Onde tudo começou
Texto: Antônio Calvo
8 de março de 2013 - 14:14
 
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    Antônio brincando acima do futuro "cofre". Foto: Antônio Calvo
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    Antônio (dir.) e Pedro em seu castelo, a pitangueira onde tudo começou Foto: Antônio Calvo
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    A primeira barraca a gente nunca esquece. Foto: Antônio Calvo
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    O quintal da casa, muito espaço para a bagunça. Foto: Antônio Calvo
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    Promessa de Lobinho nos idos de 1990. Foto: Antônio Calvo
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    Antônio (esq) e Fernanda com as adoráveis cachorras. Foto: Antônio Calvo
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Antônio brincando acima do futuro "cofre". Foto: Antônio Calvo

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Hoje pensei em compartilhar um pouco sobre como a paixão pela natureza e pelos esportes de aventura começaram em minha vida. Afinal, sou fruto dessas experiências que influenciaram profundamente as minhas escolhas pessoais e profissionais.

Sou o filho do meio de pais advogados, a mais velha é a Fernanda e o caçula o Pedro. Cresci nos anos 80 numa casa com jardim e pomar no bairro do Pacaembu, em São Paulo, numa das encostas do riacho "paã-nga-he-nb-bu" que fora canalizado pela Avenida Pacaembu durante sua urbanização em 1925. O arquiteto que projetou a casa aproveitou o desnível do terreno preservando as suas características e construiu a casa com 3 andares. Para os meus pais o coração da casa era o andar do meio, o nível dos quartos, salas e cozinha. Mas eu nunca vi dessa maneira. O quintal era o meu reino. Uma área onde rolávamos, brincávamos e nos sujávamos apenas para receber outra bronca quando mais um pijama era colocado na máquina de lavar.

O centro desse reino era o castelo que Pedro e eu estabelecemos nos galhos de uma pitangueira. Não me lembro a primeira vez que a escalei ou mesmo como fora o processo de conquistá-la, a memória mais antiga que tenho já estou em seus troncos fugindo da bronca de nossos pais. Dali, avistávamos o território inimigo: a porta da cozinha. Era por ela que vinham nos buscar, mas apesar de temida, era também a melhor rota de fuga! Um caminho rápido e fácil quando corríamos pela casa ou no jargão dos montanhistas, a diretíssima.

No portão do meio escondíamos debaixo de uma das pedras do piso uma faca de cozinha. Acho que fora esquecida no quintal pelo jardineiro. De tanto ser amolada, ela apresentava aquela curvatura característica causada pelo atrito entre lâmina e pedra. O “cofre” só foi descoberto pelos nossos pais anos depois...

Caí muito de bicicleta na rampa de descida para a garagem tentando dominar o equilíbrio e, quando aprendi, fazia questão de brecar tardiamente quase me chocando com o muro lá embaixo. A diversão era imitar a cena de perseguição das bicicletas do filme ET, na qual todos aterrissam depois de voar fugindo do governo e derrapam lado a lado ao parar a magrela.

Ao lado da garagem existia o corredor dos fundos que separava a casa do muro do vizinho e era cortado por dois portões de ferro. Por ele contornávamos o quintal e chegávamos à área de serviço onde ficava a escada externa de acesso à pitangueira. Era uma passagem estratégica que nos dava preciosos minutos de vantagem sobre os inimigos. Mas os portões viviam trancados e para vencê-los desenvolvemos alguns movimentos de escalada: segurávamos com uma das mãos num pequeno espaço entre a parede e o portão, pisávamos na maçaneta e com a outra mão alcançávamos a parte de cima criando impulso para jogar o corpo para o outro lado.

Todas as brincadeiras e habilidades manuais que aprendi no quintal de casa encontraram outra válvula de escape quando entrei para o grupo escoteiro depois que nos mudamos para um apartamento em setembro de 1990. Foi nesta época que encontrei outra paixão: acampamentos e contato mais próximo com a natureza. Em 2001 já trabalhava com corridas de aventura, depois me formei como educador ao ar livre pela Outward Bound Canada onde me especializei em cursos em formato expedição com travessias e montanhismo. Foi ali também que aprendi a remar canoas canadenses e explorar lagos e rios de lugares mágicos.

Mas só fui capaz de entender o significado dessas experiências quando, em 2009, ganhei o livro “Last Child in the Woods”. Richard Louv escreve sobre o abismo existente entre as crianças e o ambiente natural. Ele associa a falta de contato com a natureza da nova geração “plugada” de hoje com algumas tendências de saúde observadas em crianças como obesidade, déficit de atenção e depressão. É um novo e crescente tema de pesquisas que indicam que um direto contato com o meio ambiente é essencial à saúde física e emocional de crianças e adultos.

“Deixem as crianças serem crianças”, dizia o Coordenador de Cursos da Outward Bound Canada quando acampávamos com turmas entre 11 e 13 anos de idade. E, assim, hoje, brincando com terra, escalando árvores, acampando e explorando florestas acabo sempre voltando à infância no quintal da Rua Dr. Manuel Maria Tourinho.

 


Antônio Calvo
www.armazemaventura.com.br