Extremos
 
168º dia da Expedição Transpatagônia - El Bolsón
 
da redação, Texto e fotos: Guilherme Cavallari
18 de março de 2013 - 14:10
 
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  • Expedição Transpatagônia
    Na Patagonia deixei minha sombra… Trecho entre Futaleufu e Villa Futalleufquén Foto: Guilherme Cavallari
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    Cicloturistas romenos com alforjes feitos de bombonas de plástico" Foto: Guilherme Cavallari
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    Cicloturista mexicano há dois anos na estrada, com bike improvisada depois que a sua foi roubada " Foto: Guilherme Cavallari
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    Ciclistas na cozinha da Casa de Ciclistas em Villa Mañihuales, estudando mapas e trocando informações " Foto: Guilherme Cavallari
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    Vale entre Cholila e El Bolsón, na Argentina " Foto: Guilherme Cavallari
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    Luisa Ludwig e marido, James, escritora de Puerto Puyuhuapi e dona da Casa Ludwig, uma das melhores pousadas e museus vivos da região " Foto: Guilherme Cavallari
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    Pico Las Tres Monjas, chegando a Futaleufu " Foto: Guilherme Cavallari
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    Rio Futaleufu, considerado um dos cinco melhores do mundo para prática de rafting " Foto: Guilherme Cavallari
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    Duro trecho entre Futaleufu e Villa Futalaufquén, areia e pedras soltas dificultavam o deslocamento " Foto: Guilherme Cavallari
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    Em Coyhaique, encontrei a solução para substituir minha bike e bike trailer caso tudo se quebrasse… " Foto: Guilherme Cavallari
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Na Patagonia deixei minha sombra… Trecho entre Futaleufu e Villa Futalleufquén Foto: Guilherme Cavallari

 

Reta final da viagem, 168 dias de expedição, 5.755 quilômetros pedalados, 4 roteiros de trekking realizados… Faltam apenas 120 km de bike até Bariloche, somente mais 14 dias de viagem com um roteiro de dez dias de trekking a fazer… E sinto uma estranha sensação de vazio, mesclada com um sentimento confuso de realização…

Depois de dois agitados dias de descanso, a saída de Coyhaique foi praticamente forçada. Um resfriado forte me incomodava e me obrigava a levar um rolo de papel higiênica para cima e para baixo na tentativa de estancar um interminável dilúvio nasal. O céu nublado e a chuva fina constante, na manhã da minha partida, me deixavam preocupado com a possibilidade de piorar. Mas tinha um cronograma a cumprir, um encontro marcado para o dia 16 de março, em El Bolsón, com meu grande amigo de Blumenau, Hendrik Fendel, para fazermos juntos o trekking até l Bolsón-Cochamó-El Bolsón.

Na saída de Coyhaique cruzei um cicloturista belga, em seguida um casal de ciclistas austríacos, depois um francês e um alemão. A maioria seguia rumo norte, como eu. Todos tínhamos como próximo destino a Villa Mañihuales e a Casa de Ciclistas… Uma história interessante… Jorge Oyarzun Contreras, contador por profissão e evangélico ferrenho, tentou manter uma academia de ginástica na pequena Villa Mañihuales, na beira da Carretera Austral, sem sucesso. Desfeito o negócio, em 2009, Jorge deixou o espaço aberto para que ciclistas em trânsito pela estrada tivessem onde se acomodar gratuitamente em sua cidadezinha. Instalou um fogão a gás, um fogão a lenha, alguns colchões, panelas velhas, manteve os dois banheiros da academia, sendo um deles com um chuveiro morno e o outro com uma máquina de lavar roupas. No primeiro verão ele precisou “laçar” os turistas em bike para que se hospedassem abaixo de seu teto, por isso ganhou o apelido de “caçador de ciclistas”… Mas, já na temporada seguinte, viajante chegaram regularmente, de toda parte do mundo, todos em bike, molhados de chuva, com frio, cansados… Exatamente como eu.

Hoje, a Casa de Ciclistas da Villa Mañihuales é patrimônio internacional, conhecida e indicada em inúmeros blogs, mapas artesanais, fóruns na internet e de boca em boca de cima de bicicletas pelas estradas da Patagônia. Um cantinho seco e aquecido, aconchegante e acolhedor, numa cidade sem outros grandes atrativos. Uma embaixada de uma país chamado “Bicicleta”. Agora, graças a essa iniciativa generosa e altruísta, Villa Mañihuales figura em destaque no Mapa Mundi do cicloturismo… Um exemplo a ser considerado.

Mas, Villa Mañihuales e na Casa de Ciclistas de Jorge, meu resfriado piorou. A previsão do tempo indicava mais chuva para os próximos dias. Mesmo assim, decidi forçar outra saída e um pedal rápido até a vizinha e diminuta Villa Amengual, apenas 59 quilômetros ao norte, onde eu sabia que havia uma pousada aconchegante. Eu precisava de pelo menos um dia de descanso, com banho quente, cama de verdade e, com sorte, uma sopa caseira de legumes – não tem remédio melhor para resfriado.

E assim foi. Pedalei forte, sem parar, por três horas e meia e cheguei à Vila Amengual. Descansei a tarde toda e todo o dia seguinte. Um dia e meio de descanso e eu já me sentia pronto para a estrada e até para um resfriado mais forte, porque o anterior já era história… Incrível como a estrada cura, ou pelo menos fortalece a ponto de não deixar espaço na mente para preocupações com saúde (a maior das doenças).

De volta ao pedal, encontrei mais ciclistas, de todas as formas e cores, indo e vindo. Um desfile de sonhos sobre rodas. A chuva me acompanhava. Passei um frio bárbaro na Serra da Queulat, fiquei tão molhado de suor quanto de chuva, a ponto de precisar ficar peladão no meio da estrada e trocar toda minha roupa, encharcada, por roupa seca que se encharcaria minutos depois.

Em Villa Santa Lucia abandonei definitivamente a Carretera Austral nessa viagem, subi a Serra de Futaleufu para sair do Chile e entrar na Argentina, em direção à Villa Futalaufquén e à sede do Parque Nacional Los Alerces. O sol reapareceu, forte, limpo, ardido. Revi o Rio Futaleufu e lembrei detalhes da descida de rafting que fiz em 2009 – nunca passei tanto medo na vida!

Os quilômetros se seguiam, um atrás do outro, em ritmo de corrida de aventura, minha mente fixa em chegar a El Bolsón. Entre Villa Futalaufquén e Cholila (onde Butch Cassidy tinha uma cabana) o pedal esquerdo da bicicleta quebrou. Eu conseguia pedalar desde que a cada pernada empurrasse também o pedal para dentro, para que ele não escapasse do eixo do pedivela. Muito esforço e concentração. Mas nada, absolutamente nada, me impediria de chegar a El Bolsón na data prevista, eu tinha certeza. E assim foi. Consegui chegar inclusive antes do Hendrik na cidade e esperá-lo em um restaurante com uma garrafa de cerveja artesanal e um prato de cordeiro assado…

Sinto como se pudesse comemorar algo, mas também sinto um buraco no peito que se agranda com o fim da viagem. Um misto de saudade e alívio, plenitude e nostalgia, euforia e distanciamento. Criança diante dos presentes embalados debaixo da árvore de Natal… Sonhos concretizados, mas ainda indecifráveis.

 



Guilherme Cavallari
www.kalapalo.com.br