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COLUNISTA MÁRCIO BORTOLUSSO
 
Circum-navegando uma das maiores ilhas do Brasil
 
Texto e fotos: Márcio Bortolusso
9 de março de 2015 - 20:42
 

Curtindo a bela lagoa formada na praia do Poço – Foto: Márcio Bortolusso
 
 
  Márcio Bortolusso  

Ilhabela é um paraíso para a Canoagem! Antes de confirmar esta extraordinária afirmação, preciso esclarecer algo que confunde até caiçaras e antigos moradores. Não existe no Brasil uma ilha com o nome de Ilhabela! Isso mesmo, o que temos é o “Arquipélago de Ilhabela”, que constitui a Estância Balneária de Ilhabela, único município-arquipélago marinho brasileiro, formado por onze ilhotes e pelas ilhas dos Búzios, da Vitória, dos Pescadores e a de São Sebastião, popularmente conhecida como “Ilhabela”.

A grandiosa Ilha de São Sebastião se destaca como a terceira maior ilha marítima do país, com 339 km² de área, 136,5 km de perímetro, 27,98 km de comprimento e 21,1 km de largura, o suficiente para transformá-la no sonho de consumo de muitos remadores.

Já a circum-navegação da Ilha é considerada uma das mais clássicas remadas do Brasil, a melhor forma de conhecer praias selvagens, comunidades caiçaras e áreas isoladas de Ilhabela, permitindo desembarcar em locais “invisíveis” aos barcos maiores e impossíveis de chegar caminhando. Realizada em 3 a 4 dias – melhor uma semana para conhecer e curtir mais -, trata-se de um belo desafio para remadores experientes, aventura técnica sujeita a mar aberto, ondas, ventos e mudanças de clima.

Entre águas claras de ânimos variados, a menor circum-navegação da Ilha exige 46 milhas náuticas (MN) de navegação (≈85 km), mas corta tantos atrativos que só é aconselhada como treino para quem já conhece os principais recantos de Ilhabela. Um bom roteiro vai exigir pelo menos umas 65 milhas náuticas de remada (≈120 km).

     
Márcio Bortolusso chegando na temida Gruta do Oratório com o mar agitado.
Foto: Marcos Martins
 
Guido Botto, Marcos Martins e Márcio Bortolusso na costa oceânica de Ilhabela.
Foto: Arquivo pessoal

Para quem pretende encarar esta inesquecível aventura é preciso ficar atento às cartas náuticas, correntes marítimas e previsão do tempo, se possível conferindo dados diariamente. Pois assim como às vezes é possível cruzar a temida Ponta do Boi com tranquilidade, é comum o mar virar repentinamente impossibilitando a remada mesmo no abrigado Canal de São Sebastião, que afunila as fortes frentes frias que vem do quadrante sul, com vagas e ventos tão poderosos que já engoliram vários navios.

No Canal fique esperto com as velozes lanchas e Jet skis, especialmente nos feriados, quando proliferam as irresponsabilidades marítimas. Mas é o lado oceânico da Ilha que requer maior atenção, principalmente nos trechos entre a Ponta da Sela e a praia do Bonete e entre as pontas do Diogo e da Piraçununga, com longos costões de difícil desembarque às vezes açoitados por enormes ondas (de SO, S e SE). Cautela também entre a Piraçununga e a Ponta da Cabeçuda, um dos trechos mais expostos aos que passam por fora da grande Baía dos Castelhanos, em particular com as frentes de sudeste e o famoso “lestão”, afamado vento que ocasionalmente transforma esta área em um inferno de água salgada.

     
Marcos e Márcio sob tensão na boca da Gruta do Oratório – Foto: Fernanda Lupo  
Prestes a partir da praia da Caveira – Foto: Márcio Bortolusso

Onde começar dependerá das condições do tempo, que favorecerá remar no sentido horário ou inverso. Com a previsão ideal, um bom roteiro seria:

1º dia

Do píer da praia do Perequê até a praia do Bonete, que possui campings – passando por cerca de 20 praias e prainhas do Canal, pelo farolete da Ponta da Sela e pelos espetaculares Buraco do Cação e Gruta do Oratório (16,7 MN / ≈31 KM);

2º dia

Do Bonete até a praia da Figueira, acampando no quintal de algum generoso morador – navegando pela impressionante Laje do Carvão, pelas praias das Enchovas e da Indaiaúba, pelos ilhotes do Codó e da Figueira, pelas incríveis formações do Saco do Diogo e da Ponta da Talhada (um dos trechos mais lindos de toda a remada, com microenseadas e grutas), pela Ponta do Boi com o seu imponente farol (um dos mais temidos trechos do litoral brasileiro), pelo farolete da Pirabura, pelo belo Saco do Sombrio e pelas prainhas do Codó e das Galhetas, duas pérolas do Arquipélago (17,5 MN / ≈32 KM);

3º dia

Da Figueira até a charmosa praia do Poço, passando pela longa e bela praia dos Castelhanos, por mais uma dezena de praias paradisíacas e pelo Farol da Ponta Grossa (17,5 MN / ≈32 KM);

4º dia

Do Poço de volta ao Perequê, passando pelas fascinantes praias da Fome, do Jabaquara e da Pacuíba e por quase duas dúzias de outras praias no Canal (12 MN / ≈22 KM).

     
     

Claro que isso é apenas uma sugestão de roteiro, para os remadores que acham o Canal movimentado ou desinteressante é possível cortar este trecho e fazer esta aventura em apenas 3 dias, pernoitando na praia da Caveira.

Aos interessados nesta espetacular aventura, sugiro assistir um vídeo em minha página no Youtube e contratar a Nature Experience Ilhabela (naturexperience.tur.br). Caso tenha alguma dúvida: mb@photoverde.com.br. Ótima remada!

Márcio Bortolusso é autor do livro Viagens Ecológicas e Culturais ILHABELA, documentarista de Aventura, Natureza e Cultura Regional e aventureiro patrocinado pelas marcas norte-americanas Gore-tex e Windstopper (www.photoverde.com.br).

 


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