Fazia tempo que tinha vontade de uma viagem auto-suficiente pela patagônia. Na realidade, desde que li o livro do Guilherme Cavallari (Pumas não comem ciclista), sabia que o local ideal para essa viagem seria o extremo sul das Américas. A escolha se baseava em duas coisas que sabia que encontraria lá: um ambiente selvagem, garantido sobretudo pelo clima; e a segurança de poder escolher qualquer lugar para dormir pela ausência de problemas sérios com a segurança.
Queria fazer a Carretera Austral, estrada feita durante a ditadura chilena, que conecta as vilas e cidades do extremos sul do país. Ela começa em Puerto Mont e termina em Villa O’hinngs, desse pequeno povoado para adiante, por mais que o país ainda continua sentido ao sul, não possível ser conectado por causa do campo de gelo sul. A dúvida era saber de onde começar a viagem, uma vez que se partisse de Puerto Mont teria que pegar uma sequência de balsas antes da estrada continuar de maneira ininterrupta. Optei por começar de Bariloche, na Argentina, pela Ruta 40, cruzar o passo Futaleufu e encontrar a Carretera Austral na Villa Santa Lucia.
A ideia era tentar fazer o trajeto, mais ou menos 1340 km, no menor tempo possível, como os grandes eventos de bike de ultra distância underground que existem no mundo (Tour Divide, Inca Divide, Transcontinental, etc.). Há anos que queria poder participar de uma competição dessas, mas devido ao custo financeiro sempre posterguei. Queria saber como me comportaria fazendo isso sozinho, com o mínimo de equipamento possível, para deixar a experiência mais “extrema”. Hoje em dia conseguir realizar alguma aventura “selvagem” é fato cada vez mais difícil num mundo controlado e explorado por todos os seus cantos. Portanto, só me restava uma coisa a fazer para deixar a experiência da forma que eu queria, abdicar ao máximo do conforto – sem barraca, sem fogareiro, dormindo o mínimo possível.
Também não tinha os equipamentos ideais, mas meu grande amigo Diogo de Sordi (parceiro de corrida de aventura) abriu sua caixa de pandora e me disponibilizou todos os equipamentos que eu quisesse. Peguei uma sadllebag (bolsa de selim) de 10L, uma bolsa de guidão de 4L, um casaco de pluma, uma lona muito leve (que pretendia usar como um teto em caso de chuva, mas que não cheguei a usar pelos ventos patagônicos) e, o principal equipamento, um bivac da Black Diamond completamente impermeável. Para completar os equipamentos levei meu saco de dormir ultralight Deuter (10ºC de conforto, mas que só me aquecia de usasse todas as roupas que estava levando), a roupa de bike vestida o tempo todo, uma calça, uma camisa, meu equipamento para chuva anorak e calça impermeável e uma esteira que cortei do tamanho das minhas costas, para reduzir o peso, que servia como isolante. Esqueci a luva impermeável e isso me custou congelamento primário das pontas dos dedos das mãos. Todo o equipamento não ultrapassava 4 kg acoplado como dava na minha bike, sem mochila – e só!
No primeiro dia, ainda com as pernas frescas, resolvi andar o máximo que conseguiria até ser vencido completamente pelo sono. Isso me rendeu 260km. No entanto, quando o sono me pegou, não encontrava nenhum lugar realmente bom para fazer um bivac e, claro, como sempre tem que ser na Patagônia, estava chovendo. Depois de cinco quilômetros procurando, me deitei num gramado, embaixo da chuva, tentando me proteger do vento atrás de arbustos. Gostas de chuva insistente penetravam pela abertura da minha cabeça, que não pode ser fechada para evitar condensação, e me impediam de dormir realmente bem. Ás 5 da manhã desisti de lutar contra aquele inferno que tinha me metido e decidi que pedalar era mais eficaz contra o frio.
No dia seguinte dormi num ponto de ônibus na cidade La Junta. Depois aluguei um quarto na cidade de Manuales. Seguindo por outro aluguel de quarto em Villa Cerro Castillo. Era réveillon e depois de uma descida de serra congelante, me dei de presente mais uma noite numa cama. De Cerro Castillo para adiante é a parte mais selvagem da Carretera Austral, 400 km de rípio, com vilas a cada cem quilômetros, sem muita esperança de encontrar pontos de ônibus.
Era meu quinto dia de viagem e estava fazendo uma média diária superior a 230km/dia, muito melhor do que qualquer expectativa minha. Nesse trecho até Puerto Rio Tranquilo fui castigado por longas seções de vento contra que não deixavam minha velocidade ultrapassar míseros 7km/h, mas não chovia. O barulho do vento, depois de horas exposto, começa a te enlouquecer. Meu ciclo computador tinha deixado de funcionar no segundo dia de viagem, não tinha muita noção te como andava minha progressão naquele trecho. Não levei GPS, estava orientando utilizando um mapa de estradas do Chile que não tem referencias geográficas. Depois de horas de sofrimento encontrei um belga que vinha fazendo a viagem de bike em sentido contrário ao meu. Conversamos rapidamente e ele me disse que faltavam apenas 20 km até Rio Tranquilo.
Pouco antes de chegar fui presenteado com a visão do lago General Carrera, maior lago do Chile, com sua cor azul turquesa. Quando cheguei na vila, caiu uma chuva infernal. Avistei uma pizzaria e decidi que merecia variar um pouco a dieta, que até então estava sendo composta basicamente de alfajor e pão com queijo. Sentei, pedi uma taça de vinho, uma água com gás e uma pizza gigante. Comi ela como um esfomeado e pedi outra inteira. A dona e os clientes da pizzaria me olhavam assustado. Peguei a outra pizza toda, dobrei no meio e coloquei numa sacola para levar. Queria pedalar pelo menos mais sessenta quilômetros nesse dia.
Quando sai da cidade, avistei a placa que tanto vinha procurando na viagem: o horário da balsa que cruza o fiorde Mitchel, conectando Puerto Yungai com Rio Bravo. Eram apenas três horários por dia, 8, 13 e 18. Fiz todos meus cálculos e se parasse para dormir aquela noite não conseguiria pegar a última balsa e teria que dormir em Puerto Yungai, no meio do nada, na beira do fiorde e sem saber se haveria pelo menos um mísero teto para abrigar meu bivac. Passar o frio do primeiro dia estava fora de cogitação naquela altura. Decidi que seguiria sem dormir, tentando cobrir os 250km antes das 18 horas do dia seguindo, tentando fazer minha melhor média de velocidade da viagem, no final e com estrada não pavimentada em todo o trecho. Eu tinha que tentar.
Logo depois que sai da vila, o pedal do esquerdo quebrou, a parte que fixa embaixo da sapatilha se soltou do eixo. Não dei muita importância, apenas mantinha ele fixo no eixo pedalando com a perna forçando para dentro. Em troca, fui recompensado com uma lua cheia estrondosa, beirando o lago general Carreira, numa noite sem chuva (só por que eu não ia dormir...). Pela manhã, estava em Cocrane, ultima vila antes. Procurei uma cafeteria e não encontrei, meu sonho era um belo café quente para espantar o frio que passei durante a noite. Parei num mercadinho e comprei as provisões para o trecho final. De volta a dieta do pão e alfajor.
Toquei duro esse trecho, ainda recompensado pelo tempo aberto, num dos trechos mais bonitos, mas sem poder parar para fotografar. Ia calculando meu tempo e minha média, ainda estava muito apertado conseguir chegar na balsa antes das 18h. Devido ao pedal quebrado, começou fortes tendinites nos meus dois joelhos, que ajudavam a me maltratar. Dando tudo que eu tinha de força, consegui chegar em Puerto Yungai 15 minutos antes da balsa sair. Não podia acreditar, mas tinha conseguido, e, por uma benção divina, tinha uma cafeteria aberta, mas começava a chover novamente.
Depois que a balsa cruzou faltava apenas cem quilômetros para terminar meu contra-relógio, mas teria que encarar mais uma noite sem dormir. Fui para o tudo ou nada, com a chance de fazer em seis dias ainda, muito melhor do que a melhor das minhas previsões. No entanto, não ter dormido na noite anterior e a chuva começou a cobrar a seu preço. Minha mente era um misto de esforço descomunal com imagens oníricas. A segunda noite sem dormir começou a cobrar seu preço. Tinha alucinações, via placas que não existiam, luzes imaginárias, confundia troncos com pessoas. Parei para um sono rápido de vinte minutos tentando melhorar a concentração, mas o frio quase me congelou os ossos. Lutava com todas as minhas forças para acabar com aquele sofrimento, tendo que empurrar em algumas subidas por não conseguir pedalar pela tendinite. Até que por fim fui vencido com a imagem, que a principio não sabia se era uma alucinação, de um refúgio na beira da estrada.
Como esse trecho é muito isolado, uma associação de cicloturistas construiu um refúgio para abrigar as pessoas que fazem esse trecho. Uma casinha simples, com lareira e um banheiro do lado de fora. Coloquei minha bike para dentro, tirei minha roupa molhada, assinei o livro e dormir um sono de quatro horas mais reconfortante de toda minha vida. Acordei cedo no outro dia, fiz o ritual macabro de vestir as roupas molhadas de bike, quase sem conseguir e encarei os últimos 35 km que separavam do destino final, terminando a Carretera Austral em 7 dias e 3 horas, como uma média de 230km/dia.
Minha sensação era a de um mendigo, em paz, que atravessou uma das zonas com o clima mais inclemente do mundo, sem quase nada. Mas diferentes dos “verdadeiros mendigos” (pois me sentia um o tempo todo) eu tinha um equipamento super tecnológico que me ajudou a permanecer vivo nas terras australes. Digo mendigo pois tem aquele lado de fugir da sociedade, ou seja, daquele vida extremamente permeada pelo conforto e pela ideia de estar confortável como um fundamento da existência e do bem estar. Para mim, viver sempre me pareceu justamente o contrário – quanto mais conforto tenho e quanto mais confortável estou, mais desconfortável me sinto.
Essa fuga em movimento, esse nomadismo contemporâneo, me reconecta com um lado profundo da minha alma e, sobretudo, me traz uma calma que já não experimentava a tempos no processo de crises de ansiedade pela escrita da minha tese de doutorado. Talvez, uma vida assim seja a que busco: mendigo-tecnológico-em-movimento como um fundamento de reconexão do espírito com a aventura. Na minha humilde opinião, aventura não estar em ambientes selvagens com gestão de riscos, é estar em paz com minha alma primitiva. A liberdade de poder pendurar tudo o que precisa na bicicleta, poder dormir onde quiser, carregar o mínimo possível é algo indescritível. Acho que liberdade é uma questão de poder escolher. E a garantia de andar rápido é carregar o menor peso possível. O estilo bikepacking, na minha opinião, consegue juntar as duas coisas ao mesmo tempo.
Agradecimentos. Primeiramente gostaria de agradecer, a Guilherme Cavallari, que escreveu um belíssimo livro sobre a Patagônia e esteve sempre disponível a tirar minhas dúvidas sobre a rota a escolher. Ao Arnaldo, presidente da Confederação Brasileira de Corrida de Aventura, por me emprestar seu Spot e permitir um acompanhamento em tempo real através do Extremos. Ao Elias, do Extremos, parceiro de longa data cobrindo e incentivando essas maluquices. Ao Pedro Lavinas, que também fez a cobertura através da Brasilia Mult Sport quee estava sempre disponível caso acontecesse algo. Ao Diogo de Sordi, grande amigo, que sem seus equipamentos não seria possível fazer essa viagem. E, sobretudo, a minha família, que apesar de não gostar das coisas que faço, me enchem de carinho e isso deixa a vida mais feliz.





