CANIONISMO
Ion David
Por: Ion David  |  23 de outubro de 2017  •  10:30

Estava com um grande amigo canionista hospedado em minha casa, Guilherme Predebom e tínhamos em mente fazer a conquista de um novo cânion, conversando com o parceiro de trabalho Marcelo Nissen, decidimos por explorar o rio Extrema o qual tínhamos notícia de uma cachoeira com 120m, conhecida com cachoeira do Label.

Preparamos a expedição e no dia 9 de setembro saímos às 5h da manhã em direção a São João da Aliança percorrendo estradas de terra de acesso, até o local onde o veículo nos deixou.

Éramos uma equipe composta por cinco experientes canionistas, Eu, Marcello Nissen, Julio, Gabriel e Guilherme. Iniciamos a caminhada, utilizando algumas coordenadas predefinidas no GPS e chegamos a primeira cachoeira, conhecida localmente como Andorinhas. Uma bela queda com aproximadamente 100m de altura em dois lances.

Logo de inicio fizemos uma ancoragem natural em uma arvore e descemos por enormes raizes em meio ao cânion. No final da descida em uma imensa e ingreme rampa escorregadia, um a um e todos estavam em meio ao canion, corda recolhida e seguimos para o segundo lance, descemos pela lateral da rampa até um frondosa árvore onde fizemos mais uma ancoragem natural para outro rapel com 50m.

Após os dois lances das Andorinhas, caminhamos por quase duas horas seguindo o curso do rio, atravessando belas piscinas de água verdes translucidas e chegamos no alto da grande cachoeira, com incríveis vistas para o vale do Paranã.

Estudamos os dois lados para decidir a melhor via, que possibilitasse paradas para fracionamentos no meio da descida. Comentamos que a cachoeira podia ter mais de 120m, mas não tínhamos referencias precisas. Estávamos equipados com duas cordas de 100m uma corda de 60m e uma de 20m, furadeira a bateria e muitos parabolts, chapas de ancoragens e material de abandono. Paramos para lanchar, para discutir a estratégia, estávamos ansiosos, e considerávamos também a possibilidade de abortar a descida e procurar uma via de escape.

Decidimos descer pela margem direita do rio, pois a outra margem era uma grande parede negativa. Fizemos a ancoragem inicial que dava acesso a saída do primeiro rapel, uma ancoragem equalizada com chapas e parabolts. Guilherme desceu na frente com a furadeira a procura de um local para fazer a parada, que ficou 70m abaixo.

Comunicando pelo rádio, Guilherme comentou que achava que a próxima descida tinha mais de 100m e que seria bom medir antes de todos descerem. Para medir a segunda descida iríamos perder muito tempo pois a corda de 100m teria que ser baixada e depois içada para recolher o sistema. La de cima a impressão era que abaixo do Guilherme tinha uns 60m e com as cordas de 60 conseguiríamos descê-las simultaneamente para ganhar tempo. Guilherme montou a ancoragem dupla equalizada na parada e desci em seguida, pedi para o próximo trazer a corda de 60m, para já armar o rapel seguinte.

Chegando na parada, comentei com o Guilherme, "cara isso aqui tem mais de 100m ainda!" ficamos tentando lembrar de outras referências de grande alturas, como o Salto do Rio Preto.

Realmente a corda de 60m não vai dar... vamos ter que esperar todos chegarem para recolher a corda de 100m e usá-la novamente no lance seguinte. O problema é que abaixo havia uma parede negativa e não conseguimos ver se havia outro platô para uma parada, caso contrario, teríamos que emendar cordas e pular o nó, procedimento conhecido por todos, mas estava ficando tarde e demoraríamos bastante até que todos conseguissem passar pelo nó.

Não tínhamos outra saída a não ser correr o risco e descer, pela corda de 100m a procura de outro platô, se caso não fosse possível faria o nó de emenda de cordas. Por grande sorte nossa, justo no fim da corda de 100m havia outro pequeno platô escorregadio, que para acessá-lo tinha que dar uma pendulada.

Feita a última ancoragem neste platô, havia ainda mais uma descida de 15m no grande poço de água extremamente gelada da cachoeira. Como o platô era pequeno, e pela angulação das cordas, seria difícil caberem todos para puxar as cordas de 100m, decidimos emendar a corda de 60m atravessar o poço e puxar do outro lado. Restando apenas a corda de 20m para descer o último lance, mas para recolher, tivemos que emendar fitas e cordeletes para puxar.

Ufa! todos embaixo! uma sensação de euforia e missão cumprida, descobrimos a maior cachoeira de Goiás com 185m, Cachoeira do Label, se mostrou como um cânion técnico, exigindo conhecimento de orientação, navegação e técnicas avançadas de Canionismo. Finalizado o trabalho de cordas, tiramos os equipamentos e roupas de neoprene, vestimos as roupas secas e iniciamos a caminhada de 1h até o local de apoio onde o carro nos aguardava, a sede da Reserva Belatrix.

Havia uma deliciosa comida de fazenda preparada pelos caseiros, para recarregar as baterias antes de iniciar a viagem de volta.

Até a próxima!

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