Transmantiqueira: a estética do desconhecido
Texto: Pedro Alex
11 de dezembro de 2013 - 17:56
 
 
 
  • Foto: Pablo Bucciarelli
    Pedro Alex e as Agulhas Negras, imponente, bela e formosa! Foto: Pablo Bucciarelli
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    A trilha realizada por Pedro Alex e Pablo Pucciarelli, a Transmantiqueira." Foto: Pablo Bucciarelli
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    Preparando os mapas para a travessia" Foto: Pablo Bucciarelli
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    Oração antes do início da caminhada" Foto: Pablo Bucciarelli
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    Saindo rumo à crista da serra em Monte Verde" Foto: Pablo Bucciarelli
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    Pedra Partida em Monte Verde" Foto: Pablo Bucciarelli
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    Amanhece depois de uma noite em vigília " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Descanso para os pés " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Pedra do Baú no horizonte. Reparem no detalhe do homem montado no cavalo e usando o celular. Tempos modernos!" Foto: Pablo Bucciarelli
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    Parada para descanso de 2 horas em Sapucaí Mirim " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Ritmo forte nas estradas, apesar do calor " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Água quase sempre disponível durante a rota " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Ascensão à Pedra do Baú no final da tarde " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Pôr do Sol na Pedra do Baú " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Primeiro bivaque, depois de 28 horas de trekking, 1 refeição e 2 horas de descanso " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Descansópolis. Será que estava na rota? " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Paradas rápidas de 10 minutos para limpar e relaxar os pés " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Segunda refeição numa casa de vila, após quase 48 horas de trekking saindo do Parque Estadual de Campos do Jordão " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Na Fazenda da Onça, pessoal do Exército acolheu os aventureiros para algumas horas de sono " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Pico do Carrasco bem sinistro " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Cavalos selvagens na rota " Foto: Pablo Bucciarelli
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    A chuva chega forte nas proximidades da Base Marins " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Tentando secar um pouco as roupas " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Mais uma refeição boa e a alegria tomando conta " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Marcas da chuva de granizo na subida aos Marins " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Silhueta do maciço dos Marins " Foto: Pablo Bucciarelli
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    A Lua esteve presente durante toda a rota trazendo boas energias " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Foram horas de pânico em meio à travessia Marins-Itaguaré debaixo de um temporal, testando o limite emocional da dupla " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Os pés não suportavam calçados e de crocs escorregava demais " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Serra Fina sem chuva, mas totalmente molhada " Foto: Pablo Bucciarelli
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    As belezas da Mantiqueira coloriram o caminho da dupla " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Registro histórico na passagem pelo ponto mais alto da Mantiqueira " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Sapo-flamenguinho (Melanophryniscus moreirae) é sinal de equilíbrio na Mantiqueira " Foto: Pablo Bucciarelli
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    O alimento fortaleceu os aventureiros durante a travessia " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Passar pelo Vale do Ruah deixa suas marcas, graças ao Capim Elefante " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Pico dos 3 Estados, ponto de encontro entre Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Os pés foram massacrados durante a travessia " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Sentindo as boas vibrações de amigos, familiares e seguidores durante a travessia " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Serra Fina vista de Itatiaia " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Seguindo rumo ao Parque Nacional de Itatiaia, com sol e revigorados depois de algumas horas de sono " Foto: Pablo Bucciarelli
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    No Posto do Marcão prontos para cruzar o PNI " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Surpresa, chuva de granizo " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Rumo ao Vale do Maromba, com Serra Negra ao fundo " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Nascer do Sol na Serra Negra " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Encontro com o Rio Aiuruoca, finalmente " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Fragária, um ponto de descanso especial " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Escola em Fragária foi um porto seguro, cheio de alegria e emoção " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Ao fundo o último destino, Serra do Papagaio " Foto: Pablo Bucciarelli
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    A última e derradeira refeição, a mais completa " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Na Serra do Papagaio, cruzando a Estrada Trans-Daime " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Adeus à Serra do Papagaio " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Chorando, sorrindo, cantando, sempre agradecendo pela dádiva da vida " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Mais magros, cheios de dores e machucados... mas sorrindo, felizes! " Foto: Pablo Bucciarelli
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    A melhora maneira de comemorar, cervejaaaaaaaaa! " Foto: Pablo Bucciarelli
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    Depois de 8 dias a pé, uma carona até a pousada... de Cross Fusca... " Foto: Pablo Bucciarelli
424km 8 dias e 3h15 16.738m 31h
DISTÂNCIA PERCORRIDA TEMPO DE TRAVESSIA TOTAL DE DESNÍVEL TEMPO EM REPOUSO
 

- Cara, é um privilégio fazer pela primeira vez Marins-Itaguaré à noite e com essa lua cheia – Eu disse a Pablo.
- É maninho, um baita privilégio – respondeu Pablo, bem empolgado por chegar numa das primeiras travessias de montanha e, sobretudo, por estar na Marins-Itaguaré, quase quintal de casa.

Eu nunca tinha feito a Marins-Itaguaré, assim como desconhecia 90% do percurso que escolhemos para cruzar a Serra da Mantiqueira, por quase toda sua extensão no ambicioso projeto de Pablo (Bucciarelli), do qual tive o prazer de ser convidado, chamado Transmantiqueira: uma gigantesca travessia, saindo da vila de Monte Verde e terminando na cidade de Aiuruoca, bordeando a divisa dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, tentando valorizar ao máximo a crista da serra, mas seguindo um caminho que permitisse conectar as clássicas travessias de montanha (Marins-Itaguaré, Serra Fina, Parque Nacional de Itatiaia e Serra do Papagaio). Lógico que a grandeza do projeto afetava nossa vaidade, mas também era uma maneira de conseguirmos chamar atenção para o potencial de longos trekkings, ainda pouco explorados no país.

Era o começo da noite e chegamos ao cume do Marinzinho, após já ter passado no cume do Marins. No alto conseguimos ter uma visão 360º da Mantiqueira: de um lado o Vale do Paraíba e suas luzes interconectadas, um emaranhado de cidades pregadas umas as outras acompanhando a planície; do outro lado, um mar de montanhas com pequenas luzes no fundo dos vales, pessoas que ainda se refugiam no máximo da simplicidade e vivem vidas pacatas embrenhadas na Mantiqueira. No Leste a Lua cheia subia seu percurso a caminho do zênite, mas a oeste tinha uma massa negra que impedia a visão das estrelas e do horizonte. O vento começou a soprar mais forte e a massa foi nos alcançando pouco a pouco.

- Aqui é o cume do Marinzinho? – Perguntei ao Pablo.
- Sim – ele responde meio ansioso – olha a crista a nossa frente, por onde vamos passar. Aproveita e coloca o anorak, vai chover!
- Sim – Respondi, desanimado.

Sabia que corríamos esse risco, afinal escolhemos a pior época do ano para fazer a travessia, o início da temporada das chuvas. No entanto, estava seguro, pois há um ano e meio tinha passado um aperto pior com Pablo, quando ficamos 18 horas perdidos na Serra Fina e tivemos que passar a noite embaixo de chuva sem nenhum equipamento para nos abrigar além das jaquetas e uma manta térmica para os dois. Pior que aquilo não poderia ser afinal dessa vez Pablo conhecia o caminho e tínhamos nossos bivaques. Ter passado uma situação tão chocante fez com que nossa amizade se fortalecesse. Também foi nesse dia que Pablo me convidou para acompanhá-lo na Transmantiqueira.

Dia 13 de outubro desse ano, exatamente um mês antes do início da travessia, deitado no sofá da sala da república de estudante (Consulado) que morei em Ouro Preto, de ressaca ainda, atendo uma ligação do Pablo:

- Maninho, chegou a hora. Estou sentindo que vamos fazer a Transmantiqueira. Estou bem fisicamente e temos uma janela no feriado do dia 15 de novembro.
- Beleza – Respondi, depois de escutar tudo calado, meio sem entender direito. Desliguei o telefone. Parei, pensei um pouco, levantei e peguei o telefone e liguei de volta.
- Irmão, cê tá maluco? É época de chuva, vai ser muito foda, vamos ter que dar muita sorte.
- Se você quer um desafio tem que saber que corre o risco de passar “perrengue”! – Respondeu meio sarcástico.

Homens são assim, sempre gostam de testar a coragem do outro, sobretudo se são amigos. A relação parece que é medida por uma dose de jocosidade misturada a enfrentamento. Por outro lado, apesar das brincadeiras, sabíamos que juntos tínhamos a força suficiente para enfrentar qualquer situação “perigosa”; e no fundo, sabíamos que iriamos passar por alguns apuros, mas que seriam recompensadores para nossa vida. Apenas esse sentimento nos movia rumo àquela “loucura” que julgávamos capazes de enfrentar. O desconhecido e a incerteza era o atrativo que queríamos para acalmar nossas almas sedentas pelo novo. Fazer algo original, hoje em dia, é quase uma arte, e nosso projeto precisou de um ingrediente a mais para ficar com um bom tempero – andar leve, sem nenhum equipamento de camping ou conforto.

Uma chuva infernal desabou sobre nossa cabeça logo após descer do cume do Marinzinho. Como andávamos na crista da serra o vento soprava brutalmente, fazendo com que as gotas geladas penetrassem pelo capuz do anorak, molhando aos poucos a roupa de baixo. Ir leve significa apostar na velocidade para sair das situações ruins, apenas tínhamos uma coisa a fazer com aquela chuva: andar, acertar o caminho e sair logo daquela montanha, custasse o que custasse.

Nossos passos eram rápidos, tentávamos nos concentrar para manter o corpo aquecido e não sucumbir ao frio que insistia em fazer nossos lábios tremerem e aumentava a frequência respiratória. Comer? Apenas alguns doces fáceis de serem digeridos. A trilha era uma mistura de escalaminhada em rochas – muito lisa na chuva – com descidas perigosas, recheada por um mato duro, que insiste em aranhar cada pedaço da pele que ficava exposto. Achar o caminho exigia uma boa dose de conhecimento da região e senso de “cão farejador”.

Pablo estava guiando o caminho perfeitamente. Chegamos numa clareira de capim elefante, ele parou um instante para analisar por onde a trilha seguia, tomei a frente e segui no sentido da crista. Rápido a trilha sumiu e fiquei preso no meio de moitas do tal capim elefante. Voltamos um pouco e pegamos uma trilha que seguia contra o rumo.

- Pablo – intervi – essa trilha que estamos seguindo está indo contra o azimute, percebeu?!
- Anda, me segue, e ilumina no alto e veja se consegue ver um totem – Respondeu nervoso.

A chuva nos castigava, a mais de duas horas não falávamos um com o outro. Nesses momentos, qualquer troca de palavra é um ritual tenso. No alto de uma pedra, escondido em meio à vegetação, um totem reluziu quando iluminei com a headlamp.

- Ali Pablo, ali está o totem – Eu disse meio incrédulo pela trilha seguir contornando pela lateral da crista.

Observar os caminhos que as trilhas fazem nas montanhas é um exercício para a vida. O caminho nunca segue a lógica de conectar dois pontos através de uma reta. O percurso baliza os obstáculos que encontra, contorna aquilo que interrompe a passagem, tangencia charcos. O caminho segue sempre por onde é mais fácil passar – que nem sempre é tão fácil assim, não pela lógica do caminho mais curto. Na montanha é assim, e é uma lição para a vida. De que vale insistir num problema? Melhor dar dois passos atrás, ir contra o caminho, contornar, e sair em um ponto mais a frente. Mais longo, entretanto na frente.

- Porra, que bom! Conseguimos passar pelo trecho mais difícil de navegação – Respondeu Pablo, com uma expressão feliz, mas cansado.

Aos poucos a intensidade da chuva e do vento foi diminuindo. Estávamos bem cansados, a nossa velocidade média não ultrapassava míseros dois quilômetros por hora, o sono já vinha com força bestial nos cobrar os três dias de esforço quase sem dormir que já tínhamos empreendido. Pablo começou a vacilar, estava exausto do esforço que vinha fazendo para nos guiar. Não pensei duas vezes, embalado pelo frio que congelava meus ossos assumi a dianteira rastreando a trilha com todo cuidado, apesar de não conhecê-la. Tentava seguir minha intuição. Já nos aproximávamos do cume do Itaguaré, que se apresentava como uma silhueta escura imponente entre a fina nuvem de névoa.

A crista que vínhamos andando terminou encontrando a montanha que sustenta o pico do Itaguaré. Pouco abaixo do cume, ela começa a descer. Os pensamentos eram confusos, a realidade era onírica, variava numa mistura de ansiedade do fim e a vontade de estar numa cama quente, de banho tomado com uma bela tigela de sopa na frente. Mas não, estávamos no alto da Mantiqueira e os vacilos custam caro, muito caro...

Pablo simplesmente perdeu a conexão com a realidade de tanto sono, ele andava lento e vacilando apenas seguindo meus passos. Eu, ansioso por terminar, procurava os totens que indicavam o caminho nas pedras lisas para descer. A incerteza da percepção já alucinada pelo sono fazia com que perdêssemos a todo momento o melhor caminho, tornando a empreitada ainda mais cansativa. Encontrar os totens ia cada vez ficando mais difícil. De repente eles sumiram, na minha frente visualizo uma grande escarpa adentrando montanha abaixo para o vale, a minha direita a montanha desce de forma menos abrupta para se conectar a outras menores. Segui pela direita, na face menos íngreme, pensando ser por ali o caminho. Nada... Perguntei a Pablo se lembrava, mas sua resposta foi que precisava dormir urgente.

Não tinha jeito, eu não sabia o caminho e Pablo chegou no seu limite, o melhor era parar e dormir. Achamos uma pequena saliência de pedra que conseguia proteger nossas cabeças, pelo menos, da chuva que caia. Forramos o chão com a lona e bivacamos embaixo daquela pequena laje, sem conseguir evitar muito o vento e sendo molhados por gotas que vinham na diagonal. Não dava para dormir, apenas esperar os raios do dia iluminar a nossa mente e aquecer o corpo para conseguirmos encontrar a descida. Em duas horas clareou, mas o tempo seguia encoberto.

Nos arrumamos aos poucos, sem falar muito. A vontade dos dois era de ir embora, nos refugiar no conforto de nossos lares, de estar perto das pessoas que nos alegram, quentes e bem alimentados. Mas não, não estávamos nem na metade do nosso projeto e pensamentos como esses devem ser afastados, é uma linha muito tênue que nos mantinha com o foco na travessia. Não tinha o que reclamar, afinal estávamos fazendo aquilo que mais amamos. A descida era na escarpa, pela drenagem que formava uma canaleta entre as rochas, cinquenta metros abaixo ela entrava dentro da mata e em quarenta minutos chegamos no campinho que marca o final da travessia Marins-Itaguaré. Não era o final para nós, no entanto chegar ali significava uma chance de recomeço, depois do trauma da noite passada.

Nas nossas frequentes visitas à Serra Fina acabamos fazendo amizade com guias da região, Will (Willian Peres) é um desses rapazes mineiros criados na montanha que vive de guiar grupos. Ele se ofereceu em arrumar um lugar no caminho de nossa travessia para comermos e descansarmos. Acabamos na Fazenda das Hortênsias, de seu amigo, que nos recebeu amigavelmente. Os proprietários têm um criadouro de truta justamente na estrada que elegemos como rota. Parecia que aquilo foi programado por Deus há séculos esperando esse momento – ou será a arte do bom encontro, como dizia o poeta? Quando chegamos à fazenda fomos recebidos com uma bela truta assada no forno. De quebra ainda, tomamos um banho quente e dormimos uma hora numa cama com cobertor. Gente de montanha é assim, gosta do desafio, seja o seu ou alheio. Acho que eles não faziam ideia, mas aquele prato de comida foi o suficiente para nos devolver todo o ânimo e nos lembrar qual era a razão de estarmos ali.

A razão era muito simples. Com nossos próprios corpos, com nosso sofrimento, queríamos chamar atenção das pessoas que a Mantiqueira é nossa! Digo isso não num sentido de propriedade, ou seja, de sentir-se proprietário daquele terreno, como muita gente que explora aquela região sob o slogan do natural experience revestido da intencionalidade de ganhar dinheiro, custe o que custar. Ela é nossa como possibilidade. Ela é magnifica, afeta nossa sensibilidade, é um lugar selvagem e duro, ao mesmo tempo belo e sublime, que te convida na carne – e na fé – a pensar. Um pensamento que é embalado pela dificuldade de suas escarpadas montanhas e a satisfação de estar no topo delas. Um pensamento que te ajuda a buscar de forma mais simples quais são as coisas que realmente importam na vida.

Lógico, sempre podemos encontrar isso em qualquer lugar, em qualquer religião, em qualquer filosofia, literatura, ou onde se queira buscar. Mas existem almas inquietas que para ter essa sensibilidade precisa de algo que desperte, algo que te mova nessa movediça lama que consiste esse projeto de modernidade, onde “ter” e “parecer” são essencializados no lugar do “Ser”. Penso eu – e me desculpem estar filosofando – que o “Ser” é algo bem mais simples e precisa de pouco para realizar-se, basta sair do lugar comum, basta colocar-se em situações que as vezes fogem do controle de todas as formas de proteção que se constrói para dar-se abrigo, que irão descobrir-se bem menores do que acreditam ser – descobrir-se menor é o grande passo para o gigantismo da alma.

Em outras palavras, é o exercício de arrancar as grades do berço – ou do condomínio? – e ir assistir o filme que passa lá fora. Por que o “ter” e “parecer” nada mais são do que uma quantidade de medo inútil que fizeram você acreditar, e acreditando nesses medos você entra nesse lodo do espetáculo social. Tangenciar esses medos supérfluos e ir buscar no fundo da sua alma seus verdadeiros medos é um exercício belíssimo. Nesse ponto, se encontram os artistas, os viajantes, os poetas, os escritores, os montanhistas e todas aqueles que se aventuram no terreno da incerteza e da insegurança, a fonte de toda a criatividade. E digo mais, isso é uma arte – a estética do desconhecido.

E há muito essa estética vem sendo o motor da humanidade. Não foi através das cruzadas religiosas que a Europa medieval despertou dos mais de mil anos sombrios. Mas indo em busca das especiarias nas Índias, conhecendo terras distantes, se aventurando no desconhecido, que os europeus descobriram as bibliotecas de Constantinopla, conseguiram sair das trevas do feudalismo e renasceram. Na arte, o surrealismo e um grupo de artistas do começo do século XX mergulharam profundo na alteridade para criar. Oswald de Andrade, já dizia: “Só interessa aquilo que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”. Talvez, seja a nossa hora de renascer nesse projeto de mundo, o desconhecido é nossa esperança, a aceitação da diferença e da diversidade, o motor. E a Mantiqueira é um desses lugares aonde até mesmo essas filosofias baratas que vim expondo são trazidas à flor da pele naqueles momentos que mesclam as contradições entre a dor do corpo e o belo da experiência com a natureza.

Saímos da Fazenda das Hortênsias no meio da tarde, a chuva caia insistentemente. O frio voltou, ainda tínhamos uns vinte e cinco quilômetros de estrada de terra até chegar no início da Serra Fina, que acabaríamos fazendo à noite. Nada disso nos desesperava, estávamos conversando animados sobre nossa aventura. Aos poucos fomos nos calando e curtindo a fina chuva que caia. Descíamos por uma estradinha que adentrava num vale, a fotografia da cena é um presente que nunca vai ser esquecido das minhas lembranças. Pablo, para driblar o piso escorregadio, tirou o calçado e seguiu descalço, numa perfeita naturalidade. Apesar de molhado, eu agradecia a Deus por tudo que estava passando, estava profundamente feliz. Nem precisávamos conversar, naquele momento, o silêncio nos ensinava mais que mil livros.


Infos
• Confira os detalhes da travessia no wikloc.
• Veja como foi a Cobertura Online da Transmantiqueira.