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Estrada do céu
No entorno do Parque Nacional Serra da Canastra, a estrada a partir do bucólico município de Delfinópolis alia
muitas ladeiras a refrescantes quedas d'água e proporciona uma travessia original pelas montanhas mineiras
 
Publicado em 25/04/2011 - 14h58 - Texto e fotos: André Dib
 
 

A bicicleta descambava ladeira abaixo e o controle tinha que ser rigoroso, afinal, qualquer descuido poderia ser fatal. Estávamos na "Estrada do Céu", um caminho desenhado num escarpado montanhoso, cercado de abismos, entremeando a Serra Preta e a Serra do Cemitério, ambas adjacentes à Serra da Canastra, num dos pedais mais memoráveis que pude realizar.

Pedalar por esse trecho serrano não é uma tarefa fácil. As infindáveis rampas de cascalho branco e o desnível acentuado fazem do trecho um verdadeiro martírio, porém, a paisagem é extravagante e bela. Apesar do esforço, é impossível ficar alheio ao cenário que se impõe ao longo do caminho.

A pedalada começou em Delfinópolis (MG), município que também compõe o grande complexo da Serra da Canastra e que resguarda em seus limites cenários de fazer inveja a muitos destinos de ecoturismo badalados, alternando serras, cachoeiras, trilhas e cânions que cortam gigantescos campos rupestres, verdadeiros cartões-postais.

 
CENÁRIO - O caminho faz jus ao nome. A "Estrada do Céu" nos transporta, definitivamente, para outra dimensão. Fotógrafo: André Dib
 

Do centro da cidade, já se avista a imponente Serra Preta. Alguns quilômetros depois, na movimentada estrada de terra que liga o município ao distrito de Olhos D'Água, há um atalho seguindo à esquerda, por uma estradinha secundária que leva ao complexo de cachoeiras conhecido como Paraíso. A partir dali, começamos a ganhar altura.

Os pesados alforjes, onde levávamos provisões para três dias, tornavam a subida da Serra muito mais causticante em uma travessia por grandes formações de quartzito, conhecidas como Condomínio de Pedra. Nesse trecho eriçado de cactos, bromélias, canelas-de-ema e rochas esculpidas, forjadas pelo tempo, despontam pequenos jardins rupestres, de rara beleza.

Toda essa riqueza, porém, está ameaçada. Motoqueiros mal-educados já se acostumaram com o descaso e o desinteresse dos governantes diante dos problemas ambientais na região. Saem da estrada principal, criando novos caminhos pela vegetação nativa, destruindo campos de bromélias e velosiáceas, dilacerando as rochas, sulcando a terra e condenando o solo à erosão, através de uma diversão egoísta e irresponsável.

Vencendo nosso primeiro obstáculo, no topo da Serra Preta avistamos a Represa do Peixoto e o curso do Rio Grande, cortando o vale em sentido noroeste, para mais adiante definir a fronteira dos Estados de Minas e São Paulo. Dali em diante, uma série de trechos longos de areia fofa retardam significativamente o ritmo da viagem. Para fugir do nosso novo obstáculo natural, atalhamos por trilhas técnicas, marcadas pelo gado, o que deu um sabor especial à pedalada.

Na descida para o Vale do Rio Bateia, as cachoeiras ocultadas pela vegetação se revelam furtivamente, com sua pureza ímpar, típica da Canastra. A chance de experimentar um banho em alguma das piscinas naturais é irresistível.

A tão esperada "Estrada do Céu" logo mostra toda sua força, nos desafiando em direção ao topo. O caminho instigante nos lançava numa longa e exaustiva subida, promovendo um embate entre o corpo e a mente. Pouco a pouco, fomos vencendo a rampa e logo nos encontramos fascinados, diante de tamanha grandiosidade. A Serra Preta, à nossa esquerda, marcada por grandes paredões alaranjados e separada por um abismo, formava o Vale da Bateia, e à esquerda, a Serra do Cemitério, com sua formação delineada por grandes sulcos com gramíneas que ao entardecer dourava o grande paredão. Continuamos a pedalar pela tortuosa estradinha, no alto de uma escarpa, delimitada por abismos dos dois lados. O caminho nos oferecia algo a mais que o prazer de pedalar, nos trazia sensações graciosas diante da força da natureza em sua mais pura essência. Se alguém acredita que o melhor está nas áreas mais manjadas, repletas de turistas afoitos, se surpreenderá com o que esse caminho ermo tem a revelar. O entardecer, com suas luzes mágicas, marcava a cena e o silêncio só era rompido pelo zunido do vento. Começamos a descida ao Vão da Babilônia, local de acesso difícil e hospedagens rústicas, mas confortáveis, onde encontraríamos nosso primeiro local de pernoite. A simplicidade das casas construídas com telhados de pedras lascadas remonta a tempos passados, abrigando personagens fantásticos desse mundo de cultura tão diversa. Seguimos para a Pousada da Vanda. A simpática e vigorosa mulher nos recebeu para o jantar, com uma deliciosa galinhada caipira. Tínhamos fechado os 45 km do primeiro dia, e, apesar de ser o trecho mais curto, sabíamos que já tínhamos vencido o desnível maior.

 
CAMINHO DO CÉU - As infindáveis ladeiras dificultam o pedal, mas o visual compensa qualquer esforço. Esta matéria foi publicada na edição 162 da revista Aventura & Ação. Foto: André Dib
 

Retomamos logo cedo o nosso trajeto. Nessa manhã, pedalaríamos pelo Vale, cercados pelas grandes serras. O caminho menos acidentado e a estrada de chão batido incitavam um ritmo mais forte e logo vencemos os primeiros 20 km do trajeto, na primeira hora. A grande biodiversidade da região faz desse roteiro algo muito especial. Lobos, veados, emas e tamanduás não são raros ao longo do caminho. Seguimos em direção à serra calçada, e, novamente do alto, avistamos todo o Chapadão da Babilônia.

ALÉM DO PARQUE
A beleza da Serra da Canastra é indiscutível. O que poucos sabem é que esse tesouro se estende muito além dos limites do Parque Nacional. Enveredamos por uma fenda no alto do morro, por onde passava a estrada, e começamos uma longa descida. À nossa direita, um pico imponente conhecido como Pico das Cruzes, que guarda um antigo caminho de romeiros seguindo ao alto da serra, nos fez mudar, momentaneamente, os planos.

Decidimos entocar as bicicletas na vegetação e seguir a pé até o cume da montanha. A trilha nos levou ao topo de um escarpado rochoso, ornamentado com dezenas de cruzes de todos os tamanhos. Do alto, tínhamos uma das vistas mais belas da região. Depois de alguns minutos de contemplação, descemos rapidamente e nos colocamos novamente a caminho. A partir dali, retomamos a longa descida, e com mais 14 km chegamos à estrada que liga São João Batista do Glória a Delfinópolis. Após um longo trecho de serra por caminhos instigantes atravessávamos agora um empoeirado ramal rodoviário cercado por canaviais, que paulatinamente estão se espalhando pelos campos da região e tomando o lugar do cerrado nativo, fazendo desse trecho o cenário mais pobre de toda a jornada. Mais adiante, cruzamos o vilarejo de Ponte Alta e seguimos até a Fazenda Santo Antônio, que conta com uma aconchegante pousada rústica e resguarda nos seus limites dezenas de cachoeiras exuberantes. Mais 65 km rodados levam a belos poços naturais do complexo, que encerram o segundo dia de pedalada.

 
Ave - A simpática ave dá o ar da graça e compõe a beleza da região. Fotógrafo: André Dib
 

Faltavam apenas 40 km para fecharmos o roteiro, entretanto, a volta pela estrada principal, tomada pela cana, não nos parecia nada aprazível. Informamo-nos com o simpático casal da fazenda e mudamos a estratégia para um caminho menos convencional. Depois de atravessar o Rio Bateia carregando as bicicletas, seguimos um descampado, cortando pastagens de pequenos sítios que criavam um clima bucólico e acolhedor. Na chegada a Olhos D'Água, ainda pela manhã, desviamos novamente o caminho, rumando para o alto da Serra da Bateia. Dezenas de sempre-vivas ornamentavam o percurso, composto pelo bioma em suas mais diferentes formas. O cerrado intrincado, formado por arbustos retorcidos, davam lugar a matas de galerias, que se adensavam pelos capões e margens dos riachos. Logo mais à frente, já atravessávamos campos limpos de gramíneas ralas de um cerrado savânico.

De todas as maneiras, a natureza parecia se impor. Após uma subida interminável, paramos à sombra de uma sucupira para descansar e recompor as forças e, de volta ao pedal, atingimos novamente o alto da Serra Preta, de onde já avistávamos a cidade de Delfinópolis, ponto de partida da nossa travessia. Agora, era hora de soltar as bicicletas para curtir a descida e fechar a travessia. As pastilhas de freio zuniam, sinalizando desgaste, e o vento nos trazia uma enorme sensação de liberdade. No caminho, ainda paramos na Cachoeira Paraíso, para um último banho, e um bate-papo com uns amigos que ali vivem. Chegamos ao entardecer, com o odômetro marcando 150 km numa das travessias mais lindas que já vivenciei. Foram três dias de contato íntimo com a natureza e com as sensações que ela nos proporciona.


VÁ DE BIKE
A bike é um veículo silencioso e de baixíssimo impacto, mesmo em ambientes de natureza exuberante. A cada ano, porém, a natureza de Delfinópolis tem sido mais castigada pelas trilhas "off roads" e as marcas nas serras são cada vez mais evidentes. Estranho mesmo é que, apesar do incomparável patrimônio natural da região, não existe nenhum plano ou discussão para coibir esse crime ambiental, que tem crescido, rigorosamente, nos últimos anos. Com isso, o município ainda é usado pelos motoqueiros como porta dos fundos da Serra da Canastra, já que, no Parque, as trilhas de motos são proibidas, fomentando paralelamente um turismo irracional, que caminha na contramão da preservação e do turismo sustentável.

SERVIÇOS

 DELFINÓPOLIS

Pousada Rio Grande 
www.pousadariogrande.com.br
(35)35251073

VÃO DA BABILÔNIA
Pousada da Vanda 
(35) 9961 4399Fazenda Santo Antônio
www.aguasdesantoantonio.com.br
(35)35252001
(35)91383604

Associação de Monitores Ambientais de Delfinópolis (AMAD)
(35) 3525-166

 
 
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