CICLOVIAGEM
Por: Elias Luiz  |  07.05.2010  •  13:03

Voltei a La Paz novamente para descansar em uma altitude mais baixa seguindo o princípio de “escalar alto e dormir baixo”. Descansei mais dois dias e fiquei por conta de fechar a expedição para a montanha. Muitas expedições já estavam formadas e algumas empresas não aceitavam abrir uma expedição para apenas uma pessoa. Por intermédio de uma dessas empresas, eu conheci o Alex, um guia novo de montanha, que estava disposto a dividir a corda comigo. Então resolvi ir numa expedição particular.

Trazia comigo muitos equipamentos pessoais e consegui um ótimo preço pelo aluguel dos equipamentos que faltavam, pelas diárias do Alex e pelo taxi que nos levaria até a base da montanha (isso mesmo, fui escalar uma montanha nevada de taxi!).

Normalmente a ascensão do Huayna Potosí é feito em 3 dias e 2 pernoites. Uma noite no acampamento base e outra no acampamento avançado, perfazendo ganhos diários de altitude bem razoáveis para uma boa aclimatação. Era verão e chovia muito todos os dias, por isso eu protelava cada vez mais minha ascensão. O meu tempo para escalar estava ficava cada vez mais curto enquanto eu esperava um anuncio de melhora da previsão do tempo. Quando finalmente a previsão anunciou 1 ou 2 dias de melhora no tempo, me aprontei com o Alex. Como estava confiante no meu processo de aclimatação, resolvemos ascender em 2 dias e 1 noite para aproveitar a janela de tempo, apesar das estimativas locais alertarem que as chances de cume de uma expedição de 2 dias eram reduzidas pela metade.

Saímos de La Paz e alcançamos o acampamento avançado no mesmo dia, passando direto pelo acampamento base. O Alex sempre disparava na frente enquanto eu caminhava devagar, tirando fotos, fazendo filmes ou simplesmente curtindo o visual, numa velocidade bem abaixo do que o Alex estava acostumado. Por diversas vezes tive que lembrá-lo que eu era nascido em São Paulo a apenas 700m sobre o mar e subir correndo a montanha não me parecia uma boa idéia. Na verdade, a caminhada de ascensão do primeiro dia foi bem descontraída e o Alex achou que uma escalada em dupla era uma ótima oportunidade para um curso expresso de inglês e a cada descanso, entre uma ofegada e outra, repassávamos frases como: “How are you?”, “Let’s go!”, “How are you feeling?”, “What time is it?”. Parte da minha negociação dessa expedição incluía não utilizar os refúgios da montanha, então assim que chegamos ao acampamento avançado montei rapidamente minha barraca que ficou isolada num terreno irregular de rochas, no limite da neve eterna da montanha, mas bem protegida dos ventos. Felizmente a escolha de acampar foi ótima, pois o refúgio estava lotado e tumultuado enquanto o campo de rochas estava tranquilo e sossegado. Recolhi-me para dormir antes do sol se pôr e combinamos começar a ascensão a 1h da manhã, para evitar o congestionamento na montanha, atingir o cume nas primeiras horas da manhã e retornar antes que o gelo derretesse nos pontos críticos da escalada.

Apesar do elevado ganho de altitude que experimentei durante o primeiro dia, eu me sentia muito bem e aclimatado. Entretanto, no decorrer da noite uma pequena tosse esporádica que me perseguia desde o Brasil começou a ficar frequente e todas as vezes que estava prestes a cair no sono acordava por conta dessa tosse. Cheguei à conclusão que a altitude estava me pegando de uma maneira estranha. Por fim, dormi apenas poucas horas em uma noite que deveria ter descansado bem. No horário combinado levantei adrenado e já saí me vestindo e colocando os equipamentos para neve. Entretanto, essas horas não dormidas ainda me faria falta mais adiante.

Todos os montanhistas que estavam no refúgio tiveram a mesma idéia de iniciar a escalada mais cedo para evitar o congestionamento da via e enquanto nos aproximávamos da entrada da geleira pude avistar uma pequena multidão de pessoas com headlamps preparando-se para a ascensão. Por fim, começamos lentamente nossa subida em meio a outras expedições.

Uma grande vantagem de uma expedição pequena é que se pode impor um ritmo de caminhada mais conveniente a você mesmo. Enquanto as demais expedições normalmente impunham um ritmo de 5 min de descanso para cada 10 ou 15 min de caminhada, optei por um ritmo de apenas 1 min de descanso para cada 5 min de caminhada ou sempre que minha frequência cardíaca ou respiratória estivesse muito elevada. Caminhamos dessa forma num ritmo constante e de menor desgaste e aos poucos íamos ultrapassando as outras expedições.

Lá pelas 5:30 da manhã encontramos um pequeno grupo de 5 pessoas descansando num pequeno platô de neve e nos demos conta que não havia ninguém acima de nós e abaixo apenas mais duas luzes se aproximavam. A altitude, o frio e o mau tempo que se instalava haviam convencido muitas expedições a dar meia volta. A essa altura da escalada eu brigava contra eu mesmo para suportar o sono que queria a todo custo me derrubar. Não me sentia fatigado, minhas pernas funcionavam muito bem, o ar ainda entrava e saia dos meus pulmões sem muita dificuldade, mas minha mente implorava por mais umas horas de sono. Estávamos a cerca de 1h do cume e então resolvi avaliar se não era a minha hora de dar meia-volta também. Eu já havia feito esforços maiores em outras ocasiões da minha vida e sabia que meu corpo seguraria à bronca. O Chá fumegante que eu trazia numa garrafa térmica e algumas barras de chocolate me devolveram o gás que eu estava precisando. Levantei e repeti pra mim mesmo: “Para o alto e avante!”, como diria o Super-homem antes de decolar.

Alguns pontos de escalada mais técnica e os desvios de enormes fendas na neve próximos ao cume me deixaram desperto e excitado como nunca. Nas primeiras horas do dia alcançamos a base de um enorme cone de neve e gelo que conduzia ao cume da montanha. A escalada do cone era longa e o deslocamento devagar e todos aguardavam em fila o momento de subir. Naquela manhã alcançamos o cume do Huayna Potosí em 9 pessoas. Eu abraçava aqueles estrangeiros como se fossem meus entes queridos. Estava feliz de estar no cume, mas também preocupado com todo o percurso da descida. Todo montanhista sabe que a verdadeira vitória de uma escalada não se colhe no cume e sim na segurança da base.

Depois de ficar cerca de 30 min no cume, uma segunda sessão de chá quente e chocolates me devolveram parte da energia que eu precisava pra descer. A vontade de chegar logo na barraca me deu o restante do estímulo. Desescalei concentrado em coisas básicas como, por exemplo, em caminhar sem esbarrar com um crampon (cravos metálicos que se acoplam a bota) no outro ou em segurar com firmeza a piqueta para não a derrubar das mãos. Após 2h30 min de descida já reconhecia as feições do relevo que observei durante a subida. A neve que estava espetacularmente firme e seca durante a noite, com o dia se tornou solta e grudenta, dificultando ainda mais a caminhada.

A certa altura da descida caminhávamos por uma crista estreita e uns 50m abaixo na vertente esquerda dava pra ver um campo de neve como um pequeno vale. O Alex me chamou apontando para a vertente e disse: - Paul, quieres resbalar? Eu respondi: - Escorregar? Claro!! Ele se virou de frente para a vertente com os joelhos flexionados, balançando os braços e contando regressivamente: - 3, 2, 1... Rapidamente adotei a mesma posição e no “já” nos jogamos vertente a baixo. Descemos rolando, encordados um no outro, acumulando neve pegajosa no corpo até finalmente chafurdarmos no campo de neve abaixo. Levantamos rindo o máximo que aquela altitude nos permitia rir. Mal voltamos a caminhar e pude avistar ao longe o campo de rochas onde estava minha barraca. Eu estava relaxado e descontraído novamente, pois sabia que dali em diante os riscos eram muito menores.

Ainda era manhã quando alcançamos a barraca. Havíamos combinado com o motorista do taxi de nos buscar a tarde, decidimos dormir apenas uns 45 min antes de descer para o acampamento base. Descemos em baixo de chuva e enquanto caminhava percebia o quanto o tempo havia piorado na parte alta da montanha e me dava conta de o quão curta havia sido aquela janela de tempo. No acampamento base, encontramos o taxi, jogamos todos os equipamentos no porta-malas e nos mandamos pra La Paz.

Chegando na capital, tomei um banho no hotel e saí para comer algo em um dos restaurantes da cidade, eu estava realmente faminto. Enquanto esperava meu pedido, ainda me perguntava se eu realmente estive no cume de uma montanha de 6088m naquela mesma manhã.

O Huayna Potosí é realmente uma montanha singular. Se estiver bem aclimatado e sentindo se bem com a altitude é possível encadenar um cume de 6000m e ainda voltar pro jantar em La Paz. Se estiver sentindo os efeitos da altitude, basta dar meia volta que em poucas horas já estará em uma altitude segura novamente.

Experimentar os efeitos da altitude e da alta montanha é uma experiência muito interessante. Apesar dos estudos recentes afirmarem que a permanência prolongada nesses ambientes podem causar lesões e marcas irreversíveis no cérebro, garanto que a marca mais permanente que descerá com você da montanha será a emocional.

Tinha acabado de amanhecer quando alcançamos a base de um enorme cone de gelo e neve que conduzia ao cume da montanha. A altitude castigava a todos e fazia o deslocamento não ser maior que a de um bebê engatinhando e por causa disso um pequeno engarrafamento de pessoas se formou na base do cone. Meu coração ainda palpitava feito louco por causa dos últimos 15 minutos de caminhada e eu aguardava ansioso na fila a minha hora de subir. Enquanto esperava parado na neve, o frio das primeiras horas do amanhecer me gelava até os ossos, mas a adrenalina não me deixava pensar muito nisso.

O parágrafo acima poderia tranquilamente ter sido retirado de um livro de escalada no Himalaia, mas dessa vez não foi. Eu realmente estava lá e não precisei gastar o preço de um carro de luxo nem reservar meses da minha vida para me incluir numa expedição comercial. Na verdade montei minha própria expedição e não gastei mais que o preço de uma Mountain Bike e duas semanas de tempo.

A montanha escolhida para esta experiência foi o nevado Huayna Potosí de 6088 msnm na Cordilheira Real da Bolívia a cerca de apenas 30 km da capital La Paz. É uma montanha com características impares para quem quer treinar em Alta Montanha ou se iniciar nesse ramo do montanhismo. Primeiro porque é uma das poucas montanhas da Bolívia (e da América do Sul) com altitude acima de 6000m, de baixa exigência técnica e de logística de ascensão simples. Para se ter uma idéia é possível sair de La Paz (3650m) numa manhã, pernoitar no acampamento avançado (5130m), atingir o cume ao amanhecer e no mesmo dia descer todo o percurso e retornar a La Paz com tempo de jantar em um restaurante da cidade.

Entretanto, apesar dessa simplicidade o Huayna Potosí não deve ser subestimado, afinal de contas, ainda se trata de uma montanha de 6000m. É exatamente por esse motivo que a maior parte das pessoas que tentam escalar essa montanha desiste no caminho. A aclimatação precisa ser técnica e levada a sério como qualquer montanha de altitude.

No meu caso, a estratégia de aclimatação foi satisfatória e prazerosa. Ao chegar em La Paz já senti logo o efeito da altitude. Nas minhas primeiras horas na cidade já passei vergonha na frente da atendente da hospedagem por não conseguindo falar de tanto ofegar depois de subir com a mochila dois simples lances de escada. Passei dois dias na capital sem fazer nada de mais, descansava bastante e caminhava despreocupadamente pela cidade. Dores de cabeça, fadiga excessiva e falta de apetite são comuns nos primeiros dias em altitude, felizmente não manifestei nenhum desses sintomas. Manter-se hidratado é fundamental para uma boa aclimatação e eu levava sempre na mochila uma térmica com água quente para um mate além de garrafas de água mineral. Frequentemente eu parava nas barracas de suco natural e salada de frutas do mercado Lanza. Aproveitei para levantar mais informações sobre a montanha, comprar os mapas, conferir os equipamentos que precisavam ser locados e checar a possibilidade de fazer parte de uma expedição já formada.

Como parte do planejamento de aclimatação escolhi passar 4 dias passeando pelo Salar de Uyuni e nos desertos próximo a fronteira com o Chile. Optei por um roteiro que as altitudes variavam de 3600 a 4800m e dormia cada noite um pouco mais alto que a noite anterior. Lá as paisagens eram são deslumbrantes e as vezes beiravam o surreal, como por exemplo o espelho d’água que se forma sobre o Salar na época chuvosa dando a impressão que o chão é o céu. Sempre que possível me exercitava fazendo pequenas caminhadas e ataques a morros da proximidade.

Fonte: Paul François Colas Rosas

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