CICLOVIAGEM
Guilherme Cavallari
Por: Guilherme Cavallari  |  7 de fevereiro de 2011  •  13:10

O que é aventura?
De tempos em tempos essa pergunta me incomoda. Já incomodou muito mais no passado, quando era apenas uma questão teórica. Hoje, como vivo exclusivamente do trabalho na minha editora especializada em "aventura" (seja lá o que isso for), essa questão passou a incomodar menos... Faz sentido, afinal o que antes era idéia e sonho, hoje é rotina de trabalho, dia a dia, estilo de vida - e isso, por si só, já é uma definição.

Sou autor, editor e distribuidor de onze livros com minha assinatura, todos relacionados ao que considero "aventura". Oito desses livros trazem roteiros para prática de mountain bike, outro traz roteiros de trekking, um tem informações sobre conceitos, técnicas e equipamento para uso em atividades de aventura e outro ensina a usar a tecnologia GPS.

Uma característica do meu trabalho é que preciso estar em boa forma física para as fases de mapeamento de roteiros. Tenho que estar pronto para pedalar 400 km de mountain bike em uma semana ou caminhar 120 km em dez dias com mochila de 30 kg nas costas, conforme o caso. Para isso preciso treinar regularmente, comer bem, dormir bem, estar saudável. Todos os dias faço alguma atividade física.

Meu trabalho me obrigou a aprender a ler mapas, cartas topográficas e cartas náuticas. Aprendi a usar bússola e altímetro. Estudei meteorologia básica. Fui obrigado também a dominar a tecnologia do GPS. Tive que aprender um monte sobre mochilas, calçados técnicos, roupas tecnológicas, barracas, fogareiros, tipos de combustível, cordas, alimentação, hidratação, tratamento de água, mínimo impacto ambiental, primeiros socorros, técnicas de resgate e mais um monte de coisas aparentemente mais relacionadas a serviço social no Iraque do que a trabalho editorial no Brasil. Também uso regularmente meus conhecimentos de outras línguas para ler, escrever, falar e entender gringos que dominam alguma informação melhor que eu.

Viajo com regularidade - mas sempre muito menos do que gostaria. Nem sempre sei onde vou dormir nem como. Costumo dizer que "eu ralo antes para você (leitor) desfrutar depois". Isso quer dizer que me perco propositadamente pesquisando caminhos alternativos, chego a lugares com pouca ou nenhuma estrutura de hospedagem e alimentação para analisar se vale incluí-los nos livros, faço e refaço às vezes no mesmo dia longos trechos de um roteiro para garantir a qualidade da informação que será publicada, regularmente passo frio, fome, fico muito cansado, molhado, tomo tombos ou quase, me ralo, ganho hematomas, desidrato, dou risada sozinho, me queimo ao sol, encontro cobras, sou picado por insetos, fico sujo e nem sempre posso tomar banho, durmo em saco de dormir dentro de barracas ou em redes penduradas em árvores, passo muito tempo sozinho e sinto saudades, passo muito tempo calado e acho bom. O tempo todo busco o "conforto no desconforto". Quase sempre encontro. Enfim, vivo situações que, de alguma forma, ajudam a definir o que eu acho ser "aventura".

Viajar e trabalhar em campo significa, para mim, contato com a natureza. Nesse convívio aprendi não apenas a gostar da natureza, mas tive que estudá-la e conhecê-la melhor. Quando olho uma mata ou montanha, por exemplo, além da diversidade biológica e geológica, vejo questões de segurança, acessibilidade, chances de mudança que possam afetar o roteiro e a visitação, possibilidades de diversão e necessidade de mínimo impacto.

Então, será que meu trabalho, meu estilo de vida, minha rotina profissional podem ajudar a definir o que é "aventura"? Talvez sim...

1. Não consigo imaginar aventura sem desafios, sem expor nossas fraquezas e habilidades à luz do maior conjunto harmônico e dinâmico de força e sutileza que conhecemos: a natureza. Desafio físico e psicológico, mas também ético e filosófico. Algo que nos ajude a entender e definir nosso papel no Grande Conjunto.

2. Não consigo imaginar aventura sem busca por conhecimento, sem estudo, sem preparação, sem metas que exigem algum tipo de evolução pessoal mais qualitativa que quantitativa, sem partirmos do pressuposto que precisamos aprender.

3. Não consigo imaginar aventura sem a percepção da natureza como parte de nós e de nós como parte dela. É muito comum ouvir alguém dizer ao voltar de uma "aventura" que teve a sensação de "insignificância diante da natureza". Isso é resultado do nosso isolamento, da distância que nos separa da natureza. Não consigo ver aventura como competição contra a natureza, mas sim como um processo de integração com a natureza.

Então, resumidamente, para mim aventura tem que ter desafio, aprendizado e integração com a natureza. Sem esses elementos, fico sempre com a impressão que a palavra "aventura" é apenas um rótulo sem conteúdo, um artifício de marketing, um discurso vazio.

E você? Concorda com esses argumentos? O que é aventura para você? Deixe o seu comentário.

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"Adorei Elias! Senti emoção, medo, achei que você é maluco, senti saudades, fiquei com vontade de fazer a trilha, e no final desisti… mas não de fazer trilhas tá! Só desse final perigoso! Parabéns pelo livro, pela coragem e determinação! Parabéns por nos inspirar, por fazer olhar o mundo de diferentes formas. Por nos mostrar que devemos sair da rotina, sentir a natureza, viajar… e o que mais precisamos é ter um coração em paz e bons amigos!"

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