CICLOVIAGEM
Por: Elias Luiz  |  02.12.2010  •  17:17

Imagine um lugar com mais de 300 nevados dos quais 32 ultrapassam os seis mil metros de altitude, cercados por vales e por aproximadamente 260 lagoas com tonalidades azuladas. Tudo isso envolto em um clima tropical e facilidade de acesso com estradas que chegam à altitude de até 4.750 metros. Este é o resumo do que a Cordilheira Branca oferece aos turistas que visitam suas montanhas seja para a prática de trekking, escalada em rocha, alta montanha, mountain bike ou para simples contemplação. Esta cadeia de montanhas está localizada a 200 quilômetros ao norte de Lima, na região de Ancash. Com 180 quilômetros de extensão a Cordilheira Branca, ou Yuraq Hanka, em quéchua, percorre paralelamente o Oceano Pacífico e faz parte da Cordilheira dos Andes.

A cidade base para explorá-la é Huaraz, que recebe durante os meses de alta temporada, turistas de várias partes do mundo, muitos europeus, norte-americanos e latinos, em busca das grandes altitudes. A cidade conta com excelente estrutura, dezenas de agências que oferecem os mais diversos passeios, vários hostels e restaurantes, com preços que atendem todos os bolsos.

CUMES NEVADOS O motivo de tanto burburinho em Huaraz, porém, certamente tem mais a ver com o que está nos arredores da cidade. Da janela do seu hotel, você pode avistar, por exemplo, o Huascarán, ponto culminante da Cordilheira Branca, com 6.786 metros de altitude. A quantidade de montanhas acima dos cinco mil metros e a facilidade de acesso é o que mais impressiona, sem falar no clima, que, por incrível que pareça, é ameno na cidade. Frio mesmo, somente nos acampamentos-bases e durante a noite. O sol prevalece nos meses de junho, julho e agosto, esquentando os dias de caminhada pelos vales.

Com tantas montanhas, a Cordilheira Branca oferece lindas ascensões para alpinistas experientes, mas também opções para quem nunca colocou seus pés na neve, o que, muitas vezes, é o caso dos poucos brasileiros que chegam por lá. Na minha primeira visita a Huaraz, tive a grande satisfação de realizar a ascensão dos nevados Vallunaraju (5.686 metros), Ishinca (5.530 metros), Urus (5.420 metros) e Pisco (5.752 metros). Estas montanhas são bastante populares, especialmente pela facilidade de acesso (é possível chegar de carro ao acampamento-base do Vallunaraju). As dificuldades técnicas são poucas, pois a inclinação não ultrapassa 45 graus. Por isso, são ótimas opções para quem está chegando e quer se aclimatar para depois tentar algo mais ousado. O uso de corda, porém, é estritamente recomendado devido à existência de gretas ao longo do glaciar.

O Vallunaraju fica na Quebrada Lhaca, cerca de uma hora de carro de Huaraz. Muitos escaladores já aclimatados fazem ataque à montanha, saindo direto da cidade por volta da meia-noite. Eles sobem a moraina, atingem o glaciar e cume e baixam direto para o acampamento-base, onde o táxi os aguarda. Mas, claro, isso só é possível estando aclimatado e com um bom preparo físico. O Ishinca e o Urus estão localizados na Quebrada Ishinca, que também está a uma hora da cidade. Depois de quatro horas de caminhada, chega-se ao acampamento-base, com a ajuda de burros para levar a carga. De lá, também pode-se alcançar o Toclaraju (6.032 metros) e o Ranrapalca (6.162 metros). Já o acesso ao Nevado Pisco se dá pela Quebrada Llanganuco. A estrada que percorre o vale cruza toda a Cordilheira Branca, ligando a cidade de Yungay (2.500 metros) à cidade de Yanama (3.400 metros). A estrada chega a atingir 4.767 metros de altitude no chamado Portachuelo. Até o acampamento-base do Pisco são cerca de duas horas a partir de Cebollapampa. A pernada até o cume do Pisco também é longa: oito horas no dia do ataque ao cume, mas o visual é o mais impressionante que tive o privilégio de contemplar. De Pisco, se vê o Quitaraju, o Alpamayo, conhecida como a montanha mais bonita do mundo (concurso mundial de beleza cênica, Alemanha, 1966), o Artesonraju, fonte de inspiração para o símbolo da Paramount Pictures, a Esfinge (monolito de granito com 5.325 metros), o Chacraraju, os Hundoys e o Chopicalqui, entre outros.

TEMPORADA 2010 A temporada de 2010 na Cordilheira Branca foi marcada pela pouca quantidade de neve, já que as chuvas de verão foram amenas. O clima também estava mais instável, com janelas de tempo bom de cerca de uma semana seguidas por vários dias de mau clima. Por isso, muitas vias de escalada de muitas montanhas sofreram mudanças, algumas ficaram mais fáceis, outras mais exigentes. O Maparaju, por exemplo, no ano anterior oferecia cômodas rampas de neve para acessar o glaciar. Nesta temporada, quando voltamos para lá, nos deparamos com uma parede de gelo de inclinação de cerca de 60%, que nos fez procurar outro caminho de acesso e aumentou a caminhada em cerca de duas horas. Infelizmente não realizamos cume, pois nos faltou tempo hábil, já que é estritamente recomendado abandonar o glaciar nas horas mais quentes do dia. Mas as mudanças causadas por Pachamama todos os anos nos glaciares da Cordilheira Branca também nos beneficiou. Escalamos o Quitaraju (6.040 metros) pela face norte com 450 metros de parede de 60 a 80 graus de inclinação em uma madrugada muito fria de lua cheia e com uma neve dura com a consistência de isopor, perfeita! Se tivesse mais neve na parede, a escalada não teria sido tão prazerosa e segura. O Quitaraju está localizado na Quebrada Santa Cruz, ao lado do Alpamayo. O acesso até o acampamento alto leva de três a quatro dias. Outra montanha que nos rendeu uma boa aventura foi a Quebrada Ishinca, onde pude escalar o Toclaraju (6.032 metros), que lembra um grande suspiro. Mais uma vez pude sentir de perto a força da natureza durante dois dias de tempo ruim passados no acampamento alto. Quando só restava comida para mais uma noite e as esperanças de escalar o Toclaraju já estavam desaparecendo, o céu começou a limpar. E, assim, naquela madrugada saímos em direção ao cume, numa caminhada que parecia não ter mais fim, abrindo caminho sobre uma neve fofa que recém tinha se acumulado e coberto todas as pegadas do caminho. Essa interação mais próxima a um ambiente exuberante e inóspito é sempre um desafio, tudo é muito intenso, inclusive a alegria da conquista.

TREKKING Se a ideia é não encarar as montanhas, a caminhada pelas quebradas será suficiente para admirar a beleza e grandiosidade da Cordilheira. As quebradas são vales que cortam as montanhas facilitando o acesso. Elas existem devido ao derretimento dos glaciares, já que, no passado, essas formações eram cobertas de neve e gelo. Uma opção imperdível é o trekking da Quebrada Santa Cruz, que dá acesso aos nevados Alpamayo, Quitaraju e Artesonraju. Durante os meses de alta temporada, o caminho está sempre repleto de turistas com seus porteadores, guias e burros de carga. Para quem já tem prática, porém, é possível realizar a caminhada num estilo mais independente. O percurso completo leva cerca de sete dias e passa por vários locais de acampamentos com boa infraestrutura.

ACLIMATAÇÃO Para aproveitar devidamente o visual da Cordilheira Branca, a dica é reservar pelo menos uns cinco dias para a sua aclimatação às altas altitudes. Esse processo de adaptação varia de pessoa pra pessoa, porém é uma etapa que não se deve tentar pular. Recém-chegado a Huaraz, que já está a três mil metros de altitude, é recomendado ficar cerca de dois dias na cidade se movimentado bastante. Neste período, vale conhecer o mercado público, a feira de artesanato e, quem sabe, as ruínas de Willkawaian. O importante é se movimentar e tomar muita água. O passo seguinte pode ser o trekking até a laguna Churup, localizada na Quebrada Quilcayhuanca, a cerca de uma hora e meia de carro da cidade. A caminhada dura duas horas e atinge uma altitude de 4.700 metros. O visual do passeio é recompensador. Durante o processo de aclimatação, é importante expor seu corpo a diferentes altitudes e voltar para dormir em Huaraz para descansar. Forçar este processo pode deixar seu corpo fraco e vulnerável a doenças, como a "diarreia del viajero". Um dia em Hatun Machay também pode ser uma excelente opção. Hatun Machay é um setor de escalada em rocha localizado na Cordilheira Negra, a duas horas de Huaraz e a uma altitude de mais de quatro mil, com vias que agradam desde iniciantes até experts em escalada esportiva. O local também é muito visitado devido ao sítio arqueológico existente entres as formações rochosas. Conhecido também como floresta de rocha, pela quantidade de formações que existem no local, a impressão quando se caminha por Hatun Machay é de estar dentro de um gigantesco labirinto.

SOBRE A AUTORA Danielle Pinto é jornalista, fotógrafa e montanhista, apoiada pela Flora Roupas Esportivas, pelo Refúgio 5.13 e pelo Jornal da Montanha. Esta é sua segunda temporada na Cordilheira Branca. Também já esteve por dois anos consecutivos escalando na Argentina e no Chile. Confira suas aventuras no site: www.imaginate.com.br

SERVIÇOS Todos os serviços prestados por arrieiros, burros, porteadores e guias de montanha são cobrados em dólares e tabelados. As comunidades de campesinos (moradores das montanhas) são muito organizadas e possuem grande representação política; não é raro cobrarem passagem dos turistas, taxas que variam de $5 a $10. Os arrieiros cobram $10 por dia e cada burro sai por $5, um porteador custa $25 e o trabalho de guia, por dia, varia de $80 a $150 dependendo da montanha.

COMO CHEGAR De São Paulo até Lima o trecho é operado pela TAM ou pela LAN. De Lima até Huaraz é só pegar um ônibus pela Movil Tours (www.moviltours.com.pe) ou pela Cruz Del Sur ( www.cruzdelsur.com.pe ). A passagem custa entre 50 a 80 soles. De avião – pela LC Busre Airlines (www.lcbusre.com.pe) partindo de Lima, fica entre 80 a 150 dólares.

ONDE FICAR Se a ideia é ficar vários dias em Huaraz, procure se informar sobre a possibilidade de alugar um apartamento, além de sair mais em conta, é mais seguro. Existem opções desde hotéis três estrelas até hostels que custam 15 soles por noite, com banheiro e quarto coletivo. Vale a pena caminhar para procurar um lugar que atenda as suas necessidades. Olaza's Bed and Breakfast www.olazas.com

ONDE COMER Você vai encontrar em Huaraz uma cultura diferente e, com certeza, diferentes hábitos alimentares. É necessário escolher com cautela o que se vai comer, principalmente nos primeiros dias que o seu organismo vai estar se adaptando. Tomar somente água tratada e ter certeza que sucos, frutas e verduras também foram preparados com boa água.

OPERADORA PARA IR À MONTANHA Galáxia Expeditions www.galaxia-expeditions.com

CASA DE GUIAS Parque Ginebra 28G casa_de_guias@hotmail.com

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