Aconcágua temporada 2012\2013 - Parte Final
Texto: Milton Marques
8 de outubro de 2013 - 17:30
 
 
 
  • Foto: Milton Marques
    Plaza de Mulas - CB Campo Base Foto: Milton Marques
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    Vista Parede Sul do Aconcágua" Foto: Milton Marques
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    Canada 4.900m - C1" Foto: Milton Marques
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    Nido de Condores - C2 5.550m" Foto: Milton Marques
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    Por de sol no C2 - Nido de Condores" Foto: Milton Marques
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    Andinista deixando Acampamento Berlin" Foto: Milton Marques
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    Outro possivel C3 - Berlin " Foto: Milton Marques
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    Subida em zig zag para C3 " Foto: Milton Marques
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    Nuvens com formação de tempestade" Foto: Milton Marques
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    Visual durante a subida " Foto: Milton Marques
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    Dia de Cume" Foto: Milton Marques
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    Trecho final da Travessia Inicio da Canaleta " Foto: Milton Marques
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    Vista da Parede Sul " Foto: Milton Marques
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    Vista do C3 colera do Cume " Foto: Milton Marques
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    Cume do Aconcágua " Foto: Milton Marques
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    Foto de Cume " Foto: Milton Marques
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Plaza de Mulas - CB Campo Base Foto: Milton Marques

 

De volta à civilização, a bela cidade de Mendoza logo após dez dias de aclimatação na região do Cerro Plata. Estamos em um hostal (albergue) eu e Marcos muito próximo ao hotel onde estarão os clientes da M.E que chegarão nós próximos dias.

Mendoza é uma das cidades da Argentina que conheço bem, pois quase todo verão estou por aqui. Essa é a época que se realiza as escaladas das montanhas da região, a mais popular e a mais visitada é o Aconcágua, mas também existem outras montanhas que superam os 6.000 metros, não são muito conhecidas e pouco visitadas entre elas estão o Mercedário, Tupungato, Plata, etc.
Logo após uma jornada na montanha sempre volto com uma fome de leão e a primeira coisa que fizemos foi sair para jantar. Em Mendoza existem vários locais para comer, mas o recomendado esta noite foi uma Parrilla (churrascaria).

Após uma boa noite de sono no dia seguinte fomos para o Hotel encontrar com a equipe que estaríamos trabalhando juntos no Aconcágua. Seriamos Manoel, Lisete, Marco e eu (Milton Marques) teríamos dois dias longos antes da partida para a montanha.

No primeiro dia nosso objetivo era checar todo o equipo que os clientes trouxeram do Brasil, verificar se seriam úteis na escalada e comprar todo o necessário para a os dias de acampamento alto. Necessitaríamos comprar alimentos, gás combustível para os fogareiros e depois acompanhar os clientes em suas compras finais de equipos. Os alimentos seriam utilizados nos campos altos, pois até a base teríamos os serviços da empresa Inca.

O segundo dia seria para acompanhar os clientes ao escritório do Parque Provincial e tirar o Permiso de escalada e trekking e ajudar a organizar seus equipos nas mochilas.

No parque compraríamos três permisos para o trekking longo de 7 dias e catorze permisos para escalada de 20 dias. Nesse tempo teoricamente seu corpo já se adaptou a altura e você com o cume na mão volta para casa.

Também existe outro permiso de 3 dias de trekking não muito utilizado por ser muito curto e não permitir caminhadas mais longas pela falta de aclimatação.

Nosso grupo seria grande 10 escaladores, 3 trekkers e os 4 guias. Os trekkers fariam todo o percurso de aclimatação com o grupo e nos acompanhariam até Plaza de Mulas onde dormiriam duas noites antes de voltarem com algum guia da agencia Inca até a entrada do parque e depois um translado para Mendoza.

Cronograma

• Três noites em Confluência a 3.300m, o nosso primeiro acampamento dentro do parque. No segundo dia saímos para um trekking para aclimatação a 4.000 m (base da parede sul do Aconcágua). No terceiro uma caminhada curta só para nos movermos um pouco e descansar. Esses dias servem para o processo de aclimatação, pois já a esta altura o corpo começa a sentir os efeitos da falta de pressão.
• No quarto dia saímos para Mulas em um trekking longo de umas 7h à 9h.
• Dia de descanso e aclimatação em Mulas.
• Três noites em Plaza de Mulas contando o dia da chegada. Um dia de porteio (Subida, levando equipo para o campo mais alto) a C1 4.950m (Canadá).
• Dia de aclimatação e utilização de equipos técnicos Botas Duplas e Crampons com pernoite em Mulas.
• Duas noites no C1 com um dia de porteio a C2 5.550m (Nido de Condores).
• Três noites no C2 com um dia de porteio a C3 6.000m (Cólera).
• Dia de descanso no C2 e aclimatação.
• Duas noites no C3 com um dia de ataque a Cume. Chegamos pela tarde, descansamos e saímos na madrugada para o cume.


Este programa de aclimatação é ideal para quem esta entrando no parque vindo de regiões mais baixar. Nos que já vínhamos do Cerro Plata aclimatados, estes dias seriam para nos fortalecer e desfrutar das noites de sono sem a insônia dos primeiros dias em altitude.

Logo após os dois dias em Mendoza já com tudo preparado, saímos em direção a nosso objetivo o Parque Aconcágua. São 170 km que separam Mendoza e o parque do Aconcágua em caminho sinuoso acompanhando o rio que nasce nas geleiras das cordilheiras. Com mais 10 km você pode cruzar a fronteira com o Chile e ir em direção a Santiago.


Nosso primeiro destino era o hotel Ayelen que esta antes da entrada do parque onde a empresa Inca realiza sua logística de transporte de mulas. Todo nosso material seria deixado para ser enviado a Plaza de Mulas, deixando apenas uma pequena mochila de não mais de 6 kg (saco de dormir e uma troca de roupa) em confluência onde passaríamos três noites.


Uma vez solucionado o tema das mulas nos dirigimos à entrada do Parque para checagem dos permiso de trekking e escalada. Tivemos um pequeno problema com um dos permiso que estava como trekking e era para um escalador. Como tínhamos o apoio do pessoal da inca tudo se resolveu rápido. Parece pouco tempo, mas só após toda esta papelada é que conseguimos finalmente começar a caminhar.


O dia não estava muito agradável, pois estava ventando forte umas nuvens baixas e o frio a 2.400m se fazia sentir. Esse percurso se percorre em uma media de 4 h e é uma caminhada tranquila que vai ganhando altura gradualmente.


Chegamos ao campo Confluência as 17h aproximadamente e fomos recebidos pelo pessoal da Inca, responsável pelo o serviço aqui e no acampamento base de Mulas. O cozinheiro, um colombiano muito boa gente seria o responsável de alimentar este batalhão de montanhistas famintos.


Neste acampamento temos o serviço de barracas duplas ou individuais, uma barraca refeitório com três refeições e um lanche da tarde, banheiro com a possibilidade de uma ducha quente no segundo dia.


Todos caminharam relativamente bem chegando até este ponto com 4h de caminhada. Eu vim um pouco mais atrás com uma diferença de 30 minutos acompanhando um casal que veio para fazer o trekking. Ele estava em boas condições físicas tinha se preparado para a caminhada, ela já não estava tão bem fisicamente, tinha dificuldade para manter um ritmo.


Logo após um lanche da tarde na barraca refeitório todos foram para suas barracas para se abrigar, pois o frio já estava chegando.


O grupo parecia bem motivado todos com expectativas altas com relação ao nosso objetivo. Durante o jantar alguns sentiam uma pequena dor de cabeça outros sentiam a falta de ar ao caminhar de sua barraca até o refeitório. Foi uma noite de descanso apesar do forte vento que arrastava terra para dentro das barracas.


Pela manhã após o café saímos para um trekking de aproximadamente 5h até a parede sul do Aconcágua a (4.000m), esta caminhada nos ajuda no processo de aclimatação. É uma caminhada relativamente tranquila onde o fundamental é manter o seu ritmo e obedecer aos sinais de seu corpo.


Novamente o grupo se dividiu e fiquei atrás acompanhando o casal que seguia lentamente pela trilha. Neste trecho senti que a mulher não estava desfrutando de sua viagem e resolvi comentar ao Manoel, pois acreditava que o trecho que viria entre confluência e Plaza de Mulas seriam muito duros para ela. Sabendo que ficaria por lá só uma noite antes de voltar pelo mesmo caminho. Nos Juntamos ao grupo com um pouco de atraso e juntos observamos os glaciares da parede sul. A descida foi muito mais fácil e em 2h já estávamos em confluência.


No dia seguinte fizemos uma pequena caminhada de 2:30 h em direção ao vale chamado de Playa Ancha o mesmo que nos levaria ao nosso destino Plaza de Mulas. O grupo se sentia forte e animado, pois todos estavam se aclimatando bem e a caminhada foi bem tranquila.


Apesar de se sentir melhor na caminhada o casal do trekking resolveu não seguir viaje até mulas. De certa forma nós concordamos, pois seria todo um esforço para ela que não estava preparada para este desafio. Infelizmente seu marido que se sentia bem e forte não teve alternativa se não voltar com sua esposa.


Saímos cedo de confluência com todo nosso equipo pessoal e as mulas levariam as mochilas e sacos de dormir dos clientes. Nosso tempo estimado seria de 9 h até Mulas.


O grupo tinha um ritmo muito forte a principio Manoel gosta de andar rápido e isso motiva que os clientes tentem acompanhá-lo. Ele faz paradas para gravar imagem e para descanso, mas anda rápido. Isso começou a preocupar-me, pois via que alguns de seus clientes estavam se esforçando muito para seguir seu ritmo. Conversei com o Marcos e resolvemos parar o grupo para explicar que não estava em uma corrida e que deveriam fazer seu ritmo e que não deveriam se adiantar ao Marcos que estaria marcando um ritmo mais tranquilo. Isso ajudou a que todos conseguíssemos chegar a Plaza de Mulas no final da tarde com pequena diferença entre os primeiros e os últimos. Forçar o ritmo a esta altura não é muito bom, porque geralmente se sente muita dor de cabeça horas depois de chegar ao CB (Campo Base) por não estar devidamente aclimatado.


No CB fomos recebidos com um café da tarde, servidos em uma barraca refeitório da Inca. Também nos forneceu barracas duplas e individuais para quem solicitou.


Teríamos três dias para aclimatar e nos preparar para nossa investida na montanha. O dia seguinte seria de descanso em Mulas com uma caminhada tranquila e teste das botas duplas e crampons.
Plaza de Mulas tem uma estrutura gigantesca com tudo que uma pessoa pode necessitar em um campo base, por exemplo, telefone, internet, duchas e até uma pequena loja com souvenir.


Como seriam as coisas nos próximos dias! Tínhamos que começar toda a logística de portear (levar) equipo e alimentos para os campos altos. Para isso teríamos que subir carregados com nossos equipamentos e deixar em mochilas no C1 (4.000m) Canadá. A maioria dos clientes pagou um valor extra para que um porteador levasse suas coisas em duas viagens e isso seria feito em todos os acampamentos.


Mas os clientes devem subir para fazer seu processo de aclimatação levando apenas seu equipo pessoal, indo até o acampamento C1 e voltando para a CB.


No segundo dia em Mulas após uma noite complicada pelo vento e muita insônia tivemos outra desistência. Um senhor de uns 60 anos resolveu que até ali era seu limite e resolveu voltar para casa, baixaria junto com nossa amiga do trekking que também voltaria no dia seguinte. Tínhamos outro problema, um dos nossos clientes mais forte estava sofrendo com uma dor de dente insuportável. Fizemos o que deu por ele, mas em condições assim o melhor a fazer é buscar ajuda de um profissional. Com isso no terceiro dia de mulas enquanto partimos para nosso primeiro porteio e aclimatação, os três nos deixaram com destino a Mendoza.


A subida até o C1 foi tranquila todos conseguiram completar com bastante tranquilidade e em um tempo bom. Só que ao começar a descida outra cliente resolveu desistir de sua ascensão. Estava com problemas familiares e por este motivo resolveu que no dia seguinte voltaria para passar o natal em família.


Dia de subida para o C1, após nosso café da manhã e arrumação de mochilas, estávamos prontos para subir para nossa primeira noite na montanha sem serviço. Cada dupla estava equipada com barraca, fogareiro a gás e alimentos variado para estar independente na montanha.


Antes de sairmos uma surpresa nada agradável, tivemos a visita de um grupo de guias de uma empresa local informando que nós não poderíamos subir, pois estávamos com um guia que não era cadastrado no parque. De alguma maneira a associação dos guias do Aconcágua soube que o Marcos estava trabalhando e fez uma denúncia contra ele no parque. O Marcos é argentino e segundo as regras ele não poderia estar no parque trabalhando. O pior foi quando pensando que eu também era Argentino quiseram fazer o mesmo e me tirar do Parque. Coisa que o Manoel teve que resolver enquanto eu subia para o C1 com os clientes.


Enquanto isso com um guia a menos chegando ao C1, tivemos que montar seis barracas e isso é muito esforço a 4.900 m. Uma vez tudo montado no C1 percebemos como um guia a menos nos faria falta. Então dos 10 escaladores agora só nos restavam sete com três guias.


O C1 (Canadá) é um acampamento pequeno, exposto ao vento e com pouco lugar para conseguir água. Agora a coisa seria mais dura, teríamos que nos organizar com nosso companheiro de barraca e buscar água ou derreter neve. Pela manhã no C1 a água esta congelada e teríamos que fazer água para todas as necessidades, pois seriamos independentes na logística de barracas.


O dia seguinte foi um dia de porteio a C2, Nido de Condores 5.550m, a subida foi tranquila e todos se sentiam bem, chegamos no C2 com um tempo de 4h e baixamos em apenas 1:30 h.


A previsão de clima nos dava um bom panorama para os próximos dias e resolvemos seguir nossos planos e no dia seguinte ao porteio mudaríamos para o C2. Uma vez no C2 descansaríamos um dia e voltaríamos a subir ao C3 para aclimatar dois dias depois da nossa chegada.


A rotina dos acampamentos é muito parecida, pois a responsabilidades que você tem é de buscar neve para poder fazer água e assim se hidratar, se alimentar e estar o mais descansado possível.


Uma logística complicada nos dias frios é o banheiro. Aconselhamos a todos que levassem um recipiente para o numero 1, a urina, para não precisar sair da barraca principalmente a noite. Já o numero 2 é mais complicado, sempre tínhamos que sair para um lugar abrigado do vento, coisa não muito fácil de encontrar. Para isso tínhamos dois pequenos baldes plásticos que eram forrados também com um plástico negro que era separado para ser levado para baixo pelo porteador. Todo lixo produzido por nós na montanha deveria ser baixado, pelo grupo ou contratando o serviço de um porteador.


Porteio e aclimatação para o C3, Cólera 6.000 m, a ideia de fazer uma aclimatação à cólera é chegar a 6.000 m e saber como os clientes se sentem a esta altura. A mudança de acampamento só deve ser feita quando se tem certeza que no dia seguinte vamos ter clima bom para tentar o cume, pois não se recomenda estar mais de uma noite a essa altura antes de tentar o cume. O corpo se desgasta muito tentando produzir energia para aquecer e alimentar suas células que já estão morrendo pela hipoxia.

Fizemos nossa subida ao C3 em 5h um tempo relativamente bom. Tivemos um problema quando estávamos em cólera fazendo um lanche, como de costume utilizávamos um sensor para medir a saturação de oxigênio no sangue dos clientes. Um dos clientes tinha uma saturação muito baixa colocando em risco sua vida. Tivemos que fazer uma descida rápida para o C2 e começamos a controlar sua saturação. Por rádio falamos com um médica que estava no CB e nos tranquilizou, mas recomendou mais atenção com seu companheiro de barraca que também estava com problemas médicos, ele tinha pressão alta e já estávamos controlando há alguns dias.

Por segurança resolvemos juntos que o melhor para eles seria que descessem para a CB e fossem ao médico. Uma cliente resolveu descer junto com os dois, ela estava bem aclimatada mas tinha muita dificuldade em utilizar a botas duplas na parte onde tinha pedras. O Manoel resolveu acompanha-los até o CB.

Com toda esta movimentação tivemos que ficar mais um dia no C2 e aguardar a subida do Manoel que aconteceu neste mesmo dia pela tarde. Ele não sabia mas essa descida custaria o seu cume dias depois.

Levamos para o C3 só o que necessitaríamos para dois dias, pois na próxima madrugada estaríamos saindo para tentar chegar ao cume.

Chegando no C3 nosso objetivo era nos hidratar o melhor possível tentar descansar, pois a noite é relativamente curta em dia de cume. Com o clima favorável estaríamos prontos para tentar o cume. Nossa saída foi marcada para 5h da manhã, por isso teríamos que acordar às 4h para poder derreter neve e fazer no mínimo um café e tentar comer algo. Tentar, porque a esta altitude e a essa hora não é fácil se alimentar.

Seriamos 7 no total os integrantes destas tentativa de cume, quatro clientes e três guias.

Tudo preparado para a grande madrugada. Durante a tarde fizemos uma reunião para passar as informações para os clientes e explicar como seria nosso dia de cume. No final da reunião uma desistência, um dos clientes resolveu que não sairia para tentar o cume. Sentia-se relativamente bem, pois estar bem a 6.000 m é relativo, um pouco de dor de cabeça e náusea próprias da altitude que estávamos. Infelizmente essa foi sua decisão, não tínhamos muito que fazer.

O relógio tocou as 4h, mas a maioria já estavam acordados esperando o momento de sair para nossa tentativa. Com café tomado e com as garrafas com água derretida para nossa hidratação, sai da barraca e começei a motivar aos clientes que saiam para terminar de se equipar lá fora.

Neste momento descubro que mais um cliente abandonaria a tentativa. Fiquei chateado com a falta de confiança que as pessoas têm. Os dois estavam desistindo não da escalada, coisa que pode passar a qualquer momento na montanha. Estavam desistindo de tentar ou da dúvida de não saber o que poderia passar no dia de cume.

Agora éramos 3 guias para 2 dois clientes. Saímos como estava programado em direção ao incerto, também tínhamos dúvidas, mas preferimos buscá-las no caminho ao cume. Durante a madrugada escura e fria percorremos as trilhas marcadas pelas pisadas de outros aventureiros.

Como tinha combinado no dia anterior eu seguiria com o cliente que estivesse se sentindo mais forte. O Manoel e a Lisete seguiriam com os que estivessem um pouco mais lento.

Ganhamos distância do segundo grupo rápido, conversava com o Manoel a cada hora cheia pelo rádio. O dia começou a clarear e a montanha começou a mostrar sua beleza. Quando estávamos a 6.700m próximos ao Abrigo Independência paramos para nos hidratar e comer alguma barra de chocolate.

Por algum motivo não consegui mais contato com o Manoel que vinha mais atrás. Seguimos em um ritmo bom até chegar ao final da travessia um pouco antes da canaleta. Este ponto é onde acontece a maioria da desistência. Aqui começa o verdadeiro desafio desta escalada, uma inclinação de uns 55 a 60 graus coberto com pedras e areia solta. Um passo para cima e dois para baixo, é um trecho muito cansativo que conseguimos vencer com muito esforço e persistência.

Ao longe consegui ver que nos seguiam duas pessoas e me parecia que era nossos companheiros, mas faltava um.

Seguimos em nosso ritmo entre as pedras da canaleta, buscando o sol para aquecer um pouco.
Foi difícil convencer ao meu cliente a não desistir, se sentia muito cansado e pensava muito na volta. Fizemos varias paradas para descansar e eu sempre o desafiava a alcançar um próximo ponto. Não queria o deixar desistir ali assim tão próximo ao cume. Aos pouco fomos aproximando do nosso objetivo, o cume das Américas.

Não tinha mais noticias do Manoel e não consegui contato com a Lisete que teoricamente ficaria com o rádio se o Manoel não subisse. Ao longe pelas cores de seus equipos conseguia identificar que seguiam na tentativa de subir.

As 13h do dia 1 de janeiro de 2013 após 7 h de ascensão fomos os primeiros a chegar ao cume das Américas no primeiro dia do ano. O clima estava perfeito com pouco vento, céu azul e poucas nuvens. Foi uma alegria para meu cliente, ele não acreditava que conseguiria chegar após tantos momentos de incerteza na subida. Estávamos cansados, mas nos sentimos bem. Ficamos ali por uma hora fazendo fotos e vídeos, desfrutando da maravilhosa vista e esperando que aparecessem nossos companheiros.

Aproximei-me da borda da parede e consegui identificar pela mochila que a Lisete estava descendo a canaleta a 6.850 em direção à travessia e ao C3. Havia outras pessoas que subiam e que desciam não consegui identificar nosso cliente de tão longe que estavam e sua roupa era da mesma cor da maioria das pessoas que estavam lá na canaleta. Também não consegui contato pelo rádio. Resolvi começar a descer antes que o clima mudasse e que meu cliente se relaxasse muito.

Após 10 minutos de descida encontro nosso outro cliente que seguia subindo em direção ao cume. Quando o vi, perguntei pelo outros e ele comentou que estavam descendo.

Neste momento me perguntou: Também tenho que descer? O que te recomendou o guia que subia com você? Perguntei.

Ele me respondeu que deveria voltar assim que te encontra-se.
Perguntei! Como você se sente? Ele me respondeu: Forte!

Este cliente não era só um cliente era também já um amigo. Estivemos viajando durante todo o ano de 2012 e eu o conhecia bem. Então fizemos um acordo!
Tenho que seguir descendo e acompanhar ele, mas não vou te deixar sozinho atrás. Preciso que caminhe por uma hora, se não tiver chegado ao cume que desista e que comesse a descer porque te estarei esperando.

Trato feito ele continuo subindo e eu segui lento dando apoio a meu cliente que estava muito cansado e caia sentado a todo o momento.

Não tinha o direito de impedir sua ascensão faltava muito pouco para o cume, o dia estava aberto e ele se sentia bem. Após 45 minutos ainda na canaleta consigo identificar o momento que ele chega ao cume. Mais feliz e tranquilo por minha decisão acompanho os movimentos dele e do outro cliente que esta a minha frente. Como é muito forte ele nos alcançou bem antes de terminar a travessia e junto descemos para o C3. Onde nossos amigos nos receberam com muita felicidade por nosso êxito.

No dia seguinte descemos para Campo Base onde pela noite fizemos um brinde regado a um bom vinho Mendocino.

Um dia depois descemos e voltamos a Mendoza.