Extremos
 
Análise do filme "A Praia"
 
Texto: Paula Faccini de Bastos Cruz
2 de agosto de 2014 - 21:46
 
 
 

Resumo:
O homem ocidental vive uma época marcada por guerras mundiais, Estados fascistas, barbáries como a
Guerra do Vietnã e o Holocausto, e pela erosão de instituições como família, nação, sindicatos, partidos políticos e religiões tradicionais. Um período marcado por um pensamento individualista neoliberal e pela globalização que, apesar da internet e de seu contínuo fluxo de informação, mantém o homem cada vez mais distante e indiferente ao outro. O que leva Richard (Di Caprio), o protagonista, a fazer sua viagem ao Sudeste Asiático é justamente este sentimento de abandono e de solidão. Fugindo da civilização, a qual acusa como principal responsável por seu mal-estar, acredita que conseguirá libertar-se dele.

UMA ÉPOCA DE TRANSIÇÃO

 

A história do filme se passa na transição do século XX para o século XXI, no Ocidente marcado pela ausência de ideologias, pela "revolução informacional", a globalização, desenvolvimento de tecnologia e biotecnologia, diminuição dos benefícios de seguridade social, imigração de massas, discriminação das minorias, formação de blocos supra-nacionais, fortalecimento das empresas multinacionais, questionamento do papel do Estado, criação das ONGs, aumento da concentração de renda, destruição do meio ambiente, crise da razão da ciência e da idéia de progresso.

Segundo Neumann, o progresso técnico deveria tornar possível um maior instinto de satisfação, mas não é o que acontece. A sociedade é construída sobre a renúncia às satisfações dos instintos. A privação precisa ser compensada de algum modo, senão causa distúrbios. A renúncia ao instinto de satisfação e a tendência cultural para a limitação do amor são caracterizadas como alienação psicológica do homem, ou alienação do ego da dinâmica do instinto.


Nas décadas de 50 e 60, o mundo era pensado a partir de correntes intelectuais derivadas de Karl Marx, Sigmund Freud e correntes filosóficas como o existencialismo e a fenomenologia alemã. Essas correntes intelectuais se baseavam na idéia de alienação do homem que poderia ser resultante das relações capitalistas, de costumes sociais repressivos, de uma vida social uniformizada pelos meios de comunicação de massa ou por um Estado burocrático extremamente forte e centralizado. A libertação do homem perante esse mundo alienante poderia estar na revolução, na criação de moral não repressiva ou na busca de novas experiências mais autênticas que estariam sendo reprimidas pela alienação.

Diferentemente das correntes intelectuais acima mencionadas, as quais lutavam pela humanidade em geral, o debate intelectual da atualidade está marcado pela fragmentação. Movimentos de questionamento do papel feminino e masculino, movimentos de defesa dos direitos dos negros, defesa do multiculturalismo, movimentos homossexuais e antidrogas, estão todos voltados para interesses individuais de grupos específicos.

O homem ocidental vive uma época marcada por guerras mundiais, Estados fascistas, barbáries como a Guerra do Vietnã e o Holocausto, e pela erosão de instituições como família, nação, sindicatos, partidos políticos e religiões tradicionais. Um período marcado por um pensamento individualista neoliberal e pela globalização que, apesar da internet e de seu contínuo fluxo de informação, mantém o homem cada vez mais distante e indiferente ao outro.

O que leva Richard (Di Caprio), o protagonista, a fazer sua viagem ao Sudeste Asiático é justamente este sentimento de abandono e de solidão. Fugindo da civilização, a qual acusa como principal responsável por seu mal-estar, acredita que conseguirá libertar- se.

Na praia, Richard encontra uma sociedade de pessoas que buscam a mesma coisa que ele.
Mas apesar disso, durante o filme todo não temos a sensação de haver uma unidade entre eles. É como se fosse uma comunidade de "sozinhos". É a globalização e a condição neoliberal se reproduzindo no microcosmos da praia, um testemunho surdo de que não é tão simples fugir da civilização. Podemos dizer que esta sociedade não apresenta vínculos de identidade com um poder externo, mais forte e gerador de dependência, como o seria um Estado. Não existe o que Adorno identificou como a substituição da consciência por um poder externo, a consciência coisificada. Na verdade, as decisões tomadas pelo grupo atendem somente às necessidades individuais, a um comum acordo.

Sal era a líder. Na verdade, a função dela na comunidade reproduzia um estereótipo masculino. Não que a mulher não traga em si o mesmo potencial de autoritarismo que o homem, mas o modelo que ela seguia era uma reprodução do que se espera do papel masculino na cultura ocidental.

Mas apesar de seu isolamento geográfico, na verdade o grupo nunca esteve longe da civilização. Nota-se isto em nuances como os desejos e pedidos feitos quando Sal e Richard vão às compras.

Eles tentavam alcançar o paraíso através da criação de uma sociedade alternativa, mas a própria vida em sociedade, começando pela família, é um processo duro. Uma série de perdas fundamentais coloca a felicidade em jogo. O mundo é um lugar em princípio hostil e os mecanismos de defesa são fontes de alienação. A razão do sofrimento, tanto para Marx quanto para Freud, é a ação dos homens sobre os homens.

A solidariedade entre eles não era um ponto forte. No episódio do tubarão, optaram por banir aquele que se feriu gravemente. O sofrimento incomoda - gemidos de dor, a proximidade com a morte, a condição humana evidente nele - e resolvem levá-lo para a floresta. Segundo Freud, em sua busca pela felicidade, através do princípio do prazer, o homem é limitado pelo princípio da realidade. E esta limitação se dá em duas esferas: no mundo material e na relação com os outros - eles são a fonte e também a limitação do prazer. Estas são as balizes da condição humana. A exclusão sumária de um doente da comunidade pode ser caracterizada como um ato de barbárie. Adorno define barbárie como a própria negação da condição de humanidade. Por si só, a resistência social em tocar no assunto, o desejo de apagar da memória, já indica possibilidade de reincidência, de permanência de fatores que a reproduziram.

E todos sabiam que poderiam ser o próximo.

A simulação de um videogame, usada para expressar a loucura de Richard quando excluído, é uma boa sacada. Adorno afirma que a pressão social levada ao extremo, o estrangulamento causado pela trama justa da estrutura social, o encurralamento e a decorrente necessidade de fuga geram o ódio que se volta contra a própria civilização.

Richard somente volta a si quando assiste à morte dos turistas pelos traficantes.
Caindo na real, ele consegue perceber o quanto eles não tinham deixado de ser "civilizados". Os criticavam, no entanto tornaram-se pessoas iguais a eles.

Na cena final da praia o autoritarismo é exposto, neste momento todos o vêem. Sal é um exemplo de personalidade autoritária, porém a coletividade não havia criado uma identificação cega com ela. Quando ela deixa de responder aos interesses individuais eles a recusam, e a comunidade se desintegra. Game Over.

O filme é uma adaptação do romance The Beach, de Alex Garland, publicado em 1996. O autor, um inglês de 27 anos, explica sua formação pop pelo fato de pertencer a uma geração que teve a televisão como babá, e acha que a influência e a importância da cultura pop é superestimada, porque no seu entender toda a cultura é basicamente cosmética. Sua intenção foi tecer uma crítica ao modo de vida ocidental. No livro ele faz referências aos filmes hollywoodianos sobre o Vietnã para questionar o imaginário ocidental associado ao Sudeste Asiático. Mas apesar de afirmar ser Hollywood o lugar errado para buscar referências à vida real, ele vendeu os direitos autorais de seu livro justamente para lá.

Igualmente paradoxal é a afirmativa de Danny Boyle, ao dizer que se sentiu atraído pela descrição que um amigo fez do livro: a ilha e sua comunidade secreta. Em uma entrevista ele declarou ser o romance de Alex uma parábola maravilhosa da vida moderna - de que a natureza não é algo que possa simplesmente ser apropriada e desenvolvida ao bel prazer. O paradoxo reside no fato de que a primeira coisa que a equipe cenográfica fez ao chegar na praia de Phi Phi Leh, na Tailândia (principal locação), foi remover as dunas de areia nativas e plantar coqueiros californianos. Parece que a lagoa de Maya Beach não era um paraíso belo o suficiente para a imagem que o Ocidente tem da Tailândia, e tanto Garland quanto Boyle foram coniventes com isso. Moradores e várias organizações manifestaram-se contra as filmagens, temendo um desastre ecológico. Um paraíso original, transformado para se encaixar nos padrões de consumo americano. Cria-se um ideal utópico para se fugir da cultura, da estrutura social ocidental, e, no entanto, é preciso transformar esta natureza para que ela possa ser consumida pela própria sociedade que se contesta.

O culto a Leonardo DiCaprio desvia as atenções do mais importante, o filme. Escolhido para ser Richard, deu conta do recado. Porém, por estar marcado como galã de Hollywood, tem como público algo muito diferente do que o que se interessaria pelo enredo do filme. Divididos, produtor e diretor acabam pecando para ambos os lados: o filme não se aprofunda nas questões colocadas, e nem apresenta um herói adolescente. Conscientes de que o filme seria um fracasso em potencial, mudaram o roteiro, principalmente o final, causando um esvaziamento no enredo.

Ficha técnica:
Diretor: Danny Boyle (principais filmes: Trainspotting, Cova Rasa e Por uma vida menos ordinária)
Produtor: Andrew MacDonald
Roteirista: John Hodge
Diretor de fotografia: Darius Khondji
Montador: Mashiro Hirakubo
Realização: Fox Film

Elenco principal:
Richard - Leonardo DiCaprio Françoise - Virginie Ledoyen
Etienne - Guillaume Canet
Patolino - Robert Carlyle
Estréia no Brasil: 18/02/2000