Expedição ao Rio Noatak na Brooks Range: Parte 3
Texto: Thomaz Brandolin
3 de novembro de 2013 - 9:36
 
 
 
  • Foto: Thomaz Brandolin
    Minha canoa inflável, de 14 pés.
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    Montanhas da Brooks Range e o rio Noatak." Foto: Thomaz Brandolin
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    Vegetação numa das praias do Noatak." Foto: Thomaz Brandolin
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    Rio Noatak." Foto: Thomaz Brandolin
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    Vegetação das praias do Noatak." Foto: Thomaz Brandolin
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    Acampando nas margens do Noatak. Todos os itens que tem cheiro – alimentos, sabão para louça, sabonete etc – tem que ir nesse barris de ferro, à prova de urso, fornecidos gratuitamente pelo Parque Nacional. " Foto: Thomaz Brandolin
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    Uma das praias do Noatak. " Foto: Thomaz Brandolin
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    O vento contra é tão forte que empurra as nuvens para cima das montanhas. " Foto: Thomaz Brandolin
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    Nascer do sol às 6h00 na manhã, no Dia dos Pais. Durante a noite, a temperatura chegou abaixo de zero pela única vez. " Foto: Thomaz Brandolin
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    Vegetação nas margens do Noatak. " Foto: Thomaz Brandolin
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    Vegetação nas margens do Noatak. Algumas se parecem com algodão. " Foto: Thomaz Brandolin
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    Urso. Depois dessa, tirei uma segunda foto dele, já de costas, começando a fugir. A partir dai comecei a filmá-lo. " Foto: Thomaz Brandolin
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    Sol da meia noite. " Foto: Thomaz Brandolin
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    A rena assustada que vi logo pela manhã, em frente o meu acampamento. Aqui ela tinha acabado de desistir de atravessar para o lado onde eu estava.. " Foto: Thomaz Brandolin
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    A rena assustada que vi logo pela manhã, em frente o meu acampamento. Aqui ela está olhando para o lobo, que está ao meu lado. " Foto: Thomaz Brandolin
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    O lobo aparece de repente e parte para cima da rena, que desceu pelas pedras para a direita, rio abaixo. " Foto: Thomaz Brandolin
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    Pego pela correnteza, o lobo (a 2 metros da minha barraca), teve que nadar forte e finalizar a travessia para a margem onde eu estava. Depois, ficou encarando sua presa, que acabou escapando...pelo menos dessa vez. " Foto: Thomaz Brandolin
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    Uma das espécies de patos que habitam a Brooks Range. " Foto: Thomaz Brandolin
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    Hidroavião que veio me resgatar, sobrevoa no Lago Cutler, no 20º. e último dia da expedição.. " Foto: Thomaz Brandolin
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    Hidroavião ancorado na margem do Cutler. À esquerda, o Jim, piloto e dono da agencia. À direita, seu ajudante Lucas, de 18 anos. Ambos me ajudaram a fazer parte do portage da canoa até a beira do lago. Parte da carga, principalmente itens pequenos e perigosos (latas de benzina, por exemplo) vão dentro dos flutuadores da aeronave. " Foto: Thomaz Brandolin
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Minha canoa inflável, de 14 pés. Foto: Thomaz Brandolin

 

Corredeiras

Acordei tarde, ainda de ressaca da subida na véspera....
Aproveitei que estava sol e fui lavar algumas roupas, que já estavam fedendo. Enquanto secavam, tomei meu café tranquilo. Só fui começar a remar às 12h15.

Logo avistei vários pássaros, inclusive pousados nas margens e nos bancos de cascalho. Principalmente gaivotas e patos selvagens, de diferentes espécies. Alguns não paravam de dar “rasantes” na água, às vezes perto da minha cabeça. Até um “irmão gêmeo” de um beija flor apareceu, intrometido.

Rodeado por um silêncio profundo, só quebrado pelos pássaros, remava quieto e atento à paisagem, filmando de vez em quando. A tarde, ensolarada e quente, passou rápido. Na margem direita do rio encontrei uma praia linda, a mais bonita da viagem, bem na divisa dos parque Nacional Gates of the Arctic e o Noatak. Decidi parar. A praia tem um platô abrigado, com muita graminha verde, arbustos com flores e folhagem avermelhada. Ela fica numa curva suave, de frente para um morro. Restos de uma fogueira indicavam que pessoas estiveram ali. O visual era tão inspirador que, depois de montar meu acampamento, fiquei um tempão na beira da água contemplando tanta quietude e beleza. Depois do jantar voltei para a beira do rio e fiquei até quase meia noite vendo o sol se pôr.

O dia seguinte começou animado. Sob um sol gostoso, apareceram as primeiras sequências de corredeiras, nível I e II. Fiquei impressionado com a estabilidade da canoa, que subia e descia cada onda sem se desequilibrar.

Enfrentei várias ondas de até meio metro, e um degrau de quase um metro. As corredeiras variavam de 50 a 200 metros de extensão, e muitas vezes me vi “driblando” pedras enormes que sobressaiam na superfície. Às vezes tinha que pensar rápido e decidir por onde avançar quando surgia uma barreira de pedras grandes, semi submersas, quase “invisíveis” da canoa, mas que poderiam fazê-la virar se me chocasse com uma delas.

Terminei o dia com os braços cansados e as mãos doloridas, mas feliz por ter acertado todas as manobras. No jantar, para comemorar, tomei a última dose do vinho californiano.

Os dias seguintes foram parecidos. Sol, temperatura por volta dos 20 graus, céu azul, nuvens que iam e vinham, e rajadas esporádicas de vento. Na água enfrentava corredeiras intercaladas por longos trechos de correnteza forte, ou trechos largos e rasos, que mais lembravam uma lagoa, onde a água praticamente “parava” e eu tinha que remar forte para avançar.

Numa das corredeiras, de tão confiante, entrei displicente numa descida, a canoa virou de lado e se chocou com uma pedra, criando uma “onda” enorme que invadiu o barco, e me encharcou da cintura para baixo, exigindo que eu usasse a bomba manual para tirar água de dentro da embarcação. Passei algumas horas dando bronca em mim mesmo pelo descuido. Só de pensar em virar a canoa na água gelada, perder equipamentos e eventualmente me acidentar naquele lugar, sem ninguém por perto, exigia que eu me concentrasse em cada onda, e não podia relaxar nessas horas.

Aos poucos a paisagem foi mudando. As montanhas da Brooks foram se afastando até sumirem e o horizonte foi se ampliando. O Noatak foi ficando com menos curvas, e as margens foram ficando mais monótonas, mas os barrancos das margens foram ganhando altura. Alguns, de tão altos, eu avistava mais de uma hora antes de alcança-los.

Para compensar, os pássaros continuavam marcando presença. Por duas vezes, casais de gaivotas me “escoltaram” a poucos metros da minha cabeça, como que para garantir que eu estava só de passagem e não iria importunar seus filhotes. O mais interessante foi uma “escolinha” de patos junto à margem: a mamãe pato estava de frente para 4 filhotes perfilados lado a lado, aparentemente dando “instruções”.

Além dos pássaros, vi vários roedores, de diferentes tamanhos e espécies, sempre ligeiros. Até um animal que eu nunca tinha visto apareceu, com corpo e rabo de gato e cara de cachorro, com pelagem cor de tijolo.

A rotina continuava a mesma. Remava durante umas 5h-6h, com algumas paradas curtas para lanchar em alguma praiazinha e, por volta das 16h30 já estava com acampamento montado. A canoa, cada dia mais leve, ficava cada vez mais rápida.

Curtia o sol do resto da tarde quase sempre de shorts e camiseta. Nas tardes mais quentes aproveitava para tomar um bom banho de rio, dando um mergulho nas águas cristalinas (e geladas) do Noatak. Aproveitava também para recarregar as baterias das câmeras, escrever, ler, fotografar ou simplesmente não fazer nada, apenas curtir a paz e o silêncio daquele lugar. Nos dias mais inspirados, sacava meu bloco de pintura, meus pincéis e aquarelas e passava alguns momentos pintando, esquecendo da vida.

Eu já me sentia totalmente ambientado ao lugar. Sentia-me confortável com o isolamento do lugar, a ausência de pessoas, e mesmo as inúmeras pegadas de urso que avistava nas praias não me preocupavam mais. Não sentia solidão, mas solicitude, e uma gostosa paz interior.

Um urso!

Os últimos dias estavam parecidos, até que chegou o dia 12, Dia dos Pais!

Devido à diferença de fuso horário de 4h em relação ao Brasil, levantei às 6h00, bem mais cedo que de costume, pois queria falar com minha filha e meus pais. Eu não ouvia a voz de uma pessoa fazia 12 dias.

Avistei o nascer do sol mais bonito da viagem, surgindo entre 2 montanhas ao longe. A primeira surpresa foi ver que tudo que estava úmido amanheceu coberto de gelo. Acho que foi a única vez da viagem que a temperatura chegou abaixo de zero.

Procurei uma moita mais alta para melhorar o sinal e liguei o Iridium. Falar com minha filha, de apenas 9 anos, tão distante dali, me deixou muito emocionado e chorei até não poder mais. Depois repeti a dose ao falar com meu pai e minha mãe, ambos com mais de 80 anos e sem muita noção de onde eu estava, ou o que estava fazendo.

Com as mãos ainda doloridas dos dias de remada, comecei a descer o rio como nos dias anteriores. Estava entretido remando quando, sem um motivo aparente, decidi parar numa praiazinha para ver o que tinha no barranco acima. Pulei da canoa e subi serelepe o barranco de menos de 2 metros. Foi quando avistei na planície gramada, a menos de 100 metros de distancia, um bicho enorme, todo marrom, de costas para mim. No princípio, pensei que fosse um búfalo, igual ao que tinha visto dias antes. Mas, quando o animal virou de lado.... vi que era um urso! Dos grandes! E ele estava a menos de 20 segundos de mim!

Voltei correndo para a canoa. Peguei a Nikon, pus a teleobjetiva, prendi os 2 sprays de gás pimenta nas alças da mochila e, sorrateiramente, voltei a subir o barranco, torcendo para o bicho não ter vindo atrás de mim. No que pus a cabeça para cima da superfície, o urso olhou para mim. Nossos olhares de cruzaram. Tirei duas fotos ultra rápido, e estava preparado para voar de volta para a canoa e fugir se fosse necessário, quando, para minha surpresa, o urso começou a correr...na outra direção, fugindo de mim!! Eu quase nem acreditei no que estava vendo: um urso fugindo de mim! Bem, convenhamos que não é todo dia que isso acontece.

Fiquei filmado ele fugindo, quando comecei a chamá-lo (em inglês, para ele entender, claro): ”hey bear!! Ele correu sem olhar para trás até começar a subir a encosta. Ai deu uma parada, olhou para trás, me viu ainda ali com cara de mal, e voltou a correr encosta acima, até sumir do outro lado. Diria que foi o momento mais emocionante da viagem.


Mas novas emoções estavam reservadas para o dia seguinte.

Rena X lobo

Eram 7h00 da manhã quando ouvi um barulho “diferente” do lado de fora da barraca. Olhei para o outro lado da margem e vi uma jovem rena de pé dentro da água, com uma expressão de assustada. O sol do início da manhã, e o vapor que saia da água, tornavam a cena ainda mais surrealista. Da metade para lá, o rio era bastante raso, pois havia um platô de pedras quase na superfície da água. A rena ficava apenas com as patas enfiadas na água.

Fosse o que fosse que a assustava, vinha da margem oposta onde eu estava, para onde ela olhava fixamente, quase sem se mexer. Depois de quase uma hora de agonia, que eu via bem em frente ao acampamento, ela tentou atravessar para o lado onde eu estava (margem direita), mas da metade para cá o rio era mais fundo e a correnteza bem mais forte. Ela tentou até ficar apenas com a cabeça para fora da água, quando percebeu que não conseguiria e voltou para onde estava. Isso a deixou aparentemente mais inquieta. Ela não poderia ir para a margem esquerda, pois a ameaça vinha de lá. E nem para a margem direita, pois a travessia era impossível. O que fazer quando a fome apertasse?

Foi quando, de repente, surgiu um lobo na margem esquerda, bem em frente à rena.
Era um lobo marrom claro, com um rabo extremamente comprido e peludo.

Aproveitando a pouca profundidade daquele lado, o lobo partiu para cima da rena, que só teve uma alternativa: começou a descer o rio por cima das pedras, caminhando paralela à margem. Foi quando o lobo foi apanhado pela correnteza, e também só teve uma opção: tentar nadar o mais forte que pudesse para finalizar a travessia, sem ser arrastado pela água. Maravilhado por presenciar aquela cena que só acontece na natureza selvagem, típica de documentários de vida animal, acompanhei o drama do lobo, até ele conseguir chegar na praia bem em frente a mim. Da minha parte eu não sabia se olhava, se filmava ou fotografava, ou fazia tudo isso ao mesmo tempo.

Ele saiu da água assustado e ofegante. Depois de chacoalhar a água do corpo, ficou estático olhando fixamente para a rena, que voltou a subir o rio até o ponto em frente a mim, e que continuava com a expressão bem assustada, agora olhando para o lado de cá. A troca de olhares entre a presa e o predador foi uma das cenas mais extraordinárias dos meus mais de 30 anos de aventura. Quando o lobo, enfim, desistiu da rena, ele finalmente me viu. E fez aquela cara de surpresa, tipo: que bicho é esse? Eu estava a menos de 2 metros dele, sem saber exatamente o que fazer se ele me atacasse. Oferecer um lanchinho? Um cafuné? Atirar a câmera na cabeça dele?

Ele não demonstrou medo, nem agressividade. Deu uma farejada rápida na barraca, nos barris de comida e rapidamente caminhou por dentro da mata paralelo à praia, até sumir de vista. Foi quando me lembrei que lobos não andam sozinhos. Logo deveriam aparecer muitos outros, pensei, ainda mais com uma rena paralisada de medo ali “dando sopa”.

Não demorou uns 30 minutos, quando o lobo reapareceu, vindo pelo mesmo caminho de onde tinha ido embora. Deu outra farejada na barraca e nos barris, olhou para mim com uma expressão de indiferença, e se postou novamente na areia da praia, olhando fixamente para a rena, que continuava ali, havia mais de duas horas.

Mas o que fazer? O rio era fundo naquele ponto e a correnteza poderia levá-lo rio abaixo. Como “almoçar” aquela jovem rena? Depois de um tempão, desanimado, ele novamente se embrenhou na mata e caminhou sentido rio abaixo, paralelo à praia.

Embora tocado pela situação da rena, eu não tinha o que fazer para ajudá-la, por isso fui tratar da vida. Decidi tirar aquele dia ensolarado para descanso. Lavei mais alguma roupa, costurei minhas luvas, tomei café e tratei de relaxar. As horas passavam e a rena continuava em cima das pedras, andando para cima e para baixo, sempre devagar, receosa. Provavelmente morrendo de fome. Não vi quando ela foi embora, mas já passava das 13h00.

À tarde, estava sentado na areia, distraído fazendo um chá, quando fui transferir a água fervente da panela para a garrafa térmica. O cabo da panela escapou e acabei entornando a água fervente na batata da minha perna direita. Por sorte eu estava com calça de ginástica, o que amenizou o estrago, mas a dor foi intensa e logo surgiu uma mega bolha no lugar. Passei uma pomada anti inflamatória, cobri a ferida com gaze (que só tinha 3 jogos) e tomei um remédio para dor. Depois fiquei torcendo para não infeccionar.

No final da tarde começou a ventar forte, e a garoar. Na madrugada a chuva apertou.

Tempestade

Depois de receber uma noticia de casa, que não vem ao caso comentar aqui, decidi encurtar a viagem em uma semana. Assim, decidi que iria somente até o Lago Cutler, grosso modo metade do rio, e último ponto onde a empresa aérea de Bettles poderia me pegar. A partir dali teria que contar com alguma empresa de Kotzebue, uma vila na costa do Alaska, portanto na outra ponta do rio, e pagar bem mais caro, ou remar até a vila Noatak (6-8 dias), onde tem um pequeno aeroporto e voos comerciais.

Pelos meus cálculos, eu estava a 2 dias do Cutler.

O dia seguinte amanheceu chovendo forte, mas na hora do café ela deu uma trégua. Carreguei a canoa e comecei a remar. O dia estava bastante nublado e o vento contra era incessante, o que dificultava as manobras, sabotava o meu esforço e diminuía a sensação térmica, tornando tudo muito mais desgastante.

À tarde o tempo piorou. O vento contra aumentou e começou a garoar. Parei na primeira praia que encontrei, bastante distante da água. Mas foi a conta. Assim que entrei na barraca uma chuva forte desabou, junto com a temperatura.

Num curto intervalo da chuva, fiz meu jantar e pus os barris para proteger a barraca do vento. O frio estava tão intenso que nem consegui ficar na beira do rio escovando os dentes.

O dia seguinte amanheceu carrancudo e ainda com vento forte, principalmente na calha do rio. Decidi dar um tempo. Por volta do meio dia a ventania ficou bem mais intensa, impedindo qualquer tentativa de remada. Logo voltou a chover forte. Desisti de fazer o jantar. Fiz um lanche seco, dei duas mega colheradas na Nucita, e fui para a cama.

À noite, preocupado com a ventania, mal dormi. E, novamente, ouvi um barulho “diferente” do lado de fora.

Foi quando olhei para onde tinha largado a canoa. E fiquei horrorizado com o que vi! O nível da água tinha subido e levantado a canoa, que estava boiando livre, leve e solta. Vazia, ela não pesava “nada” e só não desapareceu rio abaixo porque o forte vento não a deixou entrar na correnteza. Voei até ela e a trouxe para a areia, a meio caminho entre a água e a barraca.

Tiritando de frio, voltei a dormir quando senti que algo não ia bem. Para minha enorme surpresa, a água tinha subido mais ainda e já estava quase na canoa novamente. E agora a água estava barrenta.

O vento continuava forte, forçando a estrutura da barraca ao limite. Como o nível da água não parava de subir e já estava se aproximando barraca, arranquei os espeques e a puxei com tudo dentro, para uma pequena clareira pouco acima, na zona de transição entre a areia da praia e a vegetação fechada. Tudo indicava que ali a água não chegaria. Mas, e se chegasse? O que eu faria?

Com a água barrenta, ficou mais difícil beber e cozinhar. Depois de várias tentativas, consegui falar com a empresa aérea, para articular meu resgate no Cutler. A pessoa que me atendeu informou que, devido à tempestade, eles não tinham previsão de quando conseguiriam decolar. Perguntei se havia algum lugar seguro para acampar na beira do lago, mas a pessoa não soube informar. Em todo caso, decidi aguardar ali mesmo onde estava. E assim, com essas e outras, fiquei 4 dias parado nessa praia batida pelo vento, torcendo para a barraca resistir, e o vento amainar.

Um torpedo enviado pela minha filha novamente me deixou emocionado – e apertou a saudade.

Final

Com o OK da empresa aérea, assim que o tempo melhorou um pouco, carreguei a canoa e me pus a descer o rio. O vento contra continuava insistente e gelado, mas havia a compensação da correnteza mais forte, que ajudava na descida. A água continuava cor de chocolate, portanto, escondia qualquer pedra grande submersa.

Em menos de uma hora de remada alcancei o rio Cutler, que desagua no Noatak na sua margem esquerda. Depois de uma milha cheguei no ponto mais próximo do lago, que fica na margem direita. Pelo GPS seriam uns 1200 metros de caminhada até sua beirada.

Foram 2 dias exaustivos e desgastantes de ralação até levar tudo para a beira do Cutler. Devido às más condições de Bettles, tive que chamar um avião de Kotzebue.

Enquanto aguardava revi o filme da viagem na minha cabeça. As dificuldades dos primeiros dias, os mosquitos, a caminhada rumo à nascente, os vários dias de remadas, a subida da montanha, os inúmeros animais que vi, os caribous, o lobo que veio visitar meu acampamento, o urso que fugiu de mim...

O sol, os dias com 24h de luz, as chuvas, os ventos, as paisagens, as montanhas, as corredeiras, os banhos de rio, a quietude.....os medos, as descobertas, os momentos de coragem, aqueles de contemplação, de introspecção e de paz interior.

Parafraseando meu amigo Gil Duque, ao encontrar-me naquele ambiente natural tão incomum, simultaneamente belo e inóspito; ao encontrar-me livre dos artificialismos e confortos da civilização, livre das “muletas” culturais que tanto nos protegem e nos restringem, percebi que fui impelido a reencontrar minha identidade no que ela tem de mais simples e primário nas atitudes, e mais profundo nas reflexões.

Ali na Brooks Range, tive que caminhar com meus próprios pés, me direcionar, manter o equilíbrio somático e psicológico, avaliar as intenções do clima, optar por prosseguir ou não diante do cansaço e do medo, abrigar-me, expor-me, tomar decisões, confiar em mim mesmo e me superar.

Esse processo me reconectou à minha essência como ser e criatura, e me sensibilizou, desencadeando em mim uma profunda reflexão sobre minha vida, minha forma de atuação e meus reais limites. Uma vivência transformadora que não tem preço.

Às 16h40 do meu 20º dia de expedição um pequeno hidroavião cinza pousou nas águas escuras e tranquilas do lago Cutler. Quando ele decolou rumo à Kotzebue, levava a bordo um homem de 52 anos, profundamente feliz e agradecido à vida, e que chorava como um menino.