MANUAL DO TREKKING
Elias Luiz Por: Elias Luiz  |  29.06.2026

O clima não é um detalhe da trilha. Em muitas travessias, ele é o personagem principal. Você pode escolher a rota, mas não escolhe o vento.

O importante é sempre estarmos abertos para as mudanças e para as surpresas que a trilha e a vida nos proporcionam.

Elias Luiz / Extremos
01

Janela de temporada

Toda trilha tem uma época em que se torna mais favorável. Fora dela, o percurso pode continuar existindo no mapa, mas não necessariamente como uma experiência segura ou agradável.

Neve acumulada, rios cheios, calor extremo, incêndios, fechamento de refúgios e tempestades frequentes podem mudar completamente uma travessia. Ao longo dos anos, já enfrentei um pouco de tudo isso. Às vezes, poucos dias de diferença no calendário são suficientes para transformar uma viagem.

O planejamento da sua trilha começa pelo clima. Em muitas delas, a melhor época é o verão, como na Great Divide Trail, Tour du Mont Blanc, Kungsleden, Circuito O e em muitas outras que atravessam regiões com neve durante o inverno. No Brasil, o período mais indicado costuma ser o inverno. Como cada roteiro tem características próprias, é fundamental verificar qual é a melhor época do ano para fazer a travessia.

Mesmo dentro dessa janela ideal, ainda é possível dividi-la em diferentes períodos. No início da temporada, podem existir resquícios de neve, rios mais cheios e temperaturas baixas. Depois vêm os dias mais estáveis e quentes, que também costumam coincidir com o período de maior movimento e superlotação. No final da temporada, a chuva, o frio e até a neve podem voltar. Por isso, escolher a melhor época não significa apenas definir o mês da viagem, mas entender as características de cada fase da temporada.

Escolher um local protegido e observar a evolução do tempo pode fazer toda a diferença. Uma barraca bem montada começa muito antes de fincar a primeira estaca.
Escolher um local protegido e observar a evolução do tempo pode fazer toda a diferença.
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Frio e umidade

O frio seco é uma coisa. O frio úmido é outra. Em um trekking, a combinação de suor, chuva, vento e paradas prolongadas pode levar rapidamente à perda de calor.

Por isso, o sistema de camadas precisa ser pensado como um conjunto: a primeira camada afasta o suor, a camada de isolamento retém o calor e a camada externa protege contra o vento e a chuva.

A roupa que mantém você vivo nem sempre é a mais bonita na foto. Às vezes, é apenas a peça seca guardada no fundo da mochila. Em regiões chuvosas, é importante usar sacos estanques para proteger os agasalhos e o saco de dormir.

Uma noite de céu limpo costuma ser recompensa de um bom planejamento. Acompanhar a previsão do tempo aumenta as chances de viver momentos como este.
Uma noite de céu limpo costuma ser recompensa de um bom planejamento. Acompanhar a previsão do tempo aumenta as chances de viver momentos como este.
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Vento

O vento consome energia, dificulta a montagem da barraca, esfria o corpo e aumenta o desgaste mental. Em regiões como a Patagônia e áreas expostas de montanha, ele pode ser o maior desafio do dia.

Aprenda a observar as nuvens, as cristas e os vales. Evite montar a barraca em locais totalmente expostos quando houver alternativa. Proteja as mãos, o rosto e as orelhas antes que o desconforto se transforme em um problema. Quando eu estava no Camping Serón, fazendo o Circuito O, na Patagônia, duas mulheres montavam uma barraca da Big Agnes, a mesma marca canadense que uso até hoje. O vento aumentou de intensidade e acabou entortando uma das varetas. Elas foram obrigadas a procurar um local mais protegido, e eu fiz o mesmo.

O vento nessas regiões pode ser extremamente forte e dificultar até mesmo a caminhada. Já enfrentei situações assim na Patagônia e também na Kungsleden, durante a chegada de uma tormenta. A cautela é sempre o melhor remédio. Às vezes, perder um dia de caminhada pode poupá-lo de grandes problemas.

Neve, vento e frio exigem mais do que bons equipamentos. Conhecer a época do ano e entender as condições climáticas da travessia é fundamental para caminhar com segurança.
Neve, vento e frio exigem mais do que bons equipamentos. Conhecer a época do ano e entender as condições climáticas da travessia é fundamental para caminhar com segurança.
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Aplicativos

Mesmo durante a viagem, consultar um aplicativo de previsão do tempo é sempre uma boa prática, desde que exista sinal de celular. Além da previsão de chuva, observe também a intensidade do vento, a temperatura, a sensação térmica e a possibilidade de tempestades, informações que podem influenciar diretamente a decisão de caminhar, esperar ou até alterar o roteiro.

Em algumas trilhas mais estruturadas, os próprios refúgios e campings atualizam diariamente um quadro ou folheto com a previsão do tempo, como aconteceu comigo na Kungsleden, no Circuito O e em outras travessias. Já na Great Divide Trail, onde não existem refúgios e o sinal de celular é praticamente inexistente durante boa parte do percurso, a análise do céu e a tomada de decisão dependiam exclusivamente da nossa experiência.

Nenhum aplicativo substitui a observação do ambiente. Aprender a interpretar as nuvens, a direção do vento, a mudança de temperatura e outros sinais da natureza continua sendo uma das habilidades mais importantes para quem faz trekking.

Principais aplicativos: Windy (vento, chuva e modelos meteorológicos), Yr.no (muito utilizado na Escandinávia), Meteoblue (previsões detalhadas), Mountain Forecast (condições específicas para montanhas) e Weather Underground (estações meteorológicas locais).

Outras fontes de informação: guarda-parques, funcionários de refúgios e campings, centros de visitantes, moradores locais e outros hikers que estejam caminhando no sentido contrário. Essas pessoas costumam fornecer informações atualizadas sobre rios, neve, pontes, quedas de árvores, incêndios, deslizamentos e outros problemas que dificilmente aparecerão em um aplicativo.

05

Plano B

Todo planejamento climático precisa de margem. Um dia extra, uma rota alternativa, um ponto de saída ou a possibilidade de esperar podem salvar a travessia.

O erro mais comum é montar um roteiro sem folga, como se o clima tivesse obrigação de obedecer nossa passagem aérea.

Na trilha, flexibilidade é parte do planejamento.