No cume do McKinley
da redação, Texto e fotos: Rosier Alexandre
24 de junho de 2012 - 22:22
 
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  • Foto: Rosier Alexandre
    Finalmente no cume da montanha mais fria do planeta, o monte McKinley de 6.194m. Foto: Rosier Alexandre
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    Chegando ao acampamento 2, a 3.350m." Foto: Rosier Alexandre
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    Montando a barraca no acampamento." Foto: Rosier Alexandre
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    Rosier a 2300m, no acampamento 1." Foto: Rosier Alexandre
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    Rosier Alexandre e Anastácio da Silva Junior." Foto: Rosier Alexandre
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    A bolha no calcanhar." Foto: Rosier Alexandre
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    Congelamento na barraca." Foto: Rosier Alexandre
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    Na aresta, a 5.150m" Foto: Rosier Alexandre
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    Rosier e grande carga" Foto: Rosier Alexandre
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    O Ceará no cume do McKinley" Foto: Rosier Alexandre
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    O Brasil no cume do McKinley." Foto: Rosier Alexandre
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Finalmente no cume da montanha mais fria do planeta, o monte McKinley de 6.194m. Foto: Rosier Alexandre

 
Tema da conquista

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Olá amigos,

No último de 19 de junho, as 17h54min me ocorreu algo que certamente irá marcar minha vida para sempre. Depois de 14 dias sem banho, sem banheiro, com frio abaixo de 30 graus celsius negativos e um desconforto extremo, eu consegui realizar um grande sonho, meu e de muitas outras pessoas que sonharam juntamente comigo, cheguei ao cume do McKinley (6.194m), a maior montanha da América do Norte e a mais fria da terra.

Neste momento, estou em Talkeetna, no Alasca, The Last Frontier, enquanto escrevo este texto, meu apartamento tem quase duzentos itens espalhados por cima de mesa, cadeira, sofá, cama, tv e pelo chão, quase todos em estado lastimável, molhados, sujos, podres, quebrados, rasgados e precisam ser arrumados e o cansaço ainda é extremo.

Devo ter perdido de 6 a 8 kg, apesar de um bom planejamento alimentar, da suplementação nutricional, o esforço de escalar uma montanha como o McKinley de forma totalmente autônoma deixa um estrago orgânico bem considerável com ressaca por um ou dois meses.

Escalar o McKinley, uma das montanhas mais selvagens da terra, já é um desafio para gente grande, este ano, teve um ingrediente a mais que foi a instabilidade climática, tornando o clima um dos piores já registrados. Esta estação já deixou 7 mortes, 6 escaladores e 1 guarda parque durante um resgate. Com exceção do guarda parque, todas as mortes foram exatamente na via que fiz, a West Butress.

Nossa expedição quase segue o rumo do clima, no primeiro dia um membro da nossa pequena equipe de 3 escaladores se machucou e precisou voltar de maneira forçada, no quinto dia de expedição, enquanto fazia um porteio para o Medical Camp (4.300m) eu fiz uma imensa bolha no calcanhar direito, o que jamais me ocorreu em outras expedições, vi tudo acabar naquele dia 09 de junho. Algo sempre me diz, na pior das situações, tentar tirar proveito de algo, respirei fundo e mesmo sabendo que ali havia perdido preciosos dias, liguei para minha amiga médica e montanhista Karina Oliani que prontamente me atendeu e me orientou a cuidar da bolha. Meu companheiro quase chorou, o seu semblante era de desespero, ele viu ali o fim da expedição, no dia seguinte deveríamos subir e com este advento, precisávamos ficar alguns dias extras a 3.300m e para piorar, havíamos levado toda a nossa comida para o acampamento seguinte a 4.300m, havíamos deixado reserva apenas para dois dias no nosso acampamento. Meu parceiro ainda chegou a me perguntar em tom de sugestão: “Será que não dá para subir mesmo assim?” eu lhe respondi que não havia condição e citei o argentino Juan Manoel Fangio, piloto pentacampeão mundial de F1, ele dizia: “Não é na primeira curva que se perde uma corrida, mas é ali que podemos perdê-la”. Apesar dos cuidados com a bolha, eu sabia que precisava no mínimo 2 ou 3 dias para uma melhora, passados os dois dias, nos preparamos para subir no dia 11, uma nevasca caiu de forma a enterrar nossa barraca a noite, desenterramos pela manhã e antes de meio dia ela estava novamente enterrada na neve, precisamos adiar por mais um dia a nossa subida, víamos o tempo se esgotar e não conseguíamos progredir montanha acima de acordo com o planejado, já estávamos usando o plano B. Quanto a alimentação resolvemos com uma expedição americana que nos cedeu comida por dois dias. No dia 13 subimos de vez para o penúltimo acampamento, foi um dia muito duro, com carga pesada, mas o tratamento feito na bolha funcionou bem e ou dois dias extras, parecem ter sido providenciais para a cura. Dia 14 descansamos para no dia 15 portear para o último acampamento.

Exatamente na via que passamos dia 13, no dia 14 uma forte avalanche levou quatro japoneses que jamais foram encontrados. No dia 15 fizemos o porteio, um trajeto muito inclinado por paredes de gelo e arestas com abismos de até 900m onde alguns trechos tínhamos que andar se equilibrando com um pé na frente do outro, tudo isso montanha acima com uma mochila com mais de 20 kg nas costas, subimos, deixamos nossos equipamentos e descemos ao acampamento. Planejamos descansar no dia 16 e subir no dia 17, sofremos mais um ataque, o clima não permitiu sair do acampamento. Quase sempre o clima ocorria de forma oposta a previsão do serviço americano de meteorologia, os próprios guarda parques ficavam desorientados, quando a previsão era de sol e queda de no máximo 5 cm de neve, caiu 50 cm, quando previam cair 40 cm de neve, abria um sol de rachar e a neve não aparecia. Após mais um dia extra no penúltimo acampamento, no dia 18 subimos de vez para o último acampamento, o High Camp (5.200m), a ideia era aproveitar a primeira janela de tempo partir para o cume, apesar de uma previsão de nevasca no dia 19, abriu um sol de rachar, deixando um dia maravilhoso, apesar de ter subido no dia anterior, mesmo sem nenhum dia de repouso, confiando no meu preparo físico, parti para o cume. Saímos às 10h30min e as 17h54min, hora local (22h54min no Brasil) eu e meu parceiro de escalada, o Catarinense, Anastácio Júnior, estávamos concluindo a arriscada aresta final que dá acesso ao cume do McKinley, apesar de sempre andar encordados, um dando segurança para o outro a uma distância de 25 metros um do outro, nos metros finais caminhamos lado a lado chegando ao cume do McKinley exatamente ao mesmo tempo.

 
7 CUMES - Essa é a 5ª montanha que Rosier Alexandre conquista no seu projeto dos 7 Cumes, restam agora o Vinson na Antártica e o Everest na Ásia.
   

Chegando o cume, nos abraçamos comemorando, parecíamos não acreditar no que havíamos feito. Tiramos muitas fotos, filmamos, curtimos o visual e às 18h30min estávamos iniciando a descida da aresta, depois de 3h45min, às 22h15min, estávamos nos jogando na nossa barraca.

A temporada foi muito difícil, porém um bom planejamento e uma boa execução produzem resultados surpreendentes. Quando se tem paixão por ideal, metas e objetivos claramente definidos, desafios que parecem impossíveis se tornam possíveis.

Nesta expedição experimentei, como nas anteriores, porém em maior intensidade, o esgotamento extremo, a solidão, o desconforto e vi como podem ser vizinhos da felicidade extrema.

Ainda nem estou acreditando que realizei tamanho feito, aqui só vem os melhores do mundo e taxa de sucesso ainda está em apenas 40%, muita gente escala o Everest e quando chega aqui desiste pelo nível de dificuldade ou o clima não permite que prossiga e eu estava bem tecnicamente, fisicamente e apesar da instabilidade climática com um dos piores anos na montanha, eu consegui reunir o conjunto suficiente para chegar ao cume, é algo grandioso.

Acabamos de fazer uma conquista fenomenal para o Ceará e para o Brasil. Estou muito feliz e ainda sem acreditar que conquistamos montanha tão difícil. Obrigado a todos pelo carinho, Danubia sempre me transmitiu as mensagens carinhosas que certamente me aqueceram num frio de 35 graus negativos e me deram energias para ir sempre em frente. Graças a um excelente planejamento, um treinamento intenso e uma oportunidade de clima, chegamos ao cume, mostrando que o ser humano á capaz de coisas incríveis quando está motivado.

Mais uma vez, obrigado a cada um de vocês que torceu, rezou, vibrou e talvez até sentiu um pouco do frio que senti.
Imediatamente após a minha chegada ao Brasil, farei uma apresentação com fotos e vídeos.

A todos, um abraço de 6.194 metros.


Rosier Alexandre
www.rosier.com.br