Extremos
 
COLUNISTA ROSE EIDMAN
 
Caminhando no Grand Canyon
 
texto: Rose Eidman
18 de março de 2017 - 07:15
 
Descida do Grand Canyon
 
  Cacá Strina  

Comecei minha jornada dentro de um dos lugares mais lindos e misteriosos do mundo no dia 13 de fevereiro às 8h00.

O Grand Canyon é um patrimônio da humanidade, protegido por um parque Nacional Americano, e está dentro do estado do Arizona.

Os estudos geológicos e históricos concluem que o Rio Colorado abriu seu caminho entre as rochas à cerca de 5 milhões de anos. O Canyon todo tem cerca de 450 km de extensão, 30 km de largura e em alguns locais perto de 2 km de profundidade.

Várias trilhas foram abertas dentro do Canyon, e quase todas levam ao rio. Em geral o hike dentro do Canyon é extremamente difícil, técnico e até perigoso. Nada prepara alguém pra trilhas quase sempre muito estreitas, e com esse volume de descidas e subidas em meio à pedras escorregadias.

Minha permissão oficial autorizava 7 noites de camping dentro do Canyon.

Comecei pela “TANNER TRAIL”, e nas duas primeiras milhas usei microspikes, uma espécie de corrente que ajuda na tração dentro de trilhas com gelo e neve. O nevoeiro era muito intenso, e mesmo com toda a atenção acabei caindo algumas vezes. Por causa da neve e chuva, as pedras estavam pouco firmes, e a inclinação chega fácil à 60 graus.

Depois de oito horas todos os músculos da minha perna ardiam. Optei por acampar antes de chegar ao Rio, porque estava exausta, tinha água suficiente e a vista de onde eu estava era maravilhosa.

 
Grand Canyon
 

A temperatura dentro do Canyon varia muito. Nessa época do ano é sempre frio e durante às noites sempre abaixo de zero. Mas nada mal para o tamanho do esforço que as subidas e descidas requerem. Não acredito que teria feito tudo que fiz se estivesse no verão.

No dia seguinte continuei a descida e cheguei ao Rio Colorado. Uma emoção bem grande... o Rio é largo, imponente, com muitas corredeiras, e pra meu desespero a água era marrom devido às chuvas que dão início à temporada de atividades. Mas era minha única opção, e pra poder consumi-la esperei a decantação, esterilizei e acabei assim mesmo tomando uma água gelada com um pouquinho de terra.

Acampei na segunda noite em uma espécie de praia próxima ao Rio, numa região chamada "CARDENAS".

Com todo o esforço do dia e o barulho do Rio foi fácil dormir.
Acordei com sol, e até com um certo calor.

Nesse dia enfrentei uma parte indescritivelmente complicada da trilha. Chama-se "escalante" um paredão de cerca de 50 metros de altura e com inclinação de 90 graus, onde eu literalmente tive que subir sem olhar pra trás, achando um lugar onde segurar, e outro onde colocar pelo menos uma parte do pé, já que as pedras irregulares permitem a subida, muito lenta e perigosa, sem uso de qualquer ajuda ou corda de segurança mas possível!

Um hiker que estava próximo de mim conseguiu puxar minha mochila pra cima, e isso facilitou um pouco a minha escalada... mas tudo não acabou tão fácil! Por incrível que pareça a descida foi ainda pior. Em vários momentos achei que ia rolar junto com todas as pedras. Realmente nesse minuto tive certeza absoluta que a trilha era brincadeira de gente grande, e que eu não tinha opção... tinha que crescer rápido e continuar, porque desistir não faz e nem fará parte do meu vocabulário.

A chegada na base foi recompensada com uma rota que segue no meio do Canyon com paredes gigantes de ambos os lados! Não consegui ganhar da emoção e acabei andando boa parte desse percurso com lágrimas nos olhos.

 
Rose Eidman no Grand Canyon
 

Orgulhosa por ter chegado até ali e feliz por estar vendo um lugar que parecia ter sido tirado de um filme de ficção científica!

Tudo isso teve fim na minha terceira noite de acampamento, em "RED CANYON". E assim continuou a trilha. Literalmente com altos e baixos... muitas subidas, descidas complicadas, e sempre com O Rio Colorado ao lado.

Consegui outras fontes de água, limpas e sem terra, mas com uma quantidade de arsênico superior à recomendada pelos padrões municipais. Apesar disso continuei a consumir essa água, pois nada é pior do que uma desidratação.

No meu quarto acampamento em HANCE CREEK ouvi passos fora da barraca, e um odor muito forte de algum animal. Me disseram que provavelmente devia se tratar de algum coiote ou similar. Não fiquei com medo, apenas apreensiva, mas logo peguei no sono de novo.

Quando acordei o dia estava muito frio e o céu totalmente cinza. Me preparei para a chuva e ela veio. Muito suave e pra minha sorte sem raios.

No final de um dia puxado e frio o sol apareceu. E junto com ele um arco-íris imenso que fez a alegria de quem estava ali. São as famosas "recompensas"... as trilha parecem reconhecer o esforço que fazemos ali dentro, e sempre oferecem algo pra que você vá dormir pensando que as câimbras, frio e fome não são em vão.

E realmente nada é em vão... Dormi em seguida em GRAPEVINE, CREMATION, e na última noite em BRIGHT ANGEL.

Minha saída do Canyon foi no dia 20.
Comecei logo cedo, e sabia que seria um dia puxado, mas o céu estava claro, a temperatura fria o suficiente pra ajudar nas 15 últimas milhas até a saída.

Tudo correu conforme o esperado até a metade do dia, quando o tempo começou a fechar, a chuva apareceu e logo se transformou em neve. O que já estava muito difícil começou a parecer impossível em alguns momentos. Os switch backs eram inclinadíssimos e intermináveis. A partir de um certo ponto já estava sentindo muito frio, e não conseguia mais fazer todos os movimentos que precisava com as mãos. Eram os primeiros sinais de que os pequenos erros que cometi nessa subida poderiam virar uma hipotermia.

 
Trilha com neve
 

Mesmo que eu queira dizer como consegui chegar até a saída não conseguiria porque não sei. Apenas coloquei um pé na frente do outro por um tempo que não consigo precisar... algumas horas, onde tudo que fiz foi usar cada músculo do meu corpo para andar na direção certa, e distrair a minha cabeça pensando em todos os momentos maravilhosos que tive dentro do Canyon. Lembrei de cada vista, cada por do sol, de como esse paraíso feito de pedras é lindo, de como sou pequena perto de tudo aquilo, mas grande o suficiente pra não desanimar e mesmo sem mexer as mãos chegar no topo.

Foram quase 100 milhas de beleza, superação, aprendizado e muita emoção!

 

Rose Eidman

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