Extremos
 
COLUNISTA GUILHERME CAVALLARI
 
8º dia da Expedição Transpatagônia - Chaitén
da redação, Texto e fotos: Guilherme Cavallari
10 de outubro de 2012 - 6:50
 
  • Expedição Miramundos Estrada Real
    A expedição está apenas começando e o visual é muito bonito Foto: Guilherme Cavallari
  • Expedição Miramundos Estrada Real
    Aqui a Cordilheira dos Andes se encontra com o mar." Foto: Guilherme Cavallari
  • Expedição Miramundos Estrada Real
    O vulcão Chaitén expelindo vapor d'água " Foto: Guilherme Cavallari
1 3

A expedição está apenas começando e o visual é muito bonito Foto: Guilherme Cavallari

todas as imagens
 

Para saber a idade de um cabra é só ver se ele escreve mais em diário de papel ou em blog... Em oito dias de viagem, meu diário de papel já tem umas vinte páginas e essa é apenas a segunda publicação no blog... Ou seja, sou velho, hahahaha!... Minha desculpa é que a conexão com a internet é rara, mas a verdade é que sinto mais intimidade com o papel mesmo.

Como deve acontecer em grandes viagens e na vida, mudei meus planos! Em Puerto Varas descobri que o barco que conecta Hornopirén, no Km 100 da Carretera Austral, a Chaitén, no Km 160 mais ou menos, deixou de funcionar somente no verão e passou a funcionar todos os dias o ano todo... Desisti então de pedalar cerca de 300 km pela Ilha de Chiloé e permanecer na Carretera Austral desde seu começo, em Puerto Montt. Isso me levou a pegar um barco por um trecho muito, muito bonito de mar, de Hornopirén a Leptepu, de aproximadamente quatro horas de duração.

Nesse braço de mar acontece um fenômeno geográfico e geológico único na América do Sul... A Cordilheira dos Andes desaba no oceano! As montanhas vêm molhar seus pés nas águas... O resultado, além de espetacular, é a formação de fiordes, corredores estreitos de mar espremidos entre paredes quase verticais de montanhas. Tive a sorte de pegar um dia sem nuvens no céu e gastei vários cartões de memória na filmadora, além de algumas baterias, sem saber ao certo como iria resolver esses problemas no futuro próximo...

Depois de Leptepu existe uma estrada-parque de 10 quilômetros de extensão que conecta os portos do Fiordo Largo. Mas os veículos têm apenas 15 minutos para percorrer essa distância, então fui de carona no carro de um simpático casal chileno de Palena, ele carpinteiro, ela professora de nível básico. De bike seria inviável e eu ficaria literalmente ilhado lá por 24 horas.

Chegamos em Caleta Gonzalo, a 57 quilômetros de Chaitén por estrada de terra cruzando o Parque Pumalín, perto das 16:00 e portanto tarde demais para eu tentar fazer o percurso no mesmo dia. Acampei no camping administrado pelo parque a 200 metros do porto... Minha primeira noite de acampamento na viagem.

Esse foi sem dúvida o ponto alto do trecho para mim... Foi como se a viagem estivesse realmente começado.

Eu era o único turista no camping, coordenado por uma família local de produtores agrícolas. O camping também funciona como uma fazenda produtora de alimentos orgânicos muito organizada e bem cuidada, com lindíssimas construções em madeira de alerce. Foi um momento marcante de relembrar o tema principal de uma viagem em bicicleta, que está muito mais conectado com independência, autossuficiência, preparo e disposição física e mental do que chegar a um determinado destino específico. É muito fácil nos esquecermos porque estamos no caminho quando estamos focados demais no destino...

Ontem pedalei os 57 quilômetros de Caleta Gonzalo a Chaitén, a maior parte do trajeto dentro do Parque Pumalín. Visitei várias áreas de camping que dão acesso a caminhadas curtas até atrações naturais como as "Cascadas Escondidas", "Los Alerces", "Lago Negro", "Lago Blanco" e "Vulcán Michimahuida"... Esse último é o único mais longo, de 12 quilômetros de extensão e 700 metros de desnível e que me interessou mais. Cheguei a desviar meu caminho e bater na casa dos guarda-parque para indicar meu interesse no trekking e, quem sabe, conseguir comprar um pouco de pão ou bolachas porque minha comida estava resumida a duas fatias de pão, um pequeno pedaço de queijo e dois pacotes pequenos de Miojo...

O parque estava deserto, não havia guarda-parques ou turistas, apenas eu. Durante quase todo o trajeto eu vi um vulcão soltando uma pluma enorme de fumaça branca como o cogumelo de um explosão nuclear. Pensei que pudesse ser o Vulcão Michimahuida, mas logo percebi que a localização não podia ser. Trata-se do Vulcão Chaitén e a tal fumaça nada mais é que vapor d'água. Fiquei na coceira de subir até seu cume...

Hoje descanso em Chaitén, recarregos pilhas e baterias, descarrego cartões de memória, saco dinheiro, lavo roupas, entrevisto alguém interessante na cidade, faço contato com minha mulher em São Paulo, respondo e-mails e, claro, publico alguma coisa no blog...

 



Guilherme Cavallari
clubedaaventurakalapalo.blogspot.com.br