Extremos
 
COLUNISTA MÁRCIO BORTOLUSSO
 
COMO SE VESTIR PARA AVENTURA - PARTE 2
As principais tecnologias
 
Texto e fotos: Márcio Bortolusso
2 de fevereiro de 2015 - 15:00
 

Após quase meio século de pesquisas, o mundo conheceu uma das maiores revoluções para a aventura em condições adversas.
 
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  Márcio Bortolusso  

Cansado de informação superficial ou incorreta sendo divulgada nas duas décadas em que trabalho com jornalismo de Aventura, até mesmo por algumas mídias especializadas e fabricantes, há alguns anos decidi produzir um documento esclarecedor e de fácil compreensão sobre vestuário para Atividades ao Ar Livre, buscando ser ao mesmo tempo preciso, objetivo e abrangente. Como ainda hoje ocorre muita confusão sobre este tema, dei uma atualizada nesta longa pesquisa e aos poucos estou republicando aos leitores do portal Extremos por capítulos. Em meu primeiro artigo falei sobre os principais materiais utilizados nas roupas para Aventura, hoje falarei sobre...

AS PRINCIPAIS TECNOLOGIAS
Diferente do tempo dos pioneiros, que se arriscavam em suas jornadas com precárias vestimentas, hoje em dia existe uma grande variedade de roupas no mercado com qualidade suficiente para suprir as necessidades dos usuários. Em grande parte, são produzidas com tecidos desenvolvidos pelas maiores empresas do setor, como Rhodia, Tavex (Santista), Vicunha, Invista (ex DuPont) ou a brasileira Santaconstancia.

As tecnologias evoluíram a tal ponto que muitas das severas intempéries do passado hoje são enfrentadas com considerável grau de controle e, até mesmo, prazer. Diante de certas “roupas inteligentes”, é como se o sol dos tempos modernos fosse mais ameno, as baixas temperaturas mais agradáveis, a chuva menos incômoda, o vento menos frio.

Seja pela matéria prima ou pela construção dos tecidos, as roupas modernas desenvolvidas para atividades ao Ar Livre podem apresentar propriedades ativas ou passivas, realizando determinadas funções de forma pré-programada ou não. Por exemplo, alguns tecidos bicomponentes podem absorver a umidade da transpiração e enviar para a parte externa da roupa, por meio da construção de sua trama ou das características dos seus filamentos (microporos afunilados, microcerdas, etc.). O mesmo já não ocorre com a maioria das passivas e populares peças denominadas como dry, que não apresentam controle sobre a umidade que entra ou sai do tecido, secam pela evaporação natural de sua fina e telada estrutura.

Existe uma infinidade de tecidos e tecnologias no mercado, impossíveis de serem listados em um único artigo, então citarei apenas alguns exemplos mais clássicos.


O autor trabalhando com segurança e conforto na Cordilheira Real
boliviana com ajuda de roupas impermeáveis e transpiráveis
 

Desenvolvidas por empresas norte-americanas pioneiras e que se mantém há décadas como líderes neste mercado, algumas das mais eficientes e reconhecidas tecnologias são as da empresa Polartec (antiga Malden Mills, como os tecidos Classic, Wind Pro, Power Dry, Thermal Pro, Power Stretch e Neo Shell) e os sistemas Gore-Tex e Windstopper da W. L. Gore and Associates, utilizados pelas maiores marcas dos cenários Aventura e esportivo mundial, como The North Face, Adidas, Black Diamond, Asics, Lowe Alpine, Nike, Mammut, Puma, Merrel, Salomon, New Balance, Scarpa, La Sportiva, Columbia, entre tantas outras.

Após quase meio século de pesquisas, em 1978 o mundo conheceu o que muitos consideram como uma das maiores revoluções para as Atividades ao Ar Livre em condições adversas: a membrana Gore-Tex. De forma simplificada, cada centímetro quadrado dela contém 3,6 milhões de microporos, sendo que cada um deles é 20 mil vezes menor que uma gotícula de água e 700 vezes maior que uma molécula de vapor. Ou seja, a membrana possui incrível capacidade de repelir a água (inclusive da chuva), mas permite que o vapor da transpiração saia com facilidade, tornando os produtos que utilizam tal tecnologia totalmente impermeáveis e ao mesmo tempo respiráveis.

 
A membrana Gore-tex, 20 mil vezes menor que uma gota de água e 700 vezes maior que uma molécula de vapor – W. L. Gore & Associates Laboratory.

A variedade de tecidos sintéticos utilizados como isolantes de calor é grande, mas o fleece - ou pile, popularmente chamado de “Polar” em referência ao seu criador - se mantém como a mais versátil tecnologia do mercado, com design, gramatura e uso para todos os gostos. Talvez pelo fato de ser produzido pela pioneira neste tipo de tecido, o Polartec se tornou a principal referência neste segmento em se tratando de conforto térmico, leveza, durabilidade e respirabilidade. Apenas dando um exemplo, o modelo Power Dry transporta 30% mais umidade da pele para a parte externa do tecido do que produtos de construção monocomponente.

 
Durante a Transrockies Run, para muitos as modernas tecnologias significaram o triunfo ou o fracasso diante das intempéries das Montanhas Rochosas

Atualmente, apenas dando um exemplo de até onde a indústria têxtil chegou, as fibras microtermais Outlast (Outlast Technologies), originalmente desenvolvidas para a agência aeroespacial norte-americana NASA e comumente usadas em meias, conseguem absorver, armazenar, distribuir e dissipar o calor de forma controlada, sem permitir excesso de calor ou frio da pele, tanto no inverno quanto no verão. E por aí vai a evolução dos processos de tecelagem, fibras super resistentes como a Cordura (da Invista) ou hidrofóbicas como o poliéster, que possui uma superfície não propícia à proliferação de micro-organismos, como as bactérias responsáveis pelo desagradável odor da transpiração nas axilas, entre muitos outros incríveis filamentos.

Espero que estas informações possam ajudar na hora de escolher a roupa ideal para a sua aventura. No próximo artigo, farei uma análise abrangente e ao mesmo tempo objetiva sobre o tradicional Sistema de Camadas. Até mais!

Márcio Bortolusso é montanhista e documentarista de Aventura, Natureza e Cultura Regional (www.photoverde.com.br).

 


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