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COLUNISTA GUILHERME CAVALLARI
 
Na Natureza Selvagem, minha análise do filme
 
Guilherme Cavallari
9 de janeiro de 2012 - 00:01
 

Na Natureza Selvagem (Into The Wild) - Filme baseado no livro de Jon Krakauer
 
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  Guilherme Cavallari

Odeio quando alguém me conta o final de um filme ou livro. Não precisa nem ser uma obra que eu tenho interesse em conhecer! Acho uma deslealdade e um desrespeito com o autor, o diretor, todo mundo envolvido na produção... Tanto trabalho para alguém simplesmente reduzir tudo em poucas sentenças de improviso. Quem cria quer, pelo menos, ser prestigiado.

Não é essa minha intenção com esse texto. Não quero contar a história do filme Na Natureza Selvagem, nem descrever o óbvio, presente em quase todas as resenhas... Que o filme é bom, que o diretor é sensível (o famoso Sean Penn), que a história é muito bem escrita (pelo talentoso Jon Krakauer, autor também do livro No Ar Rarefeito), que o elenco é primoroso, que a trilha sonora é fantástica, que a fotografia é sensacional...

Gostaria de explicar porque gosto tanto desse filme

Por que é muito mais que um filme de um livro, é um filme sobre vários livros e as idéias que eles representam.

Não coincidentemente, eu li todos os principais autores citados no filme... Leon Tolstoi, Jack London e Henry Thoreau... Conhecer o trabalho desses pensadores é essencial para entender a história e a mensagem do filme. E que me desculpem os iletrados de plantão, que acham que Internet e Hollywood bastam!

Mas qual mensagem é essa, afinal?

O mais óbvio, que todo mundo percebe imediatamente, é que o personagem é revoltado com o mundo que o cerca, representado por seus pais. Ele não quer fazer parte da sociedade de consumo, busca a essência da vida e a verdade das coisas, escolhe o caminho comum aos espíritos inquietos: a estrada, o movimento, o mundo.

Mas não qualquer estrada. Não se trata de um road movie, mas de um filme outdoor... Vários passos antes na evolução dos caminhos, já que toda estrada um dia já foi uma trilha. Esse é um filme sobre trilhas, no sentido de “caminhos na natureza”. Coincidentemente, minha especialidade!

Leon Tolstoi, Jack London e Henry Thoreau eram espíritos inquietos, criativos, destemidos, que não se contentaram com o mundo que lhes foi apresentado (mesmo em uma bandeja de prata, como aconteceu com os três). Todos eles escolheram o caminho da natureza para buscar suas verdades, cada um no seu estilo, cada um atrás de a sua própria verdade. Por que eles se tornaram famosos, respeitados e, como acontece no filme, copiados mesmo séculos depois? Porque a verdade que eles encontraram é universal e, portanto, comum a todos os seres humanos, sempre.

Leon Tolstoi preferiu viver no campo, com mujiques (lavradores russos pré-revolução Bolchevique) e mesmo já sendo um escritor famoso, rico e mundialmente respeitado, humildemente aprendeu muito com os homens da terra. Jack London tentou ser garimpeiro no Alasca e viu a natureza como algo cheio de humanidade e a humanidade como algo natural. Henry Thoreau enxergou o câncer na sociedade de consumo antes mesmo dela existir como conceito, afastou-se momentaneamente da sociedade e viveu um período recluso, auto-suficiente e alheio a tudo que não fosse natural. Todos os três escreveram excelentes livros que até hoje (como fica claro no filme) influenciam vidas.

O protagonista do filme mistura muito bem esses três autores e suas visões do mundo na sua história... A firme moralidade de Leon Tolstoi, como quando ele se recusa a seduzir uma linda jovem apaixonada por ele... A bússola e a intrepidez de Jack London, ao decidir viver sua experiência de contato intenso com a natureza no Alasca ou descer o Rio Colorado em um caiaque... A técnica de Henry Thoreau, ao se preparar para viver de suas próprias e limitadas habilidades e daquilo que a natureza oferece, ser auto-suficiente, independente e autônomo, usando essa experiência como grande aprendizado de vida.

“Felicidade só é verdadeira quando compartilhada”

Mas vejo fortes influências religiosas no filme também, ou espirituais, que algumas pessoas vão associar a Jesus Cristo, Buda, Alá ou qualquer outro intérprete oficial dos mistérios da vida. “Felicidade só é verdadeira quando compartilhada”, escreve o protagonista do filme nas cenas finais. Tolstói e Thoreau , cada um ao seu modo, também enxergaram isso. O primeiro fundando uma comunidade “hippie” um século antes do movimento existir, o segundo produzindo livros com “fórmulas” de libertação de uma sociedade de consumo que transforma consumidores também em produtos.

O título do filme (e do livro) traz um excelente resumo filosófico da história: a natureza é selvagem e, portanto, viver nela exige atenção e cuidados especiais. Não somos muito diferentes de qualquer outro animal. O que nos difere dos outros bichos não é necessariamente o que nos separa deles. Somos capazes do raciocínio, mas desde que deixamos de ser caça, não conseguimos abandonar a mentalidade de predador.

Selvagem não é sinônimo de ruim. A natureza não é ruim. Nosso despreparo no convívio com ela é que pode ter consequências indesejáveis e irreversíveis. Isso fica claro no filme. Muita gente pode até acreditar que essa é a mensagem final, a grande moral da história. Mas não é.

Viver de acordo com suas verdades e ter sempre a humildade de ser um aprendiz na vida, buscando as verdades mais sutis, com esforço e comprometimento, é uma das grandes mensagens da história. O próprio protagonista do filme diz isso, sem pudor, a outro personagem, já idoso, incitando-o a “voltar a viver”. E o velhinho sobe uma montanha na sequência. Essa é outra mensagem importante do filme: no conforto artificial de nossas casas e cidades, longe da “natureza selvagem”, não existem verdades universais, tudo é controlado, modificado e vazio de conteúdo.

Por outro lado, o filme mostra que idéias, ideais, conceitos são tão perigosos quanto a natureza. Ambos podem ser letais. Ambos podem ser implacáveis. Nesse caso, quem é familiarizado com filosofias e religões orientais, como o budismo, vai sempre lembrar do "Caminho do Meio", da moderação, da leveza a cada passo...

Outra coisa que me impressiona muito no filme é a pesquisa por trás dele... Imagino que Jon Krakauer tenha trabalhado duro como detetive, para costurar toda a trama do enredo, descobrir detalhes das andanças do protagonista da história. Imagino o quanto ele se envolveu com os personagens reais, já que a história é baseada em fatos verídicos. Imagino o quanto ele não aprendeu durante esse processo. Não deve ter sido nada fácil aos pais e à irmã do personagem principal o envolvimento com a produção, tanto do livro quanto do filme. Remoer tanta dor publicamente requer muita coragem, humildade e auto-questionamento...

Outro livro de Jon Krakauer que ajuda muito a compreender Na Natureza Selvagem é Sobre Homens e Montanhas... Onde Krakauer esboça, através de retratos de personagens reais, sua paixão pela natureza e por literatura - pelo mundo exterior e pelo mundo interior. Sinto como uma evolução natural a produção de um e depois do outro livro, como um processo de amadurecimento do homem, autor e montanhista.

Sempre que assisto a esse filme (tenho uma cópia em casa), penso em fazer uma peregrinação ao Magic Bus... Alguém topa?


Abraços,
Guilherme Cavallari
www.kalapalo.com.br

 
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