Éléphant: Expedição Mali 2012 - final
da redação, Texto: Edemilson Padilha
7 de maio de 2012 - 12:45
 
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  • A descida da parte mais negativa da via
    A descida da parte mais negativa da via Foto: Eliseu Frechou
  • Linha da via Blowin’ in The Wind, Éléphant, Mali
    Linha da via Blowin’ in The Wind, Éléphant, Mali " Foto: Eliseu Frechou
  • Ed dando segurança na primeira cordada acima do grande platô
    Ed dando segurança na primeira cordada acima do grande platô " Foto: Fernando Leal
  • Topo do Éléphant
    Topo do Éléphant" Foto: Eliseu Frechou
  • A recepção calorosa depois da conquista da via
    A recepção calorosa depois da conquista da via" Foto: Eliseu Frechou
  • O grande platô no meio da rota
    O grande platô no meio da rota" Foto: Edemilson Padilha
  • Eliseu conquistando uma das cordadas mais complicadas da via
    Eliseu conquistando uma das cordadas mais complicadas da via" Foto: Edemilson Padilha
  • Ed “limpando” a cordada (retirando as peças móveis que haviam sido colocadas pelo guia)
    Ed “limpando” a cordada (retirando as peças móveis que haviam sido colocadas pelo guia)" Foto: Edemilson Padilha
  • O topo do Éléphant com as outras montanhas ao fundo
    O topo do Éléphant com as outras montanhas ao fundo" Foto: Edemilson Padilha
  • Éléphant visto de frente
    Éléphant visto de frente" Foto: Edemilson Padilha
  • A molecada com a tribo seguindo o Fernando
    A molecada com a tribo seguindo o Fernando" Foto: Edemilson Padilha
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A descida da parte mais negativa da via Foto: Eliseu Frechou

 

Acordamos com os olhos cheios de poeira e após um revigorante café iniciamos a subida pelas cordas. Eliseu começou a guiar um trecho bem esquisito e de repente, sem aviso, dois friends (proteções que colocamos em fissuras na rocha) sacaram da fissura. Foi um susto. Nunca, em mais de 20 anos escalando, havia presenciado algo do tipo. Fiquei preocupado e a partir daquele momento a escalada para nós todos tomou outra proporção. Cada colocação na pedra seria preocupante e nos esforçaríamos muito mais para fazer a escalada em livre, sem nem nos apoiarmos nas peças colocadas na pedra. Assustador!

Com muito esforço e passando por algumas chaminés apertadas e cheias de cocô de passarinho, conseguimos conquistar duas cordadas e mais um pedaço de outra com os últimos raios de sol. Eu e o Fernando descemos prendendo bem as cordas pelas quais iríamos jumarear no dia seguinte, pois com a ventania que havíamos presenciado na noite anterior, as cordas poderiam ser danificadas se estivessem soltas. Quando chegamos ao solo, o Eliseu estava com os olhos inchados e enxergando meio embaçado. Acho que ele tinha comido muito cocô de passarinho e estávamos preocupados que fosse algo grave. Como ele mesmo disse, se piorar ferrou, pois o hospital mais próximo é em Paris...
Amanheceu o terceiro dia de escalada. Por sorte, pela manhã, a parede ficava na sombra. Apressamo-nos em subir pelos 200 metros de cordas fixas. O Eliseu não estava bem ainda da vista e decidiu descer até a aldeia e providenciar mais água para nosso ataque final ao Éléphant. Eu e o “Capitão” (Fernando) tínhamos a missão de esticar todas as cordas, ou seja, escalar até não ter mais cordas para fixar. Escalei alguns metros acima do que havia conquistado no dia anterior e cheguei a uma encruzilhada: para a direita uma fenda negativa e bem esquisita e para a esquerda um diedro estranho que levava a um buraco, um tipo de gruta que acessava o outro lado da Tromba do Elefante. Segui minha intuição e fui direto ao “olho do elefante” e passei para o outro lado da torre. Foi incrível, pois o buraco dava acesso a um platô gigantesco, no lado oposto ao que havíamos começado a escalada. Fizemos um varal com a corda restante e ainda iniciamos a abertura de mais um esticão. Neste ponto acabaram-se as cordas e rapelamos tudo. Chegando ao chão encontramos o Eliseu bem melhor. Havia descansado e lavado os olhos com um colírio e estava pilhado para subir com tudo e dormir no platô naquele mesmo dia! Eu e o Capitão nos olhamos e pensamos “jumarear tudo de novo!!!”. Mas, fazer o que não é, era para isso que estávamos ali. Deixamos a preguiça de lado e começamos a arrumar a tralha toda para rebocar até o Platô da Ventania. Água, muita água, era só isso que pensávamos enquanto acomodávamos a carga dentro dos haulbags. O Eliseu estava com o diabo no corpo neste dia e assumiu o reboque com muita vontade. No final daquele dia estaríamos instalados no platozão e jantamos uma comida fria, pois o fogareiro não estava funcionando com o combustível maliense. Por sorte a comida liofilizada fica razoável até fria. O duro seria tomar café da manhã sem café! Daquela plataforma, a 250 metros de altura, nos confins da África, conseguíamos mandar mensagens de celular para o Brasil. Maldita tecnologia- desta maneira a gente não consegue se desconectar.

O quarto dia de escalada foi o dia D. De torrar no sol! Como agora estávamos do outro lado da montanha seríamos assados. E eu esquecera meu guarda-sol na base. Enquanto o Eliseu guiava a cordada delicada e difícil acima de nosso acampamento avançado, eu o Capitão torrávamos no sol. E nada daquele vento que nos açoitara a noite toda e quase não nos deixou dormir! Seguíamos uma bela fissura que mirava o cume. Um pouco antes de chegar ao topo do Éléphant nossa via “bateu” na Via Francesa, que, por sinal era cheia de chapeletas ao lado das fissuras. Acho que eles também não confiaram nas fissuras, porém foram um pouco mais drásticos (para não dizer antiéticos) em relação à segurança.

Cumeeeeeeeeee!!!! Guiei o último esticão de corda que tinha uns pitons soltos e uma chapa (proteção fixa na rocha) ao lado de uma fissura perfeita. Ancorei a corda numa pedra do topo e gritei avisando meus companheiros que a corda estava fixa. Consegui uma sombra em meio aos blocos para me esconder do sol enquanto eles subiam. O calor estava de matar. O cume da montanha era plano e o visual era incrível. Havia outras montanhas próximas e dava para enxergar muito longe aquela paisagem de savana com as tribos em volta, além de aglomerados de árvores aqui e ali. Onde havia água o verde florescia vigoroso. Fotos, filmagens, uns goles de água quente, um pouco de cocô de corvo para o chefe da tribo e iniciamos os malditos rapéis. Digo malditos porque logo no segundo lance de rapel a corda enroscou e não conseguíamos puxar, de maneira que tive de subir de prussik (tipo de nó blocante que usamos para subir por uma corda usando dois cordeletes). Subi uns 20 metros, consegui desenroscar e recuperei a corda, passei meu estribo numa ponte de pedra e rapelei nele, enquanto meus companheiros eram cozidos pelo sol. Acho que quando a gente fica parado é pior, sente mais calor.

Dormimos mais uma noite no Platô da Ventania, o que fez jus ao nome. Parecia que o vento nos arrancaria de lá e havia também muita poeira no ar de modo que tínhamos de cobrir a cabeça para poder respirar. Depois desta noite desastrosa resolvemos dar o nome de Blowing in the Wind para a rota recém conquistada. Em referência também à música do Bob Dylan que havia grudado na minha cabeça uma semana antes e que fala que as respostas estão sendo sopradas no vento. Nós seguimos nossa intuição e também os sinais (respostas) que nos foram sendo dados durante toda a viagem; de seguir este, ao invés daquele caminho, e, no final foi tudo perfeito, como sempre deve ser! Logo depois de sairmos do Mali o país teve um golpe militar. Fiquei feliz de ter saído de lá antes das coisas ficarem feias, mas também muito triste por ver um país tão interessante estar entrando novamente numa época de sombras, cheia de conflitos e muito sofrimento da população. Como diria a letra do Bob Dylan: ”Quantas mortes um homem causará até ele saber que pessoas demais morreram? A resposta, meu amigo, está soprando ao vento”.

 
 
Equipe: Edemilson Padilha, Eliseu Frechou e Fernando Leal
Patrocinadores desta expedição: Conquista, Solo, Snake, Deuter, Liofoods e Bio Brasil