Expedição ao Rio Noatak na Brooks Range: Parte 1
Texto: Thomaz Brandolin
21 de agosto de 2013 - 15:00
 
 
 
  • Foto: Thomaz Brandolin
    Acampamento no banco de areia, totalmente exposto e eventuais ventos e animais.
  • Foto: Thomaz Brandolin
    1º Acampamento montado, entre o Lago Twelve Miles e o rio Noatak." Foto: Thomaz Brandolin
  • Foto: Thomaz Brandolin
    Canal usado em parte do portage." Foto: Thomaz Brandolin
  • Foto: Thomaz Brandolin
    Local da 1ª entrada no rio, com banco de areia ao fundo, onde montei o 2º acampamento." Foto: Thomaz Brandolin
  • Foto: Thomaz Brandolin
    Flores da tundra encontradas na caminhada rumo à nascente do rio." Foto: Thomaz Brandolin
  • Foto: Thomaz Brandolin
    Flores da tundra encontradas na caminhada rumo à nascente do rio. " Foto: Thomaz Brandolin
  • Foto: Thomaz Brandolin
    Flores da tundra encontradas na caminhada rumo à nascente do rio. " Foto: Thomaz Brandolin
  • Foto: Thomaz Brandolin
    Riacho Angayu, ponto final da caminhada rumo à nascente. " Foto: Thomaz Brandolin
  • Foto: Thomaz Brandolin
    Vegetação da tundra " Foto: Thomaz Brandolin
  • Foto: Thomaz Brandolin
    Flores e paisagem na volta da nascente. " Foto: Thomaz Brandolin
  • Foto: Thomaz Brandolin
    Parte superior da Noatak. " Foto: Thomaz Brandolin
  • Foto: Thomaz Brandolin
    Parte superior da Noatak. " Foto: Thomaz Brandolin
  • Foto: Thomaz Brandolin
    O 2º. acampamento (no banco de areia), no final da tarde. Ao fundo, com o topo encoberto pelas nuvens o Mt. Igikpak, onde está a nascente do Noatak. " Foto: Thomaz Brandolin
1 13

Acampamento no banco de areia, totalmente exposto e eventuais ventos e animais. Foto: Thomaz Brandolin

 

Início

Assim que desembarquei toda a carga numa das pontas do lago, o piloto e seu ajudante se despediram. Entraram de volta na minúscula aeronave e se afastaram, deslizando mansamente para a outra extremidade do lago, até fazerem uma curva e sumirem da minha visão.

Apesar de entretido transportando minha carga para longe da margem, eu ainda a escutava.
Não demorou e logo o hidroavião, como uma lancha, veio surfando ligeiro e barulhento pela água escura. O lago já estava acabando quando ele, finalmente, decolou. Parei de fazer o que estava fazendo e fiquei observando o velho avião, até ele sumir por entre as montanhas e as nuvens.
De repente me vi envolvido por um silêncio profundo e sereno, que me fez relaxar.

Com a partida do avião eu estava me desconectando do último elo de “civilização”. Largado numa das regiões mais remotas e inóspitas da América do Norte, eu sabia que, provavelmente, não veria outro ser humano nas próximas semanas e, portanto, dali em diante teria que me virar absolutamente sozinho.

Eu estava numa extensa planície de mata baixa, no fundo de um vale, aos pés de uma barreira de montanhas arredondadas e parcialmente cobertas de vegetação, que me lembraram a Serra Fina. Apesar de ser veterano de várias expedições, aquela era a primeira vez que eu visitava a tundra do Ártico.

Na minha frente, espalhada pelo chão, mais de 100 kg carga. A comida estava acondicionada em três barris de ferro à prova de ursos. As roupas e uma infinidade de equipamentos distribuídos em mochilas e sacos estanques. Fora inúmeros itens soltos, como meu tripé, galões de benzina, os remos desmontados e a canoa inflável, ainda totalmente dobrada. Ali na grama úmida, a poucos metros do lago, estava tudo que eu precisava para sobreviver e me deslocar durante um mês, sem precisar de ajuda.

Eram 14h30 do dia 1 de agosto, meados do verão naquelas paragens. Num céu bastante carregado de nuvens escuras, a temperatura girava por volta dos 10 graus positivos, e uma leve garoa umedecia o ambiente. Acho que não tinha se passado nem 5 minutos quando, de repente, fui descoberto pelos menores e mais famosos habitantes daquele lugar: os mosquitos! Foi uma festa! Dezenas, depois centenas deles vieram me dar os “boas vindas”, todos “felizes” tentando entrar na minha boca, nariz, ouvidos, cabelo, fazendo aquele zumzum característico.

Minha viagem à Brooks Range havia começado poucos dias antes, na tranquila cidade de Benícia, na California, na residência de um casal de amigos brasileiros. Ali peguei vários equipamentos que havia encomendado pela internet, e comprei parte da comida. Dali voei para Anchorage, a maior cidade do Alaska, onde adquiri minha bota de cano alto de neoprene, aluguei um telefone satelital e comprei o restante da comida.

Como numa canoa não existe muita limitação de peso, e eu estava de “férias”, resolvi caprichar: entre várias delícias, inclui farinha e ingredientes para fazer pão e mini pizzas, algumas maças e cebolas in natura e, claro, uma garrafa de vinho tinto californiano, que ninguém é de ferro.

Para ir à Fairbanks, última cidade do trajeto, 580 km ao norte, preferi ir de carro. Lá comprei mais alguns itens de última hora, empacotei tudo e embarquei num minúsculo avião para Bettles, uma vila bem mais ao norte, onde vivem (no verão) umas 60 pessoas.

Foram poucas horas ali. O suficiente para ouvir de um guarda-parque algumas explanações sobre a região, como lidar e eventualmente enfrentar ursos (sugiro a todos aprender), e pegar os barris para acondicionar a comida. Depois peguei minha canoa alugada, a benzina e dois sprays de gás pimenta, que seriam minha “proteção” contra eventuais ataques de ursos.

Ao contrário de quando fui sozinho ao Polo Norte, desta vez não levaria arma alguma. Para o pessoal local, não levar uma espingarda numa região onde vivem os ursos é quase uma “heresia”, uma “loucura”. Concordei mas, para aumentar a “emoção”, preferi arriscar.

Com tudo pronto, embarquei no hidroavião para um voo belíssimo de 01h30 até as margens do Lago Twelve Miles.

Portage

Com os mosquitos me “pressionando”, eu não tinha tempo a perder. Precisava levar tudo até às margens do lendário rio Noatak, que seria a estrada para explorar a região. Antes de partir, o piloto apontou numa direção no horizonte e disse apenas que o rio ficava a uns 500 metros “naquele” rumo.....e avisou: não dá para acampar antes do rio pois o terreno é úmido, irregular e muito fofo.

Foi só começar o portage para ver que os 500 metros se transformariam em vários quilômetros – com tantas idas e vindas!

Os barris (do tamanho daqueles de chopp) não tinham alças e estavam pesadíssimos. A canoa, sozinha, pesava 40 kg. E o terreno era exatamente como o piloto descreveu, exigindo vários desvios, sempre com o cuidado, a cada passo, de não “virar” ou atolar os pés na água, ou enroscar na mata.
Só para ter uma ideia da “roubada”, depois de 6 horas de esforços, sem parar para comer ou descansar, eu só tinha avançado exasperantes 250 metros.

Eram 20h30 quando, exausto, decidi parar e montar acampamento. Para minha sorte encontrei um lugarzinho plano e seco na grama, ideal para montar a barraca.

Preparar e simplesmente comer o jantar foi outro desafio. Sem vento, o cheiro de comida misturado com meu suor atraiu mais mosquitos. E estes, famintos, desta vez trouxeram todos seus amigos e parentes, decididos a me deixarem louco. Eles não chegavam a picar ou morder, e eram inofensivos e fáceis de matar, mas eram tantos que nem valia à pena tentar. Só resgatei minha paz quando coloquei uma tela mosquiteira na cabeça, pois o resto do meu corpo estava protegido por roupas e luvas. O problema era como conseguir enfiar a comida na boca com aquela tela na cabeça. E não engolir os bichinhos que caiam no chá.

Era quase meia noite quando contei 0,3 carneirinhos e apaguei dentro do saco de dormir. Àquela altura, os dias ainda tinham 24 horas de luz. Mais alguns dias e as madrugadas ficariam cada vez mais escuras.

O Noatak, afinal

Na manhã seguinte, fui fazer o que mais me interessava: encontrar o rio, 200 metros adiante! Dezenove anos depois de ouvir falar do Noatak pela primeira vez, motivo de tantos sonhos, planos e sacrifícios, finalmente eu o vi na frente dos meus olhos.

Foi impossível não me emocionar e ficar um bom tempo o admirando, vendo suas águas cinza esverdeadas passarem tranquilas rentes aos meus pés. Do outro lado do rio, montanhas cobertas de vegetação subiam vertiginosas, até seus cumes sumirem por entre as nuvens. Olhando à esquerda, a quilômetros de distancia, o Monte Igikpak (2.593 metros), o pico mais alto daquela região, e onde fica a nascente do Noatak. À direita o vale seguia mais aberto e o rio sumia da visão.

Passei o restante da manhã levando toda a carga para a beirada do rio. Do ponto onde eu estava, o rio se bifurcava para contornar um grande banco de areia de batida, onde decidi montar meu segundo acampamento.

Encaixei a canoa num recorte da margem do rio e a carreguei com metade da carga. Havia chegado a tão sonhada hora de “entrar” no Noatak. Minha canoa inflável era uma SOAR Pro Pioneer, de 14 pés, feita do mesmo material dos botes da rafting. Embora considerada muito estável, era a primeira vez que manobrava uma delas. Assim, com o maior cuidado do mundo para não errar a manobra, ensaiando com os olhos cada movimento, com o coração acelerado, desamarrei a corda da proa, dei um empurrão na mata com o remo e, finalmente, depois de tantos anos sonhando, entrei naquele rio! HURRA!! Foi mais fácil do que eu esperava, mas isso não diminuiu a emoção.

Entrei na correnteza, fiz a curva à esquerda ao final do banco de areia, e a direcionei para uma praiazinha. Desembarquei e a puxei pelo raso contra a correnteza até o ponto onde montaria a barraca. Repeti a operação com o restante da carga e, no final da tarde, já estava instalado.

Logo começou uma leve garoa. As vantagens de acampar na beira do rio logo se mostraram evidentes. Os mosquitos praticamente sumiram e a água estava quase ao alcance das mãos. Sem falar que a canoa, ao meu lado, servia como depósito, evitando ter que desembarcar toda a carga.

Por volta das 18h30, quando a garoa deu uma trégua, tomei meu primeiro banho no rio.

A garoa voltou na hora do jantar, mas nada que me impedisse de cozinhar ao ar livre, aliás, como faria dali para a frente em todas as refeições durante a expedição.

De volta à barraca depois de comer, tentei atualizar meu diário mas...... não consegui. Estava tão cansado que adormeci com a caneta na mão.

Adaptação

Choveu a noite toda. Por volta das 8 horas da manhã, num curto intervalo, consegui fazer um belo café da manhã, com direito a um pão com nozes quentinho, feito na hora. Assim que terminei de comer voltou a garoar.

Com dores nas costas da mulagem, decidi então que seria um dia de descanso e adaptação. Mais que meus equipamentos, precisava organizar meus pensamentos, me “localizar” no tempo e no espaço e me adaptar ao novo lugar e rotina. Procurei ouvir minha respiração, rever a postura corporal, e exercitar meus 5 sentidos, olhando com calma os detalhes à minha volta, sentindo os aromas do lugar, e apurando os ouvidos. O único ruído era o da correnteza tranquila do rio.

Depois me pus a trabalhar, organizando o acampamento, minha carga e a canoa. Olhando meus mapas, vi que o pico bem na minha frente era o Oyukak (2.228 m). O Igikpak estava 13 km rio acima. 48 horas já tinham se passado e eu ainda não conseguia ver seu cume, totalmente encoberto por nuvens espessas.

À tarde até saiu um solzinho, mas nenhum sinal de vida. Com meus binóculos, esquadrinhei o céu e as encostas ao meu redor, mas não vi um ser vivo. Nem os mosquitos apareceram! Jantei rodeado de silêncio e paz.

Antes de dormir, preparei uma pequena mochila para o dia seguinte. A intenção era atravessar para a outra margem do rio, e caminhar o máximo possível rio acima em direção à nascente do Noatak, no coração da Brooks Range.

Rio Acima

Na manhã seguinte, ao invés de um galo cantando, acordei com lobos uivando ao longe. Não dava para vê-los mas com certeza eram três, provavelmente filhotes. Mal terminei o café, às 06h45 estava pronto para sair quando....caiu o maior toró. As montanhas sumiram atrás de nuvens escuras, e o termômetro desceu a zero. O que fazer?

Ainda sem conhecer as dificuldades da tundra, não tinha a menor ideia de quanto tempo levaria para caminhar alguns quilômetros. Fora que passar algumas horas longe do acampamento naquele clima me deixava muito preocupado. Com a chuva, o nível do rio poderia subir (quanto??) e inundar meu acampamento, apenas alguns centímetros acima da linha d´água. Sem falar em eventuais ursos ou lobos atrás da minha comida, que poderiam destruir minha barraca.....Como saber? Era tudo novo para mim.

Só consegui sair às 11h15, quando a chuva diminuiu. Carregava mais de 30 itens na mochila, preparado para inúmeras possibilidades, inclusive a de dar de cara com um urso.

Entrei na canoa vazia e remei o mais forte que pude, fazendo a travessia em diagonal até a outra margem do rio. Ser pego de lado pela correnteza foi uma sensação horrível e meu coração quase saiu pela boca. Se eu capotasse, quem iria me ajudar?

Terminada a travessia, prendi a canoa no cascalho, abandonei minhas botas de borracha e pus as de trekking. Encontrei uma rampa e entrei na mata fechada, um metro acima do leito do rio. Logo encontrei sinais de uma trilha. Com isso pude acelerar meu passo e ganhar confiança. Depois de um tempo a trilha me levou de volta ao espaço aberto da praia de cascalho.

E assim, ora caminhando pela mata - às vezes aberta, às vezes fechada - ora pelo leito de cascalho, tentei acompanhar as curvas do rio, seguindo rumo à nascente. E a tundra, generosa, aos poucos foi me mostrando seus encantos.

Eram tantas as “novidades” e os detalhes, que diminui o passo e passei a observar mais. Ao longe, quanto mais eu avançava, mais montanhas eu via, formando uma paisagem de tirar o fôlego. Aos meus pés, o terreno e o padrão da vegetação mudavam com impressionante rapidez. Aqui e ali, diferentes espécies de flores, muitas agrupadas em arranjos, misturadas com uma folhagem colorida e frágil, formavam um cenário único, onde a mão do artista não se esqueceu de nenhum detalhe.

Outra coisa que muito me interessava era desenvolver a “arte” de caminhar pela tundra. Em vários pontos é como caminhar por cima de uma gigantesca esponja, afundando a bota inteira a cada passo. Às vezes com várias poças d´água entre os tufos de mato. Era preciso “ler” as sutilezas do terreno para distinguir as partes secas das úmidas e encharcadas, e escolher a melhor rota. Foi divertido desafiar minha habilidade e equilíbrio para conseguir pisar nos tufos maiores, ou “empurrar” o mato com os pés para formar um micro colchão a cada passada, e avançar rápido mesmo pelas áreas mais alagadas sem molhar os pés.

O céu continuava carrancudo, úmido e instável. Nuvens baixas iam e vinham ao sabor do vento, garoava em alguns pontos, mas havia um solzinho em outros.

Caminhei até às margens do riacho Angayu Creek, que descia das montanhas à minha direita, quando decidi parar. O Igikpak estava quase ao alcance das mãos, mas para chegar à nascente do Noatak teria que contorná-lo. Calculei que, no ritmo que eu estava, seriam mais umas 12 horas até lá. De ida.

Entrei no leito de cascalho e me aproximei de um dos canais do Noatak para fazer um lanche e curtir o momento. A paz do lugar era algo realmente tocante. Deitei no chão e passei a divagar. Que lugar! Tratei de relaxar e me envolver pela atmosfera, para captar a energia daquele lugar tão inóspito.

Conversa com Lobos

Sem pressa de ir à parte alguma, pelo horário achei melhor voltar ao acampamento. Mas voltaria por um caminho diferente.

Ao invés de voltar rente ao rio, decidi subir as montanhas, agora à minha esquerda, e caminhar de volta seguindo uma curva de nível bem no alto, entre o rio e os cumes, de onde descortinei uma belíssima visão de todo o trecho superior do Noatak.

Com um final de tarde agora cada vez mais bonito, eu caminhava tranquilo. Mas, depois de um tempo achava que estava na hora de avistar minha barraca. Eu tinha uma visão que me permitia ver quilômetros para todos os lados, então não entendia porque não conseguia vê-la. Fiquei intrigado. Continuei por quase uma hora e nada de enxergar a danada. O rio era repleto de curvas fechadas e bancos de areia, semelhantes àquele onde montei meu campo-base. De longe e na sombra, pareciam todos iguais.

Cada vez mais cansado e com o sol baixando, minha preocupação foi aumentando. Será que passei pelo acampamento e não percebi? Seria uma situação gravíssima. E eu não queria apelar para o GPS que, aliás, estava quase sem bateria

Decidi descer a encosta e me aproximar do rio, quando, por um momento me enfiei numa mata fechada e muito inclinada. Depois de ficar “perdido” durante um tempo, acabei reencontrando o caminho que havia feito pela manhã e logo avistei a barraca ao longe. Ufa! Uma alegria imensa me invadiu. Foi quando comecei a ouvir os lobinhos uivando ao longe. Radiante, comecei a uivar de volta. Eles responderam uivando com mais intensidade. E eu idem. Em 10 minutos estava na canoa, e em 20 minutos estava no acampamento. Cansado mas feliz. E aliviado. Depois de tantos anos, tinha me aproximado do coração da Brooks Range. Agora eu estava pronto para começar a descer o Noatak.

Para terminar a noite, fui contemplado com um belíssimo céu azul e um pôr do sol refletido nas águas do rio. Que mais eu queria!?!?

Continua...