MONTANHISMO
Por: Paulo Saczuk Junior  |  19.02.2014  •  20:00

Inúmeras perguntas poderíamos formular sobre o que leva a nós alpinistas termos um fascínio tão grande pelas montanhas, poderíamos dizer que é um estado de espírito, que é lugar onde nossas mentes se perdem e se encontram, que não se trata de um esporte e sim uma filosofia de vida. Em fim são muitas perguntas e com elas muitas respostas e na busca por estas imensas possibilidades embarcamos em mais uma jornada.

No dia 15 de Novembro de 2013 eu meu amigo Luis César saímos de Curitiba/PR rumo a mais uma aventura, desta vez em nosso destino a Patagônia Argentina. Nossa primeira parada ocorreu na cidade de São Carlos de Bariloche, chegamos no aeroporto por volta das 21h30, pegamos nossas bagagens, retiramos nosso carro e nos dirigimos para a cidade onde passamos a primeira noite de nossa viagem. Tão logo acordamos tomamos o café da manhã, fizemos as compras necessárias, trocamos nosso dinheiro e rumamos para San Martin de Los Andes local de nossa primeira escalada.

Localizada na província de Neuquén, nas margens do lago Lácar, San Martin é a localidade turística mais importante da sua província. Conta atualmente com 31.690 habitantes, sua posição geográfica fica a sudoeste da sua província, a 45 km da fronteira Argentina-Chile e a 1300 km a sudoeste de Buenos Aires. Fica cerca de 15 km do Cerro Chapelco, importante estação de esqui com pistas de todos os níveis, também é conhecida por sediar eventos de corrida de montanha como a Patagônia RUN e etapas do mundial de Mountain Bike.

Chegamos em San Martin por volta das 13h00, almoçamos e entramos em contato com nossos amigos Argentinos que nos acompanhariam na escalada ao Vulcão Lanin, sobretudo em especial a Julian Lezcano (Pollo) um grande amigo e montanhista local. Após conseguirmos contato com ele, marcamos nosso encontro diretamente no parque nacional Lanin. Seguimos então de carro chegando no parque aproximadamente no final do dia, arrumamos nosso acampamento na área reservada ao camping, onde aguardaríamos a chegada de nossos amigos. Enquanto preparávamos nosso jantar eles chegaram, foi um encontro emocionante, pois não nos falávamos pessoalmente a cerca de um ano, quando na data em questão escalávamos o Aconcágua na mesma temporada. Após um jantar regado a um bom vinho e ótimas lembranças de aventuras passadas, combinamos nosso horário de saída para a manhã do dia seguinte rumo ao vulcão Lanin.

Acordamos as 6h00 da manhã, tomamos café começamos arrumando nossas coisas, pontualmente as 8h00 estávamos na Guarita dos guarda parques para fazer o registro obrigatório e conferir também os equipamentos obrigatórios para ter a liberação para realizar a escalada do vulcão. Para os amigos que desejam se aventurar no Lanin itens como capacete, piqueta, grampons e rádio HT são obrigatórios assim como o registro no parque, um vez que existe um controle na quantidade de pessoas a serem liberadas bem como o tempo de permanência na montanha que não pode ultrapassar dois dias.

Equipamentos e liberação em ordem iniciamos a escalada por um bosque muito bonito seguindo uma estrada de terra, após cerca de 50 minutos de caminhada saímos na trilha que leva a base do vulcão e ao primeiro trecho complicado chamado de Espinha de Peixe, trecho este longo e cansativo e com o sol a pino se torna realmente puxado. Passado este trajeto iniciamos os famosos zig zags, forma comum de impor o ascenso na montanha, afim de amenizar os efeitos de uma subida em linha reta.

Após longas horas de caminhada por volta das 15h00 chegamos ao Refugio Lanin 2.315 metros de altitude, neste momento ventava muito e o frio cada vez aumentava mais, nos abrigamos no refugio onde preparamos nosso jantar e após arrumar os equipamentos para a parte final da escalada fomos ao nosso descanso merecido. Acordamos as 2h00 da manhã já com os equipamentos em ordem fizemos um lanche rápido e iniciamos a subida. Optamos em sair com os grampons desde o refugio pois já havia gelo logo acima dele, e vale lembrar que nesta época ainda há muito gelo na montanha o que facilita e muito na canaleta por exemplo por ser uma subida com inclinação entre 30 a 50 graus e cerca de 520 metros de desnível.

A noite estava perfeita, com uma lua cheia de encher os olhos que iluminava toda a montanha o que tornou possível inclusive fazer a subida sem o uso das lanternas. Faltando pouco mais de duas horas para alcançarmos o cume, o Luis liderava a subida com mais ou menos 1 hora de diferença para nós, o que lhe proporcionou fazer muitas fotos e vídeos relatando com precisão as belezas e dificuldades da escalada. Neste momento eu escalava junto de meu amigo argentino Pollo e abaixo de nós seguiam Beatriz e Jorge também argentinos. Neste ponto da escalada o Jorge estava sofrendo um pouco com a altitude e o cansaço e com isso fizemos algumas paradas afim de lhe dar apoio e incentivá-lo, visto sua dificuldade na subida.

Em função dos fortes ventos e baixas temperaturas as formações de gelo estavam simplesmente incríveis, assumindo as mais variadas formas possíveis e ganhando vida com o brilho intenso sol e o azul do céu. Tomei uma certa distância de meu amigo e pude avistar o Luis que já se encontrava no cume, caminhei por mais uns vinte minutos chegando a uma crista onde esperei pelo Pollo. Logo após sua chegada combinamos que esperaríamos o Jorge e a Beatriz para colocá-lo a nossa frente nos minutos finais da escalada como forma de parabenizá-lo por seu esforço e dedicação.

E desta forma às 10h37 do dia 18/11/2013 chegamos ao cume do Vulcão com seus 3.776 metros de altitude, com nosso amigo Jorge liderando a chegada. Foi um dos momentos mais bonitos que já presenciei nestes anos de montanhismo visto as dificuldades que ele apresentava e seu esforço e dedicação para chegar ao cume. Tiramos muitas fotos e comemoramos bastante juntamente com um grupo de alpinistas da Venezuela que já se encontravam no cume. De lá era possível avistar outras montanhas como o Cerro Tronador, Vulcão Vila Rica, Osorno entre outras. Com as forças renovadas após a conquista iniciamos nosso retorno ao parque de onde partiríamos para a segunda parte de nossa viagem , ficando no ar a pergunta. O que nos reservam as montanhas?

A resposta é simples, nos reservam momentos em que aprendemos cada vez mais sobre a amizade, o companheirismo sem competição, sem títulos ou recordes, porém simplesmente estar na montanha, nos revelando a sabedoria na ascensão e a nobreza na descida, fazendo parte desta ligação mística que existe entre nós e o vasto universo das montanhas. Agradeço a todos que fizeram parte deste projeto, e gostaria de dedicar esta escalada a Julian Lezcano (Pollo) este grande amigo que aos 65 anos, chegou pela 29º vez ao cume desta montanha.

Meus sinceros agradecimentos a Botas Snake / Red Bull / X-Ness, pelo apoio nesta jornada e pelo grande incentivo ao nosso esporte.

Paulo Saczuk Junior

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