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No topo do Aconcágua... e em família
Novo desafio dos Gribel, única família de montanhistas do Brasil, é chegar ao ponto mais alto da América do Sul
 
Publicado em 02/02/2010 - 15h43 - PRISCILA BRITO Fonte: O Tempo
 
 
 
  Helvio / Editoria de arte
Jornal da Pampulha
   

Viagem em família tem outro significado na casa dos Gribel. O casal Eduardo e Adriana e os filhos André, Mariana, Raphael e Renato, há quinze anos fazem juntos expedições por montanhas mundo afora. Foram mais de 20 até hoje, dentre elas a escalada do Pico da Neblina, no Amazonas, ponto mais alto do Brasil, e do Monte Kilimanjaro, na Tanzânia, regição de maior altitude da África. O novo desafio da única família de montanhistas do Brasil começa hoje, quando o casal e os filhos André e Renato partem de Belo Horizonte para uma viagem de 20 dias cujo destino final é o cume do Monte Aconcágua, na Argentina, ponto mais alto da América do Sul.

Os quatro se prepararam para a expedição nos últimos seis meses, com o acompanhamento de personal trainer e fisiologista. A rotina de treinos incluiu exercícios aeróbicos e musculação, mas também atividades de recreação, como leitura de livros e sessões de filmes sobre montanhismo e a cultura local dos Andes, onde fica o Aconcágua. Enquanto o treino físico serviu para preparar o corpo para a subida (eles vão caminhar cerca de 6 a 8 horas por dia, carregando, cada um, equipamentos que equivalem a 25% do peso do corpo) e para suportar os efeitos da altitude, os momentos de lazer tiveram o objetivo de dar à família motivação para enfrentar aquela que deve ser a sua viagem mais difícil. "Ela vai ser a mais longa que já fizemos. Vamos enfrentar um clima muito frio e o desgaste físico e psicológico vão se acumular. Todas as dificuldades vão estar juntas em uma expedição só", avalia André.

 
  Adriana e os filhos Renato e André: desafio começa neste sábado (30), na Argentina.
Foto: Pedro Silveira
   
 
 
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A experiência adquirida em outras expedições é a aposta da família para driblar os obstáculos na escalada do Aconcágua. "Esta é a expedição em que estamos mais preparados psicologicamente, fisicamente e com o melhor material", pondera o irmão Renato. Planejamento outra estratégia para atingir o alto do monte. A família sai com um roteiro que detalha, dia a dia, as atividades a serem realizadas. Ele prevê, inclusive, períodos de descanso e de aclimatação e duas tentativas para atingir o cume do Aconcágua, alcançado por somente 30% dos montahistas que fazem a escalada. Confrontada com a estatística, a família faz questão de destacar que, apesar de todo o preparo e confiança, não está disposta a chegar ao topo do monte a qualquer preço. "Não queremos bater nenhum recorde. Queremos chegar lá em cima e voltar com vida. Se para isso tivermos que desistir, então não insistiremos. Nós somos primeiramente prudentes, depois objetivos", ressalta André.

Paixão à primeira aventura
Foi durante uma viagem a Bali, na Indonésia, em meados dos anos 90, que Adriana e Eduardo experimentaram pela primeira vez o gosto da aventura. De férias na ilha, eles descobriram que um vulcão estava em erupão e decidiram fazer trekking nas proximidades. A experiência foi tão marcante que a partir de então eles passaram a incluir nos roteiros de viagem da família atividades de aventura, que posteriormente virariam expedições profissionais. "Queríamos que os meninos também vivenciassem isso. Com o passar do tempo, eles cresceram e foram tomando gosto", conta Adriana.

O acaso também foi o responsável pelo destino aventureiro da conhecida família Schurmann. A única diferença em relação aos mineiros é que o clã catarinense optou pelo mar. A mãe, Heloísa, lembra que tudo começou em 1974, quando ela e o marido Vilfredo decidiram fazer um passeio de barco enquanto viajavam pelo Caribe. "Quando vimos aquele mar azul, foi uma mudança total de vida. Sabe quando o peixe é pego pelo anzol? Foi assim que aconteceu com a gente". Eles compraram um barco e começaram a velejar. Dez anos depois, partiram com os três filhos em sua primeira grande aventura: a volta ao mundo a bordo de um veleiro. Atualmente, a família trabalha nas buscas de um submarino alemão que naufragou na costa brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. No ano que vem, eles farão uma nova volta ao mundo, passando por lugares inéditos. "Sempre temos novos planos de aventura. Tem muito mar por aí", garante Heloísa.

Quem se empolgou com a história das famílias e quiser seguir o exemplo, a dica que Adriana dá é começar devagar. "Compre um tênis e suba a Serra do Curral ou a Serra da Moeda, por exemplo. Tem lugares lindos que ficam próximos da cidade e não requerem equipamentos sofisticados para serem explorados", sugere Adriana. Informar-se e experimentar a atividade de interesse é outro caminho a ser seguido por quem quer se aventurar, segundo Heloísa. "Tem gente que compra um barco no ímpeto e depois reclama que velejar é muito lento. É preciso fazer tudo com muita paciência para saber se é aquilo mesmo que se quer", orienta.

Mais unidos
Não foi só capacidade de enfrentar situações-limite e bagagem cultural que os Gribel e os Schurmann ganharam em anos de expedições. Eles ganharam também mais unição dentro da família. O fato de as famílias passarem tanto tempo juntos se preparando para as viagens e durante as mesmas, muitas vezes em situações de risco, interferiu positivamente nas relações dentro de casa. "Na montanha não tem hierarquia. Todo mundo tem que se respeitar e cada um tem sua funão e o não cumprimento dela pode comprometer toda a expedição. Isso fez com que os meninos desenvolvessem desde cedo um senso de responsabilidade", afirma Andriana.

Quando voltar da viagem, os Gribel vão compartilhar com outras famílias os segredos para se conseguir essa boa convivência em casa. Eles vão fazer palestras em escolas de Belo Horizonte sobre como os pais podem usar o esporte para educar os filhos. "Isso pode ser uma forma muito interessante de os pais se aproximarem dos filhos, principalmente na adolescência, quando eles parecem querer desgarrar dos pais. Aqui em casa sempre foi diferente por causa do esporte", conta Adriana.

Heloísa destaca três habilidades que sua família desenvolveu ao longo de tantos anos velejando no mar: aprender a gostar um do outro, saber respeitar os limites de cada um e ter paciência. "Isso não quer dizer que não tivemos brigas, mas sempre chegamos a um consenso. Se não tivermos amizade e cumplicidade, não conseguimos levar as viagens adiante", diz.

Realizar atividades em família fundamental para o bom desempenho das relações entre pais e filhos, de acordo com a psicóloga Marina Reis. "Quanto mais tempo juntos, mais eles se conhecem e dividem experiências. Isso proporciona crescimento e amadurecimento para todos", explica. Não é necessário, segundo ela, sair cruzando o oceano para unir pais e filhos, mas é preciso se esforçar para que os momentos em família sejam mais rotineiros. "Tem famílias que são mais dinâmicas, outras precisam de mais tempo para realizar uma tarefa. O importante é conseguir chegar a um acordo e buscar a motivação de todos", aconselha.

 
 
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