+  BLOG DO MANOEL MORGADO
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Fazendo as pazes com o Brasil
 
 
 

Após quase duas semanas em Jericoacoara estou voltando para São Paulo onde permanecerei por uma semana seguindo então para minhas montanhas. A primeira será uma escalada exploratória do Mustagata, uma linda montanha de 75550 metros não técnica no sudoeste da China que se tudo for conforme espero estará no meu calendário no próximo ano. De lá irei para o Elbrus na Rússia, Kilimanjaro na Tanzânia e três trekkings no Nepal seguindo então para a Argentina para guiar o Aconcagua.

 
 

Se posso resumir o de mais importante desses 45 dias no Brasil, acho que não foi aprender kite surf que sem certeza foi divertidíssimo, ou rever família e amigos que sempre é delicioso, mas continuar um processo que já estava vindo há algum tempo: fazer as pazes com o Brasil. Quando sai daqui há 21 anos poderia ter queimado meu passaporte e não o fiz porque não tinha outro. Não me sentia cidadão em meu próprio país e sai sem planos de volta. Quando me perguntavam se era bom viajar pelo Brasil eu sempre dizia que outros países da América do Sul eram muito melhores, que o Brasil era violento e que não tinha muito interesse para o viajante. Eu sabia que estava sendo radical, mas assim me sentia.

Nesses 21 anos que se passaram desde que saí, pouco viajei pelo Brasil. Vinha a São Paulo, via amigos, comia um pouco das comidas que sentia falta, resolvia assuntos práticos e me ia. Mas, alguma coisa começou a mudar dentro de mim nesses últimos dois anos. A porta de entrada para o meu coração foi a música. Mais e mais me senti atraído pela música brasileira e por ritmos que não ouvia antes, samba de raiz, viola, e ritmos nordestinos. Quando decidi vir para cá para aprender kite já sentia um pouco de vontade de ver o Brasil, mas o Brasil que há muito eu não via. Não o Brasil de São Paulo, mas o outro lado. Poderia ter ido à Venezuela, a Las Roques que é um ponto fenomenal de kite, mas preferi vir para cá. E para Jeri. Tinha muito boas lembranças deste lugar. Em 84 comprei duas motos Agrale, a maior moto brasileira da época, e minha esposa e eu voamos com as motos para Fortaleza e de lá subimos a Jeri e depois, grande parte do caminho pela praia, descemos até São Paulo. Foi uma viagem inesquecível cheia de lindos momentos e grandes emoções. Jeri era um vilarejo sem eletricidade perdido nas dunas e onde nos hospedamos na casa de um local, bem diferente de hoje. Tão diferente que quando me perguntavam desta vez se eu já havia estado em Jeri eu respondia que não. Mas, não esperava encontrar aquela Jeri e não fiquei desapontado com o que vi. Pelo contrário! Apesar do turismo a vila continua pé na areia e confinada a uma pequena área. É só sair por alguns minutos e se está só apenas com as dunas como companhia.

Mas, o surpreendente para mim foi como se senti lá. Depois de tantos anos fora vi o Brasil com os olhos de um estrangeiro e me encantei com tudo. As comidas regionais, a paisagem, os sorrisos fáceis, o único requebro das meninas nas "baladas" de todas as noites, as rodas de capoeira, a mais elegante das artes marciais, o ritmo relaxado de viver. As aulas de kite eram marcadas para as 11, mas começavam depois do açaí na tigela, quando o transporte vinha, quando todos estavam prontos...

Depois de tantos meses no rigor das montanhas foi maravilhoso passar quase duas semanas sem camisa, sem sandálias, sem hora de acordar e isso tudo era reflexo de como eu me sentia a vontade lá. Fiquei muito sozinho, saí para longas caminhadas pelas dunas, assisti o famoso por do sol na duna principal onde se aplaude a natureza, mas também outros solitários. Passei muitas horas também escrevendo meu livro, lendo na rede e ouvindo música. Percebi que os sentidos ficam muito mais aguçados quando estou só. As emoções ficam a flor da pele, a música, as cores, as emoções todas ficam mais intensas. Normalmente digo que as montanhas são o único lugar onde realmente me emociono, mas desta vez, por momentos, queria explodir de emoção. Acho que é necessário um pouco de tristeza para se sentir assim. Creio que Vinicius de Moraes já disse isso... Conversei pouco, duas vizinhas americanas muito simpáticas, meu instrutor de kite, o dono de um delicioso restaurante de comida libanesa. Saí à noite, mas dançava sozinho deixando meu corpo balançar ao ritmo da música de olhos fechados e sentindo a areia gelada nos meus pés. E fiz kite. Tive algumas aulas, não muitas, minhas costelas ainda doíam do trapézio apertando o tóraz nas aulas na Ilhabela. Mas, foi o suficiente para me apaixonar pelo esporte e ter muita vontade de voltar a fazer na próxima oportunidade. A sensação de estar deslizando velozmente pela água com o vento no rosto é maravilhosa mesmo com os inevitáveis tombos que se tornam mais e mais espetaculares conforme a velocidade aumentava.

Como comumente acontece com viagens a lista de lugares onde se quer estar e visitar não diminui, pelo contrário, a cada lugar especial que se vai se quer voltar e a lista só aumenta. Quero voltar a Jeri e também outros lugares do Brasil. Peguei gosto...

 
 
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Guia e Alpinista
 
 
Dividir minhas experiências com as pessoas!

- Este é o objetivo destes artigos e foi uma das motivações que me levou, 13 anos atrás, a começar a guiar pessoas em lugares que amo, para entrar em contato com culturas que admiro e realizar atividades que fazem com que enfrentemos desafios e ampliemos nossos limites. Sempre procurei direcionar minha carreira profissional para que estivesse em harmonia com o estilo de vida que almejo.

Para mim trabalho e prazer se combinam de forma quase indestingüível. Isso me permite viajar doze meses por ano, seis meses guiando grupos pelo mundo, principalmente na Ásia e o restante do ano viajando pelos lugares dos meus sonhos. Então, se assim como eu você é um viajante habitual ou apaixonado por relatos de viagens, poderá encontrar aqui informações, impressões, dicas, bibliografia e videografia, sobre os lugares por onde viajo.

Venha comigo explorar alguns dos mais fantásticos destinos deste planeta!
 
 
 

2009
Cho Oyu (China) com 8.201 metros