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Ásia Central, uma paixão - escalando o Mustagata
 
 
 

Volto a aterrissar no acanhado aeroporto de Bíshkek, a agradável capital do Kyrgyzstão, após uma ausência de quatro anos. Minha primeira visita aqui foi em junho de 2006 no meio de uma deliciosa viagem de quatro meses quando saí de Delhi na Índia e percorri a fantástica embora amedrontadora Karakorum Highway cruzando o Paquistão, atravessando o Kanjurab Pass, visitando a região sudoeste muçulmana da China habitada por yugurs, passando em frente ao majestoso Mustagata com seus 7564 metros e razão de minha visita agora, cruzando o Kyrgyzstão e o Uzbequistão.

 
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Nesta ocasião me encantei com Bishkek por suas amplas avenidas arborizadas, seus parques repletos de flores e estátuas, seus mil rostos pertencentes a Kyrgyzs, Uzbeks, Yugusrs, Tajiks e Russos e seus sorrisos acolhedores. A cidade não tem nada que se possa chamar de atrações turísticas, mas achei tão agradável que considerei passar um tempo por aqui estudando russo, língua que acho de uma incrível sonoridade principalmente se saindo da boca de uma de suas lidíssimas cidadãs. Resquícios do Girassóis da Rússia do Vittorio De Sica que vi quando adolescente e me apaixonei pela Sophia Loren. Desta vez não foi diferente minha impressão da cidade embora coberta por uma grossa camada de nuvens cinzas que encobria as lindas montanhas Tien Shan, as "Montanhas Celestiais".

Nossa primeira parada foi o Osh Bazaar onde mais do que qualquer outro lugar da cidade apresenta a variedade cultural deste país ao meio de lindas frutas e verduras, pães redondos de 20 ou mais centímetros de diâmetro chamado aqui de nan, nome genérico de pães por metade da Ásia, e grotescas cabeças de bode recém decapitadas. Acompanhados da Maria, nossa simpática e rechonchuda guia russa, percorremos os monumentos da cidade ouvindo suas longas explicações sobre este ou aquele herói russo ou kyrgyzs, embora nossas cabeças desfusadas de mil horas de viagem intercontinental estivessem envolvidas em uma bruma mais espessa do que a que recobria ameaçadora o céu da cidade. Após o décimo herói sugeri que nos sentássemos em um dos agradáveis restaurantes com mesinhas ao ar livre dentro de um dos enormes parques para tomar um merecido chopp que não melhorou muito nossa habilidade para ouvir as explicações históricas, mas que nos deu uma alegre leveza e muitas risadas. Já eram 3 da tarde e embora tivéssemos tomado um farto café da manhã assim que chegamos do aeroporto as 6 da manhã, já estávamos a mais de 9 horas sem comer e isso misturado ao fuso horário de 9 horas nos deixou decididamente "contentes". Mais uma dúzia de heróis e estávamos prontos para um jantar cedo com espetinhos de carneiro na brasa, um enorme nan que mais parecia uma bola de futebol americano e cama. Agora, as 2 da madrugada escrevo este relato já que no meu relógio biológico são 5 da tarde...malditos fusos horários que na minha vida errante são uma constante. Às vezes acho que passo metade da vida desfusado já que quando estou me acostumando com uma região, país ou continente já é hora de saltar para algum outro canto do mundo.

Já que não dei nenhuma explicação do porque estou aqui acompanhado da Mica e do Guto, companheiros de baladas anteriores e prestes a encontrar o Luiz em mais dois dias, volto um pouco no tempo para contar a sinuosa trajetória que nos trouxe até Bishkek.

Saindo do Everest eu queria voltar para alguma montanha após meu período de kite surf no Nordeste. Como sentia muitas saudades desta parte do mundo pensei em escalar o Peak Lenin no Kyrgyzstão, uma montanha de pouco mais de 7100 metros, fácil tecnicamente, porém localizada em uma linda região do sul do país. Convidei a Mica, o Guto e o Luiz e começamos a organizar tudo, equipamentos, vistos, e vôos. Mas, no dia seguinte ao que compramos os vôos, em junho, eclodiu uma horrível guerra de fundo étnico que destruiu boa parte do sul do país, para onde íamos, com cenas atrozes de matanças, estupros e outras barbáries que acompanham este tipo de conflito. Com muita tristeza assisti pela BBC o que se desenrolava neste país do qual gosto tanto. Não nos restou outra alternativa se não começarmos a pensar em um plano B. Após estudar várias possibilidades decidi que o Mustagata seria a melhor opção. Apesar de sua altitude bem mais desafiadora, 7564 metros, era uma montanha fácil tecnicamente, uma grande encosta de 25 a 30 graus levando a um cume de relativo fácil acesso. Além disso, tinha a vantagem de ter como cidade de acesso uma das mais interessantes cidades desta parte do mundo, Kashgar, um dos grandes centros da famosa Rota da Seda. Restava achar uma maneira de encaixar isso com planos já feitos, passagens já compradas, operadores já conhecidos e contatados. Fui à busca de um operador confiável o que me custou muitas horas de sol perdidas em Jeriquaquara e após muita preocupação finalmente achei um que me inspirasse confiança apesar do custo muito mais elevado. Meus companheiros de escalada sabem que esta é uma viagem exploratória e que muitas coisas podem e vão ter que ter ajustes e estão preparados para este tipo de jogo de cintura que viagens como esta sempre envolvem, mas em se tratando de uma montanha tão alta era importante me cobrir de todas as seguranças que pudesse.

Após muitas idas e vindas, trocas de vôos e de rotas finalmente cheguei a uma solução que me agradasse e decidimos manter uma pequena parte da viagem pelo Kyrgyzstão cruzando de Bishkek para a China pelo norte do país. Isso nos dará a possibilidade de visitar e passar uma noite em um lindo lugar chamado Tash Rabad onde ainda pode-se ver as ruínas de uma antiga caravanserai, posto de parada das imensas caravanas de camelos báctrios que cruzavam estas paragens antes que a rota marinha descoberta pelos navegadores portugueses pusesse um fim ao lucrativo comércio da Rota da Seda. E dentro de poucas horas é exatamente para este yurta camp que estaremos indo. De lá cruzaremos o passo que liga este país com a China e chegaremos a Kashgar de onde após apenas uma noite faremos uma viagem de 3 horas de duração até o lindo Karakol Lake de onde em um dia claro se avista o Mustagata.

Embora saibamos que a montanha não se encontra em suas melhores condições, tem muito mais neve do que o habitual, estamos otimistas, fortes, bem preparados e equipados. Se vamos chegar no cume ou não, impossível saber, são tantos os fatores envolvidos em uma escalada de alta montanha, mas uma coisa tenho certeza, será uma expedição divertidíssima. E como sigo a máxima do George Lowe – a melhor expedição é aquela onde você se diverte mais – estou felicíssimo de estar aqui e dividindo isso tudo com o Guto, Luiz e Mica.

 
 
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Guia e Alpinista
 
 
Dividir minhas experiências com as pessoas!

- Este é o objetivo destes artigos e foi uma das motivações que me levou, 13 anos atrás, a começar a guiar pessoas em lugares que amo, para entrar em contato com culturas que admiro e realizar atividades que fazem com que enfrentemos desafios e ampliemos nossos limites. Sempre procurei direcionar minha carreira profissional para que estivesse em harmonia com o estilo de vida que almejo.

Para mim trabalho e prazer se combinam de forma quase indestingüível. Isso me permite viajar doze meses por ano, seis meses guiando grupos pelo mundo, principalmente na Ásia e o restante do ano viajando pelos lugares dos meus sonhos. Então, se assim como eu você é um viajante habitual ou apaixonado por relatos de viagens, poderá encontrar aqui informações, impressões, dicas, bibliografia e videografia, sobre os lugares por onde viajo.

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2009
Cho Oyu (China) com 8.201 metros