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157º dia da Expedição Transpatagônia - Coyhaique
 
da redação, Texto e fotos: Guilherme Cavallari
6 de março de 2013 - 10:46
 
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  • Expedição Transpatagônia
    Belíssima Laguna Verde, antes de chegar a Villa Cerro Castillo para quem viaja sentido Sul-Norte na Carretera Austral Foto: Guilherme Cavallari
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    Trecho de entrada para a o Valle Chacabuco, a partir da Carretera Austral, ao norte de Cochrane" Foto: Guilherme Cavallari
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    Guanacos no Valle Chacabuco " Foto: Guilherme Cavallari
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    Museu de los Pioneros do Baker, recentemente inaugurado, imperdível " Foto: Guilherme Cavallari
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    Carretera Austral margeando o cânion do Rio Baker, próximo à confluência com o Rio Neff " Foto: Guilherme Cavallari
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    Touro bravo que não curtiu muito minha companhia, mas depois resolveu me ignorar " Foto: Guilherme Cavallari
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    Cerro Castillo, imponente montanha de picos que lembram um velho castelo medieval " Foto: Guilherme Cavallari
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    Fundo do Vale do Rio Ibañez, que deságua no Lago General Carrera " Foto: Guilherme Cavallari
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    Para ninguém me chamar de mentiroso… hehehe " Foto: Guilherme Cavallari
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    Alto do Vale do Rio Ibañez, a Carretera Austral costeia a vegetação muito próxima à margem do rio " Foto: Guilherme Cavallari
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    Lago General Carrera, próximo à Baía Murta " Foto: Guilherme Cavallari
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Belíssima Laguna Verde, antes de chegar a Villa Cerro Castillo para quem viaja sentido Sul-Norte na Carretera Austral Foto: Guilherme Cavallari

 

Cheguei com o último raio de sol. Não quer dizer que cheguei quase à noite, mas cheguei no último dia de uma longa sequência de sol, zero vento e céu azul. Depois de uma semana de estiagem e muito calor, chovisca em Coyhaique, na Patagônia chilena. Consegui pedalar 339 quilômetros em quatro dias, reduzindo um dia da minha programação para esse trecho. Sou igual cavalo velho pangaré, que acelera na volta para o curral, para casa, para o monte de feno…

Parti do Valle Chacabuco, da sede do Parque Patagonia, no primeiro dia de março. Pela programação da expedição, eu deveria parar em Puerto Bertrand, a apenas 46 quilômetros de distância. Cheguei lá por volta das 14:00 e a vila estava convidativa, com crianças locais tomando banho no Rio Baker e o sol brilhando intenso. Resisti à tentação, almocei meu sanduíche de queijo, tomei um litro de iogurte de pêssego geladinho, comi uma barra de chocolate, um punhado de amendoins, descansei uma hora e fui picado por duas abelhas. Por sorte nenhuma me picou na bunda e pude me sentar no selim para mais 31 quilômetros de pedal…

Nesse dia, o ponto alto da viagem – além da vista espetacular do Rio Baker, de cor turquesa e iluminado como uma estrela de cinema pelo sol – foi conhecer o Museu de los Pioneros del Baker. Uma casinha isolada no meio do nada, na Ruta 7 (Carretera Austral). Despretensioso, como raros museus são, de entrada gratuita, como também raros museus são, esse projeto foi executado pela comunidade de moradores do entorno do Rio Baker – o rio de maior volume de água do Chile. Na pequena residência, de talvez seis cômodos, está exibida uma típica casa de um colonizador inglês do começo do século XX. Móveis, artefatos de casa e trabalho no campo, roupas, brinquedos – tudo exibido de modo muito simples e, ao mesmo tempo, muito criativo. Cada porta apresenta uma frase típica, um cumprimento, um dizer popular, impresso em uma placa de metal. Mas, também há exibições sobre flora e fauna, história e geografia, cultura e arte. Confesso sem exagero que vi poucos museus no mundo tão bem projetados, elaborados, executados e mantidos… Visita imperdível!

Para conseguir pedalar do Parque Patagonia a Coyhaique em quatro dias, ao invés dos cinco previstos, precisei abrir mão do “conforto” de acampar ou me hospedar nos vilarejos pelo caminho. Pulei Puerto Bertrand e Villa Río Tranquilo. Almocei nos dois lugarejos. Acampei ao lado de pontes de rios que desaguavam no Lago General Carrera – o maior lago chileno e argentino e segundo maior da América do Sul. Meus acampamentos foram ao lado do Rio Cañal e do Rio Murta.

No sentido norte, cinquenta metros antes da grande ponte sobre o Rio Murta, encontrei uma porteira destrancada e um belíssimo gramado convidativo. Já eram 19:30 e o sol já se escondia atrás das montanhas íngremes. A Ruta 7 é uma estrada de vales, quase sempre percorrendo a margem de algum rio, quase sempre encaixada entre montanhas volumosas.

Escolho um canto plano e cercado de arbustos e tocos de árvores tombadas para começar a armar a barraca. Tenho cerca de duas horas e meia para armar acampamento, fazer jantar, atualizar o diário de viagem e dormir antes das 22:00. Tempo apertado. Ouço um mugido rouco, alto, muito alto. Não vejo vacas. Continuo meu trabalho e o mugido se aproxima, mais rouco, mais alto, nitidamente furioso. Ergo a cabeça do nylon da barraca e me vejo diante de um touro marrom de aureolas amarelas em torno dos olhos, músculos em nós por todo o corpo, bufando, raspando os cascos no chão, mugindo indignado e nitidamente furioso. Evito olhar o bicho nos olhos, copio seu jeito furtivo e me encarar, movendo a cabeça de uma lado para o outro. Ele dá um passo para a direita, eu também. Ele dá mais dois passos, eu também. Não faço movimentos bruscos. Vou lentamente me posicionando atrás de um grande tronco de árvore cortada, grande demais para o bovino saltar por cima.

Ficamos nesse balé truculento por cerca de dez ou quinze minutos, até que o touro resolveu pastar, sem tirar os olhos de mim. Quando ele baixou a cabeça para comer, eu baixei a cabeça para terminar de armar a barraca. Ele foi se afastando, para mugir ainda mais alto e de forma mais furiosa para algum outro bovino na margem oposta do grande Rio Murta, que respondia no mesmo tom. Jantei minha última criação culinária de acampamento – polenta com atum e queijo ralado – rindo da situação… Passo cinco meses temendo e desejando um encontro com pumas, mas é um touro que me expõe ao maior risco de acidente perigoso com a fauna local. Mas, o que mais me impressionou no bicho foi o tamanho dos testículos… Faz a gente se sentir, digamos… Diminuído.

Esse longo trecho em terra, do Parque Patagonia até a Villa Cerro Castillo, de 240 quilômetros de extensão, até o começo do asfalto que leva a Coyhaique, estava em péssimas condições para bicicletas. Areais, pedras soltas, buracos, montes de cascalho e as infinitas costelas de vaca. Nos raros trechos planos, seu eu tentasse acelerar a bicicleta e o bike trailer trepidavam tanto que parecia que tudo iria desmontar. Nas descidas eu tinha que frear. Minha média horário ficava sempre em torno dos 10 km/h. Insuportável. Eu queria pedalar!

E pedalei… Para quem conhece a região, da entrada da Villa Cerro Castillo começa a temida Cuesta del Diablo – uma serra em ziguezague de quase 17 quilômetros, muito íngreme e inclemente. Fiz, subindo, em 1:30 minutos cravados da vila até o Portezuelo Ibañez, sem contar a meia dúzia de paradas para fotos panorâmicas e para trocar a bateria de uma câmera. Eu suei tanto que encharquei minha vasta barba. Riachos de suor lavaram as lentes do meus óculos de sol, que ficaram opacos de oleosidade e protetor solar. Daria para torcer minha roupa e grossas gotas de suor escorriam pelas minhas pernas e impregnavam minhas meias. Eu só pensava em me jogar no Rio Grosse, que eu sabia estava no vale depois do Portezuelo… Lembrando que puxo um bike trailer de 30 quilos acoplado á bike…

E descontei depois… Na longa descida até o Vale do Rio Simpson, atingi 70 km/h, sendo que existe um selo no bike trailer dizendo “não ultrapassar 35 km/h”. Foi tenso, a bike e o bike trailer chacoalhavam tanto que tenho certeza vários parafusos se soltaram. Se eu batesse em um pedrinha no asfalto, já era… Sequei o suor da roupa com o vento do deslocamento.

Cheguei a Coyhaique às 18:30 tendo começado a pedalar às 10:00. Foram 99 quilômetros, com 1.237 metros acumulados de subida e mais 1.455 m acumulados de descida, tudo em 6:57 de tempo de roda girando. No final eu estava me arrastando pela Ruta 7, com tanta dor na bunda que sentava de lado no selim sempre que podia. Encontrei um hotelzinho, tomei um baita banho e fui ao Café Ricer – meu escritório em Coyhaique – onde comi tanto quee deixei as garçonetes, senhoras chilenas rochonchudas e simpáticas, envergonhadas e sem jeito, sugerindo a todo instante que eu me sentasse longe da janela para a rua…

Muitas vezes, assim é viajar de bicicleta, pedalar mountain bike, especialmente para homens… Uma comparação de tamanho de testículos, uma descarga de energia acumulada, a pesquisa do próprio limite. Pode acontecer nessas situações que cenário, flora e fauna (com exceção do touro), perdem importância. Existe uma quilometragem a cumprir e esse se torna o objetivo único. O mundo se resume em administrar o equipamento, extraindo dele o máximo possível sem causar danos permanentes, incluindo o próprio corpo. Minha dor e inchaço na perna desapareceu. Foi a “Terapia dos 80″…

Tá com dorzinha? Inchadinho? Dodói preocupando a cabecinha? Pedala 80 km por dia, morro acima e morro abaixo, puxando muito peso, por quatro dias consecutivos, que a dor vai se espalhar pelo corpo todo e, assim, acabou o problema original.

 



Guilherme Cavallari
www.kalapalo.com.br