MONTANHISMO
Por: Elias Luiz  |  14.10.2013  •  17:17

"Penso que finalmente encontrei o meu limite em altitude, se estivesse escalado algo mais difícil, eu creio que teria me matado." Essas foram as palavras que Ueli Steck utilizou para contextualizar sua aventura na Face Sul do Annapurna a seu amigo e companheiro de desaventuras na última primavera no Everest , Jon Griffith. As 28 horas investidas na escalada e descida da Face Sul do Annapurna, em solitário e sem o uso de oxigênio suplementar, já é passado, já faz parte da história do esporte.

A linha escolhida por Ueli Steck foi a mesma que em 1992 os franceses Pierre Béghin e Jean-Christophe Lafaile tentaram escalar, na parte esquerda da vertente, entre a linha Britânica de 1970 e a linha Japonesa de 1981. Os franceses chegaram a 7500m, mas tiveram que retornar e quando estavam a 7200m Pierre Béghin faleceu após uma queda e Jean-Christophe Lafaile teve que descer em solitário sem os equipamentos apropriados.

Uma escalada solo improvisada... ou não? Em teoria, quando Ueli Steck saiu no dia 8 de outubro do Acampamento Base, tinha a intenção de prosseguir com sua aclimatação, subindo até 6.100m, onde Dan Bowie e ele haviam feito um depósito de material e algumas coisas mais. Seu companheiro canadense não se via preparado para uma escalada tão técnica e sem corda e por isso não o acompanhou. Os outros membros da expedição (seu amigo Tenji Sherpa, que fez cume no Everest sem oxigênio em 2012 e os fotógrafos Dan e Janine Patitucci, e o cameraman Jonah Matthewson) não sabiam até onde poderiam acompanhar a "Máquina Suíça". Podíamos ver a sua disposição mental diferente, mais sério, concentrado em começar algo tão intenso que só alguns poucos do planeta podem contemplar algo assim; escalar em solitário um pico de 8.091m por uma linha nova, com apenas uma pequena mochila e sem oxigênio".

Com seu característico estilo preciso e eficiente, as 5:30 da manhã começou a encarar a parte baixa da temida e comprometida Face Sul do Annapurna, onde já havia estado duas vezes, em 2007 e 2008. Em sua primeira tentativa (2007), uma pedra golpeou a sua cara e foi obrigado a desistir da escalada. Em sua segunda tentativa (2008), Simon Anthamatten e ele renunciaram ao cume para tentar resgatar alpinista Inãki Ochoa. Desta vez desde seus primeiros passos o tempo na montanha estava ajudando, a única excessão foi o vento que aumentava a sensação de frio.

Bivac abaixo do headwall No depósito de material (6.100m), Ueli Steck deixou o seu saco de dormir, pegou uma barraca e um fogareiro e continuou escalando por um terreno relativamente fácil para ele. O vento e a neve se intensificaram a partir de 6.600m e até a base do headwall, onde queria montar a sua barraca. Mas chegando lá não encontrou um lugar seguro, e por isso teve que descer uns 100 metros até uma greta onde pode armar a sua barraca, protegendo-se do mal tempo.

Enquanto comia e se hidratava, o sol se pôs, e com a chegada da noite, o vento parou. Ueli Steck não é do tipo de alpinista que perde uma oportunidade, e imediatamente começou a escalar, depois de apenas uma hora de descanso, para aproveitar "as melhores condições do século" segundo o que ele disse posteriormente para Jon Griffith.

A ausência do vento durante as horas noturnas, foi o fator determinante para que a parede estivesse praticamente coberta de neve, com apenas alguns trechos em rocha, facilitando a progressão para o alpinista.

O momento mais tenso da escalada, que provocou certas dúvidas de êxito a Ueli Steck, aconteceu duas horas antes do sol nascer, ele queria tirar uma foto noturna, quando um jato de neve o surpreendeu, só teve tempo de se agarrar ao seu piolet para não ser varrido da parede. Mas neste incidente ele perdeu uma luva e a máquina fotográfica que cairam montanha abaixo. Durante o resto da noite, ele foi forçado a escalar apenas com suas grossas luvas internas e ia alternando a única luva externa, hora escalava com ela na mão esquerda e depois mudava para a mão direita. O Headwall (Headwall é a parte superior de uma grande parede) lhe pareceu mais curto que do tinha previsto, e escalou através dos canais e campos de neves. Apenas em duas ocasiões teve que superar curtos trechos rochosos. Quase sem se dar conta alcançou a aresta de cume e continuou por ela até o ponto mais alto, onde conferiu em seu altímetro que estava no cume. Eram 2:00 da madrugada do dia 9 de outubro de 2013, e cinco minutos depois empreendia o seu caminho de volta, desescalando e rapelando a mesma rota que subiu.

Uma rota com história épica e trágica A rota utilizada por Ueli Steck para escalar em solitário os cerca de 3.000 metros da Face Sul do Annapurna é uma via histórica apesar de ainda não ter sido escalada até o cume anteriormente. O cume principal do Annapurna (8.091m) contava até agora com duas rotas na Face Sul, abertas respectivamente pelos britânicos Dougal Haston e Donald Desbrow Whillans em 1970, e pelos japoneses Hiroshi Aota e Yukihiro Yanagisawa em 1981; juntamente com uma variante coreana em 1994.

Entre uma linha e outra, Jean-Christophe Lafaille e Pierre Beghin tentaram traçar uma nova rota em 1992. Fixaram uns 150 metros de corda, escalando a maior parte do tempo em estilo alpino. Depois de quatro dias de ascensão, superaram um terrível bivac em uma pendente de gelo de 70º de inclinação em plena tormenta e depois foram capazes de escalar até 7.500m antes de serem obrigados a dar meia volta. Quando estavam a 7.200m, uma ancoragem do rapel se rompeu, jogando Pierre Belghin ao vazio junto com as cordas e todo material de escalada. Agora Jean-Christophe Lafaille estava sozinho e sem o material de escalada, e ainda restavam uma descida de 2.000 metros até o acampamento base avançado. Como relata em seu livro "Prisioneiro do Annapurna" ( Editora Desnivel ), levou um tempo para se mover por causa do atordoamento, então passou o resto do dia desescalando 200 metros de terreno misto de 75º e 80º, que o separava do acampamento, onde chegou às nove da noite.

Depois de um dia de descanso, continuou descendo, com uma corda de 20 metros que havia no bivac. Utilizando as varetas da barraca como âncoras para rapéis, conseguiu ir descendo não sem sustos, como a perda temporária de um grampon. Quando tudo parecia estar no caminho certo, uma rocha caiu sobre o seu braço direito quebrando alguns ossos. Novamente ele parou por um dia inteiro até continuar a descer. Usando a mão esquerda e os dentes, seguiu rapelando até que não pode mais e deixou a corda para trás para continuar descendo até o campo base, depois de quatro dias de descida.

Em 2007, Ueli Steck tentou a mesma rota, até que uma rocha bateu em seu rosto e o obrigou a desistir.

"Recebi muitos emails da notícia da conquista de Ueli Steck. Infelizmente, muitos estão questionando tal feito devido as fotos serem somente até a metade do primeiro paredão e durante o dia, como também a ausência do GPS que ele sempre leva consigo nas outras escaladas de 8.000m. Mas, a fama dele precede tudo e como Ueli Steck diz: Alcançar o cume do Annapurna transcende tudo, até os limites físicos e psicológicos que você jamais imaginou atingir." __ Cleo Weidlich Cleo Weidlich é colunista do Extremos e única brasileira a escalar o Annapurna, pela via Costela Holandêsa (Dutch Rib), feito realizado em 20 de abril de 2012 e que você pode ler aqui.



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