Os outros "Nepais"
da redação, Manoel Morgado
10 de março de 2014 - 13:47
 
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    Vilarejo budista no início do trek do Mustang no Vale do Rio Kali Gandaki Foto: Manoel Morgado
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    O Vale do Rio Kali Gandaki no trek do Mustang" Foto: Manoel Morgado
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    O trabalho da erosão nas encostas do platô tibetano – Mustang" Foto: Manoel Morgado
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    Vilarejo de Drakmar com seus penhascos avermelhados e as cavernas de meditação – Mustang" Foto: Manoel Morgado
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    Típico vilarejo no trek do Mustang" Foto: Manoel Morgado
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    Família tibetana – Mustang" Foto: Manoel Morgado
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    Platô tibetano com o Himalaia atrás" Foto: Manoel Morgado
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    Espetacular monastério tibetano encravado na encosta da montanha" Foto: Manoel Morgado
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    Final do trek do Mustang com as montanhas do Himalaia" Foto: Manoel Morgado
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    Escola local no trek do Manaslu" Foto: Manoel Morgado
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    Uma das inúmeras cachoeiras e as plantações de arroz – Manaslu" Foto: Manoel Morgado
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    Mulher da etnia Gurung – Manaslu" Foto: Manoel Morgado
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    Colheita na região do Manaslu" Foto: Manoel Morgado
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    Menina na região de Nar Phu" Foto: Manoel Morgado
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    Um dos mais lindos lagos do mundo – Lago Phoksundo no trek do Dolpo" Foto: Manoel Morgado
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    Acampamento a noite no trek do Dolpo" Foto: Manoel Morgado
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    Raio de sol entrando na cozinha de uma casa no Dolpo" Foto: Manoel Morgado
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    Vilarejo típico do Dolpo na época da colheita" Foto: Manoel Morgado
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    Acampamento no trek do Kanchenjunga" Foto: Manoel Morgado
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Vilarejo budista no início do trek do Mustang no Vale do Rio Kali Gandaki Foto: Manoel Morgado

 

Alguns anos atrás estava caminhando pelo Thamel, o bairro turístico de Kathmandu, quando encontrei com um amigo que me convidou para ir ao lançamento de um livro sobre trekking no Nepal. Ele não tinha mais detalhes, mas como eu não tinha nada para fazer, acabei indo. Chegando lá encontrei muitos rostos conhecidos, guias de trekking, donos de operadoras locais e estrangeiros que, por uma razão ou outra, vivem nesta cidade. E também vi uma faixa com o nome do livro e do autor: The Great Himalayan Trail, por Robin Boustead.

Só então fiquei sabendo do interessantíssimo conteúdo do livro. O autor tinha feito um trek de 180 dias cruzando todo o Himalaia Nepalês de leste a oeste, ligando trekkings já existentes a outros pouco conhecidos, cruzando passos com altitudes superiores a 6000 metros, passando por áreas extremamente remotas onde a população local jamais havia encontrado um turista. Depois do lançamento consegui trocar algumas palavras com o escritor e ele me disse que, após muitos anos guiando grupos ingleses pelo Nepal, estava triste em ver que, de um modo geral, as pessoas veem Nepal como sinônimo de Everest e não vão em busca também de outras regiões que oferecem experiências distintas e igualmente gratificantes. Imediatamente me identifiquei com seu ponto de vista, já que eu também nesses 22 anos que guio no Nepal já levei 54 grupos ao campo base do Everest e apenas 2 grupos ao Mustang, um ao Dolpo, um ao Manaslu e um ao Dhaulagiri, apesar de já haver tentando montar mais grupos para estes e outros treks no Nepal.

Claro que entendo os motivos por trás disso. Apesar de eu mesmo afirmar que o trek ao campo base do Everest ser o mas lindo e mais completo trek do planeta, com uma paisagem deslumbrante e nos dando a oportunidade de interagir com uma das populações mais receptivas e hospitaleiras, sinto que o Nepal tem inúmeras outras opções que deveriam ser exploradas. É natural as pessoas se sentirem atraídas pela mágica da mais alta montanha do planeta, pela aura mística da região, pelos homens que desafiam a morte para a felicidade de alguns momentos no ponto mais alto da Terra. E, ao voltar deste trek de 15 dias, a maior parte dos meus clientes me conta que foi a mais importante viagem de suas vidas e que, apesar de todas as dificuldades com a altitude, o frio e o cansaço, cada minuto do trek valeu a pena. Mas, além do trek em si, eles se apaixonam por este país paupérrimo, mas sem violência urbana, onde em um mundo onde a religião divide, o hinduísmo e o budismo convivem harmoniosamente, onde a cada minuto estranhos são cumprimentados pelo lindo “Namaste” e onde um chama ao outro de irmão ou irmã.

Apesar disso tudo, as pessoas não voltam para fazer outro trek neste fantástico país. Sim, o Nepal é longe, os voos demoram inúmeras horas e são caros, as férias permitem visitar apenas um ou dois países por ano e existem tantos países a serem visitados. Mas será que não seria mais válido voltar a um lugar pelo qual você se apaixonou do que ir ao redor do mundo em busca de mais um país novo em sua lista?

No Nepal existem ao redor de 20 etnias diferentes, com costumes alimentares distintos, variantes religiosas, vestimentas diferentes. A geografia se iguala à riqueza cultural. Com a maior variedade de altitudes do planeta, de 59 metros a 8848 metros sobre o nível do mar em pouco mais de 150 km de sul a norte, o Nepal apresenta inúmeros eco sistemas com os extremos da área de florestas tropicais do Tarai e a paisagem alpina das altas montanhas do Himalaia. E, dentro desta enorme variedade, caminhadas para todos os gostos, desde longos e duríssimos treks em altitudes extremas cruzando passos a mais de 6000 metros de altitude até fáceis caminhadas de poucos dias em baixa altitude passando por vilarejos pouco visitados. E tudo isso acompanhados da melhor infraestrutura em trekking do planeta. No decorrer dos últimos 50 anos Nepal virou sinônimo de trekking e em nenhum outro lugar a arte de receber turistas nas montanhas foi aperfeiçoada como neste país.

Dentre as inúmeras opções de trekking no Nepal, além do trek ao campo base do Everest, duas me atraem muito por oferecerem um enorme contraste com o trek do Everest, principalmente para aqueles que já fizeram este trekking e buscam outras alternativas. As remotas regiões de Dolpo e Mustang, apesar de pertencerem politicamente ao Nepal, são geográfica e culturalmente 100% tibetanas, situando-se no platô tibetano. Para manter suas culturas mais preservadas (e paralelamente ganhar mais com o turismo) o governo cobra uma taxa de US$ 50,00 por dia por pessoa para trekkings nestas regiões. Por seu mais alto custo e por serem razoavelmente desconhecidas, essas regiões recebem ao redor de 1.000 visitantes por ano enquanto a região do Everest ao redor de 35.000 e a região dos Annapurnas 60.000!

Para aqueles interessados em cultura tibetano poucos outros lugares do planeta apresentam esta cultura tão preservada e original. Também a paisagem surpreende por seu contraste com as outras regiões de trekking do Nepal. Ao invés das árvores de rododendros e pinheiros, temos a paisagem árida do platô tibetano com suas paredes rochosas com infinidades de tons de vermelhos, marrons e cinzas, alternados com o dourado das plantações de trigo, cevada e trigo sarraceno.

De minha parte, continuo voltando e voltando ao Nepal, ano após ano, explorando novas regiões, paisagens e culturas e gostaria de convidá-los a vir conosco ao Mustang em setembro deste ano. Quem sabe mais pessoas concordam comigo...