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Extremos pelo mundo
ELIAS LUIZ, EDITOR-CHEFE DO EXTREMOS EM SUA VIAGEM A TRABALHO COM O EXTREMOS PELO MUNDO
 
 
 
21.06.2017 - PANORÂMICA: Sentado na sombra de um pinheiro, no exato momento em que Kilian Jornet chegava ao cume do Mont Blanc. Foto: Elias Luiz
 
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21.06.2017 - 12:30

Kilian Jornet e eu, em mais um dia de trabalho.

  Elias Luiz  

Acordei às 6h30 no primeiro dia de verão aqui em Le Tour, vilarejo no extremo Sul do Vale de Chamonix. Kilian Jornet, em Chamonix também estava acordando.

Desci para trabalhar na sala do Refúgio, onde além de sofás tem uma mesa de escritório e a internet é melhor. No Brasil era 1h30 da madrugada, mesmo assim encontrei alguns amigos online. Por volta das 8h fiz uma pausa para o café da manhã e logo retornei ao trabalho, respondendo emails e colocando o artigo de um colunista no ar e finalmente enviando para a gráfica o livro Trekking Everest da minha amiga Alessandra Bibas.

Neste tempo Kilian se deslocava de Chamonix para Les Houches, vilarejo no extremo Norte do vale. Deve ter começado a sua escalada ao cume do Mont Blanc próximo ao Col de Voza (2.350m), local onde passei em 2012, no Tour du Mont Blanc. Ele escolheu a Rota Goûter para a escalada.

Às 10h resolvi fazer uma pausa no trabalho, ainda era 5h da manhã no Brasil. Escolhi fazer a trilha Le Péclerey, que tem início ao lado refúgio. A trilha tem uma ascensão de 700 metros para ser feita em pouco menos de duas horas até o destino. Era a primeira trilha no maciço do Mont Blanc que eu iria fazer nesta temporada.

Kilian Jornet, às 10h da manhã, já tinha passado pelo Refúgio Tete Rousse (3167m) e pelo moderno Refúgio Goûter (3817m) e seguia forte em meio a neve rumo ao cume do Mont Blanc.

 
A linha amarela é a trilha do Tour du Mont Blanc. Parte do dia 9, 1o inteiro e início do dia 11 de trilha. Foto: Elias Luiz
 

O trecho inicial da minha trilha foi em um bosque com imensos pinheiros e com uma agradável sombra nos primeiros 30 minutos da trilha. O zigue-zague morro acima parecia não ter fim, e já acima do bosque o sol castigava com os 25ºC e poucas nuvens. Imaginava que a trilha levaria apenas ao Glaciar Tour, que na verdade, como houve o seu recuo devido ao derretimento, não tem muita como a ser vista, a não ser rocha. Por isso mesmo essa trilha é pouco movimentada. Mas imaginava que a descida seria pelo mesmo caminho. A grata surpresa ao chegar no destino da trilha foi ver que ela seguia pela montanha em sentido sul, de frente para o Mont Blanc e desceria pelo outro lado. Gosto de trilha assim, onde não se repete o caminho e sempre tudo é novidade.

Pouco antes das 13h parei na sombra de um pinheiro, ainda na parte alta da trilha, perto dos 2.000m. Sentei em uma pedra e preparei o lanche com os ingredientes que havia comprado no mercado um dia antes. Baguete, queijo artesanal e salame, tudo feito na região. Entre uma mordida e outra no lanche, aproveitava para fotografar a paisagem com o Mont Blanc ao fundo, ainda sem saber que Kilian estava chegando no cume.

Neste momento Kilian Jornet entrava ao vivo em sua página pessoal no facebook e transmitia os momentos finais de sua chegada ao cume. Subiu correndo o trecho final e no cume encontrou outros montanhistas e os parabenizou pelo feito. Esses montanhistas levaram pelo menos dois dias para chegar ao cume. Estavam usando roupas de frio, piolets, capacete, corda, arnes e tudo mais. Kilian Jornet escalou em pouco mais de 4 horas, de tênis, shorts, camiseta, uma pequena mochila de hidratação e um par de bastões de caminhada, ficou um minuto no cume e começou a sua descida, de volta pra Les Houches.

 
A trilha desce em meio ao bosque e com o as montanhas nevadas ao fundo. Foto: Elias Luiz
 

Eu começava a minha descida de volta para Le Tour, com o Mont Blanc a minha frente e todo o vale de Chamonix. A descida foi muito mais leve e agradável, e logo cheguei ao ponto onde havia iniciado a trilha, com um total de três horas de trilha.

Kilian Jornet foi ao cume do Mont Blanc como treino para a Marathon du Mont Blanc que acontecerá neste fim de semana aqui em Chamonix. Eu estava treinando para a Kungsleden, a trilha de 30 dias no norte da Suécia, que farei em agosto junto com a Laura Sette.

 
Kilian Jornet no cume do Mont Blanc
 
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15.06.2017 - 17:40

Extremos pelo mundo

  Elias Luiz  

Quando lancei o Extremos, em 2007, vislumbrava a possibilidade de um dia viajar e trabalhar. Um sonho que ficou guardado durante 10 anos. Resolvi que não iria deixar de lado outras fases da minha vida. Tudo tem o seu tempo. Não queria jogar tudo para o alto e algum tempo lá na frente me arrepender por isso. Sabia que de uma forma ou de outra, se fosse para ser, a oportunidade surgiria.

No dia 18 de março de 2017 parti para viver pelo menos 6 meses na Europa. Hoje completa 3 meses que estou aqui.

Os 10 anos de espera surtiu bons efeitos, hoje em dia ficou fácil para tratar das partes burocráticas da minha empresa, o Extremos. Emitir notas fiscais eletrônicas, pagar os impostos, contadora e tudo mais é feito online.

Não tenho mais contas de TV a Cabo, Internet, Netflix, Água, Luz, etc. Lógico, ao invés disso tenho a conta nos refúgios de montanha ou nas hospedagens do Airbnb. Na média o custo de vida continua o mesmo.

 
Torre Eiffel, Paris Pirâmide invertida no Museu do Louvre Quadro no imenso Palácio de Versalles
O final do jardim do Palácio de Versalles Jardim do Palácio de Versalles Dentro do trem na travessia do Canal da Mancha
 

Para trabalhar preciso apenas de um wi-fi, e como alguns amigos disseram: “Elias, continue viajando porque você está produzindo ainda mais conteúdo para o Extremos!”

Os podcasts continuam sendo gravados no mesmo ritmo, o interessante é que agora tanto o entrevistado como eu, estamos em locais diferentes a cada programa. Os artigos, matérias e tudo mais continuam fluindo bem. Durante a Cobertura Online do Everest de 2017 estava em Dublin, e novamente o Extremos bateu recorde de acessos, como 45% a mais que em 2016.

A reuniões comerciais continuam a todo vapor, via email, telefone ou skype.

Entendi que para que eu possa manter uma boa produção de trabalho o ideal é que eu não fique pingando de cidade em cidade ou de país em país, o que de início era o meu plano. O custo do pinga-pinga aumentaria os meus gastos, como também a dor de cabeça de a cada semana ter que procurar um novo lugar para se hospedar, como experimentei no início da viagem, quando morei por uma semana em Paris e outra semana em Londres. Depois morei dois meses em Dublin, que foi um momento de economia bem vinda, me hospedei na casa do meu sobrinho. Esse foi o primeiro período para me habituar melhor com a fase de viajar e trabalhar. Normalmente o trabalho rende muito, estou cinco horas a frente do Brasil. Quando os brasileiros saem para o trabalho, a maior parte do conteúdo produzido já está no ar. Então já amanhecem com notícias novas.

     
Mercado livre em Londres Tower Bridge Restaurante em Londres
The Green Park em Londres Quartel do Exército em Londres Sabores de Londres
 

O que eu expliquei neste texto até o momento, não seria muito diferente se eu estivesse em Campinas / SP. É apenas a parte do trabalho e das burocracias. Vim em busca de muito mais.

O foco é no trabalho, mas quando sobra um tempo livre aproveito para fazer as caminhadas ou trilhas, depende de onde estiver. Quando estava em Dublin, Londres ou Paris, a cada caminhada saia para um rumo diferente, acabei conhecendo mais de 15 parques. É gostoso quando cada saída é para um lugar que você nunca foi. Tudo é novidade.

Aqui nos Alpes estou aproveitando para refazer alguns trechos do Tour du Mont Blanc e outras trilhas pela região.

     
Estátua do escritor Oscar Wild O famoso The Temple Bar em Dublin Ponte Samuel Becket em Dublin
Deer no Phoenix Park / Dublin Cliffs de Howth / Irlanda Descida em praia selvagem no Cliffs de Howth
 

O prazer de vivenciar uma cultura diferente, tendo experiências novas todos os dias e conhecendo pessoas de várias partes do mundo foi o que vislumbrei desde o início. Isso é muito enriquecedor. Acho que como editor do maior portal de aventura do Brasil, isso era o mínimo que deveria me propor como modo de vida. Essas experiências no mínimo enriquecerão a minha forma de ver o mundo como um todo, como também o segmento da aventura. O quanto mais conhecer, mais experiências e visão de um mundo global terei e isso resultará em uma visão melhor nos artigos, notícias e coberturas online do Extremos.

Estou há 15 dias morando no Vale de Chamonix, e devo ficar um mês no total. Seis anos atrás eu nem conhecia o Tour du Mont Blanc e agora depois de ter feito o circuito em 2012, estou de volta e morando literalmente na trilha. O refúgio onde estou é uma opção para quem faz o TMB, e é gostoso sentar na hora do jantar e conversar com os hikers que estão fazendo o TMB, saber de suas aflições e de seus encantamentos com a trilha.

O Col de Balme, que para mim sempre foi o local com a melhor vista de todo o TMB, hoje é o quintal de casa. Pelo menos uma vez por semana subo ao alto do paso para apreciar a vista, para ver os hikers chegando e para treinar para o meu próximo projeto, os 440 km da trilha da Kungsleden, no norte da Suécia.

     
Trilha entre o Col de Balme e o Col de Posettes, com vista para a Suíça. Altiude de 2.250m. Foto: Elias Luiz
Os Alpes do alto Família na trilha, chegando ao Refugio Bertone Vale de Malatra - lado italiano do TMB
Mer de Glace / Chamonix Ibix na trilha Chegando ao Col de Balme, com o Mont Blanc ao fundo
 

Uma pergunta que ainda não sei responder é quanto tempo ficarei nesta vida de Extremos itinerante. Pode ser apenas os 6 meses iniciais, como pode ser 1 ano ou mais… não me preocupo com isso no momento. Novamente deixarei que o tempo se encarregue disso.



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