EXPEDIÇÃO
Por: André Moraes Barros  |  05.04.2016  •  09:28

Hoje aqui sentado confortável em minha sala e com este computador ligado em uma página em branco a minha espera, decido ir no tempo quântico de minha linha de volta a Papua.

“My formula for happiness: a Yes, a NO, a straight line, a goal”

Mr. Nietzsche

Todas as minhas viagens são partes do imenso puzzle de minhas procuras. Caminhos pelo que sou, posso, consigo e sonho em ser. Minha religião, fé, amor, tristezas, alegrias, achados e perdas. Este foi o caminho que escolhi para meus encontros. Seja com as pessoas maravilhosas que venho encontrando ou seja no silêncio de meu coração. Minhas viagens são simplesmente o movimento interno que um dia resolvi fazer. Não procuro nada além disto. Meus encontros.

Papua me apareceu no caminho do base camp do Everest em 2014. Viagem que fiz com meus dois filhos. Manoel um dia me contou da viagem que ele havia feito de 400 km de Kayak pela Papua. Escutei com tanta atenção que achei uma loucura boa demais para não ser vivida. Ele falava de seu total encanto com a sua experiência. Eu escutei aquilo extasiado e sem pensar duas vezes, viajando na viagem dele, falei: vou também.

Fomos entre os meses de fevereiro e março deste ano. Últimos meses para se viajar naquela região. Depois dos famosos ventos Alísios, correntes mais fortes e o mar mais bravo podem estragar e dificultar em muito a viagem. A temporada de caiaque acontece entre os meses de novembro a março. Era ir ou esperar mais onze meses. E eu não estava a fim mesmo de esperar mais nada. Queria logo pegar minhas tralhas e se jogar um mês pelo mar.

A viagem até Sorong, nosso primeiro destino na Papua, foi uma epopeia. Resolvi ir direto de São Paulo para Sorong. Errei feio. Subestimei as quase 25 horas de voos intermináveis. Mas chegamos relativamente ótimos. Este dia apagamos às 7 horas da noite para ressurgirmos como deuses às 6 horas da matina do dia seguinte.

De Sorong rumamos para Sapocrem. Lá nos hospedamos em Home Stay que também é o escritório da KAYAK 4 CONSERVATION. É desta ONG que alugamos os nossos caiaques. E assim, nos primeiros barulhos de mar sob nossos pés, demos início de fato a nossa viagem. Era hora de encontrar o que fomos tão longe procurar.

Ficamos dois dias. Foi o tempo necessário para aprendermos um básico sobre caiaques. Eu e João nunca havíamos remado. Então imaginar 250 km de remo para mim era no mínimo algo inimaginável. E foi exatamente o que fiz. Não pensei sobre isso. E assim na madrugada do segundo dia às 5 horas embarcamos com os nossos três caiaques e todas as nossas tralhas para uma longa viagem de 12 horas até Waiag.

O cheiro do diesel invadia o barco. O céu foi amanhecendo em várias cores e a paisagem foi lentamente se apresentando. O mar brilhava em pequenas gotas de azuis. Cores que lentamente compunham nosso olhos e corpos. Dentro da casa de maquinas os três caiaques por vezes nos lembravam o que estávamos fazendo ali. Os Dorsos dos homens nas máquinas brilhavam como água por sobre terra. O óleo que vazava dos motores compunha um cenário perfeitamente Sebastião Salgado. Azul do barco, madeira, cheiro de Diesel. Por alguns momentos durante a viagem me lembrei de um amigo que algumas vezes fui para a ilha grande no Rio de Janeiro. Sua escuna navegava tão leve que as vezes penso que o mar nem percebia a sua presença. Hoje tenho a certeza que ninguém notou a nossa presença. Nem mesmo o mar. Nem mesmo o céu.

Esta viagem foi fundamental. Descansamos, dormimos, falamos, entendemos o mundo que iríamos enfrentar e na velocidade dos swells , fomos mudando os nossos circuitos internos e assim tudo foi ficando para trás. Tudo foi deixado. O tempo em fim foi se tornando nosso e finalmente a alma pode pousar em nossos corpos e assumir o seu lugar. Eis a magia. Quando a alma em fim aporta nessa massa e faz que tudo seja leve. Acho as vezes que é neste momento que a gravidade assume outra dimensão e nossas asas se abrem. Quando chegamos no final do dia em uma pequenina prainha, bem lá no meio de Waiag, tudo já estava absolutamente alinhado dentro de cada um de nós.

Deste dia em diante viajamos por mais 13 dias. Literalmente arrastados e totalmente mar adentro. Remamos algo ao redor de 230 km. Dormimos em praias absolutamente desertas, Home Stay esquecidos no tempo e fomos recebidos sempre com vastos sorrisos. Crianças em suas curiosidades nos vasculhavam a cada parada. Banhos de águas doce que nos foram águas de existência terrestre. Comidas que eram maravilhosas simplesmente por serem comidas. Mares de incríveis azuis. Céus azuis. Ventos de descanso e de medos. E por fim uma riqueza de vidas que eu jamais julguei encontrar em toda minha vida. Um azul de vidas.

O oceano nos ensina a nos aquietar. Nos tira a necessidade do tempo. Ali em alto mar vamos em meditação profunda entendendo e rabiscando o nosso mundo. Tudo que ainda carregamos vai sendo entregue ao mar. Nossos medos, nossos limites e nossas crenças. Tudo se liquefaz, se limpa, se recicla e se conecta. E assim passamos a existir e a viver com muito pouco. Passamos a ser os donos de nosso caminho.

Encontramos, quando no silêncio destas viagens, um diálogo muito sincero entre quem somos e quem pensamos, criamos ou julgamos ser. E este é o real encontro conosco.

De lá segui para Bali com Manoel. João voltou ao Brasil. Fomos nos despedindo durante os pousos e decolagens. Sei que este oceano é tão grande que mal cabe em nossos olhos. Mas este oceano que fizemos será nosso para sempre.

Meu filho João, você já é um cara maravilhoso. A paulada desta vez foi das boas. Obrigado por me confiar teu mundo e poder fazer de nossos sonhos o nosso encontro.

Manoel, meu grande amigo, obrigado por tudo.

Abraços e Beijos!
André Moraes Barros



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