TREKKING
Por: Elias Luiz  |  05.04.2010  •  20:55

Acostumados a sempre caminhar em ambientes montanhosos, em abril de 2009 eu e meus amigos resolvemos fazer uma mudança de ares (e de terreno) e encaramos a travessia da Ponta daJoatinga, também conhecida como travessia Paraty-Laranjeiras, no Sul do estado do Rio de Janeiro. O nosso desafio consistia em partir da praia do Pouso da Cajaíba e chegar na localidade de Laranjeiras, próxima à vila de Trindade, percorrendo em 3 dias cerca de 28km pelas montanhas e praias da região. Digo "nosso desafio", pois existem algumas variações dessa caminhada partindo do Saco do Mamanguá (nosso fiorde tropical) ou da Praia Grande. Como não tínhamos tempo disponível, partimos mesmo do Pouso. Partimos rumo à Paraty na madrugada de 10 de abril e chegamos às 9h da manhã. Decidimos deixar os carros no estacionamento do "Seu" Joaquim, à esquerda do cais, e fomos logo procurar um barco que nos levasse até a praia do Pouso do Cajaíba. Estavamos preocupados com essa tarefa mas até que foi fácil. O Cais estava lotado de barcos para os mais diversos destinos e alguns, sem destino definido, aguardando somente a chegada qualquer grupo que precisasse de transporte para umas das praias da região ou até mesmo um roteiro pelos encantos da Baía da Ilha Grande. O preço do serviço, na época, estava em torno de R$ 25 e R$ 30 por pessoa.

Por volta das 10h embarcamos em uma luxuosa traineira de pesca chamada Atlântico Sul. Navegamos durante duas horas e meia passando por diversas ilhas particulares, praias e outras embarcações até chegarmos no ponto inicial de nossa caminhada, aonde encontramos uma pensão e pagamos R$ 15,00 por um inusitado cardápio de lula com feijão, arroz e refrigerante... praticamente um luxo! Não havia o que reclamar da combinação porque já estávamos "no ar", viajando, desde muito cedo. Mal terminamos de almoçar e às 14h botamos o pé na trilha rumo à praia de Martin de Sá. Foi uma caminhada de cerca de 4km com um desnível de 300m que fizemos em 1,5 hora. Na parte mais alta da trilha, apesar do tempo já estar meio nebuloso, pudemos apreciar uma vista privilegiada do Pouso do Cajaíba e da praia de Calhaus. Às 15h30m chegamos no camping do "Seu" Maneco. O Seu Maneco e a sua família são os únicos moradores de Martin de Sá. Ele cobra R$ 10,00 de diária por pessoa e serve refeições (PF) por R$ 15,00. Nenhuma bebida alcóolica é comercializada no lugar. Acordamos muito cedo no segundo dia do trekking e às 8h30 já estávamos percorrendo o trecho entre Martin de Sá e a Praia da Ponta Negra, de 11,4km de extensão, com direito a um desnível de 576m. Começamos a caminhada seguidos de perto por um grupo de paulistas que também estavam acampados no camping do Seu Maneco e já estavam fazendo aquela caminhada pela segunda vez. Os primeiros 30 minutos da caminhada foram meio confusos, com algumas bifurcações para os dois lados. Em uma dessas bifurcações ficamos em dúvida e fomos ultrapassados pelos paulistas, que seguiram pela bifurcação da direita. Como o caminho para eles não era novidade, resolvemos seguí-los. Passamos por um descampado com uma laranjeira carregada e em 1 hora de caminhada atravessamos dois rios bem complicados. Um com um imenso tronco atrapalhando a passagem e outro, mais fundo, que nos obrigou atravessá-lo descalços para não molharmos os calçados. Continuamos subindo uma trilha já não tão marcada, bem fechada, e o Fábio começou a ficar preocupado em termos escolhido a direção errada. Não demorou muito e um dos paulistas que seguiam bem a frente gritou para que voltássemos pois havíamos seguido pelo caminho errado. Na verdade, acreditamos que aquela era a trilha para o Pico do Cairuçú(mais de 1000m de altitude!). Levamos quase 40 minutos para retornarmos à tal bifurcação.

Em poucas horas o desgaste e o tempo perdido por causa da decisão mal tomada nos fariam falta. Às 11h retomamos a caminhada pela trilha correta e começamos uma subida de 20 minutos. Na final da descida deste morro chegamos à Praia do Cairuçú, onde encontramos algumas casas e decidimos parar para um pequeno lanche e descanso pois, dali para frente, enfrentaríamos o pior trecho de toda a aventura. Uma forte subida de aproximadamente duas horas até atingirmos o ponto culminante da caminhada, a 576m. Partimos às 12h45m e 25 minutos depois nos deparamos com uma grande pedra que interrompeu a trilha. Neste ponto é necessário contornar essa pedra pela esquerda para reencontrar a trilha um pouco mais a frente. Depois disso nós subimos muito, muito, muito. Passamos por uma crista em mata fechada e, às 14h30 acabei encontrando o Fábio parado na trilha, questionando se aquele era realmente o caminho certo porque ele não estava reconhecendo os breves indicadores dados pelo guia que estavamos acompanhando. Já no Rio de Janeiro, alguns dias depois da aventura, ele comentou aquele momento complicado: "Eu estava esperando há cerca de 15 minutos e cheguei a pensar em voltar porque achei que a pessoal estava demorando demais e que alguém poderia ter pego uma trilha errada. Mesmo com o erro de percurso no início do dia, eu estava me sentindo bem, e mantive um ritmo forte pensando em chegar logo no final daquela subida. Eu me lembrava de que o Gilmar estava logo atrás de mim, mas em algum momento ele e o resto da turma acabou se afastando. Para complicar, essa pausa maior do que a esperada acabou por “quebrar” o meu ritmo e começei a me sentir muito cansado. E a preocupação em saber se estávamos na trilha correta aumentava o drama." Eu falei que ficasse tranquilo porque eu havia reconhecido a crista, que era um dos sinais informados pelo livro. Ele acreditava que, pelo tempo gasto, já deveríamos estar na parte mais alta da travessia daquela montanha. E agora? O que fazer? Combinamos que eu subiria sozinho durante 10 ou 15 minutos e, se encontrasse os sinais, chamaria o restante do grupo. Caso não encontrasse nada, retornaríamos. A Alessandra foi voluntária para me acompanhar. Aceitei imediatamente porque, em situações como a que estávamos, é totalmente irresponsável que alguém saia sozinho para procurar o caminho correto. O correto foi o que fizemos. Dividimos o grupo de forma que ninguém ficasse sozinho se tivesse algum tipo de problema. Eu e a Alessandra subimos rapidamente e, após 8 minutos, pedi que ela me aguardasse parada para que eu seguisse sozinho por mais 8 minutos. Caso eu encontrasse alguma pista, não precisaria descer tudo para avisar ao grupo. Bastaria gritar para ela que ela repetiria as instruções para o grupo logo abaixo. A minha confiança já estava indo embora quando encontrei uma gruta chamada de "toca da raposa". Vibrei muito por saber que estava tudo dando certo e gritei a notícia para a Alessandra que chamou a Iza, o Gilmar e o Fábio. Esse "telefone sem fio" foi uma solução meio tosca mas funcionou bem. Por causa dessa experiência estamos pensando em comprar um par de rádios para levarmos nas próximas aventuras Assim que o pessoal me alcançou continuamos caminhando e chegamos, finalmente, ao ponto mais alto da travessia às 15h. Após uma parada rápida para algumas fotos retomamos a caminhada e fiquei surpreso ao constatar que a descida da montanha era ainda mais íngreme do que a subida. O Gilmar e o Fábio chegaram a comentar que provavelmente era por isso que a travessia era Paraty-Laranjeiras, e não o contrário.

Andamos muito ainda e fomos recebidos no camping da Branca pela própria quando já estava anoitecendo. Naquele momento a pressa era para armarmos as barracas antes da chegada da noite, quando a tarefa ficaria mais complicada. A fome que eu sentia fazia parecer que aquele serviço não terminaria nunca. Quando, enfim, terminamos, decidimos jantar em um bar em frente à praia. O jantar foi fantástico por causa da qualidade da refeição (esse julgamento pode ter sido tendencioso por causa da situação), da companhia dos amigos e, claro, do magnífico pôr-do-sol que deixou o céu todo alaranjado, contrastando com as cores das ondas que estavam quebrando violentíssimas devido à ressaca. Voltamos pesados para o camping, para aproveitar o nosso merecido descanso para nos prepararmos para o último dia da aventura. O domingo de 12 de abril amanheceu com muitas nuvens. Vez ou outra algum raio de sol escapava por entre elas e dava um colorido muito especial quando passava pela névoa deixada pelo movimento das ondas. Começamos a caminhada às 8 horas subindo o morro que fica atrás do camping da Branca e, em menos de 20 minutos, após descermos o morro, chegamos próximo à umas casas à direita da trilha. O caminho correto é seguindo em frente, virando à esquerda no final da trilha para caminhar por uns 100m do terreno pedregoso da Praia das Galhetas até um riacho. A trilha continua do outro lado e uns 15m acima desse rio que não é muito complicado de se atravessar. Uma técnica que me ajudou muito, já que eu estava carregando uma mochila bem pesada e alta foi apoiar as pontas dos bastões de caminhada nas pedras que ficavam submersas. Dessa forma atravessei rapidamente o rio e me junte novamente ao grupo para atravessarmos o próximo morro até as Praias de Antiguinhos e dos Antigos. Foi uma trilha fácil, com um caminho bem marcado que fizemos em uns 45 minutos. No final dessa praia está o início da trilha para a Praia do Sono. Também é uma caminhada fácil. Levamos menos de 20 minutos para subirmos o morro e uns 10 minutos para descê-lo após, claro, tirarmos a tradicional foto com a Praia do Sono ao fundo. De todas as praias pelas quais passamos esta é a mais habitada e a que oferece a melhor infraestrutura. Há quartos para alugar e campings para todos os gostos. Dos mais familiares até os mais "zoeiras".

Aproveitamos para beber uns 2l de refrigerante e o Gilmar não resistiu e caiu no mar. Ficamos um bom tempo curtindo aquele lugar, conhecendo os campings e várias pessoas bacanas que também estavam de passagem.

Como a caminhada para Laranjeiras é relativamente curta (com peso, pode ser feita em 1 hora) e a trilha é melhor cuidada, chegando a ter até umas escadas de concreto, um passeio que recomendo para quem não quiser fazer um trekking de 3 dias como nós, é acampar na Praia do Sono. Uma praia de águas calmas, muito bonita. Um local com um astral capaz de arrancar o stress de qualquer pessoa.

Os campings de lá tem telefone e é possível até agendar um frete de barco para quem não gosta de caminhar ou precisa levar muito peso. Vale a pena.

A tarde já estava começando quando chegamos à uma pequena praça, já em Laranjeiras, aonde ficamos esperando num ponto ônibus um transporte para nos levar até Paraty onde almoçamos e começamos a última parte da viagem: o retorno para casa. Depois de tanto esforço e de tanta adrenalina, o balanço que posso fazer desse trekking é o prazer de poder fazer coisas novas sempre. Eu, que comecei a caminhar na Ilha Grande, sempre passando ou chegando em praias deslumbrantes, estava há uns 10 anos sem fazer uma caminhada em ambiente de praia. Para quem, como eu, se habituou a caminhar na serra e se acostumou com o verde da mata e o cinza das rochas, um passeio como este trás uma emoção especial ao colocar um pouco do azul do mar e do colorido dos barcos nas fotos e nas lembranças.

Até a próxima aventura! Colaborou com este texto: Fábio Fliess

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