Nas trilhas do Japão
Texto: Fabiana Atallah
26 de outubro de 2013 - 11:43
 
 
 
  • Foto: Manoel Morgado
    A linda visão das montanhas refletidas no lago, chegando aos ski lifts. Foto: Manoel Morgado
  • Foto: Fabiana Atallah
    Duas gerações de Geishas em Kyoto." Foto: Fabiana Atallah
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    Comidas caseiras servidas nos ryokans do Kumano Kodo." Foto: Fabiana Atallah
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    Um dos inúmeros santuários presentes na trilha de peregrinação conhecida como Kumano Kodo." Foto: Fabiana Atallah
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    Nas florestas do Kumano Kodo." Foto: Fabiana Atallah
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    Primeira visão dos Alpes no trekking partindo de Hakuba." Foto: Fabiana Atallah
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    Acampamento e primeiro abrigo de montanha após uma longa subida. " Foto: Fabiana Atallah
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    Os lindos Alpes do Norte começando a mostrar sua beleza. " Foto: Fabiana Atallah
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    O visual da caminhada do difícil segundo dia de trek a partir de Hakuba." Foto: Fabiana Atallah
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    O pôr do sol de tirar o fôlego no abrigo de montanha Hakuba Sanso. " Foto: Fabiana Atallah
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    O sol se despede..." Foto: Fabiana Atallah
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    Chegada ao cume do Mt. Hakuba Yarigatake. " Foto: Manoel Morgado
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    Início do segundo trek, após a passagem de um fortíssimo tufão que encheu as montanhas de neve. " Foto: Manoel Morgado
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    Neve até o joelho. E assim foi a manhã toda... " Foto: Manoel Morgado
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    Um dos diversos trechos com correntes de segurança. A neve e o gelo deixaram tudo mais perigoso. " Foto: Manoel Morgado
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    O início do último dia de trekking no Japão, após um dia de chuva torrencial. " Foto: Fabiana Atallah
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    As cores do outono chegando para deixar nossa despedida ainda mais encantadora. " Foto: Fabiana Atallah
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    Cores e luzes do outono. " Foto: Fabiana Atallah
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A linda visão das montanhas refletidas no lago, chegando aos ski lifts. Foto: Manoel Morgado

 

É muito difícil, para alguém que possui pouco contato com a cultura japonesa, como eu, conseguir desvendar inteiramente os mistérios que permeiam o modo de viver desse povo tão especial.

Desde o primeiro instante em que pisamos no Japão, fomos tomados por um ambiente em que se preza extremamente a limpeza, os horários, o cordial tratamento interpessoal e as regras. Ah, as regras! Sempre sem exceções, sem meias palavras, sem “um jeitinho” qualquer que possa quebrá-las. Mas, certamente, o que mais nos marcou e sensibilizou, foi a atenção que era a nós dispensada pelos japoneses, tanto nas grandes cidades como em pequenos vilarejos ou durantes os trekkings.
Bastava pararmos um instante com um mapa nas mãos para que, logo após, estivéssemos acompanhados de um morador com seus celulares e tablets buscando as informações de que precisávamos. Em Matsumoto, com os olhares para o alto, na tentativa de encontrar o terminal rodoviário, nos surpreendemos com um daqueles imponentes carros estacionando próximo a nós, o motorista abrindo seu vidro e até tirando seu cinto de segurança, somente para saber se precisávamos de alguma ajuda.

Nesse clima de respeito e cordialidade um mês se passou. Trinta dias muito especiais descobrindo que, para além das pessoas e da milenar cultura, reconhecida por sua profundidade e austeridade, o Japão também nos oferece belezas naturais sem igual. Da ideia inicial, que se limitava a percorrermos dois caminhos de peregrinação amplamente conhecidos no país e que hoje se tornaram também rotas de trekkings, partimos para algo bem mais amplo. Não só fizemos boa parte desses caminhos sagrados, como também nos aventuramos pelos Alpes do Norte, sempre desafiadores, assim como escalamos o Fuji San, como é carinhosamente chamado o Mt. Fuji no Japão.

Kumano Kodo era nosso primeiro destino. Esta milenar rota de peregrinação nos mostra uma grande mescla entre o Budismo e o Xintoísmo, amplamente difundidos no Japão. Trilhas por lindas e densas florestas nas montanhas nos levam aos grandes templos sagrados, além de nos brindar com pequenos santuários ao longo de todo o caminho. A natureza é muitíssimo valorizada e as montanhas, em todo o Japão, são consideradas sagradas. Fizemos este trek - nada técnico, mas com subidas e descidas bastante íngremes - no início de outubro e, ainda sem muitos sinais da chegada do outono, o calor era realmente muito intenso e úmido, totalmente recompensado com nossa chegada aos ryokans em que nos hospedamos nos pequenos vilarejos, sempre muito acolhedores. Os ryokans são pequenas acomodações em estilo tipicamente japonês, onde temos uma inserção em sua cultura. O corpo cansado é premiado com um belo banho em águas quentes em seus famosos onsens. Aí também experimentamos suas comidas caseiras - muito diferentes da tradicional barca de sushi e sashimi que temos no Brasil – e dormimos em quartos com tatames, que substituem as camas. O tratamento dado a seus hóspedes é realmente especial. Em muitos deles, quando retornamos do jantar, as camas já estão devida e magicamente dispostas nos tatames. A nós cabe apenas descansar para o dia seguinte.

Depois de, em poucos dias, mergulharmos no modo de vida do interior do Japão, já estávamos morrendo de saudades das montanhas! A escalada do Mt. Fuji, o mais alto do Japão, não fazia parte de nosso roteiro, mas não resistimos! Mudamos os planos de um dia para o outro e seguimos para a pequena cidade de Kawaguchiko onde, pela primeira vez, avistamos essa lindíssima montanha que, mesmo sem neve nesta época, ainda tem aquela imagem de “vulcão de desenho animado”. Como ir ao Japão e não chegar perto do Fuji San? Seguimos de ônibus para a quinta estação, de onde parte a escalada do Fuji. Sob as luzes das estrelas, dormimos em um abrigo na montanha, o único aberto fora da estação oficial de escalada, que termina em setembro. Já tínhamos como certo que a previsão do tempo – e também do dono do abrigo, muito experiente – que contava com chuva, estava errada. No meio da noite saí do abrigo para ir ao banheiro, que era externo, e as estrelas ainda estavam lá. Qual não foi nossa surpresa quando, às cinco da manhã, saindo para o ataque ao cume, o tempo havia virado. Assim mesmo conseguimos fazer todo o percurso da subida em pouco mais de três horas, carregando conosco, a partir da sétima estação, um indonésio que, de forma muito arriscada, escalava sozinho, sem roupas de frio e com pouca comida. Não havia mais ninguém na montanha. Chegamos à boca da cratera e resolvemos voltar. O vento havia aumentado bastante, chegando a cerca de 50 quilômetros por hora. A descida foi bem mais prazerosa, pois o tempo melhorou e conseguimos avistar dois dos maiores lagos que rodeiam o Fuji. Sim, valeu a pena!

Quando achava que já tinha tido experiências bastante intensas nesse país encantador, descobri uma outra cara do Japão nos seus Alpes do Norte. Quase que por acidente, fomos parar em uma linda e aconchegante cidade chamada Hakuba, muito conhecida por suas estações de esqui e de onde partem muitos trekkings pela linda cordilheira. Escolhemos algumas das inúmeras rotas de trekking e seguimos. Os dias que se seguiram foram surpreendentes! Atravessamos vales com lindos glaciares e cristas que nos proporcionavam lindas visões dos Alpes. O preço, no entanto, foi bastante alto. Não estávamos preparados para a neve, visto que a primeira nevasca havia acontecido há apenas poucos dias e não é comum haver neve nesta época. Mas, como resultado de um forte tufão – o maior registrado no país nos últimos trinta anos – tivemos que andar com neve até o joelho, apenas com o auxílio dos pequenos crampons que tínhamos comprado, tornando nossa travessia um tanto perigosa. Os riscos vinham principalmente em razão de que é muito comum, nos Alpes Japoneses, haver trechos com correntes e escadas, muitas vezes bastante expostas. Qualquer erro pode ser realmente fatal. Com muito cuidado e, no meu caso, enfrentando o medo, conseguimos concluir os trekkings escolhidos. Fechando a viagem com chave de ouro, percorremos outro trek, desta vez a partir da cidade de Kamikochi, também nos Alpes do Norte, debaixo de uma chuva torrencial. Nunca havia passado o dia todo debaixo de tanta chuva como desta vez. O percurso, que contava com a ascensão de 1200 metros verticais, numa inclinação de mais ou menos 30 graus, ficou ainda mais duro com as botas totalmente encharcadas.

A melhor parte dessa história toda é que, errando e acertando, conseguimos desenhar um roteiro de viagem lindíssimo, mantendo os desafios mas deixando de lado os perigos desnecessários, de forma que poderemos compartilhar com outras pessoas o que vivemos de melhor na Terra do Sol Nascente por meio de uma viagem que será oferecida a partir de setembro do ano que vem.

Com a sensação de missão cumprida e absolutamente encantada com o Japão, suas montanhas e seu povo, deixo o país com aquele incrível gostinho que fica após uma viagem bem sucedida: a vontade de voltar em breve.