando temperaturas inferiores a 40 graus célsius negativos.

Para trazer ainda uma dose a mais de excitação, a região abriga o lendário leopardo das neves.

Bom, este é o cenário. Após alguns anos namorando esta aventura, eis que na minha vida pessoal encontro a companheira de minha vida, a Raquel. Ela se empolgava com as histórias de minhas escaladas anteriores, de minhas andanças pelas montanhas do mundo. Estávamos bem no início do nosso relacionamento, mas ela não pestanejou ao ser convidada para vir comigo para esta super aventura de viver o desafio do Chadar, uma das mais exclusivas aventuras dos himalaias. Hoje, olho para trás, mais de oito anos depois, e vejo que fui completamente louco de colocá-la nessa expedição, tão complexa, e tão arriscada.

O Chadar como a primeira expedição da vida dela? Experiência zero, equipamentos zero, e eu pensei, deixa que cuido dela deixa que ensino tudo para ela "in loco".

Quanta chance de dar tudo errado! Ela nunca tinha dormido em barraca, não conhecia a Índia e a chance de fracassarmos nesta experiência era gigantesca - mas, não sei como explicar, deu tudo certo!

Hoje ela é minha esposa e companheira para tudo na vida. Tem no curriculum várias montanhas ao redor do mundo, de escaladas no Alasca à vulcões na Indonésia, Nepal, Tibet, Paquistão e por aí vai.

Muito bem, aceito o irresponsável convite, partimos para a Índia um dia depois do Natal, com parada em Paris para adquirirmos os equipamentos da Raquel na "Aux Vieu Camper". Três dias para completar do primeiríssimo ao último item de uma lista que parecia interminável, para quem não tinha uma meia para expedição sequer. Foi uma prova de nervos, enfrentar o enfastio dos vendedores de cada uma das 18 lojinhas da Aux vieu Camper, cada uma dedicada a um item específico, uma de botas, uma de casacos, outra de barracas, e muitas outras.

O líder de nossa expedição foi uma pessoa que nos marcou por toda a nossa vida - Joel Schone com seu fiel escudeiro Lobsang, seu sidar. O Joel vivia na Inglaterra, como professor do ensino fundamental, quando foi tornando suas idas aos Himalaias tão frequentes que o levou a largar tudo, e viver seu sonho e montar sua pequena empresa de expedições. Era uma pessoa muito, muito especial. Pálidos olhos azuis, culto - literatura, cinema e música, e sobretudo a busca do seu ideal de preparar expedições ao seu jeito. Comida maravilhosa, pequena biblioteca, uns itens de comida meio gourmet no meio dos lanchinhos e mais do que tudo o jeito carinhoso de lidar com as pessoas. Era a expressão completa de um homem bom no sentido mais profundo da palavra. Morreu alguns anos depois noutra expedição. Mas tivemos tempo de vivermos juntos nos Himalaias outras tantas aventuras. Estará sempre, sempre, presente em nossas memórias e em nossos corações.

A chegada a Nova Delhi foi antológica, uma hora da manhã, recebidos por alguém enviado pelo Joel, num carrinho minúsculo, que ziguezagueou no meio do trânsito maluco do mar de caminhões enfeitados e barulhentos. Absolutamente caótico, aquele mar de buzinas, no meio da madrugada e a gente dopado pelo fuso horário.

O hotel onde foi marcado o nosso primeiro encontro com o Joel era "uma ave" no dizer da Raquel, o inesquecível pardieiro chamado "Cotage Yes Please". Foi lá que o Joel ao nos apresentar nosso banheiro disse: "...bem aqui o chuveiro, ehrr, bem ,,, hum, melhor dizendo o lugar para tomar banho..." Era só um balde grande com uma canequinha.... E eu ali, olhando de rabo de olho a reação da Raquel, pensando - chiii danou-se...como que a Raquel vai encarar isso... - para minha surpresa encarou tudo com o máximo bom humor. Ali, ela começava a se revelar o que parecia improvável no começo, ela tão sofisticada, elegante, tinha um senhor jogo de cintura e ia tirando tudo de letra, e fazia com seu bom humor tudo ficar muito menos pior do que parecia.

Encontramos nossa companheira de expedição, uma médica suíça, ia ser um grupo de três.

Voamos para Leh capital do Ladak, um lugar muito especial com seu velho palácio e velho bazar, fortificações antigas, gompas, mesquita, padarias indús, de fato a cidade é um bastião encantador do Budismo tibetano, incrustado na Àsia Central. Foi na incrível e mágica Leh que saudamos a entrada do Ano Novo - um ano novo muito especial, o primeiro dos muitos que se seguiram sempre ao lado da Raquel. Preparativos em curso, muitas idas ao bazar e feiras de rua para as compras de comidas, principalmente frutas secas, grãos e especiarias para abastecer nosso grupo.

Cortamos o vale Indú de Jeep, passamos pelo Monastério de Spitok, até alcançar as margens do rio Zanskar , acima de Chilling, quando fomos avançando até onde deu para ir de Jeep.

Finalmente, pé no chão, mochilas nas costas e estamos às margens do Rio Zanskar para nosso primeiro acampamento ao redor do fogo. Reunimos com nosso staff, que não me lembro exatamente, mas era algo em torno de onze ou doze pessoas. Joel na liderança e seu extraordinário braço direito, Lobsang, egresso do batalhão de paraquedistas do exército indiano, talentoso cozinheiro, um expert em sondar o gelo e sobretudo inexcedível na atenção e vigilância da nossa segurança e bem estar. Nossa carga seguia sobre trenós de madeira totalmente artesanais, puxados sobre o gelo por nossos carregadores, e todos com um bastão para cutucar o gelo em trechos duvidosos, para desenhar o caminho a ser seguido sobre o rio. O mundo muda de escala, penetrar nestes canions, pelo leito do rio, nos introduz num mundo de dimensões surreais, de beleza selvagem, de silêncio profundo. Nós passamos a nos sentir um bando de pequeninas formigas lava pés, tamanha a desproporção com as paredes de granito que nos circundavam. Dia a dia, hora a hora tudo muda, a rota é um verdadeiro quebra cabeça. Ás vezes o gelo está quebrado, e o rio ruge, caudaloso , profundo e veloz, deixando apenas pequenas casquinhas de gelo nas laterais, por onde seguíamos avançando. Leva algum tempo até se adaptar a caminhar no gelo, alguns tombos são inevitáveis. O frio é absolutamente fantástico, glacial. Mas à noite eu e a Raquel nos sentíamos muito aconchegados dentro de nossa barraca laranja. O que ocorria era o seguinte, primeiro forramos o chão com uma esteira de borracha, depois um pequeno colchonete inflável, para isolar do frio do chão, e por cima colocamos os sacos de dormir de alta tecnologia, certificados para fornecer conforto térmico até menos 40, e garantir a sobrevivência até menos 50.

Às vezes eu colocava as mãos sem luvas no piso da barraca para sentir a energia do frio potente que irradiava do solo. À noite na barraca refeitório os laços do grupo iam se estreitando, com memoráveis casos e histórias narradas pelo carismático Joel. Dia a dia íamos avançando, quando registramos a presença de uma companhia invisível mas indiscutivelmente presente - o leopardo das neves, que nos acompanhou por uns três dias, embora nunca tenhas sido avistado pessoalmente por nós. Contudo deixava ao redor dos acampamentos e nas margens de nossa trilha na neve fresca recém caída, marcas indiscutíveis de sua presença, pegadas enormes, profundas seguidas da marca de arrasto da pesada cauda característica do majestoso animal.

Chegamos à árvore de incenso, depois de uma cachoeira congelada, considerada árvore sagrada, com um monte de fitas e bandeiras de oração amarradas em seus galhos petrificados pelo frio, galhos estes que usualmente são queimados em rituais de orações matinais. É esta árvore que marca a entrada no Reino de Zanskar. Finalmente deixamos o leito do rio e avançamos pelas laterais das montanhas e alcançamos o povoado que circunda o Monastério de Lingshed. Emocionante, porque um bando de crianças nos avistou de longe, e em algazarra vieram nos saudar - nós os raros, raríssimos exemplares de ocidentais. Trouxeram nas mãos um pratinho de metal onde queimavam ramos de Junipter, incenso de boas vindas, outros trouxeram um jarra de chang, cerveja artesanal, que foi servida em nossas mãos em concha. Em total afobação contavam as últimas - a passagem do leopardo das neves pela aldeia, um verdadeiro glutão, que devorou uma vaca, dois carneiros e algumas galinhas....As crianças eram adoráveis, e a Raquel era cercada por elas para todo lado que passeava. Ficamos hospedados numa casa local, e descansados pela primeira noite sob teto, excursionamos a mais de quatro mil metros para explorar o Monastério de Lingshed. Que lugar frio, mas que paisagem gelada deslumbrante que avistamos lá de cima. Missão cumprida, fizemos o caminho de volta, que a maior parte do tempo não pareceria ser o mesmo, pois o rio mudava de hora em hora. Foram dias sensacionais, que despertaram na Raquel o imediato amor pelas montanhas, foram dias que transformaram a nossa vida. A aposta maluca de levar a Raquel para essa aventura deu muito certo, hoje temos um ao outro para o que der e vier, nunca mais senti solidão nos destinos mais remotos. Enfim, para concluir quero afirmar, que o Chadar é mágico, transformador, não é à toa que o nosso querido Joel sobre o Chadar repetia a frase de Ruyard Kipling :"Something hidden. Go and find it. Go and look behind the ranges". Fui e achei!