Aconcágua temporada 2012\2013 - Aclimatação
Texto: Milton Marques
10 de setembro de 2013 - 22:44
 
 
 
  • Foto: Pablo Bucciarelli
    Subida para o C1 Veguita Superior. Ao fundo vista da estrada em zig zag proximo ao refugio Foto: Milton Marques
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    Acampamento Veguita Inferior (3.100m)" Foto: Milton Marques
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    Acampamento C2 Piedra Grande (3.550m)" Foto: Milton Marques
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    Nevada no C3 Salto de águas (4.200m)" Foto: Milton Marques
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    Amanhecer C3 Salto de águas (4.200m)" Foto: Milton Marques
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    Acampamento C3 Salto de águas (4.200m)" Foto: Milton Marques
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    Saída logo acima do C3 " Foto: Milton Marques
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    Nas encosta do Lomas Amarillas (4.700m) " Foto: Milton Marques
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    Andinista caminhando pelo filo ao fundo Paredes Cerro Ricon" Foto: Milton Marques
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    Portuzuelo (5.100m)” Ao fundo Cerro Vallecitos (5.750m) " Foto: Milton Marques
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    Acampamento C1 Veguita superior (3.200m)" Foto: Milton Marques
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    Marcos no Cume San Bernardo (4.100m) " Foto: Milton Marques
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    Dudu no Acampamento C2 Piedra Grande (3.550m) " Foto: Milton Marques
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Subida para o C1 Veguita Superior. Ao fundo vista da estrada em zig zag proximo ao refugio Foto: Milton Marques

 

Nosso programa para o Aconcágua este ano começou mais cedo. Tínhamos como objetivo preparar melhor a aclimatação de dois clientes para aumentar suas probabilidades de cume no gigante das Américas.

Éramos cinco montanhistas, que aproveitariam essa expedição ao Cerro Plata para aclimatar melhor e entrar mais fortes no Aconcágua. Os clientes eram Eduardo (Dudu) e Gilson os Guias Marcos um amigo Argentino, Lisete Florenzano e eu (Milton Marques).

Tínhamos 10 dias para chegar o mais alto possível e com isso estar mais bem aclimatados. Também poderíamos aproveitar a possibilidade de tentar os cumes do Cerro San Bernardo (4.100m), Cerro Vallecitos (5.750m) e Cerro Plata (6.000m).
Digo se possível porque nosso principal objetivo era o cerro Aconcágua onde deveríamos estar iniciando a expedição a partir do dia 18 quando chegaria o grupo a Mendoza.

Saímos no dia 7 dezembro de Mendoza, com destino a Potrerillo distante 70 km de cidade. Este local um centro de esqui e atividades de montanha no inverno muito utilizado no verão como um pré-aconcágua onde se podem passar uns dias aclimatando antes de enfrentar o Aconcágua.

A região de fácil acesso com veículos, tem uma grande quantidade de refúgios e vários cerros para iniciar o processo de aclimatação.

Utilizamos o refugio San Bernardo (2.800m) que esta quase no final do caminho de carro. Ali passamos uma noite e aproveitamos seus espaços para organizar nossa logística de equipamento.

Basicamente nossa logística de acampamentos seria:
• C1 3.200m (Veguitas).
• C2 3.550m (Piedra Grande).
• C3 4.200m (El Salto de Agua).

Nosso cronograma prevê 2 noites de aclimatação no C1 a (3.200m) com um dia para a ascensão do San Bernardo (4.100m), 1 noite no C2 (3.550m) e 4 no C3 (4.200m), com um dia coringa por problema com o clima.

Basicamente este dia voou, pois os detalhes da arrumação de mochilas e menus para a montanha nos levaram uma boa parte da tarde. Antes do por do sol com tudo já organizado no seu divido lugar, fizemos uma caminhada para distender um pouco e aproveitar a vista impressionante deste vale.
Durante a noite, para o jantar, Marcos nos brindou umas pizzas de montanha utilizando a infra-instrutura do refugio, claro, brindado com um bom vinho Mendocino.

Dia 1
Após o café da manha iniciamos nosso deslocamento para nosso primeiro campo o C1, onde alcançamos no meio da tarde. Apesar do peso das mochilas, esta é uma caminhada muito tranquila em relação a distância, mais os 400m de desnível se fazem sentir. Estamos divididos em três barracas e com uma cozinha comum.
Logo após um lanche, descanso para uns, banho para outros, final de tarde livre para aclimatar.
Acredito que conhecer os processos de aclimatação é fundamental para quem vá participar de uma expedição em altitude, pois cada membro terá que se aclimatar só, ninguém consegue aclimatar por você. O fundamental é deixar o organismo trabalhar para que isso aconteça o mais natural possível. Proporcionando os elementos que se necessita para viver, água, alimentos e descanso.

Dia 2
Durante a noite todos puderam descasar, apesar de um pouco de insônia comum nos primeiros dias de aclimatação. Logo após o tradicional café da manhã saímos em direção ao nosso primeiro objetivo, o cerro San Bernardo (4.100m).
Saímos do acampamento e já começamos a subir uma trilha forte entre pedras e cascalho soltos, o que dificulta ainda mais a subida. O ritmo empregado é o da respiração (fôlego), pois nesta região todos os picos então próximos, mais muito altos em relação ao vale de onde saímos. Para que entendam, é necessário vencer um desnível de 900m em 4 km de distância para alcançar o cume do San Bernardo.

Mesmo assim levamos apenas 4 h para chegar ao cume, foram feitas poucas parada para descanso e hidratação fundamental nesta altura. Ficamos no cume por mais de 1 h para ajudar no processo de aclimatação. A descida foi feita em apenas 1 h.

A insônia é uma das grandes vilãs da aclimatação, pois durante o dia você se cansa e se desgasta esforçando para caminhar com as dificuldades do terreno, altura e peso nas costas. Sonhando chegar ao acampamento e poder dormir uma boa noite de sono. Quando você tenta dormir o que acontece é que seu metabolismo diminui e seu organismo pela pouca pressão do oxigênio faz que você tenha insônia, não que você não durma o que acontece é que seu corpo esta tentando suprir a falta de oxigênio nas células. Isso passa geralmente à noite quando estamos com baixa atividade física, respirando menos.

Dia 3
Manhã tranquila para organização de equipo para a partida para o próximo campo C2 3.550m (Piedra Grande). O dia relativamente curto com uma caminhada de 3h30 até o próximo campo. A estratégia é utilizar o C2 um pouco mais alto, C1 para dormi e diminuir a distância para o C3.
O C2 está localizado próximo as morenas dos Cerros Vallecitos e Rincón. É um local de acampamento menos confortável que Veguitas, mas protegido no caso de vento. Um problema que tem este acampamento é que não existe água próximo, e é necessário caminhar até o fundo do vale para conseguir o tão desejado liquido.

Neste dia pela tarde fizemos uma caminha até a cota dos 3.700m para facilitar a nossa noite de sono.

Um modelo muito utilizado nas montanhas e usado por nós foi de subir alto durante o dia e descer para dormir baixo. Este processo de aclimatação expõe seu organismo a uma exigência durante o dia e relaxa durante a noite.

Dia 4
Este dia começou bem complicado por causa do vento. Nossa idéia era sair cedo em direção ao C3 4.200m.
Estava dividindo a barraca com o Marcos e éramos os responsáveis pela logística das refeições. Com o vento muito forte esperamos para ver se acalmava um pouco para poder brindar nosso café da manhã, isso não ocorreu.

Com grande dificuldade conseguimos sair da barraca e fazer o lanche de café da manhã que terminou sendo servido nas barracas para evitar o vento e o frio. Outro problema que surgiu foi desmontar barracas sem quebrá-las pela força do vento.
Levamos quase três horas para poder organizar essa saída do C2, onde o vento não deu trégua durante todo o dia. As rajadas de vendo nos desequilibravam enquanto caminhávamos.
Chegamos no C3 4.200 El Salto no final da tarde.

Dia 5
O vento do dia anterior não deu trégua, durante a noite, além do vento tivemos a nossa companheira insônia. Este dia aproveitamos para descansar e aclimatar melhor fazendo caminhas curtas próximo ao acampamento. Já estávamos à mesma altura de Plaza de Mulas no Aconcágua onde estaríamos em um par de semanas. Se nos aclimatássemos bem a esta altura nos facilitaria muito no Aconcágua.

A esta altura começamos a ter os primeiros sinais do processo de aclimatação, as dores de cabeça e náuseas são comuns. Dudu durante a tarde sentiu um pouco de dor de cabeça e a noite Marcos teve insônia, náusea e dor de cabeça. O recomendado para estes sintomas e de melhorar a hidratação, uma aspirina a cada 6 h só se a hidratação não esta causando um efeito de diminuir a dor.

Considero a aclimatação no Cerro Plata benéfica pelo fato de estar em altura por menos tempo. E poder avaliar seu organismo antes de enfrentar uma expedição do Aconcágua de 20 dias. Uma vez aclimatado todas as coisas básicas como hidratar, comer e dormir são muito mais fácies.

Dia 6
A noite foi relativamente tranquila com algumas rajadas de vento. O Marcos tomou uma aspirina e se sente melhor o Dudu não dormiu muito bem e ainda sente um pouco de mal estar, mais resolveu sair e nos acompanhará até onde puder. O Eu, Gilson e a Lisete nos sentimos bem e nos preparamos para sair.

São 6:45 da manhã e o dia está perfeito, nossa caminhada é lenta, mas progressiva. Em alguns minutos o sol nos alcança dentro do vale dando uma sensação de calor e isso melhora o ritmo do grupo.
O ar é frio, mas a caminhada pela montanha nos aquece em alguns lugares, manchões de neve nos mostram por aonde seguir.
Pelo horário que saímos, acordamos que nossa meta seria alcançar os 5.100m, onde deveríamos chegar ao meio dia, aproximadamente.

Caminhamos umas 2:30h e a Lisete não se sente muito bem e resolve voltar para o C3 os demais seguem cada um com seu ritmo. O Gilson se sente bem e caminha forte a frente seguindo de perto pelo Marcos, logo venho eu e o Dudu que mesmo com uma pequena dor de cabeça continua forçando sua aclimatação em um bom ritmo.
Chegamos aos 5.000m e o Dudu resolve ficar por ali descansando e aclimatando sem subir mais. Eu volto com meu ritmo normal e alcanço o Gilson e Marcos já no Portuzuelo, como estávamos bem e em horário resolvemos subir mais e nos dirigimos ao Cerro Vallecitos (5.750m) aonde chegamos 1h depois.

Para chegar ao cume temos que vencer um último obstáculo, um escalada de rocha em III grau de uns 10 metros que se complica um pouco pelo fato usarmos as botas duplas. Superado este último trecho chegamos ao Cume Vallecitos.
Descemos em 2h ao C3 agora só necessitamos nos hidratar, alimentar e uma boa noite de descanso.

Dia 7
Mais um dia no C3 para recuperar e aclimatar. Hoje a Lisete e o Dudu se sente melhor mas o Marcos tem dor de cabeça. Acredito que ele se esforçou muito ontem e ainda não se recuperou.
Ontem quando chegamos ao C3 o acampamento estava todo tomado por varias barracas, os militares Argentinos também estavam na montanha e pretendiam subir ao cume no mesmo dia que nós.

Durante a tarde o clima mudou começou a ventar. Todos que estavam no acampamento começaram melhor suas ancoragens de barraca, porque o vento esta muito forte. No começo da noite sai para checar nossas ancoragens, as pedras que coloquei na barraca do Dudu e Gilson estavam sendo arrastadas pela força do vento, fui ajudar dois Argentinos que tiveram a vareta da barraca quebrada. Tivemos que desarmar parcialmente a barraca deles e colocar uma proteção, pois a ruptura tinha perfurado o teto e começava a rasgar o tecido. Quando estávamos terminando chegou um casal também de Argentino e começaram a tentar montar uma barraca. Como notamos que necessitavam de ajuda nos aproximamos e descobrimos que a barracas que tinham era de verão, onde nem as varetas tinham elástico para uni-las. As rajadas de vento cada vez mais forte, levaram apenas 15 minutos para quebrar uma de suas varetas que era de fibra de vidro. Emprestei uma fita Tipe para que arrumassem, mas não sei o que passou com eles durante a noite. Infelizmente a barraca não durou e pela manhã estava abandonada no mesmo lugar toda destruída e sem sinal deles.


Dia 8
Apesar do vento forte saímos novamente as 6 h em direção ao nosso objetivo o cume Cerro Plata. O dia estava aberto, mas com o vento forte a sensação térmica deixa os lugares sombreados muito mais frios.
Dudu resolveu voltar ao acampamento depois de caminhar 1h ,ele se sente cansado e a cabeça incomodava, preferiu guardar força para o Aconcágua. Como se sentia relativamente tranquilo e estávamos próximos, deixamos que voltasse só para o C3.

Os demais seguiam em um bom ritmo até chegarmos a 4.800m quando o Marcos resolveu voltar também, não estava totalmente recuperado e sentia náuseas.
A esta altura já eram vários que desistiam da tentativa, pois o frio causado pelo vento incomodava muito.
Como na vez anterior o Gilson andando forte se matinha a frete do grupo, depois eu e a Lisete que vinha a uns metros mais abaixo. Desta vez a Lisete está muito mais forte, o único problema era que o vento a desestabilizava, por seu peso corporal. Quando vinha a rajada de vento tinha que para não ser jogada no chão.

Chegamos aos 5.000m e começamos a fazer a travessia para o Portuzuelo (5.100m) neste ponto ficamos totalmente expostos ao vento que vem de noroeste. Resolvi esperar a Lisete neste ponto, pois notava que estava tendo muita dificuldade para caminhar.

O Gilson já estava a uns 70m mais acima do Portuzuelo se abrigando e esperando por nós. Vi quando perdeu seu gorro levado pela força do vento. Como o vento estava insuportável tomei a decisão de abortar a subida. É difícil tomar decisões nestes momentos quando você é responsável por vidas e o cume não parece tão longe. Mas já estive neste cume e sei quanto tempo ainda nos faltava para chegar e os riscos que teria que assumir se alguma coisa saísse mal. Minha decisão não agradou a todos, mas como era o líder neste momento tive que tomá-la.
Estávamos a 5.150 m e a decida até o C3 nos levou 2;30h.

Dia 9
O vento não acalmou durante toda a noite. Nosso plano era abandonar o C3 às 9h para poder descansar da investida do dia anterior, mas com a primeira luz tivemos que sair da barraca para desmontá-la, pois o vento estava rasgando o tecido e entortando as varetas.
Os militares que estavam no acampamento estavam também organizando suas coisas para sair da montanha o mais rápido possível. Eles tiveram que montar uma patrulha para recuperar as coisas que voaram. Até bota dupla vôo montanha a baixo.

Nossa saída também foi às pressas, até a metade da descida da montanha o vento nos castigou. Quando chegamos à altura de C1, Veguitas, o vento já estava mais calmo. Chegamos ao refugio San Bernardo às 13h em uma decida direta fazendo apenas uma parada no C2 para descansar. E aqui aguardamos nosso transporte que nos levou de retorno a Mendoza.