Não consegui encontrar a posição perfeita. A falta do conforto físico abalou o meu psicológico e eu tive um colapso mental. Não olhei para baixo, muito menos para o lado. Eu sabia que ali, a poucos metros de distância - um metro e meio, talvez dois? - encontrava-se um desfiladeiro com mais de 300 metros de altura. E a última coisa que eu queria era travar de vez. A parede da escalada não era totalmente vertical; era, sim, uma rampa, levemente positiva, cuja dificuldade era pequena comparada a outras escaladas que eu já fizera. Meus dois companheiros de cordada já haviam escalado por ali e esperavam logo acima, prontos para continuarmos a subida. Um deles até mesmo me dando segurança pela corda.
Eu estava no Dedo de Deus, uma montanha que sempre permeou os meus sonhos. Estava precisamente na variante Maria Cebola, aberta por Drahomir Vrbas e Hamilton Maciel em 1957, que, segundo Antonio Paulo Faria em seu livro A Escalada Brasileira, "veio a ser o trecho da escalada mais popular e bonito da Serra dos Órgãos" ou, como bem definiu o casal Cintia e Flavio Daflon no recente e belo livro 50 Vias Clássicas no Brasil, “um incrível e aéreo diedro que a deixou ainda mais bonita e interessante”. Faria ainda segue explicando que essa variante foi uma opção encontrada pela dupla para evitar o trecho da via original de 1944 chamada de Black Out: "uma chaminé interna que mais parece com exploração de caverna do que propriamente com escalada." Contudo, o Dedo de Deus fora escalado pela primeira vez em 8 de abril de 1912! Tal proeza foi realizada pelos irmãos Acácio, Alexandre e Américo de Oliveira, todos de Teresópolis, além de Raul Carneiro e do pernambucano José Teixeira Guimarães. Foram necessários três dias para alcançarem o cume, sendo que o primeiro foi gasto apenas na aproximação da montanha como descreve Faria:
Aos poucos fui ganhando metro após metro. Cansado com o esforço físico, parei no terço final para descansar. Consegui apoiar a barriga na rampa e recuperar um pouco de ar. Quebrado mentalmente, eu não conseguia visualizar a linha de escalada mais fácil levemente à direita - e também mais próxima do desfiladeiro! - e muito menos prestar atenção nas dicas dos parceiros Nelson Barretta e Carlos “Charlie” Alves. Me lembro bem do lance final deste trecho, um pequeno bloco de pedra entalado na fenda que serviu de apoio para as cansadas mãos. Depois foi só ficar de pé e entrar à esquerda no que viria a ser o próximo lance de chaminé da via. Ainda estávamos na metade da escalada - na quarta parada de oito - e eu perdera quase todas as energias.
Aos olhos do Charlie, numa narrativa extremamente cuidadosa e educada para não "denunciar" o amigo aqui, a escalada ocorreu da seguinte maneira:
"Conforme foi evoluindo, fui me encaixando" foi exatamente o que não aconteceu comigo... O Barretta dava risadas, era o úúnico do trio que já passara por ali algumas vezes e sabia o que esperar. E a narrativa do Charlie prosseguiu:
Mais uma vez o Charlie foi polido à beça. A verdade, preciso confessar, fui eu que desci porque estava me borrando de medo e extremamente cansado e não porque "a navegação e o raciocínio em grupo é muito importante para evitar erros, portanto na dúvida ele desceu". Eu joguei a toalha, não tinha mais condições de guiar um lance daquele. Naquele momento, porém, seria mais fácil terminar a escalada, chegar no cume e descer rapelando por uma outra via ao invés de voltarmos pelo mesmo caminho. Para o meu alívio, estávamos a poucos metros do final. Na verdade, a poucos metros de completar 50% da escalada, pois ainda teríamos que descer tudo depois!
A comemoração no topo foi singela. Assinamos o livro de cume e com trinta minutos já estávamos prontos para descer. Como tínhamos duas cordas de sessenta metros, foi possível rapelar pela via Teixeira - aquela de 1912 - e admirar o quanto o quinteto fora corajoso e hábil na conquista de Dedo de Deus. Esse primeiro lance de rapel, diga-se de passagem, é assustador! Mas chega de escrever sobre isso... Foram mais de quinze horas de atividade entre o início e o fim da trilha e eu estava muito feliz e realizado. O renomado escalador americano Royal Robbins, falecido este ano aos 82, escreveu em sua biografia To Be Brave sobre a primeira vez que ele escalou: "Quando toquei a rocha ela, por sua vez, tocou meu espírito, despertando um desejo inefável, como se eu tivesse agitado uma lembrança escondida de existência anterior, uma muito feliz."
Uma semana exata depois - "tocado pelo espírito da rocha" - voltei a escalar com o Charlie e com outro amigo na Pedra do Bauzinho aqui em São Bento do Sapucaí, quintal de casa. Escolhemos a via V de Vitória que eu não conhecia e que segundo o Manual de Escaladas Pedra do Baú e Sul de Minas do Eliseu Frechou está classifica como 6º VIsup IX/A1. Acabei guiando algumas enfiadas e finalmente consegui espantar aqueles dragões. E mais uma vez lembrei de Robbins que resumiu bem essa mistura de sentimentos ao escrever que “não é se você está ganhando ou perdendo. É o quanto você está se dedicando? As coisas boas não conduzem necessariamente a uma atitude positiva. Mas uma atitude positiva leva a coisas boas.”
Obrigado aos parceiros Charlie e Barretta pela positividade nesta aventura. Obrigado à Thule pelo apoio ao ceder para teste a mochila Stir 20l.
Boas aventuras,
Antônio Calvo
www.armazemaventura.com.br
