Extremos
 
COLUNISTA ARTHUR SIMÕES
 
Rumo às origens
 
texto: Arthur Simões
13 de setembro de 2012 - 22:04
 
Perto de Arequipa, Peru.
 
  ARTHUR SIMÕES  

"Quem escolhe percorrer de bicicleta o continente africano, deve se preparar para mais que uma longa e desafiadora pedalada, mas para uma jornada no tempo, para uma época de tribos e luta pela sobrevivência."

A África tem seu próprio ritmo e estilo de vida há milhões de anos. Apesar do rápido desenvolvimento de alguns de seus países, o continente africano ainda está muito ligado à cultura tribal, às variações climáticas e à lei do mais forte. Por isso, viajar de bicicleta pela terra onde tudo começou é experimentar e se adaptar a uma cultura completamente diferente, longe das imagens, brilhos, sons e cores que fazem parte de nosso cotidiano, para se aproximar da natureza e da essência do homem, justamente onde sua história teve origem.

A experiência na África começa logo na chegada. A falta de estrutura dos países contrasta com a simpatia, vitalidade e alegria das pessoas, que sorriem, conversam e até dançam ao ver um forasteiro chegar ao seu país da forma mais improvável que eles poderiam imaginar: de bicicleta. Quando dentro de um país, este clima de constante ebulição social é uma das principais características africanas, mas quando se está numa de suas inúmeras fronteiras, nem sempre o clima é de festa. As diferenças do continente são fortes e a festa acaba quando é preciso falar com algum funcionário público ou encarar a burocracia e corrupção local.

Após a burocracia e a festa, é hora de pedalar. E na África este é outro desafio. A maioria das estradas são de terra e pedras, as distâncias costumam ser longas entre uma cidade e outra, o clima pode ser bastante quente, as cidades não contam com muita estrutura – esqueça bicicletarias e supermercados – e, dependendo de onde estiver, é bom se prevenir contra os animais selvagens também.

Por outro lado, viajar pela África é como conhecer o próprio passado, para a época da lei do mais forte e da luta pela sobrevivência. A natureza do continente tem uma beleza única e forte, que impressiona, mas que pode ser fatal se subestimada. Por isso, qualquer viagem ao continente “berço da humanidade” pede um bom planejamento prévio antes de ser realizada.

Há que se estudar a rota, as cidades e vilarejos do caminho, saber qual é a melhor época do ano para se pedalar, analisar como será o processo para o visto de cada país, tomar todas as vacinas possíveis, levar um bom kit de medicamentos, protetor solar e repelentes, verificar se é possível sacar dinheiro nos países por onde se pretende passar e ter a consciência de que será muito difícil encontrar alguma bike shop por lá, assim é bom levar ferramentas, peças de reposição e ter uma boa noção de mecânica de bicicleta antes de entrar na África.

     
     

Boas vindas

Peço a liberdade para daqui para frente escrever este texto em primeira pessoa e contar como foi minha experiência sobre duas rodas na África.

Quando entrei no continente africano, em 2008, já estava viajando há quase dois anos pelo mundo, havia cruzado cerca de trinta países pedalando e tinha bem claro em minha cabeça tudo isso que escrevi acima. Sabia que o tempo que eu havia passado na estrada havia sido uma ótima escola para o desafio que estava prestes a encarar.

Havia acabado de atravessar toda a Ásia e pedalar pelos países da Península Arábica. O tempo que havia passado nos desertos de Omã e Iêmen me preparou para as extremas condições africanas, mesmo assim aquela tensão que antecedia toda troca de país era mais forte dessa vez. Do decadente porto de Mokha, no Iêmen, embarquei num precário barco de carga que seguia rumo à costa africana levando mercadorias legais e ilegais e algumas poucas pessoas. A viagem era para ser curta, mas durou quase dois dias devido às duras condições do mar.

Quando finalmente o barco tocou o porto de Djibouti, senti que muitas coisas haviam mudado em pouco tempo. A África era de uma intensidade sem igual e me trazia muitas recordações do Brasil. Com sorrisos e cumprimentos, os trabalhadores do porto logo entraram no barco e, sozinhos, pegaram meus alforjes e bicicleta, levando tudo para a terra firme. Que povo altruísta e hospitaleiro! O problema surgiu quando eu descobri que eles cobravam caro para devolver meu equipamento.

Quando me recusei a pagar o que eles queriam, começou uma grande discussão, que só acabou bem – pelo menos para mim – graças à interferência do diretor do porto, que passava por ali e foi saber o que estava acontecendo. Senti que havia escapado de uma armadilha, sem saber que estava caminhando diretamente para outra, desta vez institucionalizada: a sala de emigração. Uns sujeitos mal encarados, usando óculos escuros, olharam meu passaporte, balançaram a cabeça e disseram: big problem. Nem havia chegado direito à África e já estava com grandes problemas.

Não havia nada de errado com meu passaporte e visto para Djibouti, mas eles não me deixariam entrar enquanto eu não cooperasse com a solução daquele “grave” problema. A solução era simples, devia pagar US$ 30,00 e isso bastava para regularizar minha situação. Relutei e achei que não pagando o que eles queriam, mudariam de ideia e me diriam “ok, tome seu passaporte e boa viagem pela África!”. Mas não foi bem isso que aconteceu.

Esperei mais de duas horas e nada, nem um sinal de melhora, pelo contrário, eles apenas ficavam mais nervosos. Após 3 horas de espera, desisti e resolvi pagar o que eles queriam. Um policial pegou meu dinheiro, olhou torto para mim, me entregou o passaporte sem nenhuma alteração, colocou os dólares no bolso, acendeu um cigarro e saiu andando. Disfarcei a minha raiva, observei toda a cena e ao final, percebi que estava oficialmente dentro da África. Aquele havia sido apenas o coquetel de boas vindas.

     
     

Tribos, armas e poeira

Talvez Djibouti seja um caso extremo e não exemplifique bem a diversidade africana. Percebi isso quando sai do porto, rumo à capital do país. Todos me olhavam torto e eu sentia que eu não era bem vindo na cidade. Após alguns dias, quando finalmente deixei a capital de Djibouti rumo à Etiópia, tive certeza que não estava no lugar certo. Quando as pessoas me viam logo gritavam faranji! faranji! faranji!! como uma sirene que alertava todos por perto. Poderia ser um grito de boas vindas – o que eu já duvidava naquele momento da viagem – mas, na realidade, era quase um grito de guerra. Quando ouvia essas palavras, tinha que pedalar rápido, pois sabia que pedras voariam em minha direção.

Faranji era a palavra usada para se referir ao estrangeiro, especialmente o branco. Todo homem branco era um faranji. Até aí tudo bem, o problema é que eles odiavam faranjis e ninguém havia me dito nada disso. Quando dei conta deste detalhe, bastava ouvir alguém cochichar a palavra faranji para eu acelerar o giro da pedalada e sair correndo. Mesmo assim eles corriam atrás – e corriam muito – e as pedras por vezes atingiam a bicicleta. O capacete nunca havia sido tão útil até aquele momento.

Quando eu entrei na Etiópia, tudo melhorou. As pedras voadoras ainda estavam lá, mas não havia tanto ódio no olhar das pessoas. Os desertos e altas temperaturas de Djibouti deram lugar para savanas e montanhas. A miséria ainda era grande, mas a hospitalidade e a comida já eram bem melhores. O cenário seguia tribal, com famílias inteiras vivendo em pequenas casas feitas de couro e galhos secos e comigo tendo que pedir autorização para o chefe da tribo para poder acampar próximo ao vilarejo dele, mas tudo parecia mais tranquilo.

A água era o bem mais valioso na região. Quem tinha água era rico. Com água era possível ter plantações, animais, comida e saúde. Isso explicava porque todos, até os mais pobres, andavam com metralhadoras e facas na cintura. Alguns diziam que era para se proteger dos animais selvagens, mas na realidade era para tentar ganhar a guerra pela água. Na Etiópia, pastor que é pastor, carrega uma AK-47 no ombro para proteger seu rebanho e matar sua sede.

Acampar longe de tudo era uma opção, mas as savanas pediam cuidados adicionais. Não seria o caso de um leão correr atrás de mim, mesmo porque estes animais estão praticamente apenas dentro dos parques nacionais, que são áreas protegidas. Mas animais como as hienas pareciam sempre estar por perto, produzindo um som que era uma mistura de riso de louco e latido de cachorro. Nessas situações era bom acender uma fogueira e não sair da barraca durante a noite. Isso não era garantia de nada, mas aumentava a minha segurança dentro da terra da lei do mais forte.

     
     

Beleza selvagem

Essas são algumas características marcantes da minha experiência na África, mas um local tão diverso não pode ser resumido a isso. Não há apenas vilarejos e tribos pelo continente, há também grandes cidades, como Addis Abeba, na Etiópia, capital do país e sede da ONU na África, que oferece a visão de uma África que luta para melhorar de situação. Há também locais incríveis, como Lalibela, uma espécie de Petra africana, onde igrejas foram esculpidas dentro de imensas pedras e continuam ativas até hoje, e Bahir Dar, uma cidade à beira de um grande lago, com ilhas habitadas por monges que vivem em igrejas centenárias e águas que abrigam diversas espécies nativas, incluindo o enorme hipopótamo.

Além disso, passado o momento faranji, é bem provável que se conheça etíopes muito simpáticos, dispostos a ajudar com o que eles puderem e sempre convidando para um copo de chá e para compartilhar o prato típico do país, a injera, uma espécie de pão borrachudo que está presente em todas as refeições. Após uma boa conversa, aquele mesmo etíope que gritava faranji pode te considerar um grande amigo e ficar triste quando você disser que tem que ir embora. Pode parece estranho, mas assim é a África: intensa e inconstante.

Fora isso, a Etiópia guarda belezas naturais incríveis, em suas savanas e montanhas. Há diversas reservas naturais no país, assim como uma cultura muito rica e variada. Apesar da religião oficial ser o cristianismo ortodoxo, é na Etiópia onde está localizado a terra prometida dos rastafáris, a cidade de Shashamane. Há também o Vale do Omo, onde foram encontrados os primeiro registros da vida humana no planeta e que hoje abriga diversas antigas tribos africanas. O país berço da rainha de Sabá também guarda diversas surpresas e lendas, uma das mais intrigantes diz que a famosa arca da aliança está enterrada justamente na Etiópia e é guardada há séculos.

Independente do que se queira conhecer, para realizar uma pedalada na África, além de um bom planejamento, é bom estar aberto ao novo e à toda a experiência que o continente possa te oferecer. O espírito aventureiro é necessário para percorrer o continente. Somente assim poderá ser apreciada a beleza dura e selvagem da terra de onde todos viemos e que segue presente dentro de todos nós, ainda que um pouco esquecida.

     
     

Boas pedaladas,
Arthur Simões

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