Escalada em Família
da redação na Islândia - Texto: Edemilson Padilha
8 de setembro de 2012 - 15:34
 
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  • Foto: Valdesir Machado
    Cume Foto: Edemilson Padilha
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    No cume em família " Foto: Edemilson Padilha
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    Ibitirati cumes " Foto: Edemilson Padilha
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    Ibitirati" Foto: Edemilson Padilha
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    Ibitirati" Foto: Edemilson Padilha
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    Ibitirati" Foto: Edemilson Padilha
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    Passadas de muito equilíbrio neste trecho." Foto: Edemilson Padilha
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Cume Foto: Edemilson Padilha

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A vida passa tão rápido que não vemos nem os filhos crescerem. Quando nos damos conta já são quase adultos e aí percebemos que seria legal compartilhar certas experiências com eles. O problema é que às vezes queremos que eles façam coisas que estão um pouco além da sua compreensão ou de sua vontade. Foi assim que embarcamos eu, meu filho de 16 anos e um casal de amigos numa aventura pela Serra do Mar Paranaense.

Era um sonho antigo este de poder escalar uma via no estilo grandes paredes com meu filho Ian. A rota escolhida foi nada mais nada menos que a Mar de Caratuvas, maior via do estado do Paraná, com aproximadamente 600 metros de extensão, na montanha denominada Ibitirati, pertencente ao conjunto do Pico do Paraná.

Partimos sexta no final da tarde para dormir no pé da via. No sábado acordamos às 5 da madrugada, tomamos um providencial café com bolacha (vulgarmente conhecida como biscoito) e iniciamos a escalada. O primeiro terço da via nos conduziu até o grande platô chamado Jean Claude. Ali nos sentamos numa boa sombra para comer e beber algo. Neste ponto comecei a ficar preocupado, pois estávamos lentos demais. Um pouco acima desta grande plataforma me enrosquei num lance para vencer uma barriga de rocha chamada de Lagartão. Não conseguia encontrar o ponto para cruzá-la e acabei entrando errado no Lagartão, depois de muitos palavrões e de gastar muita força num lance super exposto. Mas escalada de parede é assim mesmo, sempre tem perrengue. E o pior que isto era só o começo.

Na parte central da parede a coisa ficou feia. Perdi completamente a linha da Mar de Caratuvas e segui com um sistema de trepa-matos que estavam descolando da pedra. Foi assustador. Já tinha escalado esta via em outras três ocasiões, mas foi difícil manter a concentração, olhando para cima e percebendo que o dia estava acabando e que as pessoas que estavam comigo dependiam da minha experiência e pré-conhecimento da escalada para encontrar o caminho. O Ian, meu filho, esteve incrível. Eu guiava, ele chegava na parada, que muitas vezes era apenas uma pequena árvore, assumia a minha segurança e ao mesmo tempo assegurava o Sassá que subia. O Sassá, por sua vez dava segurança para a Gali, enquanto o Ian já subia para a próxima parada. E assim fomos progredindo devagar e sempre, como dizem por aqui.

Um pouco antes de escurecer topei com um grampo e pude visualizar mais ou menos por onde corria a rota que escalávamos. Fiz uma parada horripilante numas arvorezinhas e dei segurança para o Ian. Ele chegou, mas devido ao cansaço esquecera de trazer costuras e friends para podermos continuar a escalada. Eu não tinha opção e parti só com umas fitas e um friend. Nos 60 metros que escalei, a única proteção foi um friend pequeno numa fenda esquisita. Procurei desesperadamente por um grampo ou chapeleta que sabia existir por ali, mas não obtive sucesso. Armei a 11ª parada em uma árvore que me pareceu familiar, já à noite.

Neste momento todo mundo estava completamente sem baterias. Quando meus companheiros chegaram naquele ponto queriam dormir sentados ali mesmo. Eu tentava estimulá-los a prosseguirmos dizendo que faltava pouco e que poderíamos dormir num local plano, mas não obtive sucesso. Só ouvia suas vozes sonolentas dizendo “a gente já vai, só vamos descansar um pouco”. E ali cochilamos por algum tempo até começar a tremer com o vento frio da noite, pois estava em um local desprotegido. Foi aí que levantei e comecei a me aprontar para guiar o próximo esticão. Como eles sabem que sou ranzinza e teimoso nem questionaram e me seguiram bem comportadinhos...rs. Por sorte consegui novamente encontrar a linha da via depois de mais de 200 metros sem ver nenhum vestígio. Foi gratificante encontrar aquela chapeleta fininha, que parece feita com lata de azeite lá do diedrinho final.

Seguimos firmes e pisamos no cume do Ibitirati lá pelas 2 da madrugada. Miojo com atum, chocolate de sobremesa e uma boa ventania durante toda a noite foi o nosso prêmio por termos escalado esta imponente parede. Deitamos sobre as cordas e mochilas e desmaiamos para no outro dia curtirmos um nascer do sol incrível nas maiores montanhas do Paraná. Para mim foi mágico poder ter a oportunidade de escalar esta montanha em companhia de meu filho. Tenho certeza que estas boas lembranças estarão sempre presentes em nossas mentes.


Edemilson Padilha
www.conquistamontanhismo.com.br