Kaiak no Ganges
da redação, Manoel Morgado
10 de fevereiro de 2014 - 13:07
 
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    Manoel no Ganges Foto: Manoel Morgado
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    Manoel fazendo um esquimo roll" Foto: Manoel Morgado
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    Macaco na ponte em Rishikesh" Foto: Manoel Morgado
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    Pássaros no Ganges" Foto: Manoel Morgado
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    Entardecer no Ganges" Foto: Manoel Morgado
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    Começando a “kayakada”" Foto: Manoel Morgado
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    Acampamento" Foto: Manoel Morgado
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    Lendo no final da tarde" Foto: Manoel Morgado
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    Manoel, Luiz e Been" Foto: Manoel Morgado
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    as águas azul esverdeadas do Ganges" Foto: Manoel Morgado
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    Nossa ilha de descanço" Foto: Manoel Morgado
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    Nosso delicioso acampamento" Foto: Manoel Morgado
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    Depois de um dia no rio….super comida" Foto: Manoel Morgado
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Manoel no Ganges Foto: Manoel Morgado

 

Voltando do Chadar, o maravilhoso trekking no Rio Zanskar Congelado no norte da Índia, nas regiões do Himalaia Indiano de Ladakh e Zanskar, eu ia escrever um relato desta fascinante expedição. Mas, para minha surpresa, no dia em que ia escrever o Extremos publicou um relato muito bonito do Denio Moreira Jr., que fez este trekking oito anos atrás. Com isso decidi deixar para meu companheiro de trek, o Luiz Simões, contar em breve a vocês como foi nossa expedição.

Ao invés, quero contar de meus dias em Rishikesh, uma das mais sagradas cidades da Índia, às margens do Rio Ganges, a capital indiana do Yoga.

A maior parte de vocês me conhece por meus relatos de montanha, já que nos últimos sete anos tenho dedicado cada minuto de minha vida a esta atividade, seja guiando meus grupos mundo afora, seja fazendo minhas expedições particulares. Mas, por muitos anos, metade das viagens que eu guiava eram de cunho espiritual na Índia. De 1992 a 2006 guiei inúmeros grupos de yoga, de budismo e de filosofias da Ásia e em quase todas essas viagens eu incluía alguns dias em Rishikesh.
Tínhamos planejado fazer o Chadar em 14 dias mas, por várias razões, acabamos muito mais rápido do que imaginávamos e com isso tivemos ao redor de seis dias livres antes de nosso voo de volta a Delhi. Em Leh, capital do Ladakh, estava ao redor de 12 graus negativos e em um impulso propus ao Luiz Simões, meu companheiro de Chadar, que fôssemos para Rishikesh para relaxar por alguns dias.

Desde minha última viagem à Índia, o país mudou profundamente, ou pelo menos isso era o que eu acreditava até colocar novamente os pés neste país. Realmente, o aeroporto de Delhi está super moderno, os carros nas ruas de Delhi mais novos e com marcas internacionais. Mas bastou entrar na New Delhi Railway Station para perceber que a Índia tinha sido apenas maquiada em modernidade. E, ao chegar a Rishikesh, tive certeza disso. A Índia que sempre me fascinou continuava lá, intacta. Depois de percorrer mais de 70 países em todos os continentes, na maior parte países de terceiro mundo, continuo achando que a Índia é um dos países mais originais do planeta e um dos que ainda nos causa um intenso choque cultural e é exatamente atrás disso que viajo. Sair de minha zona de conforto, me surpreender a cada minuto, este é o objetivo de minhas viagens.


Era a primeira vez que Luiz ia a Rishikesh e neste primeiro dia, após 5 horas de trem, caminhamos pela cidade parando a cada minuto para observar alguma coisa ou alguma pessoa. Reencontrei várias pessoas que se lembravam de mim e com calma, no ritmo tranquilo da Rishikesh, colocamos em dia a vida de cada um de nós. Senti muito carinho nesses encontros e isso me deixou muito feliz. Nesta minha vida de nômade, reencontros inesperados como estes são preciosos!

Uma das visitas foi ao meu antigo operador local, Red Chilli. Apesar de ser especializada em turismo de aventura, esta empresa, por muitos anos, organizou hotéis e traslados para meus grupos. Lá encontrei Ganesh, velho amigo que após conversarmos por um tempo, nos convidou a fazer um rafting no Rio Ganges, ou Ganga, como ele é conhecido entre os hindus, a generosa deusa que tudo dá aos seus fiéis.

Por muitos anos, nos dias em que não tinha grupos no Nepal, meu segundo esporte favorito era kayak de corredeira. Fiz inúmeras vezes o Sun Kosi, um rio classe 5 de 9 dias de duração, o Bhoti Kosi, um rio bastante técnico que desce da fronteira com o Tibet e o Kali Gandaki, que desce do platô tibetano rumo à planície gangética. Naqueles anos, de 1990 a 2000, cheguei a ser um bom kayaker fazendo corredeiras classe 5 em rios de grande volume. Mas por 15 anos não sentava em um kayak....Não podia deixar passar esta oportunidade. Perguntei ao Ganesh se ele se importaria de levar um kayak extra para ver se eu ainda me lembrava de como remar um kayak e ele concordou sem problemas.

Após uma linda viagem de 45 minutos com a Ganga abaixo de nós com sua cor verde azulada, chegamos ao início de nosso percurso no rio. Enquanto nosso guia instruía os outros dois clientes do rafting, além do Luiz, eu, super nervoso, entrei no meu kayak e remei por alguns metros para ver como me saía. Mas o teste definitivo que iria me dizer se eu poderia descer o rio no kayak era ver se ainda me lembrava de como se faz o “eskimo roll”, a manobra para rolar o kayak de volta para cima caso ele vire. Enquanto eu remava pensava nos movimentos que teria de fazer para o kayak voltar para “cima” e não lembrava o que tinha de ser feito. Mas, mesmo assim, virei o kayak e para minha grande surpresa o meu corpo tinha memória do que tinha de ser feito. Em um segundo estava novamente para cima! A posição do meu corpo não estava perfeita e meu instrutor me disse que tinha de trazer o corpo mais para frente. Assim que tentei fazer o que ele tinha me pedido não consegui mais fazer o roll. Com o cérebro tentando tomar conta, o corpo não conseguiu. Fiz mais alguns rolls e estava pronto para descer o rio.

O Ganges, principalmente nesta época do ano, é um rio bastante tranquilo. O trecho entre nosso ponto de início e o final, já muito próximo de Rishikesh, tem pequenas corredeiras classe 2 e duas corredeiras classe 3 e 3 plus. Mas, entre uma e outra corredeira, percorremos longos trechos de água muito calma que desci simplesmente contemplando a linda paisagem. A perspectiva do cenário que me rodeava, visto do nível da água, era completamente diferente do que tinha visto da estrada. Também a velocidade muito lenta da descida me permitia apreciar cada metro, cada curva do rio, cada pequeno tempo às suas margens. Foi então que avistei ao longe centenas de pequenos pontos negros na água, que após alguns metros identifiquei como sendo cormorões, pássaros negros que pescavam nas águas do Rio Ganges. Sendo sagrado, ninguém pesca em suas águas e os pássaros tinham todos os peixes só para eles. Conforme me aproximei, eles levantaram voo, muitos com peixes em seus bicos, para pousar um pouco mais adiante no rio. Deslumbrado, acompanhei inúmeras revoadas que quase cobriam o céu azul sem nuvens e os ruidosos pousos metros adiante.

Não precisava mais nada, estava mais uma vez apaixonado por este esporte que é a combinação perfeita de adrenalina e contemplação.
Voltamos para Rishikesh e conversamos com o Ganesh para passarmos os próximos 3 dias no acampamento que a Red Chilli tem às margens do Ganges.

Esses dias foram de pura felicidade. Acordar com a suave luz entrando nas confortáveis barracas, um bom café da manhã e praticar kayak. No final da tarde, sentar em uma cadeira à frente do Ganges e ler. Ao entardecer, conversar ao redor de uma fogueira sob um céu forrado de estrelas.

Enquanto descia o rio, pensava em como o kayak de corredeira é uma boa metáfora da vida. Podemos escolher qual a linha que vamos tomar em uma corredeira, se queremos mais emoção ou mais segurança, se vamos enfrentar este desafio ou se preferimos carregar o kayak e evitar o perigo, se vamos deixar os medos tomarem conta de nós ou se vamos enfrentar as ondas com um sorriso no rosto. Mas, de uma maneira ou de outra, após estas decisões, não há outra coisa a fazer a não ser deixar a corredeira nos levar... go with the flow...