MANUAL DO TREKKING
Elias Luiz Por: Elias Luiz  |  29.06.2026

A mochila pesa no corpo, mas a trilha também pesa na cabeça. Em alguns dias, a maior subida acontece por dentro. Estar preparado psicologicamente para uma trilha é tão importante quanto estar preparado fisicamente.

Caminhar é transcendente.

Elias Luiz / Extremos
01

Desconforto faz parte

Trekking não é uma sequência de cartões-postais. Há dias de chuva, bolha, frio, fome, mau humor e vontade sincera de estar em qualquer outro lugar.

A mentalidade correta não elimina o desconforto. Ela muda a relação com ele. Em vez de interpretar cada dificuldade como fracasso, você passa a entendê-la como parte do caminho.

A trilha não promete conforto. Promete verdade.

O silêncio da natureza muitas vezes revela o barulho que carregamos por dentro.
O silêncio da natureza muitas vezes revela o barulho que carregamos por dentro.
© Extremos
02

Medo e prudência

O medo é útil quando informa. Ele vira problema quando paralisa ou quando é ignorado por orgulho. O bom caminhante aprende a escutar o medo sem entregar a ele todas as decisões.

Às vezes o medo mostra falta de preparo. Às vezes mostra perigo real. Distinguir uma coisa da outra é uma das habilidades mais importantes em ambientes remotos.

O urso é do tamanho do seu medo, mas isso não significa que ele não exista.

FHá dias em que montar a barraca é fácil. Difícil é organizar os pensamentos.
Há dias em que montar a barraca é fácil. Difícil é organizar os pensamentos.
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03

Paciência

A vida moderna nos treina para velocidade. A trilha nos devolve lentidão. E no começo isso incomoda. Tudo demora: cozinhar, arrumar a mochila, secar roupa, subir uma montanha, chegar ao próximo vale.

Depois de alguns dias, algo muda. O corpo aceita o ritmo. A cabeça desacelera. O mundo volta a caber dentro de uma passada.

É por isso que acredito que a vida acontece abaixo dos 5 km/h.

04

Você Decide

Uma trilha de longa distância pode, de muitas formas, torná-lo uma pessoa mais forte para enfrentar os desafios da vida.

Mas você precisa ter consciência de que quem o colocou na trilha foi a sua própria cabeça e que quem pode, e deve, tirá-lo dela diante de uma eventualidade, de uma grande dificuldade ou de qualquer outro motivo, é você mesmo. E sem culpa. Saiba que tanto a montanha quanto a trilha sempre estarão lá, e você poderá tentar novamente em outra oportunidade. Ou não.

Você é o senhor do seu destino.

Uma trilha também é feita de pausas. É nesses momentos que a mente encontra espaço para descansar.
Uma trilha também é feita de pausas. É nesses momentos que a mente encontra espaço para descansar.
© Extremos
05

Transformação

Nem toda trilha muda uma pessoa. Mas toda trilha longa oferece essa possibilidade. A transformação não vem da paisagem, e sim do atrito entre desejo e realidade.

Você descobre o que carrega sem necessidade, o que sente falta, o que teme e o que realmente importa quando o mundo fica reduzido à mochila, ao corpo e ao próximo passo.

Caminhar é uma forma honesta de conversar consigo mesmo.

06

Preenchendo o vazio

Não é raro ver alguns hikers mudarem completamente de vida depois de uma experiência em uma trilha de longa distância. Largam tudo e passam a viver à margem da sociedade. Literalmente, se perdem.

Para mim, a trilha apenas preencheu um vazio existencial que sempre esteve ali, mas que a pessoa nunca havia percebido.

Na minha visão, isso tem mais a ver com a falta de propósito, de estrutura familiar e espiritual do que com o fato de a pessoa realmente ter encontrado um novo caminho para a vida.

Por isso, uma boa preparação psicológica é tão importante quanto compreender que a trilha é apenas uma parte da vida, e não a própria vida.