Extremos
 
Choquequirao
 
Texto: Ivan Banzatto
15 de setembro de 2014 - 19:45
 
 
  • Foto: Ivan Banzatto
    Ruinas da cidade perdida de Choquequirao. Foto: Ivan Banzatto
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    Grupo e guia no Mirador Capuliyoc." Foto: Ivan Banzatto
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    Vilarejo de San Pedro de Cachora." Foto: Ivan Banzatto
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    Início da trilha no vale de Apumaric." Foto: Ivan Banzatto
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    Vista para o Vale de Apumaric." Foto: Ivan Banzatto
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    Carrinho suspenso para atravessar o rio." Foto: Ivan Banzatto
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    Seção chamada de Llamas del Sol." Foto: Ivan Banzatto
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Ruinas da cidade perdida de Choquequirao. Foto: Ivan Banzatto

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A cidade perdida dos Incas de Choquequirao (pronuncia-se txôquequirao) é uma das principais construções deixadas pelo povo que foi massacrado pelos Espanhóis. Esse motivo me levou a escolhe-la como uma das 8 trilhas para meu 3º mochilão pela America do Sul. O feito arquitetônico é considerado uma das mais belas ruínas Incas. Choquequirao tem maior área construída, mas as ruínas e construções de Machu Picchu são fascinantes e misteriosas, de uma beleza incomparável a qualquer outra que já vi na América do Sul.

Breve histórico Inca
O povo Inca foi, provavelmente, a civilização mais influente entre todas as culturas localizadas na região dos Andes. O Império Inca teve início em 1200 D.C e seu declínio foi quando o imperador Atahualpa foi deposto pelos espanhóis no século XVI. No auge de seu império, o povoado Inca cobria uma enorme extensão da Costa Ocidental da America do Sul, do Peru ao Chile. O povo Inca se comunicava através da língua Quechua, que também é uma marca francesa de equipamentos de trekking muito conhecida. Apesar da língua falada, os Incas não desenvolveram a língua escrita, não deixando nenhum registro em papel de sua história. A cultura Inca dominou muito bem as técnicas de engenharia hidráulica para irrigação, com técnicas de movimentação e cortes de pedras até hoje desconhecidos.

Cusco
A cidade de Cusco é uma das mais visitadas do Peru (se não a mais), recebendo milhares de turistas todos os anos. Declarada como patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO, Cusco foi também a capital do império Inca, com muito atrativos turísticos e arqueológicos. A cidade é usada como base para o turismo na região (principalmente de aventura), possuindo dezenas de agencias, lojas de equipamento e mercados com milhares de produtos indígena regionais. Ao caminhar pela cidade, pode se ver muitos turistas com mochilas e botas de trekking, com sua maioria europeus ou americanos. Cusco é uma cidade jovem onde também encontra se ótimos bares, casas noturnas, restaurantes, hotéis e hostels. Assim como em todo Peru, a cidade tem um traço cultural indígena muito forte que é mantido principalmente pelo artesanato regional e turismo a parques arqueológicos e museus.

Após conhecer bem a cidade de Cusco, meu objetivo era visitar as duas principais ruínas incas. Então comprei os pacotes para as duas trilhas, Choquequirao e Salkantay (essa última termina em Machu Picchu). Não reservei os passeios com antecedência pois saem grupos quase todos os dias para essas trilhas. Somente se tiver planos para a Caminho Inca Clássico que é controlada pelas autoridades locais e tem limite máximo de 500 pessoas por dia.

Em Machu Picchu pode se chegar via trem e ônibus, mas Choquequirao só pode ser acessada por trilha. O caminho tem como ponto de partida a pequena vila de San Pedro de Cachora que fica a 170km da cidade de Cusco. A vila tem pouco mais de 3.500 habitantes e com apenas a rua principal pavimentada, todas as outras ruas são de terra.

Geralmente a trilha é feita em 4 dias e tem 65 quilômetros de extensão pelo Canyon Apumaric. O pacote para a aventura pode se contratar em Cusco que inclui entrada ao parque, alimentação, guia, mulas, cozinheiro e diária nos campings por cerca de US$ 230. Para os mais experientes e preparados fisicamente é possível apenas comprar a entrada para o parque e levar tudo na mochila (comida, barraca, equipamentos, etc). O caminho não é técnico e exige apenas que o peregrino tenha um bom preparo físico. A trilha é larga e está bem sinalizada, não tem como se perder.

Dia 1
Após os preparativos de equipamentos ainda no hostel em Cusco, o transporte veio me pegar e tive o primeiro contato com o grupo que ficaria por 4 dias seguidos. O grupo era composto por 2 casais (holandeses e ingleses), o jovem francês Xavier, a peruana Laura e nosso guia peruano Miguel. Chegamos em Cachora e descemos os equipamentos para o início da trilha. Com mochila nas costas e tudo pronto, começamos a tranquila caminhada. A caminho é bem tranquilo pois a maior parte do caminho é descida até a 1ª noite de acampamento. O caminho é tranquilo, mas o terreno é íngreme e com pedras no caminho você deve ficar atento para não ter torções no joelho ou tornozelo. Saímos de 2.900 metros e após 6 horas de caminhada chegamos ao nosso primeiro acampamento em Chiquisca com 1.850 metros de altitude. No camping existe uma pequena venda para os desavisados que não levaram lanche de trilha ou os que queiram tomar uma cerveja/refrigerante quente, sim, lá não tem energia para gelar os produtos.

Dia 2
Caminhamos descendo cerca de meia hora e chegarmos ao ponto mais baixo do Canyon Apumaric com 1.477 metros de altitude, onde se encontra o rio que dá nome ao vale e divide as províncias (estados) peruanas de Cusco e Apumaric. Para atravessar o rio é preciso pegar um bondinho puxado manualmente por cordas, que dá medo no início mas faz parte da aventura e é preciso encarar. Ao lado do bondinho existia uma ponte que foi destruída por uma forte cheia em 2010 e provisoriamente foi montado esse bondinho para passagem dos trekkers e moradores locais. Ao lado, o governo peruano está construindo outra ponte mais alta para substituir a antiga, com previsão de término em meados de 2014. Por esse bondinho não é possível atravessar mulas, apenas pessoas e cargas. Por esse motivo os muleiros (assim se chamam os homens que guiam as mulas) precisam manter dois grupos de mulas para a travessia, um grupo de cada lado do rio. Ao cruzar o rio, as bagagens são colocadas em outro grupo de mulas que já estão esperando para continuar o caminho.

Após cruzar o rio, o peregrino precisa vencer uma forte subida cheia de zig zag que sai de 1.474 e chega à 2.917 metros de altitude em apenas 11 km de caminhada, o que considero difícil fisicamente. Chegando ao acampamento de Marampata, pode se recuperar o fôlego com a bela vista para o canyon e se o tempo colaborar já é possível ver algumas ruínas.

Dia 3
A caminhada se inicia com mais uma hora de subida entre montanhas, riachos e cachoeiras, chegando à mística cidade perdida de Choquequirao. Esculpida igualmente de fortalezas, terraços sobre montanhas, templos, armazéns e aquedutos, a cidadela chamada Choquequirao está congelada no tempo, e vazia. As ruinas parecem imperar no alto do canyon como se tivessem sido construídas para guardar ou proteger algo, rodeada de penhascos com quase 2 mil metros de altura. Na parte oeste da cidade existe o famoso conjunto de ruínas em forma de terraços para agricultura, onde pode se ver muitas Llamas desenhadas com pedras brancas e ruínas rodeadas de aquedutos vindos da praça principal, a região é chamada de “Llamas Del Sol”. Os aquedutos podem ser vistos por toda cidade e consistem em canais de pedras alinhadas que levavam água para o cerimonial, escoam os sanitários ou o excesso de água da chuva para que não ocorressem deslizamentos de terra. Todos os materiais usados na construção da cidade foram obtidos nas pedreiras locais que rodeiam a região.
Também no 3º dia, descemos até o acampamento de Chiquisca para a ultima noite de sono e descanso.

Dia 4
O último dia é pesado pois existe o cansaço acumulado e a subida até a cidade de Cahora é forte. Subimos a face leste do Canyon Apumaric e quando chegamos na vila de Cachora, tive o último almoço junto com o grupo. Após o almoço, consegui caminhar pela última vez pela pequena vila e dizer um até breve pois nosso transporte para Cusco já nos aguardava.


Por se tratar de uma região chuvosa e com altas montanhas, a melhor época para ir é de Março à Novembro, assim evitando os deslizamentos de terra e o terreno fica mais fácil de caminhar.
É um caminho que recomendo para aqueles que têm boa preparação física e gostariam de conhecer ruínas não tão famosas quanto as de Machu Picchu, mas igualmente lindas e místicas.