TREKKING
Por: Elias Luiz  |  15.06.2010  •  22:46

Há 100 anos, a lendária expedição britânica ao polo sul Terra Nova, liderada pelo capitão Robert Falcon Scott, saía de Cardiff, no País de Gales, para descobrir que o explorador norueguês Roald Amundsen já tinha chegado antes à Antártida.

A façanha resultou na morte do próprio capitão Scott e de quatro de seus homens na viagem de volta. Julian Dowdeswell, diretor do Instituto Scott de Pesquisa Polar, da Universidade de Cambridge, disse à Agência Efe que além das diferenças de planejamento entre as duas viagens, o que verdadeiramente distinguiu a expedição de Scott da do norueguês foi que, além do objetivo de alcançar o polo sul, o britânico estava preocupado com as implicações científicas da aventura.

Para Dowdeswell, a viagem de Scott no navio "Terra Nova" foi um "verdadeiro modelo" de expedição científica, que abriu o caminho para futuras pesquisas sobre a Antártida. Esta foi a segunda vez que Scott se propôs a chegar ao polo sul, depois que, entre 1901 e 1904, liderou a expedição Discovery, na primeira tentativa do homem de conquistar a Antártida.

Na última viagem, em 1910, o célebre capitão da Armada Britânica partiu do porto de Cardiff com destino ao extremo sul do mundo, que levaria a sua morte e o transformaria em um herói nacional. O capitão Scott queria chegar ao polo sul "para a glória do Império Britânico", um ambicioso plano que encorajou Amundsen a organizar sua própria expedição com o objetivo de dar a seu país, que havia alcançado sua independência da Suécia recentemente, mais um motivo de orgulho. Scott não soube do propósito de Amundsen até que, em outubro de 1910, quando o "Terra Nova" já tinha chegado a Melbourne, recebeu um telegrama informando que a aventura científica na qual tinha embarcado se transformaria em uma corrida pela conquista da Antártida.

Equipado com trenós motorizados, cavalos e cachorros, sua expedição, formada por 12 homens, teve início no dia 24 de outubro de 1911. Dois meses depois, obedecendo as ordens de Scott, sete membros da expedição não seguiram até o final e voltaram com os cachorros para o acampamento que tinham instalado na metade de caminho.

Scott tomou a decisão de continuar a viagem acompanhado apenas por quatro de seus homens, que o seguiram na rota pelo lado oeste da barreira de gelo de Ross, caracterizada por ter um clima pior que o da rota leste, escolhida por Amundsen.

Além disso, Scott enfrentou condições meteorológicas registradas apenas uma vez a cada 100 anos, com nevascas que duraram vários dias e temperaturas 20ºC mais baixas que o habitual, que fizeram com que os motores dos trenós parassem de funcionar e que levaram à morte de vários dos cavalos. Scott e seus homens recolheram durante toda a viagem cerca de 20 quilos de amostras e fósseis que proporcionaram importantes informações sobre a Antártida e, até alguns dias antes de sua morte, analisaram as diferentes temperaturas "de uma região com um clima muito curioso, na qual a mudança entre inverno e verão se produz quase sem transição", comentou Dowdeswell.

O capitão "pode ter cometido erros no planejamento. Talvez teria sido melhor levar cachorros em vez de cavalos siberianos para puxar os trenós, mas Scott sempre baseou suas decisões em experiências de expedições anteriores", disse Dowdeswell.

Ele afirmou ainda que, ao contrário, a decisão de Amundsen de tomar a rota leste foi um tanto "arriscada", porque não havia evidências de que ela levasse até o polo sul. Em 17 de janeiro de 1912, 33 dias depois da expedição de Amundsen, o "Terra Nova" chegou a seu destino e deu de cara com a bandeira norueguesa. "Esta é a pior coisa que poderia acontecer", escreveu Scott em seu diário, sem conseguir esconder sua decepção. "Este é um lugar horroroso e muito mais para nós, que nos esforçamos tanto para sermos os primeiros a conquistá-lo".

Enfraquecidos e desmoralizados, o oficial Edward Evans morreu por causa de uma gangrena em uma mão ferida. Depois de permanecer por vários dias em uma tenda de campanha esperando que a tempestade passasse, o capitão Lawrence Oates fez a escolha de morrer congelado na nevasca, para deixar de ser um estorvo para seus companheiros de expedição, que também acabaram sendo encontrados mortos, a poucos quilômetros de um acampamento, meses depois que Scott escreveu a última página de seu diário.

"Se tivéssemos sobrevivido, eu teria contado uma história sobre dureza, resistência e coragem dos meus companheiros, que teria comovido qualquer inglês. Estas simples notas e nossos corpos mortos contarão a aventura", escreveu em um diário, que foi concluído com a mensagem "Deus, cuide de nossos familiares".

A dramática batalha para conquistar o Polo Sul, protagonizada há um século pelos dois dos expedicionários mais famosos da história, Roald Amundsen e Robert Falcon Scott, reflete agora em uma ambiciosa exposição no Museu de História Natural de Nova York. "É uma história muito famosa por múltiplas razões, entre elas porque tem um grande componente de tragédia", explicou à Agência Efe o responsável pela exposição, Ross MacPhee, que quer mostrar "o que as pessoas fazem quando estão isoladas em ambientes extremos, como sobrevivem e como se mantêm saudáveis".

"Corrida para o fim da terra", que poderá ser visitada até o fim do ano, repassa a rivalidade que aconteceu entre 1911 e 1912 para chegar pela primeira vez ao Polo Sul entre as expedições capitaneadas pelo norueguês Amundsen e pelo britânico Scott.

Fonte: EFE e Terra

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