De volta ao Brasil! Annapurna, o relato final.
da redação, Waldemar Niclevicz
30 de maio de 2012 - 14:35
 
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    A equipe de Carlos Soria: Carlos Soria, Luis Miguel, Waldemar, Dani Salas, Nacho Tena, Tente Lagunillas e Carlos Martinez. Foto: www.niclevicz.com.br
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    Com meu amigo iraniano Azim Gheichisaz, nos conhecemos no Quirguistão, durante a escalada do Pobeda, em 2010." Foto: www.niclevicz.com.br
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    Foto tirada pelo turco Tunç Findik, que mostra a realidade que vivemos durante a escalada do Annapurna, avalanche em pleno “corredor”. " Foto: Tunç Findik
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    Com meus novos amigos, o turco Tunç Findik (à esquerda da foto) e o suíço Guntis Branbs." Foto: www.niclevicz.com.br
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A equipe de Carlos Soria: Carlos Soria, Luis Miguel, Waldemar, Dani Salas, Nacho Tena, Tente Lagunillas e Carlos Martinez. Foto: www.niclevicz.com.br

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Estimados Amigos!

Felizmente já estou de volta ao meu Amado Brasil, depois de 71 dias de viagem, que incluíram, além da conturbada expedição ao Annapurna, minha primeira visita a Índia, onde estive por duas semanas.

Definitivamente, esta primavera foi uma das piores temporadas do Himalaia dos últimos tempos. Não apenas nós que fomos ao Annapurna tivemos sérios problemas, mas praticamente todos que enfrentaram alguma montanha no Nepal ou no Tibete, inclusive aqueles que estiveram no Everest (onde houve quatro mortes).

Antes de eu deixar Kathmandu e seguir para a Índia, tive um dos momentos mais marcantes de toda a viagem, no dia 11 de maio, ao me reencontrar com meus amigos que haviam decidido ficar no Annapurna. Pareciam estar voltando de um campo de batalha, abatidos, magros, com sério risco de sofrerem amputações em razão dos congelamentos.

Por quem eu mais sentia compaixão era pelo Guntis Branbs, um simpático suíço que vive em Zermatt, aos pés do Matterhorn. Ele mal conseguia falar, sua voz era quase como um incompreensível chiado, sua garganta ainda estava queimada pelo frio, todos os dedos de suas mãos haviam sofrido algum congelamento, envolvidos por esparadrapos e gazes, a ponta do seu nariz estava preta pelo mesmo motivo, e seus olhos se enchiam de lágrimas ao relatar o suplício que havia vivido na sua tentativa de chegar ao cume do Annapurna, frustrada a pouco mais de duzentos metros do ponto mais alto.

O espanhol Sechu Lopez estava feliz, mas sensivelmente abatido, e logo me chocou ao mostrar um dedão do seu pé totalmente preto, que provavelmente será amputado. Preço caro pela árdua conquista do Annapurna!

Além do Guntis e do Sechu, também me encontrei com o meu amigo iraniano Azim Gheichisaz e com o peruano Richard Hidalgo, que, mesmo abatidos, estavam em perfeito estado de saúde, e, embora melancólicos devido à sofrida experiência, estavam felizes, pois também haviam conseguido finalizar a escalada com sucesso.

Meus amigos relataram com detalhes tudo o que aconteceu depois que eu e o Carlos Soria resolvemos dar por encerrada nossas tentativas de escalar o Annapurna, e, em cada nova informação, eu, silenciosamente, agradecia a Deus por ter tomado a decisão de desistir da escalada.

Vejam um breve resumo do que aconteceu:

Dia 2 de maio: De madrugada uma gigantesca avalanche desce pelo “corredor”, sentimos o chão vibrar no acampamento 2; de manhã, ao nos aproximarmos do “corredor”, somos surpreendidos por uma nova grande avalanche, ficamos paralisados, tomo a decisão de desistir da escalada; todos voltam para o acampamento 2, a maioria decide descansar, dormir ali mais uma noite, para decidir com calma o que fazer; Badia e Mauricio (casal de mexicanos), a espanhola Rosa Fernandez e o turco Tunç Findik, também desistem da escalada. Carlos Soria e Tente Lagunillas descem para o acampamento-base, mas deixam os acampamentos superiores montados para uma possível nova investida. Nesse mesmo dia o canadense Don Bowie deixa o acampamento-base de helicóptero e inicia o seu regresso a casa devido a problemas familiares.

Dia 3 de maio: De helicóptero deixo o acampamento-base junto com Badia e Maurício, Rosa e Tunç. Sigo com o Tunç de helicóptero até Kathmandu, os outros colegas ficam na cidade de Pokhara esperando suas bagagens; os alpinistas que estavam no acampamento 2 partem bem cedo para o acampamento 3, aonde chegam antes do meio dia, a tarde neva por três horas.

Dia 4 de maio: Carlos Soria também desiste da escalada e deixa o acampamento-base de helicóptero; os alpinistas que estavam no acampamento 3 (6.500m) retomam a escalada, devido a neve recém caída a progressão é lenta, acampam a 6.800m (acampamento “4 inferior”), neva forte durante a tarde.

Dia 5 de maio: No acampamento “4 inferior”, o húngaro Tibor Horvath decide descer; o grupo de ataque, liderado pelo iraniano Azim, progride lentamente devido ao excesso de neve, montam o próximo acampamento a 7.100m (acampamento “4 superior”); Azim parte para o cume as 21h20, os outros vão partindo em seguida.

Dia 6 de maio: Azim com um sherpa chega ao cume por vota das 8 horas, já de regresso encontra Guntis por volta dos 7.800m e o convence a desistir devido a gravidade de seus congelamentos; além de Azim e seu sherpa, mais cinco alpinistas chegaram ao cume, na seguinte ordem: o tcheco Radek Jaros, o espanhol Óscar Cadiach, o tcheco Jan Travnicek, o peruano Richard Hidalgo, e o espanhol Sechu López (às 13h05).

Dia 7 de maio: Começa a retirada rumo aos acampamentos inferiores, alguns chegam ao acampamento 3, outros ao acampamento 2, onde dão conta que o húngaro Tibor Horvath havia desaparecido.

Dia 8 de maio: Os tchecos Radek e Jan são evacuados de helicóptero com graves congelamentos nas mãos e pés, certamente sofrerão amputações; se confirma o desaparecimento do húngaro Tibor, provavelmente vítima de uma avalanche no “corredor”; todos chegam ao acampamento-base, menos o Sechu que fica no acampamento 1; nevou exageradamente a tarde.

Dia 9 de maio: Todos vão de helicóptero até Pokhara e no dia 10 chegam a Kathmandu.

Sete pessoas no cume, quatro com congelamentos graves, uma morte!

Sempre repito que nenhuma montanha vale a vida de um homem, nem mesmo a de um dedo amputado em razão de um congelamento. Não quero com isso justificar a minha desistência, mas apenas lembrar o que eu já havia dito antes, após a nossa primeira tentativa de chegar ao cume:

Assim é a montanha, sempre impondo a sua grandeza, e assim segue o homem, sempre buscando coragem para enfrentá-la. Uma simples decisão pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso, a vida e a morte. Que Deus continue me dando consciência para tomar as decisões corretas.



Namastê!
Waldemar Niclevicz
A expedição ao Annapurna tem o apoio da XP Investimentos, www.xpi.com.br.
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