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AUTÊNTICO: Johnson e os chinelos de dedo que já são sua marca registrada.
Foto: JEFF LIPSKY |
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AO NATURAL: Jack Johnson leva a vida na boa em Santa Bárbara, Califórnia.
Foto: JEFF LIPSKY |
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O ESTÚDIO DE GRAVAÇÃO nos fundos de um bangalô que serve como sede da Brushfire Records, em Los Angeles, Jack Johnson marca o ritmo batendo na caixa e no chimbal enquanto usa o pé para tocar o bumbo. Johnson, de 32 anos, deixou de lado seu violão nesta tarde de novembro porque hoje à noite estará tocando percussão para seu pianista, Zach Gill, que está gravando algumas faixas de seu futuro álbum solo. Agora, Gill e meia dúzia de caras estão no quintal, perto da entrada do estúdio. A cabeça de uma mulher do centro terapêutico ao lado surge sobre a cerca. “Será que dá para fechar a porta?”, pergunta. “Estamos fazendo massagens aqui.”
Alguém da turma da Brushfire logo faz o que a moça pede. Talvez o pessoal da turma de Pete Doherty não teria feito o mesmo, mas Jack Johnson adota um estilo mais calmo, menos chamativo. Dá para sentir isso em suas músicas — cativantes cançõezinhas pop dedilhadas no violão que, mesmo no volume máximo, são bem inofensivas. Dá para sentir também no seu estilo de vida tipicamente havaiano. Johnson vive perto de Pipeline, próximo ao lugar onde cresceu, no North Shore de Oahu, e divide seu tempo livre entre a família e os amigos, surfando e usando sua fama para ajudar a reduzir a depredação das ilhas. Não é o que se costuma esperar de um astro internacional do rock — e embora Johnson não se sinta completamente à vontade nesse papel, não há como escapar dele.
Johnson vendeu quase 6 milhões de cópias de seu álbum de 2005, In Between Dreams. Acrescente o restante de sua discografia, incluindo a trilha sonora do desenho animado George, o Curioso, de 2006, e o total de vendas chega a 13 milhões. Esse sucesso foi quase acidental, já que Jack era um cineasta de filmes de surf e tornou-se um fenômeno da música com disco de platina quase sem querer — e essa imagem não-comercial é parte do apelo que ele exerce. “As pessoas vêem Jack como o oposto do consumismo”, descreve Mark Cunningham, um campeão de bodyboard e ex-salva-vidas em Pipeline. “Ele é a reação contra toda essa porcaria que existe por aí.”
Embora não seja tão radical a ponto de dar seus CDs de graça e vender entrada para seus shows por US$ 5, Johnson também sente raiva — tá bom, irritação — do sistema. Em determinado momento, ele abre a boca, fecha os olhos e canta com paixão um verso da música de 1990 “Merchandise”, do Fugazi: “You are not what you own” (“Você não é aquilo que você tem”). “Essa canção tinha uma mensagem de verdade”, diz ele.
A música de Johnson também tem uma mensagem, mas ela está menos nas canções que no modo como elas são levadas ao público. Ele viaja em suas turnês em um ônibus movido a biodiesel desde 2005, e exige que os locais onde se apresenta comprem créditos de carbono para cada show e reciclem o lixo orgânico da apresentação. Toda primavera, desde 2004, ele organiza o Kokua Festival em Oahu — tocando com amigos como Eddie Vedder, Ben Harper e Willie Nelson — e doa os lucros para a Kokua Hawaii Foundation, que criou para dar suporte à educação ecológica em escolas.
Com a recente reforma das instalações da Brushfire, ele e seu sócio, Emmett Malloy — primo dos irmãos Chris, Keith e Dan Malloy, todos surfistas profissionais —, agora operam uma das empresas mais “ecoconscientes” da indústria da música. A energia elétrica dos estúdios Brushfire vem de 32 painéis solares no telhado; a casa é isolada com retalhos de calças jeans e equipada com luz fluorescente compacta e privadas que economizam água na descarga. Johnson até gravou seu novo álbum, Sleep Through the Static, que chegou às lojas em fevereiro, em uma mesa de 24 canais de segunda mão da marca Studer que, reza a lenda, já foi usada para gravar um álbum de David Bowie.
Ainda assim, a razão para milhões de pessoas comprarem os álbuns de Jack Johnson não tem nada a ver com suas privadas ou com o fato de ele doar 1% de seu lucro para causas ecológicas. É por causa de sua vibe, sua energia rústica, que parece saída de uma rodinha ao redor da fogueira, e de sua sensibilidade típica da década de 60, que ele está trazendo de volta para o novo milênio. “Eu sou um hippie”, admite. “Só que com cabelo curto.”
QUERO DEIXAR ALGO CLARO: não sou fã de Jack Johnson — a música dele não mexe comigo. Mas ele é um exímio artesão de canções contagiantes, e já me peguei mais de uma vez cantarolando ao ouvir uma delas no rádio.
Os críticos musicais têm sido bem menos generosos. A revista Rolling Stone, após ignorar o seu álbum de lançamento, Brushfire Fairytales, em 2001, deu a On and On (2003) só duas de cinco estrelas, reclamando que “sua voz sussurrante de surfista havaiano faz lembrar o murmurar meloso de Donovan, mas sem a esquisitice psicodélica que o deixava interessante”. A revista Blender o acusou de escrever “poesia universitária de segunda”. Um crítico do New York Times disse o seguinte sobre uma de suas apresentações, em 2005: “Metade do show exalava um charme meio sonolento; a outra metade foi a mesma coisa, mas sem o charme”.
“Ele é assim mesmo”, diz um de seus muitos amigos surfistas Rob Machado. “Ele sobe no palco e conta suas histórias – e elas são todas verdadeiras”
Mas uma coisa que eles não percebem sobre Johnson é algo que não é necessariamente passado pelos alto-falantes: não há fingimento. “Ele é assim mesmo”, como me contou um de seus muitos amigos surfistas profissionais, Rob Machado. “Não importa o que aconteça, ele vai subir no palco de chinelos e camiseta. Ele vai lá contar suas histórias — e elas são todas verdadeiras.”
Johnson tem um jeito de fazer até os momentos mais “celebridade” parecerem autênticos, como pude constatar quando o conheci hoje, algumas horas atrás, na casinha rústica de um cômodo que Malloy aluga em Malibu. Johnson estava usando a casa para uma sessão de fotos para a Vogue, mas o clima estava mais para churrasquinho entre amigos que para desfile de moda. Enquanto Johnson trabalhava com o fotógrafo, Malloy estava no pátio, grelhando um peixe para colocar em tacos. Sentei-me em um degrau com a esposa de Johnson, Kim, e seus dois filhos, junto com um amigo de família — um cara que tem alguns postos de biodiesel em Los Angeles e que tinha vindo fazer uma visita de Nova York — e seu agente publicitário. O tempo todo, Johnson foi carinhoso e atencioso com sua família e parecia ser só mais um cara no meio da galera. Não havia babás, e nem qualquer tipo de puxação de saco.
DEPOIS DE DETONARMOS OS TACOS — servidos em papel reciclado —, seguimos para o prédio da Brushfire, do outro lado da cidade. “Posso dirigir enquanto você escreve”, Johnson ofereceu, quando nos dirigimos para minha caminhonete. Eu disse que não precisava, e ele sentou no banco do passageiro. Enquanto seguíamos pela estrada que costeia o Pacífico, o mar estava calmo como um lago e os morros queimados ainda cheiravam a cinzas do recente incêndio. Johnson recontou os agora bem conhecidos detalhes de seu passado: cresceu pegando ondas no North Shore, mas decidiu estudar cinema na Universidade de Santa Bárbara em vez de virar surfista profissional. Em 1999, escreveu algumas músicas para um filme de surf que produziu com Emmett e Chris Malloy, e acabou tropeçando na fama quando foi notado pelo empresário de Ben Harper.
Ele tentou também explicar as origens de sua sensibilidade ecológica. Algumas das melhores lembranças da sua infância, contou, são de quando o mar ficava sem ondas e seu pai o levava a ilhas mais distantes da costa de Oahu em uma canoa havaiana tradicional. “Essas canoas têm a largura da sua cintura, o comprimento de seis pessoas e só com um pouquinho de espaço entre você e a pessoa na sua frente”, descreveu. “Só dava para levar o que coubesse nesse espacinho. E não podia cair no mar.” O lado material, essencialmente, não tinha importância. “Nunca fui mais feliz que nesse tempo”, acrescentou. “Bem diferente desse lance de ser soterrado por presentes de Natal.”
É essa filosofia econômica que Johnson está tentando trazer para sua carreira na música — seguindo um caminho, esclareceu, aberto por músicos como Neil Young, Pearl Jam e Willie Nelson. “Não estou fingindo que tenho todas as respostas e que sou mais ecológico que todo mundo”, ele disse. “Quero fazer o que puder para ajudar, mas às vezes fica um pouco demais para mim. É difícil, porque assim que você começa a falar, vira o cara que os jornais querem entrevistar. Eu aceito o fato de ser uma pessoa mais ou menos famosa agora e de poder usar isso para o bem, mas não quero me candidatar a presidente.”
JOHNSON PODE NÃO ESTAR LANÇANDO uma carreira na política, mas com um novo álbum nas lojas e uma turnê mundial a se iniciar, ele está recebendo bastante atenção. A sua equipe de relações públicas o pegou para uma sessão de fotos para a revista Entertainment Weekly.
AUTÊNTICO: Johnson e os chinelos de dedo que já são sua marca registrada
Enquanto Johnson posava na sala, com o violão no ombro, notei uma prancha de surf — uma fish de design gordo, que lembra a alma suave do surf da década de 70 — encostada na parede, no canto. A prancha e a casa da década de 20 lembram o ambientalismo simples e humilde que agrada Johnson: o lance é valorizar o passado e um estilo de vida mais simples, mas com uma tecnologia melhor.
Segundo Johnson, Kelly Slater começou a surfar em pranchas de alto desempenho na década de 90 que eram ridiculamente finas e estreitas. Para Slater, que é conhecido como “The Freak” (o maníaco), graças à sua extraordinária habilidade, surfar nelas era moleza, mas muita gente não conseguia. Foi aí que as pranchas fish e outros estilos retrô ressurgiram das cinzas. “Agora você pode voltar a subir na prancha e deslizar pelas ondas”, comemora Johnson. “Penso do mesmo jeito quando o assunto é música ou qualquer outra coisa: algumas vezes as coisas avançam até chegar a um ponto que simplesmente não dá mais para progredir. Você chega a um beco sem saída e precisa voltar por onde veio.”
Apesar de todo seu respeito pelo passado, no momento Johnson está de olho no futuro. A Brushfire está crescendo, com um conjunto de músicos que inclui G. Love, Matt Costa, Rogue Wave, Money Mark, Mason Jennings e a ALO, antiga banda de Zach Gill. Todos partilham da atitude relax de Johnson. “Dá a impressão de que tudo aqui é artesanal”, descreve Malloy.
Sleep Through the Static dá prosseguimento à tradição, embora Johnson tenha se afastado do acústico mais do que nunca, tocando com guitarra em várias faixas. Esse som novo não vai fazer ninguém se lembrar de Hendrix, ou mesmo de um Bob Dylan elétrico, e Johnson com certeza não está mudando para agradar a crítica. “A galera gosta do Jack, e seus discos significam muito para eles”, diz Malloy. “Tudo que eles querem é mais um. Não precisa ser diferente. Só precisa ter 14 músicas novas.”
Mais tarde, quando o sol está para se pôr, Johnson sobe para o telhado com a equipe da Entertainment Weekly. Eu vou para o estúdio com Gill, que se senta em uma grande bola de exercícios em frente ao piano e toca algumas de suas músicas para mim — uma hora a sala se escurece por um segundo, pois as luzes têm timer — começando com “All Still Family” (Ainda somos família) e passando para uma bela música triste que escreveu para o documentário Arctic Tale, de 2007. Ele compôs a trilha para uma cena que mostra um filhote de urso polar faminto que morre enquanto sua mãe assiste, impotente, a neve cobrir seu corpo, mas a música acabou sendo cortada do filme. Agora, como tudo o mais, ela está sendo reciclada — e pode muito bem acabar no álbum solo de Gill.
Alguns minutos depois, Johnson volta e se senta na bateria. “Vamos tocar a ‘Family’”, pede. “1-2-3-4...” Enquanto eles fazem uma jam session, ficam parecendo dois amigos que são transportados para algum lugar distante pela música. Não estão tocando para os outros, nada está sendo gravado, e a porta está fechada, para que os vizinhos não tenham razão para reclamar. Só estão deixando algumas pegadas na areia que a maré logo irá apagar. E não há luz fluorescente, veículo a biodiesel ou descarga econômica que seja mais ecológico que isso.
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