TREKKING
Por: Elias Luiz  | 03.01.2026  •  08:00

Esther Dingley já havia caminhado o suficiente para saber que o problema raramente aparece no primeiro dia ruim. Ele costuma surgir quando a trilha continua, apesar de tudo indicar que ela já não deveria continuar.

Extremos Store


Imagem da Notícia
Via Alpina
Elias Luiz
R$ 79 • frete grátis
Imagem da Notícia
Everest
Elias Luiz
R$ 79 • frete grátis
Imagem da Notícia
Patagonia
Elias Luiz
R$ 79 • frete grátis
Ouça esse artigo no Podcast 483

No fim de 2020, depois de concluir a Via Alpina, uma travessia de longa distância pelos Alpes que cruza setores de alta montanha por semanas consecutivas, Esther seguiu sozinha para os Pireneus. Novembro já estava avançado. A maior parte dos trekkers havia deixado a região. A temporada regular havia terminado.

Os refúgios guardados, aqueles mantidos abertos durante o verão com presença de guarda, refeições quentes, informações atualizadas sobre o clima e apoio básico aos caminhantes, já estavam fechados. Permaneciam acessíveis apenas os abrigos não assistidos, estruturas simples, sem funcionários, sem aquecimento garantido e sem qualquer tipo de suporte além de um teto e quatro paredes. São abrigos pensados para montanhistas e trekkers experientes, que sabem lidar com isolamento, frio, autonomia total e imprevisibilidade.

O plano era seguir por setores de alta montanha, conectando passes e esses abrigos simples. Nada extraordinário. Nada fora do que ela já havia feito antes. As mensagens enviadas ao companheiro nos dias anteriores descreviam o percurso com normalidade. Clima instável, vento, paisagem vazia. Nada que justificasse alarme.

No último contato, Esther avisou que seguiria em direção ao Refuge de Vénasque, um abrigo pequeno, sem guarda, situado em área elevada, próximo à fronteira franco-espanhola. A rota passava por trechos expostos, acima de 2.700 metros, em terreno onde a trilha depende muito da estação para se manter legível.

Naquele dia, a neve já havia começado a aparecer de forma irregular. Não o suficiente para impedir a caminhada, mas o bastante para alterar a leitura do terreno. Placas de neve intercaladas com rocha, marcações parcialmente cobertas, trilha visível em alguns pontos e completamente apagada em outros.

Esse é um tipo de situação comum no fim do outono europeu. Não exige equipamentos de inverno completos, mas cobra atenção constante. O ritmo cai. O corpo gasta mais energia. O tempo deixa de ser previsível.

Esther avançou.

O atraso não deve ter sido percebido como algo grave. A diferença entre chegar às três da tarde ou às cinco parece pequena quando ainda há luz, quando o mapa indica abrigo próximo, quando o corpo responde. Mas em novembro, nos Pireneus, a margem entre “chegar” e “não chegar” é curta.

O vento aumentou nas cristas. A temperatura caiu rapidamente. A visibilidade ficou comprometida. Em áreas assim, perder a rota não significa estar perdido no sentido clássico. Significa caminhar alguns metros fora da linha segura. O suficiente para mudar a inclinação do terreno. O suficiente para transformar uma travessia em um problema.

As buscas indicam que Esther provavelmente saiu da linha correta enquanto contornava uma encosta coberta por neve recente. Não há indícios de erro grosseiro. Nenhuma evidência de decisão absurda. Apenas um desvio pequeno, em um ambiente que já não tolerava desvios.

Quando deixou de responder às mensagens, o alerta foi acionado. Equipes de resgate francesas e espanholas iniciaram buscas extensas. Helicópteros sobrevoaram cristas, corredores e encostas. O terreno, porém, continuava mudando. Neve nova, vento, frio intenso.

Semanas depois, corredores de montanha encontraram restos mortais em uma área abaixo da rota principal. A investigação concluiu que Esther sofreu uma queda fatal em terreno de alta montanha, em condições de inverno precoce.

Não houve resgate dramático. Não houve último pedido de ajuda. Não houve erro que pudesse ser isolado em um único momento. O que houve foi uma sequência conhecida por qualquer pessoa que caminha longas distâncias: dia instável, atraso acumulado, leitura cada vez mais difícil do terreno e a decisão de seguir porque parar já não parecia simples.

O caso de Esther Dingley repercutiu porque ela não era imprudente. Era experiente. Caminhava sozinha, mas não de forma inconsequente. Conhecia a lógica dos abrigos, do clima e do esforço contínuo. Ainda assim, foi pega por um intervalo curto entre estações, quando a trilha ainda existe no mapa, mas já não se sustenta no chão.

Nos Pireneus, esse intervalo é traiçoeiro. Não parece inverno. Não parece verão. É quando o erro não chama atenção. Quando tudo ainda parece administrável.

Para quem caminha, essa história não serve como alerta genérico. Serve como lembrança concreta de que, no trekking europeu, o risco raramente está no extremo. Ele costuma aparecer quando a infraestrutura ainda existe, quando a trilha ainda está aberta e quando o abrigo, teoricamente, ainda está logo adiante.

E às vezes, simplesmente, não está.



comentários
LIVROS

COMPRE AGORA

Elias Luiz possui um estilo de escrita singular, proporcionando aos leitores a sensação de fazerem parte da aventura enquanto percorrem as páginas do livro. Repleto de reflexões sobre a vida moderna e superação, apresentando a experiência única de viver um grande aventura em meio à natureza. As obras são enriquecidas com fotos e mapas que estimulam a imaginação do leitor. É impossível mergulhar na leitura sem sentir o desejo de colocar uma mochila nas costas e vivenciar sua própria jornada. Boa leitura e boas aventuras!

 

R$ 79 / frete grátis
  • 340 páginas
  • 70 fotos
  • 23 mapas

Suíça e Liechtenstein

(2 reviews)

Elias Luiz percorreu 390 km pela Via Alpina, atravessando a Suíça de Vaduz a Montreux, superando 23.500 metros de altimetria e transformando essa jornada em seu novo livro de aventura.

R$ 79 / frete grátis
  • 324 páginas
  • 70 fotos
  • 29 mapas

Argentina e Chile

(881 reviews)

Elias Luiz percorreu trilhas de longa distância em Bariloche, diversos roteiros em El Chaltén, o magnífico Circuito O em Torres del Paine e o Circuito Dientes de Navarino em Puerto Williams.

R$ 79 / frete grátis
  • 276 páginas
  • 75 fotos
  • 20 mapas

Nepal e Tibet

(917 reviews)

O trekking ao Campo Base do Everest é a trilha mais desejada por todo aventureiro e Elias Luiz relata a sua grande jornada pelo Nepal e também pelo Tibet, passando pela face norte.

R$ 79 / frete grátis
  • 320 páginas
  • 60 fotos
  • 1 mapa

Canadá

(722 reviews)

A Great Divide Trail, com seus 1.100 km é uma das trilhas mais inóspitas, difíceis e bonitas do planeta. Embarque junto com Elias Luiz e Daiane Luise nessa aventura repleta de ursos.

R$ 79 / frete grátis
  • 272 páginas
  • 66 fotos
  • 1 mapa

Suécia e Noruega

(793 reviews)

Você está prestes a conhecer uma das regiões mais selvagens da Europa, na Lapônia, acima do Círculo Polar Ártico, repleta de ursos, lobos, renas e a magistral Aurora Boreal.

R$ 55 / eBook
  • 300 páginas
  • 60 fotos
  • 12 mapas

França, Itália e Suíça

(3.728 reviews)

Para você que sonha em colocar a mochila nas costas e fazer uma viagem de aventura, este livro será uma grande inspiração. Elias Luiz narra a sua aventura pelos Alpes.

Se você sonha em fazer uma caminhada de longa distância, aproveite o roteiro oferecido por Elias Luiz, onde ele refaz a trilha original do seu livro Tour du Mont Blanc. Serão 170 km em 11 dias de caminhada e dias de descanso na charmosa Chamonix e em Courmayeur. Viva essa experiência!



O MELHOR DO TMB

Passeios inclusos para o Mer de Glace e Aiguille du Midi.

BAGAGEM

Transporte de bagagem incluso. Você caminhará leve.

OFERTA ESPECIAL

€ 4.290,00 dividido em 3 parcelas o trecho terrestre.

DEPOIMENTOS

"Gostaria de registrar o carinho e capricho que tens com os leitores. Como sou leitor das antigas prefiro o livro impresso! Ainda fico ansioso pela chegada de um novo livro. O teu vai além de um "simples" livro. Tem qualidade, interatividade, arte, uma fotografia fantástica e uma ótima e envolvente história. Obrigado por me inspirar a buscar cada vez mais a 'Waldeinsamkeit' .
Alles Gutes für dich!"

Rafael SilvaLeitor de Rocky Mountains

"Adorei Elias! Senti emoção, medo, achei que você é maluco, senti saudades, fiquei com vontade de fazer a trilha, e no final desisti… mas não de fazer trilhas tá! Só desse final perigoso! Parabéns pelo livro, pela coragem e determinação! Parabéns por nos inspirar, por fazer olhar o mundo de diferentes formas. Por nos mostrar que devemos sair da rotina, sentir a natureza, viajar… e o que mais precisamos é ter um coração em paz e bons amigos!"

Kelly Cardelli Leitora de Patagonia

"Obrigada Elias, o livro é sensacional! A riqueza de detalhes impressiona, devorei o livro ontem a noite, em muitos momentos me emocionei e me senti caminhando contigo a cada parágrafo que ia lendo. Você conseguiu passar a emoção vivida, e isso é sensacional pra nós leitores! Não vejo a hora de estar lá!"

Anelize Damy Leitora de Tour du Mont Blanc

"Completar o TMB com o Extremos foi uma experiência incrível. Uma trilha desafiadora pelo desnível, mas que te recompensa sempre com paisagens deslumbrantes, natureza preservada, sabores, sons e água pura. Passamos por três países, cidades, vilarejos, refúgios aconchegantes, florestas e fazendas, sempre com a montanha por perto nos mostrando sua grandiosidade e beleza. Uma imersão intensa na cultura alpina e no espírito de união entre os hikers que encontramos na trilha.

Marcos Ribeiro Hiker do TMB