Extremos
 
COLUNISTA WALDEMAR NICLEVICZ
 
A escalada do Ausangate
 
Texto: Waldemar Niclevicz
29 de junho de 2014 - 20:30
 
  • Foto: Waldemar Niclevicz
    Atravessando o Passo Jampa (5.100m). Foto: Waldemar Niclevicz
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    Início da caminhada rumo ao acampamento-base do Ausangate." Foto: Waldemar Niclevicz
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    Rumo ao acampamento alto do Ausangate, com o Mariposa ao fundo." Foto: Waldemar Niclevicz
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    Acampamento alto (5.500m) do Ausangate, ao fundo o Mariposa." Foto: Waldemar Niclevicz
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    Rota da escalada marcada na Face Nordeste do Ausangate, em destaque a parede de 200m que superamos à noite. A rota continua no lado oposto, Face Sul." Foto: Waldemar Niclevicz
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    Amanhecer na Face Sul do Ausangate, cume ao fundo." Foto: Waldemar Niclevicz
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    Enfrentando a Face Sul do Ausangate." Foto: Waldemar Niclevicz
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    Neve fofa a caminho do cume do Ausangate." Foto: Waldemar Niclevicz
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    Nas proximidades do cume do Ausangate, finalmente surge o sol para amenizar o frio." Foto: Waldemar Niclevicz
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    Edwin Espinoza aproximando-se da crista final, com o cume do Ausangate ao fundo." Foto: Waldemar Niclevicz
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    Parte superior da Face Norte do Ausangate, visto das proximidades do cume." Foto: Waldemar Niclevicz
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    Nathan Heald e Luis Crispin chegando no cume do Ausangate." Foto: Waldemar Niclevicz
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    Nathan Heald e Waldemar Niclevicz no cume do Ausangate (6.384m)." Foto: Waldemar Niclevicz
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    Alpacas e lhamas com o Ausangate ao fundo, a região é uma das maiores produtoras de lã desses animais de todos os Andes." Foto: Waldemar Niclevicz
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    Edwin Espinoza, Luis Crispin, Waldemar Niclevicz, Nathan Heald, com amigos, clientes e equipe de apoio da escalada ao Ausangate." Foto: Waldemar Niclevicz
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    Face Norte do Ausangate (6.384m) visto de Pacchanta (4.300m)." Foto: Waldemar Niclevicz
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Atravessando o Passo Jampa (5.100m). Foto: Waldemar Niclevicz

 

O Ausangate (6.384m) é a maior montanha da Cordilheira de Vilcanota, impõe-se a sudeste da cidade de Cusco, no extremo norte do Altiplano Andino que se prolonga em direção ao Lago Titicaca. É a maior montanha da região e está a 315Km em linha reta do Brasil, destacando-se ao lado da Interoceânica Sul, moderna estrada que liga o Pacífico ao Atlântico, via Assis Brasil, Acre.

Estávamos a 5.100m de altitude, rumo ao acampamento alto do Ausangate. Escolho três bonitas folhas de coca e as acomodo delicadamente, formando um trevo, o qual aproximo dos meus lábios e, após soprá-lo longamente, digo com devoção: “Apu Ausangate, deixa-nos passar”.

Cada um dos membros da expedição realiza o “pagapuy”, ritual de respeito à montanha sagrada, depois doces, dinheiro, folhas de coca, lã de vicunha, vinho e outras oferendas, ardem em uma grande fogueira, enquanto silenciosamente tentamos entrar em equilíbrio com a imensidão da montanha que iremos enfrentar.

Dias antes havia participado de outra manifestação da Fé do povo andino, fazendo parte da peregrinação de Qoyllur Ritti (“neve de estrelas” em quéchua). O grande santuário, que reúne mais de 50 mil pessoas, existe em frente ao Ausangate, no lado oposto da Interoceânica, de onde se parte dos 4.000m de altitude para caminhar 8Km até uma ampla esplanada a 4.600m, onde acredita-se que em 1780 o Menino Jesus teria aparecido a um menino pastor de alpacas e lhamas.

A cerimônia é emocionante, um grande sincretismo entre as crenças andinas mais antigas e o catolicismo. Há mais de 20 anos o lugar era rodeado por glaciares, onde os peregrinos recolhiam pedaços de gelo que acreditavam terem propriedades medicinais, alguns levavam esses pedaços de gelo até a Catedral em Cusco. Atualmente o glaciar se encontra acima dos 5.300m em razão da retração provocada pelo aquecimento global, e é proibido a sua retirada.

Quando cheguei no acampamento alto - 5.500m - estava emocionado, minha peregrinação ao Ausangate havia começado quando o vi pela primeira vez, em 1985, e estava prestes a chegar ao seu final. Às 23h30 começamos a escalada, o americano Nathan Heald, os peruanos Luis Crispin e Edwin Espinoza e eu, cada um desempenhando o papel de guia, levando em sua corda dois clientes.

A princípio fui na frente, com dois americanos em minha cordada, até os 5.700m, onde se tem início uma parede de gelo de 200m de altura. Nathan assumiu a liderança, pois já conhecia o caminho, mesmo assim levamos mais de quatro horas para superar a parte mais vertical da Parede Nordeste, que chega a ter 55o de inclinação, em razão da falta de experiência dos clientes.

Após superarmos a Parede Nordeste, entramos na grande rampa de neve que existe na Face Sul do Ausangate.

Apesar da dose de adrenalina que sentiram na parede, e do frio de -13ºC, os clientes foram recobrando o ânimo com o amanhecer, mas as dificuldades continuaram. Mesmo com inclinação suave, algo em torno de 30o, enfrentamos 2Km em um terreno traiçoeiro, onde nos afundávamos na neve até o joelho, em um verdadeiro exemplo de trabalho em equipe, onde íamos nos revezando na dianteira.

Por volta das 10 horas da manhã alcançamos a crista do cume, e nos assustamos com o abismo de mais de dois mil metros que despenca sobre a Face Norte. Exaustos, os clientes acabaram se contentando em ficar ali mesmo, contemplando uma fantástica vista a 20m abaixo do cume. Nathan, Luis, Edwin e eu não resistimos, fomos rapidamente até o cume, escalando uma aresta vertical que parecia estar prestes a desabar.

Chorei de emoção no alto da montanha sagrada, agradecendo ao Apu Ausangate por nos deixar passar, e me permitir dar continuidade ao Projeto Mundo Andino, realizando um sonho que carregava comigo há mais de 29 anos!

Que a Fé continue nos dando forças para a realização dos nossos sonhos, levando-nos até o alto das montanhas!


Forte abraço,

Waldemar Niclevicz
www.niclevicz.com.br