Uma noite voltando do céu
da redação, Texto: Mox Kenzler
24 de maio de 2012 - 17:00
 
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  • Foto: Mox Kenzler
    Na trilha do Monte Roraima Foto: Mox Kenzler
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    Cedric preparando o jantar na laje de pedra em uma noite de céu inacreditavelmente estrelado" Foto: Mox Kenzler
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    Chuva chuva muita chuva" Foto: Mox Kenzler
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    Abismo - mais de 1000m na vertical" Foto: Mox Kenzler
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    A diversidade de paisagens é incrível" Foto: Mox Kenzler
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    Ultima noite no parque" Foto: Mox Kenzler
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    Saindo do hotel - inicio da volta" Foto: Mox Kenzler
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    O Poço-sumidouro das águas de todo o vale - bem no meio do topo - Foto de Lorenzo Bagini" Foto: Mox Kenzler
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    Uma das muitas plantas insetívoras e endêmicas do Roraima" Foto: Mox Kenzler
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    Na trilha, ou melhor na água" Foto: Mox Kenzler
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    Um arco-íris cobre a trila como se fosse um pórtico para um outro mundo" Foto: Mox Kenzler
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    Um dos inumeros rios, pouco antes de despencar pela encosta do Tempuy" Foto: Mox Kenzler
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    Chuva sobre a Savana venezuelana" Foto: Mox Kenzler
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    Mox na Triplice fronteira-Onde Brasil Venezuela e Guiana se encontram" Foto: Mox Kenzler
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    Grupo na triplice fronteira-Onde Brasil Venezuela e Guiana se encontram" Foto: Mox Kenzler
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Na trilha do Monte Roraima Foto: Mox Kenzler

 

Acordei em pleno vôo. Não me lembrava da decolagem, devo ter dormido ainda antes do avião fechar as portas. Estranhei, era a primeira vez em dez dias que eu estava “só”, o avião estava cheio, mas eu estava ali sozinho. Enquanto Boa Vista ficava pra trás no longo vôo pra casa, comecei a lembrar como tinha chegado até ali. Estava voltando do Monte Roraima, numa viagem de inúmeras horas de vôos e conexões, centenas de quilômetros de carro e jipe, finalizados com oito dias a pé chegando a 2875m de altitude.

O desconforto do avião me deixava com saudades das noites acampando na proteção dos “hotéis” de pedra no topo da montanha.

Já era madrugada, eu tentava me acomodar e dormir mais um pouco, enquanto ainda sobrevoava a imensidão negra da floresta entrecortada pelos rios que refletiam a luz prateada da lua. A mesma lua que há algumas noites ofuscou o inacreditável céu estrelado, enquanto jantávamos sobre uma laje de pedra.

Fui relembrando da longa caminhada da véspera, onde me separei do grupo e durante horas tive a grande Savana venezuelana só pra mim; da vertiginosa descida pelo paredão um dia antes; da travessia das Lagrimas, uma cachoeira que cobre a trilha numa chuva eterna; da escalada do Maverick, com sua espetacular vista sobre todo o “Tepuy” emergindo como uma ilha entre as nuvens. O interminável trekking carregando a pesada mochila, através das mais estranhas formações esculpidas pelos ventos e chuvas por bilhões de anos; do banho na “Jacuzzi” com suas águas cristalinas e gelada. O presente de “Roroima” , a mãe das águas na cultura indígena, ao parar a chuva no exato momento em que chegávamos ao Abismo, descortinando os imensos paredões rochosos que despencam por mais mil metros até a floresta amazônica.

Em alguma noite no início dos anos oitenta meus pais me levaram ao MIS (Museu da Imagem e do Som), onde assisti a um áudio/-visual de um amigo deles que acabara de voltar de uma expedição há à uma montanha quase inacessível, com estranho formato de mesa, num dos lugares mais remotos do país. Enquanto ele contava das aventuras sob chuvas torrenciais, neblina e frio, víamos as fotos de paisagens que pareciam tiradas de algum filme de ficção ou de alguma outra era: lagos cercados por rochas esculpidas, exóticas plantas “carnívoras” e infinitos rios e cachoeiras.

Meus pais não imaginavam, mas aquela noite ficaria marcada em mim pra sempre, um dia eu também chegaria ali. A vida deu voltas e as prioridades foram mudando, outros projetos foram passando na frente e o Monte Roraima ficou meio esquecido. Até que no final do ano passado, surgiu meio por acaso o convite do Lorenzo Bagini para integrar uma expedição organizada pela sua recém criada Sertão Expedições.

Na primeira semana de janeiro juntamos o grupo em Boa Vista, de onde partimos de carro para Santa Helena de Uairén já na Venezuela, onde nos juntamos ao Cedric, o nono integrante do grupo, que tinha viajado alguns dias antes para comprar parte dos alimentos e acertar alguns detalhes da logística. No dia seguinte após resolver alguns entraves burocráticos na fronteira seguimos de jipe com Alex, um índio da Guiana que seria nosso guia, até a aldeia dentro do parque Nacional Canaima, onde nós nos juntamos a mais dois carregadores e iniciamos nossa caminhada de 97km. Caminhamos por dois dias até a base do paredão onde montamos acampamento minutos antes da chuva torrencial que cairia por boa parte da noite e da tarde seguinte já no acampamento do topo do Roraima.

O topo que na verdade é um imenso platô, com aproximadamente 90km², todo entrecortado por rios, lagos e estranhas formações rochosas , abrangendo três países: Brasil, Venezuela e Guiana, é considerado uma das mais antigas formações do planeta com 2 bilhões de anos, naturalmente protegido por suas escarpas que chegam a mil metros. O lugar ficou isolado até 1884 quando um botânico inglês chamado Everard Im Thurn descobriu a via pela qual subimos, ainda hoje o único acesso conhecido sem uso de equipamentos de escalada.

Este isolamento geográfico, aliado ao fato do monte estar protegido por parques ambientais tanto na Venezuela como no Brasil, fazem com que a experiência de vivenciar aquela montanha seja absolutamente única e totalmente indescritível, a paisagem às vezes lunar, outras vezes parecendo uma pintura do Dali coberta pela neblina. A neblina quase constante faz com que a paisagem mude a cada minuto. Depois de alguns dias na montanha, parece normal se esconder a noite na barraca sob uma violenta tempestade tropical para minutos mais tarde ser surpreendido por um céu coberto de estrelas e acordar na manhã seguinte num estranho mundo branco escondido sob uma espessa camada de neblina que se desfaz como num passe de mágica, dando lugar para um céu azul profundo e ao sol do equador.

Segundo os índios Indios Macuxis, o Tepuy Roroima é o local onde nasceu Makunaima, gerado pelo casamento do Sol com a Lua. Outra lenda Macuxi diz que se alguém gritar no seu topo o guardião fará chover, pois lá repousam os espíritos dos Pagés. Para os índios Pemon, o Monte Roroima é a mãe das águas, devido às inúmeras cachoeiras e nascentes, e segundo crença Pemon a água é o sangue do planeta. As inúmeras lendas, a imprevisibilidade do tempo, as surpresas da paisagem, a estranha sensação de um improvável encontro a qualquer momento, o barulho do vento, o silencio da noite, o deslumbre das paisagens intocadas, o calor do sol e o frio da noite, a incrível sensação de plenitude e realização me mostraram que estar lá é muito mais do que eu podia imaginar naquela noite a quase trinta anos atrás. Definitivamente o “Roroima” não é passível de fotos ou descrições, ele tem que ser vivido.

Os índios têm razão: aquele lugar é sagrado.