EXPEDIÇÃO - MAKALU 2008
Expedição Makalu 2008
 
 
Cobertura Portal Extremos - Elias Luiz
 
 




 
Foto 1 - Um dos maiores sonhos da minha vida realizado, colocar a Banderia do Brasil, junto com o meu amigo Irivan Gustavo Burda, no alto do Makalu, 8.463m de altitude, a 5ª maior montanha do mundo!
Foto 2 - Toda a imponência do Makalu, uma das mais difíceis montanhas do mundo! Devido a sua verticalidade, são constantes os trechos de escalada em rocha, algo sempre complicado em um ambiente gelado, quando se usa botas imensas e sempre um excesso de roupa que limita os movimentos e até a visão, ainda mais levando em conta o ar rarefeito. O Makalu é de fato gigantesco, a distância entre os acampamentos são imensas e, quanto mais alto, mais exposto se fica ao vento e ao frio.
Foto 3 - O Irivan a poucos metros do cume do Makalu, que aparece pontiagudo do lado direito da foto. Felizmente o dia 11 de maio foi o melhor dia da temporada, dos 15 alpinistas que fizeram o ataque final, 10 chegaram ao topo (7 da nossa equipe!), foi o maior número de pessoas em um mesmo dia no cume do Makalu nessa temporada.
Foto 4 - Amanhecer durante o ataque final ao cume do Makalu. Saímos de nosso último acampamento, a 7.900m, a uma da madrugada, quando estávamos a cerca de 8.100m começou a amanhecer, eram cerca de 4:30 quando vimos o primeiro raio de sol. Acima da foto, em destaque, o conjunto do Lhotse (8.501m), à esquerda, e do Everest (8.848m), à direita, montanhas que tive a honra de escalar com o Irivan em 2002 e 2005. Na parte inferior da foto é possível avistar o Santiago Quintero, equatoriano que contraiu edema cerebral durante a descida (felizmente sem graves conseqüências) e o alemão Ralf Dujomovits, um dos mais experientes alpinistas do mundo, o Makalu foi o seu 13º Oito Mil a ser conquistado.
   
06/06/2008 - Finalmente em casa
Estimados Amigos!

Eu e o irivan já estamos no Brasil, no conforto da nossa querida cidade de Curitiba! Chegamos no dia 29 de maio, mas não pensem vocês que esta primeira semana foi de sossego.

Passamos o fim de semana editando vídeos e fotos da escalada do Makalu, pois segunda-feira tivemos coletiva com a imprensa em São Paulo, depois o Irivan voltou para a capital do Paraná e eu fui para Salvador, de onde segui para fazer uma palestra na Costa do Sauípe para gerentes e diretores da América Latina da Mercedes Benz.

Esta foi a minha 500ª palestra realizada para grandes empresas, um trabalho muito gratificante e que está garantindo a realização das minhas expedições nos últimos anos. Deixo aqui o meu eterno agradecimento a todas as empresas que me contratam pois, ao usar uma linguagem corporativa e altamente motivacional, acabo inspirando as pessoas a escalarem os seus “Everestes”, e, ao mesmo tempo, mostro a todos o quanto é desafiador e espetacular o mundo das montanhas.

Voltei então para São Paulo para outra maratona de entrevistas e somente ontem aterrissei novamente em Curitiba. E cá entre nós, como é bom estar em casa!!!

Talvez vocês já tenham visto alguma das reportagens que fizemos, principalmente as imagens da queda do helicóptero, que estão batendo recordes de exibições em vários sites (como o http://terratv.terra.com.br/templates/channelContents.aspx?channel=2473&contentid=199181) e também no Yotube (http://www.youtube.com/watch?v=eUHky6kGTXU ).

Mas não deixe de assistir a reportagem especial que sairá no próximo domingo no Fantástico, que além das lindas imagens e muitos detalhes da escalada do Makalu, fará uma retrospectiva dos meus “20 Anos” dedicados a levar a Bandeira do Brasil ao alto das maiores montanhas do mundo. Imperdível!

Vamos ver esta semana mais algumas das lindas fotos que eu e o Irivan fizemos no Makalu, são tantas que fica difícil escolher qual delas colocar aqui no site. Mas já que a chegado ao cume é o mais importante, e que o dia 11 de maio, quando lá chegamos, foi de fato um dia lindíssimo, com céu azul, mar de nuvens e sol o dia inteiro, vale a pena contemplarmos como é o mundo visto lá de cima!!!

Um grande abraço,

Waldemar Niclevicz


 




 
Foto 1 - Nossa turma esperando o helicóptero em Yangle Karka, da esquerda para direita: Roberto Rojo, Carlos Soria, Rafael de La Coba, Carlos Martinez, Waldemar, Luiz e Irivan.
Foto 2 - O helicóptero “Esquilo” que nos resgatou de Yangle Karka.
Foto 3 - Senhora em Tashigaon.
Foto 4 - Terraços de cultivo vistos do helicóptero, nos “vales internos”, zona de transição entre a Planície do Terai e o Himalaia, toda a terra é aproveitada para o cultivo.
   
 
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38° dia de Expedição - 19/05/2008 - De volta a Kathmandu!


Felizmente estamos de volta a capital do Nepal, a agitadíssima Kathmandu, onde é constante o barulho estridente de buzinas, ruas entupidas de gente e carros, um contraste violento com a paz das montanhas. Mas o desconforto de tanto agito é compensado pela oportunidade de boas refeições, sonos prolongados, uma ducha quente demorada. Depois de tanto sofrimento, que inegavelmente passamos durante a escalada do Makalu, estamos, literalmente, relaxando!!!

Nossa volta à civilização foi tumultuada, a aventura só teve fim quando desembarcamos em Kathmandu. No dia 15 de maio deixamos pela manhã o nosso acampamento-base (5.700m) e caminhamos 12 horas sem parar até um lugar chamado Yangle Karka (3.700m), isso mesmo, 2.000m montanha abaixo, em busca de um lugar “seguro” para o pouso de um helicóptero.

Vocês viram a confusão que aconteceu durante nossa ida, quando um gigantesco helicóptero quase se despedaçou aos pés do Makalu. Para não correr o mesmo risco, um helicóptero menor (Esquilo) foi nos buscar em Yangle Karka, mas para isso fez vários vôos, já que nosso grupo era de 7 pessoas, ou melhor, 9, contanto com o casal italiano, onde Cristina sofria com os congelamentos.

Assim, na manhã do dia 16 de maio, o helicóptero nos despertou as 6:15 em Yangle Karka, descarregou dezenas de litros de combustível, logo voltou a decolar só com o piloto e foi até o Hillary Camp (4.800m), resgatou a italiana Cristina (que está com congelamento grau 2 em um dos pés, e grau 3 em outro), deixando-a em Yangle Karka, logo o helicóptero voltou a Hillary Campo para pegar o companheiro de Cristina, Gianpaolo, aterrisou rapidamente em Yangle Karka novamente, recolheu a Cristina e levou os dois até Lukla, de onde seguiram de avião até Kathmandu.

Cerca de uma hora depois o helicóptero Esquilo de cor branca voltava a sobrevoar Yangle Karka para nos resgatar, mas, como éramos 7, foi preciso fazer 2 viagens até uma outra vila com altitude inferior, antes que as nuvens impedissem o vôo. Ou melhor, foram 3 viagens de ida e volta até Tashigaon (2.800m), pois um grupo de 3 coreanos ficaram maravilhados com a visão do helicóptero e imploraram ao piloto para também tirá-los dali, o que foi negociado em questão de minutos por U$ 4.500,00.

Bem, uma vez todos em Tashigaon, outra seqüência de vôos (três) foram feitas até a pista de pouso de Tumilingtar (500m), onde ficaram nossos amigos, os coreanos e a pouca bagagem que foi possível levar, tudo seguiria de avião para Kathmandu. Logo o helicóptero voltou a Tashigaon para o último vôo do dia, embarcamos eu, Irivan, Carlos Soria e Carlos Martinez, direto para Kathmandu. Mas.... a distância é longa, cerca de uma hora e meia de vôo, muitas nuvens escuras pelo caminho, longos desvios, chuva forte várias vezes, coração na garganta, raspamos dezenas de cristas de montanhas, no meio do caminho paramos em um lugar aonde dezenas de militares deram conta do nosso reabastecimento, e, depois de tanto tempo sentindo com se tivéssemos dentro de uma batedeira de bolo, desembarcamos zonzos no aeroporto de Kathmandu.

Dia 14 de maio, no final da tarde, Santiago Quintero chegou a salvo no acampamento-base (5.700m), após ser resgatado do Makalu La (7.400m) por dois sherpas. Santiago chegou no cume do Makalu no mesmo dia em que eu e Irivan, 11 de maio, porém contraiu um edema cerebral na descida, o argentino Hernan teve um papel fundamental no seu resgate, mesmo tendo feito o cume no dia 12, acabou coordenando todo a descida do seu colega. Santiago não conseguiu nos acompanhar até Yangle Karka no dia 15. Acabou indo até Hillary Camp (4.800m) no dia 16. Dia 17 não havia condições de vôo. Por fim, dia 18 o mesmo helicóptero o resgatou de Hillary Camp até Kathmandu, aonde chegou em perfeito estado de saúde.

Embora tenhamos vindo até Kathmandu, a nossa bagagem ficou para trás, pois foi impossível o seu transporte no pequeno helicóptero. Somente teremos acesso a ela dia 23 de maio, pois está sendo transportada via carregadores até Tumlingtar, de onde virá até Kathmandu por avião.

Que grande aventura! Acho interessante contar esses detalhes, para que vocês possam perceber tudo o que se passa em uma grande expedição ao Himalaia.

Enquanto isso, a saudade do Brasil vai aumentando!!!

Um grande abraço,

Waldemar Niclevicz




 




 
Foto 1 - Eu e o Irivan em um lugar aonde pouco mais de 200 pessoas colocaram os pés até hoje, cume do Makalu, 8.463m de altitude, às 11:05hs do dia 11 de maio de 2008, conquista inédita para o esporte brasileiro!
Foto 2 - O “Corredor Francês”, trecho de alta dificuldade técnica, que vai dos 8.000m aos 8.300m de altitude, começando com uma parte em neve e gelo de até 50º de inclinação, depois se desenvolvendo em rocha com trechos até verticais.
Foto 3 - O “cume falso” ou ante-cume do Makalu, último obstáculo para se chegar no alto do 5ª maior montanha do mundo, uma vez superado, restam apenas 60 metros de distância, e pouco mais de 10 metros de desnível, até o cume principal.
Foto 4 - Foto feita por Irivan do cume para o ante-cume. A primeira pessoa à esquerda é Santiago, e está justo no cume do ante-cume, é possível ver então a afilada crista que leva ao cume, Cristina está bem no meio, eu sigo em sua frente, para logo estar abraçando Irivan no cume.
   
32° dia de Expedição - 13/05/2008 - Irivan e Waldemar chegam no cume do Makalu!

Estimados Amigos!

Um drama está se sucedendo nas altitudes superiores, enquanto nós que já estamos no refugio do acampamento-base, tentamos nos alegrar com a sofrida conquista do Makalu, um colosso de 8.463m de altitude, próximo ao Everest, que nos custou dois anos para ser superado.

Eu e Irivan Gustavo Burda, querido amigo também de Curitiba, chegamos no alto do Makalu às 11:05hs do dia 11 de maio, domingo. Eu havia partido exatamente à 1 da madrugada, de uma barraca que se equilibrava entre um abismo e um paredão de gelo, que montamos a 7.900m de altitude. Mal desapareço atrás de um gigantesco bloco de gelo, Irivan, que estava a ponto de fechar a porta da barraca, é surpreendido pelo alemão Ralf Dujomovits, veterano do Himalaia que já havia escalado 12 das 14 montanhas do mundo com mais de oito mil metros de altitude. Ralf reclamava do frio, pede para entrar em nossa barraca para descansar. Sem perceber, sigo solitário rumo às alturas me concentrando na encosta congelada, mas depois de uma hora começo a visualizar algumas luzes abaixo, 7 ou 8 fachos de lanterna que me seguem, cortando uma noite estrelada. Que satisfação eu estava sentindo!

Ao cruzar a barreira dos 8 mil metros, encontrei um trecho menos vertical e resolvi esperar pelo Irivan, passou por mim um sherpa de um casal de franceses que desistiu do ataque final logo no início, então o veterano Carlos Soria e seu sherpa, e logo meu amigo Irivan, a quem realmente eu depositava todas as minhas preocupações: eram 2:30 da madrugada, estávamos bem, tudo ótimo!

Deixamos o alto daquele trecho vertical seguindo para à esquerda, rumo a base do Corredor Francês, trecho chave da escalada. Começou lentamente a amanhecer, e este espetáculo a 8 mil metros é uma das maravilhas da natureza! Paramos para tomar um gole de chá quente, espantando o frio de 30 graus negativos. Nos ultrapassou o italiano Gianpaolo, não se dando conta que sua companheira Cristina ficou para trás, reclamando do frio. Ainda estávamos na sombra, dentro do corredor, mais abaixo, ao sol, víamos o alemão Ralf descansando ao sol, junto com o equatoriano Santiago.

Cristina não se desgrudava de nós, reclamando do frio, gaguejando, tremendo, praticamente não tendo o controle dos movimentos. Tentamos convencê-la a descer, mas ela insistia em nos acompanhar. Demos a ela uma “ducha” de oxigênio, ela se reanimou um pouco, logo começou a tremer novamente, e assim seguiram-se quase uma hora, até que o sol nos tocou. “Nós vamos continuar, mas você fique aqui uns 15 minutos até se esquentar um pouco”, eu disse. Ela não gostou da idéia, mas acabou consentindo.

Continuamos subindo, o “corredor” havia se transformado em uma encosta inclinada de grandes blocos de pedra, 3º a 4º grau de escalada em rocha (escala brasileira), uma subida que parecia interminável rumo a crista do cume, aonde, enfim, pisamos lá pelas 8:30 da manhã. Estávamos quase lá, faltavam ainda cerca de 150m de altura, mas já nos sentíamos no céu, uma paisagem grandiosa nos rodeava, um denso mar de nuvens lá pelos 7.000m, o Everest (8.848m) e o Lhotse (8.501m) se despontando bem ao nosso lado (só 20Km!) do lado oposto o Kangchenjunga (8.598m) (a cerca de 90Km).

Até o ante-cume ou “cume falso”, nos equilibramos na frágil crista como se estivéssemos em uma corda bamba, observando aqueles que nos haviam ultrapassado na subida e já estavam de volta, todos felizes, mas nenhum deles mais do que o espanhol Carlos Soria, tendo escalado o seu 8º Oito Mil com, pasmem todos vocês, 69 anos!!! Belo exemplo para todo “velhinho” e para muito marmanjo!!!

Subir o ante-cume foi difícil, uns 15 metros de altura, cerca de 80º em gelo, lá do alto vislumbramos o cume principal, cerca de uns 60 metros a nossa frente! Depois de uma descida de uns 5m, novamente estávamos nos equilibrando em uma crista tão fina quanto o fio de uma navalha, qualquer escorregão seria fatal, e, metro a metro, controlando a emoção, chegamos no alto dos 8.463m de altitude, um lugar que jamais um brasileiro havia estado antes, o cume do Makalu, a 5ª maior montanha do mundo!!!

Eu e o Irivan estávamos completamente emocionados, o maior motivo, sem dúvida, era, após o fracasso do ano passado, não termos perdido a esperança de realizar este grande sonho! Agora vê-lo realizado nos enche do orgulho! Agradecemos a Santher, a Omni Fianceira e a AirFrance, por toda a confiança, e também especialmente a você pela sua torcida!

O Makalu é o meu 7º Oito Mil conquistado, o cume é uma agulha de neve, impossível ficar de pé sobre ele!!! Eu e o Irivan mal havíamos secado nossas lágrimas e logo a italiana Cristina e o equatoriano Santiago se juntaram a nós, desajeitadamente, em razão do espaço reduzido, tiramos algumas fotos e logo começamos a descer. Encontramos no ante-cume o alemão Ralf, muito cansado, lhe desejamos boa sorte, descemos o delicado ante-cume e nos preparamos psicologicamente para desescalar o “corredor” o lugar da escalada mais perigoso que eu achei. Ali eu e o Irivan tivemos que ajudar a Cristina várias vezes. Santiago também estava muito mal, mas quem o ajudou foi o Ralf que o alcançou na descida.

É preciso ter muito cuidado na descida, quando muitos acidentes acontecem, em razão do cansaço acumulado e a longa exposição ao ar rarefeito, principalmente em uma montanha como o Makalu, muito grande, com trechos complexos de escaladas e distâncias imensas a serem percorridas na parte superior. Foi então um alívio voltar ao local do nosso acampamento 3 (7.900m) e encontrar o nosso sherpa Pemba nos esperando. Sem perder tempo, desmontamos a barraca e seguimos descendo, cruzando até os 7.800m a grande e instável barreira de seracs (gigantescos blocos de gelo) – ponto alcançado por mim e Irivan o ano passado.

Irivan e eu Descemos até o Makalu La, local do nosso acampamento 2 (7.400m), aonde chegamos as 20:00, já de noite, para um merecido descanso. Santiago, Ralf, Carlos Soria, e Hernan (que havia desistido da primeira investida), todos da nossa equipe, passaram a noite a 7.600m, local que escolheram para o acampamento “3”.

A noite foi longa, fria, com uma leve nevasca. Tão logo amanheceu o dia retomamos a descida até o acampamento-base, aonde também chegamos sob uma leve nevasca. Neste dia 12 Hernan fez uma outra investida ao cume com sucesso, acompanhando um espanhol. Ralf chegou no acampamento-base muito tarde, às 21 horas, exausto.

Carlos Soria chegou hoje, dia 13, ao acampamento-base, por volta das 14 horas, ao mesmo tempo que ficamos sabendo (via telefone por satélite), que Santiago ainda se encontrava na barraca que dividia com Hernan a 7.600m, vítima de um edema cerebral! Tomamos todas as providências possíveis, e neste momento Santiago já está recebendo medicamentos e oxigênio artificial, dois sherpas estão subindo para amanhã de manhã ajudarem a descê-lo do Makalu La (7.400m) ao acampamento-base (5.700m).

Mais uma vez quero agradecer a todos pela torcida, especialmente aos amigos da Omni Financeira, Santher e Air France. Graças a nossa parceria, juntos fomos mais alto!

Um grande e sincero abraço a todos, até a volta ao nosso Amado Brasil,

Waldemar Niclevicz



 




 
Foto 1 - O Irivan e eu dentro de nossa barraca no local do nosso novo acampamento 1 (6.780m), sendo o acampamento 2 daqueles que estão usando o “perigoso atalho”, ou seja, a maioria dos alpinistas.
Foto 2 - O Irivan chegando em nosso novo acampamento 1 (6.780m). Por incrível que pareça, neste dia um inglês e um sherpa chegaram no alto do Makalu, disseram que havia um mar de nuvens por volta dos 7.600m, e que acima brilhava o sol.
Foto 3 - Nosso novo acampamento 1 (6.780m), mais próximo das cordas fixas que levam ao Makalu La, e também mais exposto às avalanches! Ao fundo, e à esquerda, se destacam o Lhotse (8.501m) e o Everest (8.848m), montanhas que eu o Irivan nos orgulhamos muito de termos escalado.
Foto 4 - Alpinistas seguindo rumo ao Makalu La (7.400m), próximos dos 7.000m de altitude. Um caminho traiçoeiro através de rocha e gelo, aonde 800m de cordas foram fixadas, e dois acidentes já aconteceram quando trechos dessas cordas arrebentaram (um inglês teve uma queda de uns 10m, e um espanhol uma de uns 20m).
Foto: Niclevicz
26° dia de Expedição - 07/05/2008 - Coreanos e ingleses chegam no cume do Makalu!
Estimados Amigos!

Boas notícias por aqui! Um inglês, acompanhado de um sherpa (carregador de altitude nepalês) chegou no alto do Makalu no dia 4 de maio. No dia 5 de maio foi o dia de 3 coreanos e 3 sherpas alcançarem os 8.463m de altitude da 5ª maior montanha do mundo!

As expedições coreanas e inglesas foram as primeiras a chegar este ano ao Makalu, estão aqui deste início de abril. Os coreanos agora querem seguir rumo ao Lhotse (8.501m), os ingleses fazem parte de uma expedição militar e ainda ficam na montanha, pois o maior objetivo é dar apoio a outra parte da equipe que está escalando a Crista Sudeste (uma das rotas mais difíceis) e que depois pretende descer pela Face Norte e Crista Noroeste (a rota que estamos enfrentando).

Os recentes êxitos, embora tenham deixado todos animados, foram conseguidos com muito esforço, as condições não eram totalmente favoráveis, o vento forte, o frio e a neve foram grandes obstáculos. Outros coreanos e ingleses deram meia volta na metade do caminho. Eu e o Irivan queríamos chegar no Makalu La (7.400m) e não conseguimos.

No dia 2 de maio fomos até o nosso acampamento 1 (6.600m), no final da tarde desabou uma grande tempestade, nevou cerca de 20cm, algo inesperado, fora da nossa previsão meteorológica. No dia 3 ficamos presos dentro das barracas, nevou mais uns 20cm, começamos a ficar preocupados com as avalanches, pois nossa idéia era seguir até o Makalu La, colo que fica a 7.400m, lugar do acampamento 2. No dia 3 de maio tentamos seguir até lá, mas desanimamos com a quantidade de neve, resolvemos mudar nosso acampamento 1 dos 6.600m para os 6.780m, aonde a maioria acabou montando o acampamento “2”. No dia 5, mesmo percebendo uma melhora no tempo, resolvemos voltar ao acampamento-base.

Outra excelente notícia nos veio via telefone por satélite: logo no dia 1º de maio, às 12h00, Ivan Vallejo, amigo equatoriano que conheci em 2000 no K2, conseguiu chegar no alto do Dhaulagiri (8.167m), a 7ª maior montanha do mundo, tornando-se assim o primeiro sul-americano a completar os 14 Oito Mil (as 14 montanhas do mundo com mais de 8 mil metros de altitude), para mim, o maior desafio do alpinismo mundial. Eu, que já escalei 6 dos Oito Mil, sei muito bem o quanto é difícil completar todos os 14!!!

Ivan é o 14º homem a completar os 14 Oito Mil! Estávamos acompanhando a escalada do Ivan com ansiedade, pois o colombiano Fernando Gonzalez estava lá com ele, e agora deve se juntar a nós em breve para escalar o Makalu (está em Lukla aguardando oportunidade de vôo de helicóptero). Quem também chegou no alto do Dhaulagiri com o Ivan foi a Gerlinde, esposa do Ralf Dujmovits, alemão que faz parte de nossa equipe aqui no Makalu, e que já escalou 12 Oito Mil (após o Makalu Ralf e Gerlinde vão ainda enfrentar o Lhotse!!!).

É isso ai, muita emoção! Estamos com o coração na garganta! Amanhã ou depois devemos subir para as altitudes superiores! Objetivo??? Tomará Deus o cume do Makalu, vai depender de nossas forças e de uma trégua da Mãe Natureza. A previsão é de ventos fortes até o dia 10. Com a diminuição dos ventos, a umidade aumenta e devem acontecer nevascas a partir do dia 12.

Espero ter boas notícias para todos em breve!

Um forte abraço,

Waldemar Niclevicz


 




 
Foto 1 - O acampamento provisório que fizemos a 6.100m, na entrada do glaciar, nos permitiu contemplar belas paisagens do Makalu e de inúmeras outras montanhas do Himalaia, como o do Chamlang, que se destaca ao fundo.
Foto 2 - Eu e o Irivan não resistimos a curiosidade, e resolvemos descer do acampamento 1 (6.600m) até o acampamento-base (5.700m), usando o atalho criado pelos coreanos e ingleses. Felizmente nossas expectativas estavam certas, o atalho é muito perigoso, se começar a nevar provavelmente se transformará em uma verdadeira arapuca, pois o terreno é bastante propício para avalanches. Algumas avalanches já vêm acontecendo, com o desabamento dos seracs, como se pode ver nesta foto: em alguns lugares, blocos de gelo do tamanho de um carro se espalham ao redor das cordas fixas.
Foto 3 - De nosso acampamento 1 (6.600m) é possível observar o perigo enfrentado pelos alpinistas que enfrentam o “atalho”, alguns não conseguem superar a verticalidade do caminho em um dia, e improvisam acampamentos em lugares perigosíssimos, correndo riscos absolutamente desnecessários.
Foto 4 - O Irivan rapelando por uma das rampas escorregadias de puro gelo do “atalho”. A continuação da escalada rumo ao Makalu La, segue pelo lado direito da foto, atravessando os trechos de rocha, rumo ao azul do céu.
Foto: Niclevicz
19° dia de Expedição - 30/04/2008 - Montagem do acampamento 1 (6.600m)

Estimados Amigos

Estamos descansando no acampamento-base (5.700m) após a nossa primeira investida significativa ao Makalu, seguindo o plano que idealizamos dias atrás, ao observarmos os trabalhos já realizados pelas expedições que chegaram antes da nossa.

Embora os coreanos e os ingleses tenham feito um belo trabalho, fixando centenas de metros de cordas, acabaram criando um atalho perigoso, através de rampas de puro gelo e ameaçadores seracs (gigantescos blocos instáveis de gelo). Eu e o Irivan preferimos não se expor a tantos riscos, e optamos pelo início da rota original usada pelos franceses durante a conquista do Makalu em 1955, o mesmo caminho que usamos o ano passado, bem mais simples e seguro.

Acompanhados pelo equatoriano Santiago Quintero, e pelo argentino Marcos Hernan, fomos primeiro até a borda do Glaciar Chago, até os 6.100m, superando uma rampa de grandes pedras soltas, onde passamos uma noite para aperfeiçoarmos a nossa aclimatação. Este local não usaremos mais para acampar, mas sim como depósito, nas seguidas viagens que faremos transportando equipamentos para a parte superior da montanha. É um belo promontório, que nos permite lindas vistas do Makalu e de inúmeras outras montanhas.

No dia seguinte trocamos as botas de caminhada (flexíveis) pelas botas duplas (rígidas), colocamos os grampões (espécie de sandália com pontas de ferro que se adaptam ao solado da bota), e montamos o glaciar, seguindo o seu caminho natural rumo as alturas, contornando os trechos verticais por suaves rampas, até chegarmos aos 6.600m, onde montamos o nosso acampamento 1. Segundo os ingleses, medido através do GPS, este caminho é cerca de 1Km mais longo do que o “atalho”. E segundo nossas conclusões, não mais do que uma hora a mais para superá-lo do que o atalho.

Passamos duas noites em nosso acampamento 1, com o objetivo de deixar o organismo se adaptar melhor ao ar rarefeito, e poucas vezes criamos coragem de sair das barracas, pois um vento gelado não parou de soprar. Um vento tão forte, que às vezes chegava a dobrar a armação das barracas, e tão gelado que eu não conseguia ficar mais do que 10 ou 15 minutos lá fora, e voltava correndo para me aquecer dentro do saco de dormir.

O duro trabalho de fixar cordas, que ano passado coube apenas a mim e ao Irivan, estão bem adiantados, alcançando até o Makalu La, ponto estratégico de toda a rota que estamos enfrentando, um colo a 7.400m, onde a escalada deixa o lado nepali e passa para o lado tibetano, local do acampamento 2. Se não fosse o vento e o frio extremos, estimados para o cume em 120Km/h e 38 graus negativos, tenho certeza que alguns colegas de outras expedições que chegaram antes, já estariam fazendo seus ataques aos 8.463m do cume.

Por incrível que pareça, em um grande contraste em relação ao ano passado, os dias aqui no Makalu estão sendo maravilhosos, com céu azul, muito sol, apenas ontem à noite nevou um pouco. Quase não existe neve fofa, apenas uma neve bem dura ou gelo, o que facilita a progressão e diminui bastante o risco de quedas em gretas ou avalanches. O grande vilão este ano está sendo o vento gelado, praticamente constante. A estratégia recomendada é ter paciência, aproveitar o tempo para ganhar altitude e melhorar a aclimatação, esperando a proximidade do verão trazer temperaturas mais amenas e uma trégua do vento (a temperatura no acampamento-base já chegou a 18 graus negativos a noite, no acampamento 1 a 24 graus negativos).

Em breve vamos tentar chegar ao Makalu La (7.400m), onde pretendemos dormir uma ou duas noites, encerrando o lento e sofrido processo de adaptação do organismo ao ar rarefeito. Depois de tanta taquicardia, dor de cabeça e respiração ofegante, voltaremos ao acampamento-base e esperaremos uma oportunidade para o ataque final. Nossa esperança é tremular a bandeira do Brasil no alto do Makalu até meados de maio.

Um forte abraço para todos,

Waldemar Niclevicz





 
 
O Irivan ante a gigantesca parede noroeste do Makalu, rumo aos 6.100m de altitude, onde deixamos as pedras soltas para entrar no glaciar, neste local vamos passar apenas uma noite, depois será usado como um depósito de equipamentos. Do lado esquerdo da foto, pelo glaciar, os coreanos e ingleses optaram por um perigoso atalho.
Foto: Niclevicz
   
13° dia de Expedição - 24/04/2008 - Início da escalada!

Estimados Amigos!

A confusão causada pelos vôos de helicópteros está deixando muito alpinista furioso aqui no Makalu. Parte da bagagem que deveria chegar junto com as equipes ficou para trás. Depois do acidente, foram deixadas (por um helicóptero menor) dois dias de caminhada abaixo do local combinado, e como a região do Makalu é isolada, faltam carregadores para transportar tudo até o acampamento-base. São muitos os alpinistas que não podem iniciar a escalada porque faltam equipamentos essenciais, como botas, sacos de dormir e grampões. Alguns improvisam, emprestam equipamentos que colegas não estão usando, e vão iniciando as investidas ao Makalu.

Para algumas expedições a situação chega a ser crítica. A equipe do famoso alpinista do Quirquistão, Denis Urubko, está sem comida, hoje eles vão jantar com a gente. Denis e seus colegas do Kazaquistão se destacam por escaladas invernais, ele já escalou 12 montanhas com mais de 8 mil metros, para completar todas os 14 Oito Mil falta apenas o Makalu e o Cho Oyo. Ele e sua equipe estiveram tentando escalar o Makalu no último inverno (janeiro e fevereiro) (ninguém ainda conseguiu escalar o Makalu no inverno).

Ontem eu e o Irivan, acompanhado pelo equatoriano Santiago, fizemos nossa primeira investida ao Makalu, chegando até os 6.100m, pelo mesmo caminho que fizemos o ano passado. Ficamos impressionados pelo que vimos, pois os coreanos e ingleses que chegaram antes do que nós, acabaram realizando um caminho completamente diferente, muito mais perigoso, fixando centenas de metros de cordas, através de perigosos seracs (blocos de gelo instáveis). Por volta dos 6.600m, os dois caminhos se encontram, mas realmente é incompreensível porque tanta energia foi gasta em um atalho aonde o risco é muito grande.

Até agora, apenas a nossa equipe e a de Denis Urubko optaram pela rota original, um pouco mais longa, mas muito mais segura. Outras 4 expedições ainda devem chegar, vamos ver qual o caminho que eles vão preferir.

Amanhã eu e o Irivan, acompanhados pelo Santiago e pelo argentino Hernan, vamos novamente até os 6.100m, onde pretendemos passar uma noite para aperfeiçoar a nossa aclimatação, no dia seguinte nosso plano é mudar as barracas para o local definitivo do acampamento 1 (6.600m). Queremos aproveitar o tempo bom, que já mostra sinal de mudanças, com alguns neviscos. Dizem que a partir do dia 28 o tempo vai ficar ruim.

Eu e o irivan estamos muito animados, lembramos sempre dos nossos amigos, da Omni, da Santher e da Air France (nossos patrocinadores e apoio). Tenho a certeza que, para todos nós, enfrentar o Makalu é buscar a realização de um grande sonho, sei que juntos vamos superar este grande desafio, colocando a bandeira do Brasil no alto dos seus 8.463m de altitude. Muito obrigado pela confiança, pela torcida!

Um grande abraço,

Waldemar Niclevicz



 
 
Niclevicz filmou acidente com helicóptero.
Vídeo: Niclevicz
   
 
 
O helicóptero russo MI 8, após o seu forte choque ao pés do Makalu, que quase transformou-se em uma grande tragédia. Um dos seus 8 passageiros era o espanhol Juanito Oiarzabal, que já escalou todas as 14 montanhas com mais de 8 mil metros.
Foto: Niclevicz
   
11° dia de Expedição - 22/04/2008 - Acidente com helicóptero assusta a equipe
Estimados Amigos!

Finalmente chegamos no acampamento-base do Makalu (5.700m), depois de um verdadeiro martírio em razão dos vôos de helicópteros, algo que ainda não terminou!

Optamos em usar o helicóptero este ano para evitar o desgaste de uma caminhada de 104Km, o mesmo acontecendo com a maioria das outras 12 expedições que estão enfrentando o Makalu nesta temporada, porém, como o governo solicitou todos os helicópteros em razão das eleições que ocorreram dia 10 de abril (os vôos de helicópteros foram liberados somente a partir do dia 18), a fila de alpinistas esperando a sua vez para voar ficou imensa.

Infelizmente, o atraso do vôo foi apenas uma pequena dor de cabeça para a nossa equipe. Decolamos de Lukla (2.843m) na manhã do dia 18, fizemos um belo vôo, contemplando a parte mais imponente do Himalaia, com belas vistas do Everest e do Makalu. Porém, quando fomos nos aproximando do local do pouso (acampamento-base sul do Makalu que está a 4.800m), o grande helicóptero russo MI 8 chacoalhou e bateu com força no chão. Foi um grande susto, as rodas do velho helicóptero afundaram quase 40cm no solo arenoso e se arrastaram por cerca de 12 metros.

Mas, tudo bem! Nosso grupo desembarcou aliviado e a felicidade tomou conta de cada um de nós ao estarmos frente a frente com a nossa tão sonhada montanha.

O helicóptero que deveríamos haver usado era um MI 17, maior, com uma capacidade de carga de 1.800Kg. O MI 8 não poderia levar mais que uma tonelada, entre alpinistas e equipamentos, assim foi rígido o controle do peso na hora da decolagem. Praticamente metade de nossa carga ficou em Lukla, e outros 8 colegas de uma a expedição espanhola, que deveriam realizar vôos sucessivos. Pois bem, o helicóptero voltou par Lukla e os outros vôos planejados foram cancelados, todos ficamos desconfiados.

No dia seguinte os espanhóis ficaram felizes, embarcaram no velho MI8 e quando escutamos o forte barulho de suas hélices se aproximando, deixamos a nossa barraca refeitório e fomos nos aproximando do local do pouso. O que aconteceu nos segundos seguintes foi quase inacreditável e difícil de descrever. O piloto veio direto para o pouso, não fez a volta de reconhecimento padrão, e, a favor do vento, bateu no chão em alta velocidade, afundando o bico do helicóptero no solo arenoso, estava a ponto de capotar, de bater as gigantescas hélices (medem talvez uns 8m de comprimento!) no chão, acabou derrapando, levantando uma gigantesca nuvem de pó, até finalmente baixar novamente a sua parte traseira e parar. Filmei todo o acidente, as imagens ficaram impressionantes! Que gigantesco susto, uma imensa tragédia não aconteceu por pouco!

O acidente complicou ainda mais a nossa situação, não temos o equipamento necessário para iniciar a escalada, e esse é o caso de pelo menos outras quatro equipes por aqui.

Ontem deixamos o acampamento-base sul (4.800m) e subimos definitivamente para o acampamento-base (5.700m), logo realizamos mais uma série de chamadas telefônicas via satélite e descobrimos que toda a nossa carga (e de outras 3 equipes) haviam sido transportadas por um helicóptero menor, em sete vôos, para um lugar mais baixo, a 3 dias de caminhada de onde nos encontramos. Primeiro temos que conseguir cerca de 40 carregadores e, se tudo der certo, e nenhuma de nossas bagagens se extraviar, devemos receber tudo dentro de 4 ou 5 dias!

Posso dizer que o helicóptero trouxe ainda mais um grave problema, como voamos direto até os 4.800m, o ar rarefeito trouxe os seus efeitos para todos nós. Para aliviar estes efeitos, eu e o Irivan passamos 10 dias antes na Bolívia, assim estamos nos adaptando bem a elevada altitude. Infelizmente isso não aconteceu com o Marco Gonzalez Arango, colombiano que faz parte da nossa equipe. Ele contraiu um edema pulmonar e neste momento está descendo para o acampametno-base sul, para de lá ser evacuado por um helicóptero. E aqui voltamos ao problema helicóptero, ainda ninguém nos deu uma previsão de quando um deles poderá vir resgatar Marco.

Diante de tantas dificuldades, eu e o Irivan queremos dizer a todos que estamos nos sentindo muito bem, e que o tempo está ótimo, pouca neve, céu azul, muito deferente daquele que encontramos o ano passado. Esperamos, que daqui para frente, só tenhamos boas notícias.

Um grande abraço,

Waldemar Niclevicz



 
 
Helicóptero russo MI 17 pousado em Lukla, exatamente o modelo que usaremos para ir até a base do Makalu.
Foto: Niclevicz
   
6° dia de Expedição - 17/04/2008 - Esperando o helicóptero em Lukla.
Estimados Amigos!

Depois de um vôo de 40 minutos em um avião Twin Otter (turbo hélice de dois motores), chegamos ontem em Lukla, uma pista de pouso que fica a 2.843m de altitude, na entrada do Khumbu, região central do Himalaia que abriga o Everest e o Makalu.

Deveríamos voar hoje para o acapamento-sul (4.800m) do Makalu, mas estamos tendo problemas para conseguir liberação do governo para usar o helicóptero. O boato é que o governo da China está pressionando o governo do Nepal para não autorizar vôos ao Everest e ao Makalu (que está apenas 22Km a leste). Dizem que o receio é que haja algum tipo de manifestação pró Tibet, algo que se tornou uma grande dor de cabeça para o governo chinês, em razão da subida da tocha olímpica ao cume do Everest.

Uma equipe de 30 alpinistas chineses treinou durante 3 anos para levar a tocha olímpica ao alto do Everest, para isso este ano o governo chinês, inesperadamente, fechou o lado tibetano da maior montanha do mundo para os alpinistas (na verdade outras montanhas com o Cho Oyo (8.201m) e o Shisha Pangma (8.046m), que também são escaladas pelo Tibet, estão interditadas).

O lado nepales do Everest também está parcialmente interditado, pois os chineses exigiram que o Nepal não permita que os alpinistas superem os 7.300m da montanha, e, entre os dias 1º e 10 de maio, ninguém pode sequer superar a altitude do seu acampamento-base, que está a 5.400m.

Esta grande paranóia chinesa está deixando muitos alpinistas descontentes, já que todas as expedições ao Tibet foram canceladas, e o controle ostensivo no lado nepalês é um absurdo. Dizem que nesta semana uma bandeira tibetana foi hasteada no acampamento-base do Everest, o que acabou causando uma grande confusão. Até nós que estamos indo para o Makalu acabamos sendo afetados, em razão da proibição do uso do helicóptero. É uma pena que o governo do Nepal esteja se sujeitando a todas estas exigências absurdas dos chineses.

Nossa previsão é de voar amanhã para o Makalu, tomará que seja possível, pois eu e o Irivan não vemos a hora de começar definitivamente a escalada. Não somos os únicos que temos esta expectativa, também estão em Lukla outros 14 alpinistas que vão ao Makalu, entre eles Juanito Oiarzabal (espanhol que já escalou todas as 14 montanhas com mais de oito mil metros) e Ralf Dujomovitch, alemão que já escalou 12 Oito Mil.

Juanito tive o prazer de conhecer agora, ele já repetiu a escalada de 5 Oito Mil, em 2004 perdeu os dedos dos pés no K2 (em razão de congelamentos), e agora está voltando às montanhas do Himalaia para ver como será o seu desempenho depois das amputações. Já Ralf, que conheci em 1996 durante a escalada do Vinson (maior montanha da Antártida), está tentando completar todos os 14 Oito Mil, e se juntou de última hora a nossa equipe (Juanito faz parte de uma outra equipe formada por 9 espanhóis).

Espero, em breve, mandar notícias diretamente do Makalu!

Um grande abraço para todos, Namastê,

Waldemar Niclevicz




 
 
Waldemar e Irivan em uma das 5 casas da “Nepalise home”, que abriga atualmente um total de 110 “meninas dos olhos de Deus”.
Foto: Divulgação
   
4° dia de Expedição - 15/04/2008 - Passagem por Kathmandu

Estimados Amigos!

O Irivan e eu já estamos em Kathmandu, após uma longa viagem de 4 dias desde Curitiba, passando por São Paulo, Paris e Bangkok.

Chegamos na capital do Nepal um dia após o Ano Novo, comemorado na lua crescente de abril, que foi no último dia 12. Os nepaleses seguem outro calendário, aqui já começou o ano de 2065!!!

Embora o ambiente deveria ser de festa, o que encontramos entre a população foi muita apreensão, em razão da expectativa do resultado das eleições para a Assembléia Constituinte, que ocorreram em 10 de abril, exatamente no dia que partimos do Brasil.

O Nepal enfrenta uma séria crise política desde o massacre da família real em 2001 (o príncipe, em razão de não aceitarem o seu casamento com a namorada, matou o rei, sua mãe e outros sete membros da família, e depois se suicidou). Quem acabou assumindo o reinado foi um tio distante, chamado de Gyanendra, mas que nunca conquistou a simpatia da população, visto por todos como corrupto. Desde então uma série de manifestações lideradas pelos maoístas, contra o autoritarismo do rei aumentaram, a situação se tornou insustentável em 2005, quando os guerrilheiros maoístas multiplicaram os ataques ao Governo (conflitos que de 1996 a 2006 deixaram mais de 13 mil mortos).

A razão do clima de apreensão que encontramos no Nepal é justamente em razão da pressão dos maoístas contra a população, que asseguraram que se não vencessem as eleições o povo sofreria fortes represálias. O medo contagiou a população e os maoístas venceram com a maioria dos votos. A monarquia, que reinou no Nepal por 238 anos agora tem seus dias contados, em menos de dois meses os maoístas começarão a redigir uma nova Constituição e o sistema Presidencialista será adotado. A verdade é que todos temem por grandes mudanças no País, inclusive nós alpinistas. Tomara Deus que as mudanças sejam positivas e que o Nepal comece uma nova fase de prosperidade.

Felizmente a expectativa das eleições não abalaram a alegria dos nossos amigos brasileiros que vivem no Nepal, no dia de nossa chegada fomos recebidos calorosamente pelo Silvio Silva e pela sua querida equipe que fazem um dos mais lindos trabalhos sociais que já conhecemos, recuperando crianças da prostituição. Silvio e sua esposa Rose já “adotaram” 110 crianças que seguramente terão um futuro de muita luz e dignidade, graças aos ilimitados esforços de sua equipe. Conheça o trabalho do Silvio e saiba como você pode ajudar a trazer de volta o sorriso a muitas crianças acessando o site www.meninasdosolhosdedeus.com.

Ao chegar em Kathmandu também encontramos 3 dos outros 6 alpinistas que vão participar da nossa expedição ao Makalu: Marco Gonzalez Arango (colombiano), Santiago Quintero (equatoriano) e Carlos Hernan Wilke (argentino); tê-los na mesma equipe é uma forma de reduzir os custos da expedição, e, com certeza, aumentar as nossas forças para a escalada. Além de Santiago, Hernan e Marcos, está em nossa equipe o Fernando Gonzalez (colombiano – está agora escalando o Dhaulagiri, outra montanha com mais de 8 mil metros, e vai nos encontrar mais tarde diretamente no Makalu), e Carlos Soria e seu companheiro Rafael de La Coba, dois espanhóis que encontraremos amanhã.

Ontem recebemos uma visita especial, a Senhora Elizabeth Hawley, uma jornalista inglesa que mora em Kathmandu desde 1960, e que em 1963 começou a documentar todas as expedições que passam por aqui, ninguém sabe mais do que está acontecendo nas montanhas do Himalaia do que ela. Para a nossa surpresa, ficamos sabendo que existem 12 expedições este ano para o Makalu, um total de 72 alpinistas, algo igual nunca havia acontecido, já que o Makalu é uma montanha difícil e geralmente pouco visitado. A China ter proibido a escalada do Everest pelo seu lado este ano, e também das outras montanhas que se encontram em seu território, como o Cho Oyo (8.201m) e o Shisha Pangma (8.046m), é a razão pela qual vários alpinistas acabaram optando pelo Makalu. A China proibiu a entrada de alpinistas no Tibete nesta temporada com medo de sabotagem a uma grande expedição que pretende levar a tocha olímpica até o alto do Everest pelo lado tibetano.

O grande número de alpinistas que vão ao Makalu este ano não nos anima muito, como a sua escalada é bem mais difícil que a do Everest, como também do Cho Oyo e do Shisha Pangma, tememos que vários desses alpinistas não tenham experiência suficiente para o Makalu. Uma prova disso aconteceu há poucos minutos atrás, quando estávamos fazendo o “brienfing” no Ministério do Turismo (para escalar o Makalu pagamos uma taxa de dez mil dólares e somos obrigado a seguir uma série de regras, todas nos são explicadas pessoalmente durante o “briefing”). Pois bem, acabamos fazendo o briefing junto com o chefe de uma expedição austríaca ao Makalu, e o tal do chefe da expedição deles estava totalmente confuso com relação a várias informações da montanha, como distâncias e altitude dos acampamentos.

Mas, finalmente, tudo está pronto, acordaremos às 5 da manhã para voarmos de avião até Lukla (2.800m), e de lá, depois de amanhã, vamos de helicóptero até o acampamento-base sul (4.800m), iniciando definitivamente o nosso desafio de colocar a bandeira do Brasil no alto dos 8.463m de altitude do Makalu!

Contamos com a sua torcida!

Um super abraço, Namastê,

Waldemar Niclevicz