Escalando em Kalymnos, Grécia.
da redação, Manoel Morgado
9 de maio de 2012 - 10:20
 
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  • Almoçando ao lado da Acrópolis em Atenas
    Almoçando ao lado da Acrópolis em Atenas Foto: Manoel Morgado
  • Nosso fantástico bólido em Kalymnos
    Nosso fantástico bólido em Kalymnos " Foto: Lisete Florenzano
  • Dois setores de escalada Casteli e a ilha de Telendos
    Dois setores de escalada Casteli e a ilha de Telendos " Foto: Manoel Morgado
  • Grande grotto, o lugar dos bam bam bams...
    Grande grotto, o lugar dos bam bam bams..." Foto: Manoel Morgado
  • O mar azul cristalino de Kalymnos
    O mar azul cristalino de Kalymnos" Foto: Manoel Morgado
  • Vista do Grande Grotto, parede que escalamos
    Vista do Grande Grotto, parede que escalamos" Foto: Manoel Morgado
  • Escalando com vista do mar
    Escalando com vista do mar" Foto: Manoel Morgado
  • Paredes e paredes de calcáreo
    Paredes e paredes de calcáreo" Foto: Manoel Morgado
  • um dos bam bam bams escalando
    um dos bam bam bams escalando" Foto: Manoel Morgado
  • Lisete e nosso scooter
    Lisete e nosso scooter" Foto: Manoel Morgado
  • Ao voltar para casa todos os dias temos esta vista
    Ao voltar para casa todos os dias temos esta vista" Foto: Manoel Morgado
  • Vista da baia a caminho de Massouri
    Vista da baia a caminho de Massouri" Foto: Manoel Morgado
  • Indo escalar em Telendos
    Indo escalar em Telendos" Foto: Manoel Morgado
  • O mar de Kalymnos
    O mar de Kalymnos" Foto: Manoel Morgado
  • Um dos “jovens” escaladores em Kalymnos em uma 6b
    Um dos “jovens” escaladores em Kalymnos em uma 6b" Foto: Manoel Morgado
  • Com amigos da Eslovênia
    Com amigos da Eslovênia" Foto: Manoel Morgado
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Almoçando ao lado da Acrópolis em Atenas Foto: Manoel Morgado

 
 

Com o cancelamento da minha travessia da Antártica me vi com cinco meses de férias não planejadas que acabaram se transformando em uma séria deliciosa de atividades em três continentes. Primeiro foram dois meses de escaladas em rocha e passeios pelos parques nacionais no oeste dos Estados Unidos. Depois a escalada do Vinson, a mais alta montanha da Antártica e a compleição dos Sete Cumes. Veio então mais dois meses de viagens e caminhadas pela Patagônia chilena e argentina fazendo entre outras coisas a Carretera Austral, antigo sonho finalmente realizado.

Após longas e deliciosas férias cheias de atividades e conquistas era chegada a hora de voltar ao trabalho. Mas, que prazer quando o trabalho é algo que se ama. No meu caso era guiar um grupo ao campo base do Everest. Apesar de ser o meu quadragésimo nono grupo ao campo base, esta trilha é tão especial, tão espetacular que a cada vez que vou não deixo de me deslumbrar com ela.

Tivemos um grupo grande, dezenove pessoas, e apesar de heterogêneo em termos de idade, experiência e expectativas, foi extremamente coeso e divertido e todos realizaram seus sonhos de chegar ao campo base do Everest. A noite no acampamento base foi memorável e teve um sabor ainda mais especial por sabermos que este foi o último ano que trekkers serão permitidos passar a noite lá.

Tivemos também neste grupo os dois mais velhos (Até onde eu saiba e se estiver errado peço desculpas antecipadas. Não há estatísticas sobre isso) a chegarem no Kala Patar, o Egito (Eval Olympio Egito), vulgo "cavalo velho"e o Zé (José de Oliveira Barros) que com respectivamente 63 e 62 anos mostraram que a idade é muito mais um estado de espírito e as limitações são impostas por nós mesmos.

Como este ano nos espera muito trabalho, planejamos mais oito viagens após a do campo base (Marrocos, Alpes Franceses, Mongólia, Elbrus, Kilimanjaro, dois treks ao campo base do Everest via Gokyo e Aconcagua), antes de iniciar a sequência de viagens resolvemos tirar mais 40 dias de férias e...claro, escalar. Há dois anos que eu e a Lisete resolvemos que parte de nossas férias todos os anos seria em algum lugar onde pudéssemos escalar em rocha. Em novembro de 2010 passamos vinte dias maravilhosos em Tonsai no sul da Tailândia. Em 2011 fomos para o Smith Rock no Oregon, Estados Unidos e em Red Rock, próximo a Las Vegas. Este ano fomos para Kalymnos, uma pequena ilha grega pertencente ao grupo de ilhas Dodecanesian próxima à Turquia. Kalymnos está a 350 quilômetros de Atenas, possui 17.000 habitantes e tem 21 km de comprimento por 12 de largura. A ilha é muito montanhosa e praticamente é isenta de vegetação a não ser pequenos arbustos. Kalymnos sempre viveu da extração de esponjas marinhas, comércio este milenar. Porém, no começo dos anos oitenta uma doença dizimou as esponjas e com isto esta atividade quase que cessou. Por duas décadas viveu na obscuridade até que no final dos anos noventa o nome despertou para o mundo de uma forma completamente diferente, como um dos melhores destinos do planeta para escalada em rocha. Tudo começou quando o escalador italiano Andrea di Bari veio para a ilha com um grupo de amigos escaladores e abriram dezenas de vias. Em 2000 a prefeitura da ilha organizou o primeiro festival de escalada em rocha atraindo centenas de escaladores. Isso colocou Kalymnos no mapa. De lá para cá vários outros festivais foram organizados atraindo os nomes mais famosos do esporte como Chris Sharma.

Se tivermos de escolher várias características para definir o destino perfeito para férias de escalada em rocha poderíamos colocar o seguinte:

• Variedade de graus de escalada para oferecer algo para cada um. Aqui tem escaladas desde fácies graus 4 até dificílimos 9a (grau francês) em tetos de lindas cavernas cheias de estalactites.
• Estilos variados de escalada. Apesar de, na maioria, serem encostas verticais, também tem muitos negativos, algumas fendas e chaminés.
• Rotas facilmente acessíveis a partir de seu hotel. Kalymnos tem ao redor de 1800 rotas de escalada em um raio de 10 km. Normalmente aluga-se scooters para duas pessoas por 10 euros ou bicicletas por 5 Euros por dia. A partir da estrada a grande maioria das escaladas não está a mais do que 10 minutos de caminhada.
• Acomodação barata (studios com cozinha por 20 Euros por dia). A grande concentração de studios é na praia de Massouri, mas outros vilarejos mais calmos e mais tipicamente gregos também oferecem acomodação.
• Comida gostosa e barata (ao redor de 7 Euros por pessoa). Mussakas, dolmades, tzatziki e claro a famosa salada grega, mas também comida internacional. A cerveja local Mythos é ótima e é servida muito gelada ao estilo brasileiro com copos também gelados.
• Clima agradável (ao redor de 25 a 28 graus)
• Beleza natural. Escalar lindos penhascos olhando e ouvindo o mar azul transparente da Grécia. Os únicos outros barulhos que se escutam quando se escala são os sinos das cabras e ovelhas que pastam pacificamente nas encostas ao lado das áreas de escalada.
• Pessoas locais simpáticas. O ritmo de vida aqui é muito tranquilo e o turismo se restringe à escaladores.

Chegamos em Kalymnos no meio de abril, ainda fora do período mais cheio da ilha já que o clima ainda estava um pouco frio para o que se espera da Grécia. A única coisa ruim era que a água ainda estava um tanto fria para nadar. Com isso, por duas semanas tivemos as rochas quase que só para nós. Mas, mesmo assim, agora em começo de maio com visivelmente mais escaladores, nunca temos de esperar para fazer uma via. São tantas áreas e em cada área tantas vias que sempre existe algo do grau que queremos disponível.

Como não escalávamos desde novembro do ano passado, começamos por vias mais fáceis nos concentrando em vias 5a ou 5b. Com o passar dos dias fomos ganhando mais confiança e começamos a ousar mais e arriscar vias 5c e 5c+. Agora, na última semana, conseguimos escalar algumas 6a e até uma 6a+ e de top uma 6b. Como ainda temos mais duas semanas, quem sabe consigamos chegar no 6b guiando...(classificação francesa de graus)

Uma das coisas surpreendentes e inspiradoras nesses dias em Kalymnos é ver a média de idade dos escaladores. Tanto na Tailândia como nos Estados Unidos eu era de longe sempre o mais velho escalador. A média de idade era de, no máximo, 30 anos. Aqui, quase todos os dias temos por companhia alguma pessoa de mais de setenta anos! Outro dia conversamos com dois ingleses onde um tinha 72 e outro 73 e um deles estava escalando um 7a! Há dois dias foi a vez de um esloveno de 76 anos escalando um 6b! E no guia de escalada tem a foto do Mad Dad (pai louco) que com 88 anos estava fazendo um sexto grau! Isso mostra claramente como a percepção do que é apropriado e possível para uma determinada idade é uma questão cultural. Caminhando pelos Alpes há alguns anos já tinha percebido isso. Para os europeus, fazer atividade física em idades avançadas é normal, ou pelo menos muito mais normal do que entre pessoas de outras culturas. E em Kalymnos por conta dos vôos baratos das capitais europeias, ao redor de 50 Euros e duas ou três horas de vôo, o grande predomínio é de europeus.

Os dias transcorrem tranquilos, sem pressa como convém à férias. Acordo as 7 da manhã, trabalho umas duas horas no computador, neste ano estamos tendo uma procura por viagens muito grande, enquanto a Lisete faz uma hora de yoga. Tomamos o café da manhã com frutas, yogurte grego (que é delicioso) e torradas. Ao redor das 10:30 saímos para escalar e à caminho temos uma maravilhosa vista da praia de Massouri e da ilha de Telendos em frente com o mar de um azul inspirador. Escalamos até as 4 da tarde e voltamos para casa, as vezes parando em um dos bares para tomar uma cerveja. Algumas noites saímos para jantar fora, outras cozinhamos em casa, já que é um tanto raro termos um lugar com cozinha em nossa vida nômade.

Nossa idéia inicial era ficarmos aqui ao redor de 25 dias e depois irmos para a Turquia para que a Lisete conhecesse Istanbul e talvez a Capadócia, mas a vida aqui está tão boa que trocamos a data de nossos vôos e resolvemos ficar aqui até irmos para Marrakesh para guiar nosso próximo grupo, fincando um total de quase 40 dias em Kalymnos. E está ótimo...